As pessoas das fichas

o lugar da burocracia nos processos de saúde-doença

  • Wagner Guilherme Alves da Silva Universidade Federal do Rio de Janeiro
Palavras-chave: Dor, Pessoa, Adoecimento no Trabalho, Burocracia, Estado

Resumo

Este trabalho tem por objetivo analisar as complexas relações administrativas em um Centro de Reabilitação para o Trabalho que transformam pessoas em pacientes, e a dor em casos médicos. Na raiz desse procedimento, encontra-se variados mecanismos de representação social das pessoas por meio de fichas administrativas que constroem pessoas por meio do retrato empreendido por um analista da situação de adoecimento do trabalhador. Verificou-se que o chamado nexo causal entre adoecimento e condições de trabalho realizado pelo médico do Centro está profundamente relacionado com as representações grafadas nas fichas, orientadas por noções como autonomia e independência, valores da ideologia do individualismo. Desse modo, o trabalho, o corpo e a dor retratados nas fichas respondem não apenas ao registro objetivo de situações narradas, mas, sobretudo, são informados por quadros mais amplos como formações universitárias, religiosas e visões de mundo. Ademais, percebeu-se que o diagnóstico é empreendido por diferentes agentes sociais, em diferentes escalas que, ao preencherem as fichas, vão construindo enquadramentos por meio dos quais o "o caso" clínico se faz inteligível. Em sendo assim, interessa-me aqui perseguir o processo de produção social de pacientes por meio de representações em prontuários, laudos, atestados e demais documentos.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

AUGÉ, Marc. (1986) Ordre biologique, ordre social: la maladie, forme elementaire de l'evénement. In: AUGÉ, M.; HEWRZLICH, C. Le Sens du Mal: Anthropologic, Histoire, Sociologie de la maladie. Paris: Éditions des Archives Contemporaines.

BIHEL, João. (2004) Ciência, Tecnologia e Saúde Mental. In: LEIBING, A. Tecnologias do corpo: Uma antropologia das medicinas no Brasil. Rio de Janeiro: NAU Editora.

CASTRO, Celso.; CUNHA, Olívia.M.G. (2005) “Quando o campo é o arquivo”. EstudosHistóricos, n. 36, pp. 3-5.

CAROSO, Carlos Alberto. (1998) Nem Tudo na Vida tem Explicação: Explorações Sobre Causas de Doenças e Seus Significados. In. DUARTE, L.F.D; LEAL, O. F. (orgs). Doença, Sofrimento e Perturbação: perspectivas etnográficas. Rio de Janeiro: Fio Cruz.

CARRARA, Sérgio. (1996) O tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil da passagem do século aos anos 40. Rio de Janeiro: Fiocruz.

CUNHA, Olívia. M. G da. (2005) “Do ponto de vista de quem? Diálogos, olhares e etnografias dos/nos arquivos”. Estudos Históricos, 26: 7-32.

DAS, Veena. (2007) “The figure ofabducted woman: The citizen as sexed”. In: Life and Words: Violence and the descente intotheordinary. Berkeley: University of California Press. pp. 18-37.

DUARTE, Luiz Fernando Dias. (1986) Da vida nervosa (nas classes trabalhadoras urbanas). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor-CNPq.

_______. (1994) A outra saúde: mental, psicossocial, físico-moral?. In: ALVES, P. C.; MINAYO, M. C. S. (orgs.). Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: FioCruz. Pp. 83-90.

_______. (1998) A investigação antropológica sobre doença, sofrimento e perturbação: uma introdução. In: DUARTE, L. F. D.; LEAL, O. F. (orgs.). Doença, sofrimento e perturbação. Perspectivas etnográficas. Rio de Janeiro: Fiocruz,. Pp. 9-27.

FOUCAULT, Michel. (1979) Microfísica do Poder. São Paulo: Editora Paz e Terra.

_______. (2005) Em defesa da sociedade – Curso no Collège de France (1975-1976). Trad. Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes.

GOFFMAN, Erving. (2002)“Footing”. Em: RIBEIRO, B. T.; GARCEZ, P. M. (orgs.) Sociolinguística Interacional. São Paulo: Loyola.

GUEDES, Simoni, (1992) Jogo de Corpo: um estudo da construção social de trabalhadores. Tese (Doutorado em Antropologia Social), Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

HULL, Matthew. (2012) Documents and bureaucracy. Annual Review of Anthropology, v. 41, pp. 251-267.

MENEZES, Rachel. (2000) Difíceis decisões. Uma abordagem antropológica da prática médica em CTI. 2000. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva), Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

MINAYO, Maria Cecília.( 1994) O Desafio do Conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec/Abrasco.

NARDI, Henrique. (1998) O Ethos Masculino e o Adoecimento Relacionado ao Trabalho. In: DUARTE LFD; LEAL O. F.(orgs) Doença, Sofrimento e Perturbação: perspectivas etnográficas. Rio de Janeiro: Fio Cruz.

VIANNA, Adriana. (2014) Etnografando documentos: uma antropóloga em meio a processos judiciais. In: CASTILHO, Sérgio R. R.; LIMA, Antonio C. S.; TEIXEIRA, Carla C. (orgs.). Antropologia das práticas de poder: reflexões etnográficas entre burocratas, elites e corporações. Rio de Janeiro: Faperj.

______. (2014) Violência, Estado e Gênero: considerações sobre corpos e corpus entrecruzados. In: LIMA, A. C. S.; GARCÍA-ACOSTA, Virgínia (Org.). Margens da violência: Subsídios ao estudo do problema da violência nos contextos mexicano e brasileiro. Brasília: ABA, p. 209-237.

Publicado
2020-05-13
Como Citar
Alves da Silva, W. (2020). As pessoas das fichas. Cadernos De Campo (São Paulo 1991), 29(1), 38-52. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v29i1p38-52
Seção
Artigos e Ensaios