Linguagem e política

Rousseau, leitor de Charles Duclos

Resumo

A partir da leitura do Ensaio sobre a origem das línguas e do fragmento intitulado Pronúncia, pode-se dizer que, sob a ótica rousseauniana, o progressivo aperfeiçoamento da escrita e sua consequente proeminência sobre a voz plena são, talvez, os efeitos mais destacados do processo de degradação histórica das línguas. Mas a escrita só se constitui como um mal linguístico na medida em que ela reflete uma corrupção da esfera política. Com efeito, ao substituir a potência expressiva da voz acentuada por clareza e exatidão, a escrita modifica o próprio caráter da língua, deixando-a menos sonora e eloquente. Assim, a escrita retira da língua seu gênio retórico, sua capacidade de comover um auditório e levá-lo à ação, o que só pode se dar numa conjuntura política em que a força se impõe sobre a persuasão no tocante à condução dos negócios públicos. Ou seja, num cenário em que os súditos perderam sua liberdade, em que a participação política lhes é negada. O objetivo de nosso trabalho será não apenas reconstruir o percurso argumentativo que leva Rousseau a essas conclusões, mas também mostrar como as linhas mestras dessa argumentação já se encontram dispostas nas Remarques sur la Grammaire Générale et Raisonnée (1754), de Charles Pinot-Duclos – uma das principais fontes do Ensaio, sobretudo no que concerne à questão da escrita e às relações entre linguagem e política. Dentre outros pontos, caberá demonstrar a influência do escritor e historiador francês sobre Rousseau relativamente à associação entre primazia da escrita e perda da liberdade política e à contraposição entre a linguagem dos antigos – forte, prosódica e, por isso, adequada à vida cívica – e as modernas línguas europeias – monótonas, surdas, próprias senão para conversas privadas.

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Biografia do Autor

Lucas Mello Carvalho Ribeiro, Universidade Federal de Minas Gerais

Doutorando e Professor substituto pelo Departamento de Filosofia da UFMG

Publicado
2019-06-25
Como Citar
Ribeiro, L. (2019). Linguagem e política. Cadernos De Ética E Filosofia Política, 1(34), 143-152. Recuperado de http://www.revistas.usp.br/cefp/article/view/154270
Seção
Artigos