Sergio Blanco (1971-2015)

O suicídio como ato poético

  • Ricardo Augusto de Lima Universidade Estadual de Londrina

Resumo

Partindo do conceito ainda recente de autoficção cênica, proponho neste artigo uma aproximação entre a obra La ira de Narciso, de Sergio Blanco, de 2015, e alguns conceitos de Maurice Blanchot, como os de “experiência do fora” e de literatura como espaço de morte. Se entendermos a linguagem literária como aquela que institui uma nova realidade, podemos pensar a morte de um personagem homônimo como um suicídio ficcional ou, emprestando a expressão de Angélica Liddell, um “sacrifício como ato poético”. Ademais, a morte de um personagem que leva o mesmo nome de seu autor evoca a discussão de Roland Barthes sobre a morte autoral, aqui concretizada de duas formas: pela destruição de toda voz antecedente ao texto literário e pela autodestruição promovida pela escrita, sempre parricida, no aqui-agora da literatura e, com mais ênfase, do teatro. Logo, considero também pertinentes nestas reflexões os problemas da representação e de como a literatura se torna palco do fascínio e do temor do Eu em relação à própria morte e sua potência criadora.

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Referências

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Publicado
2019-04-26
Como Citar
Lima, R. (2019). Sergio Blanco (1971-2015). Revista Criação & Crítica, (23), 135-160. Recuperado de http://www.revistas.usp.br/criacaoecritica/article/view/152218