Dossiê n.24: DISSIDÊNCIAS DE GÊNERO E SEXUALIDADE NAS LITERATURAS DE LÍNGUA PORTUGUESA.

2019-05-02

Venerai o Santo Fiofó,
Ó neófito das delícias,
E os deuses hão de vos abrir as portas
Das inúmeras moradas do Senhor
E a fortuna vos sorrirá
Com todos os encantos e prodígios. (EXORTAÇÃO - WALDO MOTA)

"Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou
um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão. Estavam
todos em volta. Ai-ai, gritavam, olha as loucas. Olhando para baixo, vi os olhos dele muito
abertos e sem nenhuma culpa entre as outras caras dos homens. A boca molhada afundando no
meio duma massa escura, o brilho de um dente caído na areia. Quis tomá-lo pela mão, protegêlo com meu corpo, mas sem querer estava sozinho e nu correndo pela areia molhada, os outros
todos em volta, muito próximos" (TERÇA-FEIRA GORDA - CAIO FERNANDO ABREU).

Questões de gênero e sexualidade, seja sob o signo da perversão, da pornografia, da moralidade
ou de questões supostamente minoritárias, têm sido recorrentemente utilizadas pela crítica e
pela historiografia literária como critérios para o silenciamento e o apagamento de obras e
autores que desterritorializam as normatividades de gênero e sexualidade. Nesse sentido, é
preciso dizer também que, assim como o cânone literário, critérios estéticos são também
critérios masculinos, brancos, cisgêneros e heteronormativos.
Mesmo que a literatura tenha sido reticente em abordar essas personagens, mesmo quando a
literatura deu as mãos à medicina na patologização e psiquiatrização dessas personagens, mais
pragmáticos ainda em sua tarefa de manter no armário algumas narrativas foram o ensino, a
crítica e a historiografia literária. Em 20 de novembro de 1895, por exemplo, quando do
lançamento do livro Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha, um crítico sentenciava em um
importante jornal carioca: a tarefa da crítica é produzir análises que matem nos leitores a
vontade de conhecer esses livros imundos, que só contém pornografia grossa e brutal.
Para preservar essas obras, que também eram ameaçadas de serem recolhidas e queimadas,
tanto pelo Estado, quanto por leitores e críticos que pediam a intervenção policial, bibliotecas
de todo o mundo criaram no século XIX as suas Coleções Inferno, que eram acervos secretos de
obras que por questões morais, religiosas ou políticas estavam ameaçadas de desaparecer. No
Brasil, a Coleção Inferno da Biblioteca Nacional salvou, entre outras obras, o conto O menino do
Gouveia (1915), de Capadócio Maluco, enquanto acervos privados salvaram obras como Os
Serões do Convento (1862), dos irmãos Castilho, obra "pornográfica" mais vendida no Brasil até
o início do século XX, segundo Alessandra El Far (2004).
Entre 1964 e 1985, a máquina de torturar, de matar e de censurar da ditadura militar brasileira,
fez de Cassandra Rios a escritora mais censurada do Brasil, ao proibir e tirar de publicação 36
dos 50 livros publicados em vida pela autora, sob a acusação de violar a moral e os bons
costumes, conforme Laís Modelli (2019). Em 2019, a obra "maldita" de Cassandra ainda luta para
furar a invisibilidade da crítica e da historiografia literária.
Neste contexto, a Revista Crioula, em sua vigésima quarta edição, número que recorda
violências homolesbotransfóbicas, mas que também sugere orgulho e resistência, convida
pequisadoras brasileiras e estrangeiras, a contribuir com o dossiê "Dissidências de gênero e
sexualidade nas literaturas de língua portuguesa". Para compor este número, incentivamos
contribuições que a partir das literaturas, das críticas e das historiografias literárias em língua
portuguesa discutam masculinidades e feminilidades não-normativas, masculinidades
femininas, feminilidades masculinas, transgeneridades, cisgeneridades, donzelas-guerreiras,
práticas eróticas dissidentes, sexualidades não-heteronormativas, corpas e personagens
monstruosas.

Organização: Edson Salviano Nery Pereira (PPG-ECLLP/CAPES), Helder Thiago Maia (Pós-doc ECLLP/FAPESP)

Prazo para submissão de textos originais: até 24 de setembro de 2019.