Chamada de artigos para a edição n. 26

2020-09-18

Oh, musa do meu fado

Oh, minha mãe gentil

Te deixo consternado

No primeiro abril

 

Mas não sê tão ingrata!

Não esquece quem te amou

E em tua densa mata

Se perdeu e se encontrou

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal

Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!

(Chico Buarque e Ruy Guerra – “Fado Tropical”)

 

 

Lisboa, não sejas racista

Colonialista

De civismo à Brás

Lisboa, destino traçado

Na escola colado

À mesa de trás

Lisboa, limpa por mulheres

Às quais não conferes

Direito a sonhar

Lisboa, não sejas racista

É tão quinhentista

Vê se mudas de ar

(Fado Bicha – “Lisboa, não sejas racista”)

 

Eu falo p’ró povo,

p’ós injustiçados,

p’ós esquecidos,

deslocados,

mutilados,

mas também os abastados,

falo para todos que ao ouvir isto vão perguntar-se:

“Quem somos nós afinal?

O que sonhámos?

Pelo quê lutamos?”

(Ikonoklasta – “Afirmação”)

 

Amparo do Rosário ao negro benedito

Um grito feito pele do tambor

Deu no noticiário, com lágrimas escrito

Um rito, uma luta, um homem de cor

E assim quando a lei foi assinada

Uma lua atordoada assistiu fogos no céu

Áurea feito o ouro da bandeira

Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

[...]

Não sou escravo de nenhum senhor

Meu Paraíso é meu bastião

Meu Tuiuti o quilombo da favela

É sentinela da libertação

(Paraíso do Tuiuti – Samba-enredo 2018)

 

Em O século da canção (2008), Luiz Tatit afirma que a “mobilidade melódica de palavras, frases e pequenas narrativas ou cenas cotidianas” sempre estiveram ligadas à “prática musical brasileira”. É muito provável que, por esse motivo, parte das investigações preocupadas com as relações entre Literatura e Música, ao se voltarem para a letra da canção, procuram estabelecer pontos de intertextualidade entre a produção musical e literária ou, como se vê em boa parte dessas investigações, análises que emprestam ferramentas dos estudos literários, sobretudo os vinculados à poesia, para efetivar avaliações em um produto cultural outro, que é a canção.

No ensaio “´Ser preto tipo A custa caro´: poesia, interculturalidade e etnia” (2008), Emerson Inácio aponta para a necessidade dos estudos literários se reconhecerem a partir das suas “múltiplas relações interdisciplinares e transdisciplinares”, o que levaria a Literatura – e não apenas as outras artes – a se ver “compreendida levando em conta as diversas inter-relações que continuamente estabelece com outros objetos culturais e sociais e outras linguagens”.

Tendo como ponto de partida essas verificações teóricas, bem como as possíveis reflexões que as epígrafes podem suscitar, o Dossiê 26 da Revista Crioula, intitulado “Relações entre Literatura e música na produção de língua portuguesa”, receberá contribuições inéditas de artigos ou ensaios que apresentem olhares diversos para as inter-relações entre literatura e música produzidas nos contextos brasileiro, português ou africano de língua portuguesa.

Os artigos enviados que apresentarem tema diferente ao proposto para o dossiê poderão compor a seção “Artigos & Ensaios”. Serão aceitos também resenhas, entrevistas e pequenos textos ficcionais em prosa e poemas, desde que estejam de acordo com as normas de publicação da revista.

Autores publicados na edição anterior precisam esperar o intervalo de dois números da publicação da revista para submeterem novos textos.

Recomendamos a leitura atenta das normas de publicação.

Prazo para submissão de textos originais: até 05/11/2020