Construção do Nordeste no telejornalismo: um estudo do Jornal Hoje

Palavras-chave: Nordeste, Representação, Visibilidade, Regionalismo, Telejornalismo

Resumo

Este artigo traz uma análise sobre como a região Nordeste é enquadrada e representada pelo Jornal Hoje (JH), da Rede Globo. De acordo com a literatura, por muito tempo a região foi caracterizada por diversos estereótipos construídos socialmente e reforçados pelos meios de comunicação. Deste modo, para cumprir com os objetivos propostos e verificar se essa construção a respeito do Nordeste se repete, esta pesquisa utiliza-se da análise de conteúdo, quantitativo e qualitativo. Foram analisadas 75 edições, quantificando 157 matérias sobre ou com menções à região, nos meses de fevereiro, junho e setembro de 2018 de todo o conteúdo do JH. Os principais resultados mostram que há representatividade e visibilidade restrita e a presença de alguns dos estereótipos abordados previamente na literatura acerca do Nordeste, no JH.

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Biografia do Autor

Sarah Dantas do Rego Silva, Universidade Federal do Maranhão

Mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA)/Capes, campus Imperatriz. Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela mesma instituição.

Michele Goulart Massuchin, Universidade Federal do Paraná

Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM), do Programa de Pós-graduação em Ciência Política (PPGCP) e do Departamento de Comunicação (DECOM) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

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Publicado
2019-12-30
Como Citar
Silva, S., & Massuchin, M. (2019). Construção do Nordeste no telejornalismo: um estudo do Jornal Hoje. Revista Extraprensa, 13(1), 185-207. https://doi.org/10.11606/extraprensa2019.158986

1 Introdução

Os meios de comunicação são responsáveis, em grande medida, pela representação social e formação da percepção que os cidadãos possuem sobre diversas questões e temas. Pressupõe-se, portanto, que neles sejam abordadas questões que proporcionem visibilidade, neste caso estudado, das regiões brasileiras na programação cotidiana, especialmente por meio do jornalismo. Entretanto, por muitas vezes, os aspectos regionais e suas peculiaridades são convertidos em uma cobertura estereotipada e bastante restrita.

Neste sentido, a região Nordeste já foi retratada pelos meios de comunicação, durante muito tempo, como uma região homogênea, caracterizada pela seca, pobreza, alto índice de analfabetismo e elementos ligados ao tempo do cangaço (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2011; LIMA; FILHO, 2015; LUSVARGHI, 2012;). Mesmo que algumas dessas temáticas ainda estejam ligadas ao território, o intuito desta pesquisa é analisar se a produção jornalística ainda permanece voltada exclusivamente para esses assuntos. Embora a generalização, homogeneização e simbolização ocorram em outras regiões brasileiras (FELIPPI; PICCININ, 2012), a pesquisa optou por este recorte com o objetivo de verificar como aparecem quando se faz referência ao Nordeste. É uma forma de complementar e dialogar com estudos já existentes sobre essas características estereotipadas da região e, também, a sua reduzida visibilidade no contexto nacional.

O estudo tem como objeto o Jornal Hoje (JH), da emissora Rede Globo, tendo em vista que se trata de um telejornal com característica de revista eletrônica, apresentando possibilidades mais amplas de cobertura e abordagens. Dessa forma, procurou-se identificar as frequências e características das narrativas sobre o Nordeste no jornal, e, principalmente, verificar quais assuntos relacionados à região têm mais destaque no JH. Para este trabalho, foi utilizado como metodologia a análise de conteúdo defendida por Bauer (2002) que está dividida em duas partes: quantitativa e qualitativa.

A primeira consiste em analisar matérias relacionadas à região Nordeste a partir de seis variáveis definidas a priori, sendo referentes ao tema, presença de estereótipos, estados que mais aparecem, formato, abordagem e presença de repórter local. A parte qualitativa baseou-se em analisar como ocorre o processo de representação e visibilidade da região Nordeste no JH, a partir das falas dos jornalistas, observando as principais características e o modo como transpareciam os estereótipos. O período de análise escolhido corresponde aos meses de fevereiro, junho e setembro de 2018. Antes da apresentação dos dados, o artigo traz - ainda que de forma sintética - aspectos da literatura sobre a produção jornalística e como o Nordeste tem sido retratado pela mídia televisiva.

2 Nordeste e a produção das notícias sobre a região

A região Nordeste é composta por nove estados, sendo eles: Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe e Piauí. No total, a estimativa é de uma população que alcança 57.254.159 habitantes (IBGE, 2017), com área de 1.558.000 km². De acordo com a pesquisa realizada pelo Banco do Nordeste1, em 2015 a região alcançou o PIB per capita de R$ 15 mil, apresentando um crescimento de 33,6% em relação a 2002.

Em virtude de condições adversas, ao longo de sua história o Nordeste vivenciou fenômenos que até hoje repercutem no modo de vida, na cultura e, de modo geral, na forma como é representado, especialmente por meio da mídia, sendo que neste trabalho observa-se aspectos da produção jornalística. Com o processo de modernização das culturas produtivas e a derrocada econômica que a região enfrentou no fim do período colonial e início da monarquia no Brasil, o Nordeste passou a ser representado por aspectos ligados à miséria e longas temporadas de seca que levaram aos movimentos migratórios (NEVES, 2012).

No âmbito jornalístico, é válido considerar o processo de construção da notícia, que depende de inúmeros fatores até chegar ao seu produto final, sendo que a produção jornalística interfere diretamente no modo como os conteúdos ganham visibilidade na sociedade. Todavia, Silva (2005) defende que, apesar de os valores-notícia fazerem parte da matéria-prima do conteúdo (seleção) e da hierarquização desse material (construção), eles não agem sozinhos, muito pelo contrário, “eles participam ativamente da construção noticiosa, mas a produção da notícia e sua qualidade são resultado de muitos outros critérios ou fatores de noticiabilidade” (SILVA, 2005, p. 99). Lino e Francisco (2010) ponderam que os critérios de noticiabilidade se modificam de acordo com o tempo, com o lugar nas quais as redações estão inseridas, a abrangência, o público, entre outros fatores.

Nessa mesma situação, encontra-se a discussão de enquadramento trazida por autores como Goffman (2006) para o meio jornalístico de produção. De forma resumida, pode-se dizer que o enquadramento jornalístico, como abordado por Carvalho (2009), é a forma que um conteúdo é enquadrado, um recorte do total, não se caracterizando como a verdade de um todo. O autor complementa que esses enquadramentos jornalísticos promovem assuntos cotidianos em narrativas noticiosas apresentadas pela mídia.

A partir dessa perspectiva sobre a construção jornalística - aliando valores de construção e enquadramento - tem-se determinada forma de representação e, o que se percebe é que a visão que se construiu do Nordeste é de um território marcado pela pobreza, altos índices de analfabetismo e subdesenvolvimento. Leitão e Santos (2012) asseveram que a escassez da água ligada ao fator da seca, por exemplo, é reforçada pela mídia. Muitas dessas visões foram e ainda são retratadas pelos meios de comunicação, mesmo que de forma sutil, fato que “influencia na construção de um discurso de Nordeste, que ‘passa’ na TV” (ECHEVERRIA, 2015, p. 2). Isso se dá pelos mesmos assuntos selecionados e quase sempre enquadrados a partir de fatores negativos.

Quando há repetição de determinadas imagens, isso caracteriza a construção de estereótipos, que aparecem como uma imposição das classes dominantes, com o poder de modelar toda a sociedade de acordo com o que acham, seus valores e visão de mundo, cristalizando e fazendo parecer aceitável as definições atribuídas a cada categoria social (BIROLI, 2017). E são os meios de comunicação de massa os instrumentos centrais para a sua multiplicação.

Outro fator que pode ser representado pela mídia acerca da região Nordeste é o alto índice de violência, que marca os estados com o estigma da selvageria, do cangaço e do perigo (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2011). Esse fato pode estar ligado ao que apresenta o Mapa da Violência em 2016, estudo realizado pela Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO), no qual comprovou que as principais capitais brasileiras que ocupam o topo do ranking com maior número de mortes por arma de fogo estão inseridas na região Nordeste. Sabendo-se que há critérios de noticiabilidade empreendidos nestes fatos, pode-se esperar uma cobertura significativa sobre o tema, o que reforça e estigmatiza a região. Ou seja, os próprios critérios contribuem para a atribuição de estereótipos.

Como é enfatizado pela pesquisa de Echeverria (2015), há pouca exploração dos assuntos diversificados sobre o Nordeste, no qual as matérias que mais são retratadas na mídia nacional, pela Rede Globo, em termos culturais, exploram assuntos relacionados ao Carnaval. Ou seja, quando a região aparece, aparece como um bloco homogêneo. Lusvarghi (2012) complementa dizendo que o São João também tende a ser bastante explorado pela mídia nacional em relação à região. Ela afirma que “a política da cobertura regional da Globo vem elegendo como produto regional principal o São João” (LUSVARGHI, 2012, p. 10). Entretanto, da mesma forma que o Brasil é considerado um país que possui uma diversidade cultural considerável, o Nordeste também vai além do Carnaval e do São João. Por isso, ele “deve ser estudado por partes, já que cada região cresceu em contextos histórico-culturais diferentes, para evitar uma visão prévia e generalizada da imensa região” (OLIVEIRA; ARAÚJO, 2011, p. 2). Aqui, mesmo sendo um aspecto cultural, há construção de estereótipos pela repetição de um mesmo discurso amplo e generalista do São João e do Carnaval.

Lima e Filho (2015) mostram também que a região Nordeste vem sendo representada pela mídia com imagens novas, mas estão sempre atreladas a estigmas e velhos conceitos considerados à região. Oliveira e Araújo (2011) declaram que a identidade do nordestino acaba sendo construída na condição de como é vista simbolicamente pelos outros, sendo aqui através dos meios formadores de opinião, que estabelecem pré-conceitos no imaginário social. Por isso, é importante entender se essas imagens ainda são enquadradas e como recebem atenção dos meios de comunicação, especialmente da mídia nacional, a partir do jornalismo televisivo do JH, objeto deste estudo.

3 Metodologia

Para atingir os objetivos da pesquisa, o estudo se consolida, a partir da parte empírica, pela análise de conteúdo (BAUER, 2002). A análise e coleta de dados desta pesquisa, foram baseadas no telejornal Jornal Hoje, da Rede Globo, e realizadas nos meses de fevereiro, junho e setembro de 2018. No primeiro mês o Nordeste possui visibilidade em virtude da programação de Carnaval, por suas tradicionais festividades ocorridas em alguns estados da região. Junho é caracterizado culturalmente pelo movimento típico nordestino, o São João, e assim supõe-se que nesse período o Nordeste tenha maior destaque pelo Jornal Hoje. Já em setembro não há nenhum evento ou fato que represente a região em termos culturais, presumindo um mês comum na programação do telejornal. Neste sentido, optou-se por mesclar períodos de maior ênfase com de menor ênfase que se poderia dar à região, ainda que isso pudesse levantar alguns estereótipos na cobertura.

Foram analisadas 75 edições, totalizando 157 produções que diziam respeito à região. A escolha do telejornal se deu por ser um jornal de abrangência nacional, da emissora considerada com maior audiência no país e pela tipificação de revista eletrônica (SANCHES, 2010), que ofereceria abordagens mais amplas e menos factuais do jornalismo.

Desse modo, a técnica de Análise de Conteúdo adotada está dividida em duas partes, quantitativa e qualitativa. A primeira consiste em separar e contabilizar quais são as matérias relacionadas à região Nordeste. Para isso, foram definidas variáveis a priori, sendo referentes a: tema, presença de estereótipos, estados que mais aparecem, formato, abordagem e presença de repórter local.

As categorias relacionadas ao tema têm como base a pesquisa de Echeverria (2015), que definiu algumas que foram utilizadas neste trabalho. São elas: manifestações culturais, desastres e calamidade pública; e outras ajustadas pelas autoras deste estudo, que são: violência, meio ambiente, corrupção, belezas naturais, política, tempo e outros (para casos não identificados com as anteriores).

A variável presença de estereótipos se relaciona aos assuntos elencados na literatura pautados pela mídia como a seca, a presença da violência nos estados da região, o subdesenvolvimento, o São João e o Carnaval. Também se observou o estado de referência no conteúdo produzido. O formato é classificado em link, reportagem, nota coberta e nota seca, destacados por Siqueira e Vizeu (2014), e outros definidos pela autora do trabalho, como serviço.

Quanto a variável abordagem, baseia-se em verificar como são construídas as narrativas das matérias que se relacionam à região, analisando se são caracterizadas por tons positivos, negativos ou neutros. Por último, verifica-se se os repórteres dos links e reportagens são locais.

Na parte qualitativa da pesquisa, foram levados em consideração como ocorre o processo de representação dos estereótipos por meio das falas dos apresentadores e repórteres, das características textuais, identificando, os possíveis tipos demarcados pelo telejornal. Isso é feito a partir da transcrição das falas.

4 Visibilidade, enquadramento e representatividade do Nordeste no Jornal Hoje

A análise está dividida em três tópicos. No primeiro, são apresentados dados quantitativos sobre formato, quantidade e duração das notícias sobre a região para discutir visibilidade. Na segunda parte são abordadas questões temáticas, de abordagem e tom da narrativa das matérias, a partir de uma perspectiva do teor do conteúdo. Por fim, no terceiro tópico, é discutido, de forma mais precisa, como esses estereótipos aparecem no conteúdo e/ou falas dos repórteres e como ocorre a representação da região Nordeste no Jornal Hoje, a partir de um viés qualitativo.

4.1 Formatos, quantidade, duração das matérias e estados que mais aparecem

Este tópico traz dados quantitativos sobre a visibilidade da região Nordeste. A Tabela 1 mostra o percentual de matérias que apareceram no período de análise, relacionadas à região. Ao todo, se tem um corpus de 75 edições assistidas e 157 matérias coletadas que mencionavam a região, sendo 57 em fevereiro, 40 em junho e 60 em setembro.

[ Tabela 1 ]:
Quantidade de matérias coletadas nos três meses de análise
Meses Frequência Percentual Média/Tempo (segundos)
Fevereiro 57 36,3% 139,42
Junho 40 25,5% 126,97
Setembro 60 38,2% 116,45
Total 157 100,0% 382,84

Fonte: Elaboração das autoras (2019)

Logo, esses dados já contradizem a hipótese levantada neste trabalho, que os meses de fevereiro e junho trariam maior visibilidade para a região, por conta das manifestações culturais que caracterizam alguns estados do Nordeste, como o Carnaval e São João, e, em contrapartida, o mês de setembro, por não haver nenhum movimento específico no Nordeste, não daria tanta visibilidade. No entanto, ocorreu o contrário. Setembro foi o mês de maior destaque e veiculação de matérias direcionadas aos assuntos que faziam referência ao Nordeste. Isso se deve, em boa medida, ao período eleitoral.

Contudo, ainda que tenha ocorrido tamanha visibilidade do Nordeste no mês de setembro, o espaço destinado para a região ainda é minoritário. O Jornal Hoje tem, em média, 40 minutos de duração. No período de análise apareceram, no máximo, quatros matérias por dia relacionadas aos estados do Nordeste, sendo que a maioria apenas mencionava a região; nas quais todos os dias, pelo menos uma, se tratava da previsão do tempo. Mesmo que ainda não tenha sido analisado o teor das notícias, a baixa visibilidade da região é evidente. Destaca-se, ademais, que as matérias jornalísticas não eram tão longas, chegavam a 2 minutos de duração, em média, salvo uma única vez que houve uma série de reportagens sobre o saneamento básico no Brasil, que durou cerca de 6 minutos.

Ao dividir o tempo destinado à região no telejornal por mês de análise, observa-se, que, mesmo setembro sendo o mês com maior quantidade de referências sobre o Nordeste, o tempo para esses assuntos não era tão longo, com matérias com média de menos de 2 minutos de duração (116,45 segundos), se tratando, em grande parte, de temáticas ligadas à política, nas quais a região era mencionada quando havia atos de campanha. A programação do telejornal esteve voltada aos assuntos relacionados à fatos políticos, com acompanhamento da agenda dos candidatos à presidência da república e a decisão do TSE sobre a inelegibilidade do ex-presidente Lula.

Em fevereiro, por conta do carnaval, o espaço no telejornal se tornou maior, mesmo que com menos matérias do que em setembro. As notícias tinham em média dois minutos e meio de duração (139,42 segundos). Junho foi o mês que apresentou uma quantidade menor de menções, mas tendo uma duração de, em média, dois minutos (126,97 segundos), muito por conta do serviço de previsão do tempo, que leva em média três minutos por dia, pois trata de todas as regiões do país e não de uma cobertura ampla sobre a região2. Em junho, o telejornal deu destaque para a Copa do Mundo, ocorrida na Rússia e, no caso do Jornal Hoje, a Copa do Mundo ocupava, em média, cerca de 30 minutos todos os dias.

Assuntos relacionados aos esportes, principalmente futebol, ganham grande destaque pelos meios de comunicação. Faez et al. (2006), após um estudo da predominância do futebol na imprensa campineira, comprovam a espetacularização deste na mídia. Os autores relatam que “o interesse do público pelo futebol, após sua popularização, motivou a mídia a dedicar um espaço maior para ele em detrimento a outros esportes” (FAEZ et al., 2006, p. 54). Mas essa ação não interfere somente em outras modalidades de esportes, pois também compromete as temáticas variadas, especialmente que contemplem as diversas regiões do país, no caso do trabalho realizado neste artigo. Isso tem relação também com os critérios de noticiabilidade. Embora muitos outros fatos pudessem ter valor-notícia, perdiam espaço para o esporte no processo de hierarquização e interesse mercadológico e político da empresa de comunicação.

Desse modo, nota-se que a agenda do jornalismo do JH prioriza outros assuntos, o que faz com que a representação regional na cobertura perca espaço. Somado a esse contexto, quando se tratava de temáticas relacionadas ao Nordeste, a maioria eram de menções à região. Como foi contextualizado no detalhamento do corpus da pesquisa, o serviço de previsão do tempo foi considerado pela autora deste trabalho após análise teste3. Se tirarmos o espaço da previsão do tempo, haverá menos menção à região. Até aqui, portanto, é mais adequado falar sobre menções e referências do que propriamente das abordagens à região. Na análise, será possível observar a cobertura propriamente dita sobre os fatos e acontecimentos regionais.

Dando continuidade, a Tabela 2 reitera que o formato “serviço de previsão do tempo” foi o que mais obteve menções aos estados do Nordeste no Jornal Hoje, com 47,1% do total, ocupando espaço de quase metade do que foi coletado acerca da região. O formato “reportagem” ficou em segundo lugar, com 25,5%, no qual a maioria eram factuais e negativas, mas, mesmo assim, é o formato jornalístico em que se obtém matérias mais elaboradas e com maior espaço para representação da região. “Nota coberta” teve 17,8% do total, seguindo a mesma linha das reportagens, com a diferença de que eram mais curtas e apenas com imagens ou vídeos do assunto tratado e lidas pelo apresentador(a) do telejornal. “Link”, que incorpora diversos elementos na narração e de forma mais próxima ao público (SIQUEIRA; VIZEU, 2014), ficou com 8,3%, e quase sempre feitos fora do território nordestino. A maioria ocorria em Brasília, quando se tratava de assuntos políticos e que, de alguma forma, citava a região, como por exemplo, a operação da Polícia Federal na casa do ex-governador da Bahia, Jaques Wagner. Vale ressaltar, no entanto, que uma matéria dessas, embora não feita na Bahia, relaciona o estado com uma questão negativa, a corrupção, o que justifica mais uma vez a inclusão das menções. “Nota seca” teve somente 1,3% do total, com apenas duas notas ligadas a assuntos políticos e a morte de três presidiários, no estado do Ceará.

[ Tabela 2 ]:
Formatos de notícia nas matérias da região Nordeste no Jornal Hoje
Formatos de Notícia Frequência Percentual
Serviço de previsão do tempo 74 47,1%
Reportagem 40 25,5%
Nota coberta 28 17,8%
Link 13 8,3%
Nota seca 2 1,3%
Total 157 100%

Fonte: Elaboração das autoras (2019)

Ramos e Zamberlan (2005, p. 9) comentam que a previsão do tempo na mídia não é separada do jornalismo, e que “ela contracena, nele, empreendendo diálogos com as notícias diárias. A Natureza se configura como um personagem do palco cotidiano, com interatividade social”. Fato que ganha notoriedade na apresentação do clima de alguns estados do Nordeste, como é o caso, por exemplo, do Rio Grande do Norte, Alagoas e Paraíba, em que as condições climáticas são, de imediato, associadas às praias e pontos turísticos destes locais.

Neste sentido, esta pesquisa manteve na análise a presença deste formato para depois observar, de modo mais detalhado, as reais representações da região para além apenas da referência na parte qualitativa. Porém, a previsão do tempo apenas menciona a região, não se caracterizando como uma matéria propriamente dita. Logo, não há possibilidades diversificadas para representação social ou regional neste espaço. Ao tirarmos da tabela de formatos o “serviço de previsão do tempo”, tem-se somente 83 entradas de conteúdos mais amplos. Esses conteúdos - nesta quantidade reduzida - não permitem a real e atual representação do local, reafirmando o que já foi dito a respeito da região em épocas passadas. Guareschi (2000, p. 38) elucida que “as representações sociais são modificáveis e podem ser transformadas nos processos cotidianos das pessoas”, porém sem a mínima cobertura esse processo é inviabilizado. Outro aspecto intrinsicamente ligado à visibilidade e representação do Nordeste se encontra na presença de repórteres locais nas matérias que tratam de assuntos sobre a região, o qual apareceu em somente 35 vezes das 53 matérias4. A falta do repórter da região acontece quando ela é apenas mencionada em reportagens realizadas fora do Nordeste, quando tratavam de assuntos ocorridos em outros locais, mas, de alguma forma, remetiam à região, como por exemplo; a reportagem realizada em São Paulo sobre a febre amarela em que a Bahia foi um dos estados citados na reportagem.

Com efeito, essa discrepância entre a presença e ausência do repórter de cada estado da região nas matérias que tangenciam temáticas a respeito do Nordeste, prejudica a identificação e representação da região em contexto nacional. Bazi (2001) explica que na linguagem da televisão, sendo universal, os assuntos abordados das regiões devem, de alguma forma, comunicar-se com as pessoas de cada parte do território. Isso acontece por meio de diversas formas, sendo uma delas a presença do repórter local nessas matérias, pois, assim, é possível trazer a “cara” da região, seja por meio de suas falas ou pelo conteúdo, inclusive por meio de melhor conhecimento do contexto do qual se fala.

Além de perceber a falta de visibilidade da região, é pertinente verificar se todos os estados do Nordeste ganham espaço no Jornal Hoje ou se existem sobreposições. Os estados da Bahia, Maranhão e Rio Grande do Norte foram os três que mais se destacaram no JH no período de análise, embora isso reflita, em grande parte, nas menções desses estados no serviço de previsão do tempo. Os dados (Tabela 3) desconsideram a previsão do tempo, que diminui o recorte apenas para menções e permite entender um pouco melhor as produções. Bahia continua sendo o estado que mais aparece, porém Pernambuco e Ceará se sobressaem a frente do Maranhão e Rio Grande do Norte, por exemplo.Bahia foi o estado com maior número de menções no período de análise, totalizando 24 vezes. O estado teve bastante destaque no período de fevereiro, por conta das festividades carnavalescas. Em junho, a unidade federativa esteve ligada, em sua maioria, a matérias factuais. Em setembro, o estado da Bahia teve espaço ao falar sobre as agendas políticas dos candidatos à presidência do país.

[ Tabela 3 ]:
Estados que mais aparecem, desconsiderando a previsão do tempo5
Estados Menções
Bahia 24
Pernambuco 19
Ceará 14
Maranhão 9
Rio Grande do Norte 9
Alagoas 6
Sergipe 6
Piauí 5
Paraíba 3
Total 95

Fonte: Elaboração das autoras (2019)

As 19 menções referentes a Pernambuco estiveram relacionadas, em grande parte, ao carnaval, no mês de fevereiro, pois a cidade Olinda e a capital Recife são consideradas como pontos turísticos no período das festividades. Nos meses de junho e setembro, as matérias eram de assuntos mais factuais e também a agenda de campanha política dos candidatos à presidência do Brasil, respectivamente. O Ceará apareceu em 14 vezes do total das matérias. Nos meses de fevereiro e junho o estado esteve relacionado à assuntos sobre violência, como, por exemplo, a reportagem que abordava o crime organizado. Em setembro eram, também, matérias factuais. Os demais estados não tiveram tanto destaque na programação do telejornal em comparação às outras unidades federativas da região.

Este desequilíbrio na cobertura pode estar ligado ao que Traquina (2012) aborda em suas discussões a respeito da produção e construção da notícia. O autor explica que as estruturas das praças existentes em cada território interferem no que pode ser noticiado na mídia nacional, haja vista que, quando se tem uma equipe de profissionais mais qualificados, bons equipamentos, e relação direta com a ‘cabeça’ da rede, a probabilidade da notícia regional/local virar nacional é maior.

Mas, além de verificar essa desigualdade entre os estados do Nordeste no período de análise, percebeu-se também discrepância na cobertura sobre os municípios de cada estado. Por exemplo, boa parte dos assuntos referentes à unidade federativa se relacionavam somente à capital, onde está inserido e centralizado, em sua maioria, as praças afiliadas da rede globo. Aguiar (2016, p. 104) ressalta que “‘regionalizar’ não significa apenas dividir, recortar espaços, mas, principalmente, ocupar, requalificar ou ressignificar parcelas de territórios, por meio de intervenções midiáticas que busquem diferenciar-se daquelas já desenvolvidas nas áreas centrais”.

Consequentemente, toda essa discussão sobre a quantidade reduzida de menções e, menos ainda, de matérias sobre a região Nordeste, assim como o pouco tempo médio destinado às coberturas, a restrita presença do repórter local e a sobreposição de alguns estados nordestinos levam a posteriores questionamentos a serem discutidos no tópico seguinte: Quais eram os principais temas das matérias e os tons de abordagem predominantes sobre a região? E os estereótipos construídos acerca do território, ainda aparecem?

4.2 Temáticas, abordagens das narrativas e existência de estereótipos

Este tópico apresenta os principais temas e a abordagem das narrativas das matérias que tratavam do Nordeste, pois considera-se que os temas e enquadramentos são responsáveis, em boa medida, pelas formas de representação social reforçadas pela mídia de massa. Além disso, foi quantificada as vezes que se percebeu a presença de estereótipos, seja nas falas ou no conteúdo das narrativas, trazidos pelos autores trabalhados no decorrer desta pesquisa. A Tabela 4 mostra a primeira variável proposta para a análise deste trabalho: os temas que mais destacaram a região no telejornal.

[ Tabela 4 ]:
Temas que caracterizaram o Nordeste no período de análise
Categorias Frequência Percentual
Tempo 74 47,1%
Outros 20 12,8%
Política 15 9,6%
Corrupção 14 8,9%
Manifestações Culturais 11 7,0%
Violência 10 6,4%
Desastres 6 3,8%
Calamidade Pública 5 3,2%
Meio ambiente 1 0,6%
Belezas Naturais 1 0,6%
Total 157 100,0

Fonte: Elaboração das autoras (2019)

“Tempo” foi a categoria definida para encaixar as matérias relacionadas à previsão do tempo na programação do Jornal Hoje. Assim como na tabela de formatos, a categoria foi a que mais obteve quantidade de menções aos estados do Nordeste, com 47,1% do total.

Na categoria “Outros” foram inseridas matérias que não entravam em nenhuma das definidas a priori. Com 12,7% do total, as matérias eram desvinculadas uma das outras e não tinha como formar uma nova categoria para unificá-las. Apareceu, por exemplo, reportagem que falava sobre gastos dos brasileiros no carnaval, e link para falar sobre a reunião para discutirem a ideia do uso da Base de Alcântara, no Maranhão, para o lançamento de satélites nos Estados Unidos.

A temática “Política” apareceu em 9,6% do total, com matérias que falavam, em grande parte, do período eleitoral no Brasil. O mês de setembro foi marcado pelas campanhas dos candidatos em todo o país. A região Nordeste era mencionada quando o apresentador do telejornal falava sobre as agendas dos candidatos à presidência da república em alguns estados da região. “Corrupção” teve espaço em 8,9% das matérias, e estava relacionada aos assuntos que falassem, principalmente, sobre desvio de dinheiro, tanto por parte de políticos, como por empresários e estelionatários, como foi o caso ocorrido no estado do Piauí, onde mais de 60 famílias de baixa renda do Programa Minha Casa Minha Vida, foram vítimas de uma quadrilha de estelionatários.

A temática “Manifestações culturais” teve maior destaque no período do carnaval, no mês de fevereiro. Com 7% do total, as matérias dessa categoria falavam majoritariamente sobre as festividades nos estados da Bahia e Pernambuco. Foram links, reportagens e notas cobertas como forma de divulgação do evento nas principais cidades dos estados.

As matérias inseridas na categoria “violência” estavam relacionadas à criminalidade nos estados do Nordeste. Esse é um assunto recorrente na mídia quando se trata da região, pois, como dito previamente, o Nordeste é demarcado por traços do cangaço, da selvageria e do lugar de perigo. Essa categoria teve 6,4% de aparições no período analisado. Uma das matérias falava sobre um assalto a banco, casa lotérica e correios, no Maranhão. Outra contava a guerra entre quadrilhas no estado do Ceará, que deixou diversas pessoas feridas e o crescimento do número de mortes no estado. Essa cobertura frequente da temática violência relacionada a região Nordeste pode reforçar estereótipos construídos historicamente.

Os demais temas aparecem de forma bastante restrita. “Desastres” teve 3,8% do total, com matérias que abordavam algum tipo de acidente, catástrofe ou tragédia na região. Sobre “calamidade pública”, destaca-se matérias que, de alguma forma, mostravam precariedades e descasos nos estados do Nordeste, que afetasse a população. Tem-se como exemplo a reportagem sobre a seca em Sergipe, provocando desemprego no campo e na cidade. “Belezas Naturais” e “Meio Ambiente” tiveram somente 0,6% de espaço nas matérias acerca da região Nordeste na programação do Jornal Hoje, no período de análise. A única matéria referente a categoria de belezas naturais falava sobre as praias dos lençóis maranhenses, no estado do Maranhão, enaltecendo suas belezas e a atração de turistas para o local. Sobre meio ambiente, tem-se a reportagem a respeito da implantação de uma torre de energia eólica no mar, no estado do Rio Grande do Norte.

Constata-se, assim, que a maioria das matérias estiveram relacionadas a temas negativos ou menções do fator climático no formato de serviço de previsão do tempo, que ainda assim, em alguns casos, traziam resquícios de estereótipos ligados à seca, sendo também um fator negativo para a região. Percebe-se a falta de temas que pudessem enaltecer a diversidade cultural do Nordeste, com espaço somente para as manifestações carnavalescas, resumidas em cobertura do evento de Carnaval nos estados Bahia e Pernambuco. Esses resultados se aproximam do que Galtung e Ruge (1965) afirmam, de que as notícias negativas entram com mais facilidade na mídia porque elas levam menos tempo de produção do que as positivas. Os autores relatam que “há uma assimetria básica em vida entre o positivo, que é difícil e leva tempo, e o negativo, que é muito mais fácil e leva menos tempo” (GALTUNG; RUGE, 1965, p. 69, tradução nossa)6.

Nesta perspectiva, outro aspecto atrelado à discussão dos principais temas que caracterizaram a região Nordeste no período analisado é a verificação da abordagem e tom das narrativas nas matérias referentes à região, a partir do enquadramento em temas negativos, positivos e neutros. A Tabela 5 mostra que, das 83 vezes em que os estados do Nordeste foram mencionados ou representados em reportagens (retirando-se aqui as menções ao tempo), 16 eram positivos, 46 negativos e 21 neutros.

[ Tabela 5 ]:
Duração das matérias (em segundos) e os tons das narrativas7
  Positivo Negativo Neutro
Quantidade 16 46 21
Média de tempo das reportagens (em segundos) 99,44 123,17 74,86
Total de tempo (em segundos) 1591 5666 1572

Fonte: Elaboração das autoras (2019)

O tom negativo foi o que mais apareceu nas matérias. Isso pode estar interligado ao que propõe os valores-notícias, sendo que o negativismo é um dos critérios a ser considerado na hora da produção da notícia (SILVA, 2005). No entanto, há uma disparidade entre negativo e positivo não apenas na quantidade, mas no tempo destinado a cada tipo de abordagem. O telespectador passa muito mais tempo vendo notícias de abordagens negativas referentes à região, com, em média, dois minutos de duração cada, do que matérias com teor positivo, tendo em média um minuto e meio cada. Isso pode refletir na imagem que se tem do Nordeste, já enraizada no inconsciente, como demarcada apenas pela violência, descaso público, altos índices de analfabetismo e pobreza; pouco explorando suas diversidades culturais, belezas naturais, desenvolvimento econômico e educacional.

Olhando para cada mês de análise, em fevereiro a predominância foi do tom negativo nas narrativas das matérias, por estarem ligadas à quase todas as temáticas de categorias propostas, como “violência”, “calamidade pública” e “desastres”. Já em junho e setembro, “neutro” foi o de maior destaque, caso evidenciado no serviço de previsão do tempo e na menção aos estados da região na agenda de campanha dos candidatos à presidência da república.

Além dessa distribuição e da presença evidente de tons negativos na cobertura, é possível ver quais estados predominaram em matérias positivas, negativas e neutras. Somente os estados do Rio Grande do Norte, Maranhão, Ceará, Pernambuco e Bahia tiveram aspectos positivos destacados em suas narrativas. Sobre o Rio Grande do Norte, tem-se como exemplo de matéria positiva a implantação da energia eólica no mar do Polo Guamaré. Sobre o Maranhão, destaca-se a reportagem para enaltecimento da beleza natural dos lençóis maranhenses. Ceará pelo crescimento na exportação de redes fabricadas no estado, onde são vistas com material de qualidade. Pernambuco e Bahia se destacaram nas festividades de carnaval, além de outros assuntos pontuais.

Todos os estados da região apresentaram, de alguma forma, abordagem negativa em suas matérias ou menções. Sobre o estado da Bahia totaliza-se 13 matérias negativas. Em relação a Pernambuco, com 10 matérias negativas, tem-se o relato das mortes ocorridas no estado. Como exemplo de matérias de cunho negativo a respeito do Ceará, que também totalizam 10, ressalta-se os casos de violência no estado e o incêndio na tríade dos correios, em Fortaleza. Sobre o estado do Maranhão, que obteve seis matérias de cunho negativo, apresenta-se como exemplo a reportagem na qual falava da morte de uma idosa que não recebeu atendimento na porta de um hospital do estado.

Logo, verifica-se que há predominância do tom negativo nas matérias que se relacionam aos estados do Nordeste, confirmando o que a literatura aborda sobre o fator negativo ter relevância na produção e construção da notícia. Foi constatado que, no período de análise, pela maioria das matérias estarem relacionadas à violência, calamidade pública e desastres, a abordagem se concentrava no negativismo, tendo em vista que este é um dos critérios de noticiabilidade considerado pelo jornalismo, nos quais se encaixam no valor-notícia de tragédia apontado por Silva (2005). É importante destacar, no entanto, que apesar do valor negativo dos fatos para a noticiabilidade, esse aspecto ajuda a reforçar estereótipos como mostra a literatura.

Paralelo à discussão das temáticas que sinalizam para a caracterização do Nordeste na mídia e a abordagem das narrativas que discutem esses temas, é válido averiguar a existência de estereótipos, demarcados durante muito tempo sobre a região, na programação do Jornal Hoje. Como já foi debatido, os autores Albuquerque Júnior (2011), Leitão e Santos (2012) e Lima e Filho (2015) expõem que a seca, a violência, o subdesenvolvimento social, o analfabetismo, entre outros, são ainda estereótipos remetentes à região Nordeste. Estes foram, então, buscados ao longo da cobertura. A Tabela 6 quantifica a presença de estereótipos no conteúdo das matérias ou nas falas dos jornalistas e ou repórteres. Como verifica-se, das 157 aparições do Nordeste, em 21 houve, de alguma forma, a presença desses estereótipos trabalhados na literatura. Em alguns casos do serviço de previsão do tempo, embora seja apenas uma citação rápida da região, há a presença deles nas falas da jornalista responsável por apresentar os fatores climáticos da região, mesmo que de forma sutil, por retomar o fator da seca como algo ainda persistente em todo o território nordestino. Nas matérias, é recorrente falar sobre a violência e alto índice de criminalidade nos estados da região, ou sobre tradição e devoção dos nordestinos.

[ Tabela 6 ]:
Presença de estereótipos nas matérias acerca da região
Estereótipos Frequência Percentual
Ausência 136 86,6%
Presença 21 13,4%
Total 157 100,0%

Fonte: Elaboração das autoras (2019)

O próximo tópico elucida esses questionamentos e disserta a respeito do teor da representação da região no telejornal, trazendo uma abordagem qualitativa, especialmente às reportagens que apresentam estereótipos. O objetivo é verificar se essas abordagens aparecem de forma concreta e palpável, como sugerida por Moscovici (1979), além de discutir sobre o fato de essas representações serem supérfluas por haver somente menções sobre a região, sobre casos factuais; ou se aproximarem mais de reportagens mais elaboradas que abordem peculiaridades de cada estado do Nordeste.

4.3 Construção de estereótipos e representatividade limitada

Este último tópico discorre a respeito da presença dos estereótipos nas falas ou conteúdo das matérias e como aparecem as questões de representação social da região no Jornal Hoje. Os estereótipos se caracterizam dentro das narrativas já trabalhadas há muito tempo na mídia acerca da região ou nas próprias falas carregadas dos profissionais, sendo que em alguns casos o próprio tema reforça um estereótipo historicamente construído.

Notou-se a presença de seis estereótipos, que são: seca, violência, manifestações culturais, restritas somente ao carnaval, tradições religiosas, subdesenvolvimento e belezas naturais das praias nordestinas. Esses estereótipos considerados na análise têm suporte teórico advindo do que a literatura aborda. Além disso, essas construções podem aparecer de três formas: pelas imagens, pela fala e no próprio tema. Neste último caso, a abordagem reforça, principalmente, estereótipos já construídos.

Durante a análise percebeu-se a ocorrência de poucos estereótipos nas matérias. Porém, mesmo que tenha havido 21 casos dentre 157 matérias com referências à região, é importante que sejam analisados de modo aprofundado porque, como já se observou na discussão teórica, são falas que tendem a se repetir, como é o caso da permanência de cobertura sobre a violência nos estados da região.

Como primeiro exemplo, ressalta-se a matéria sobre o problema da seca em Sergipe, veiculada no mês de setembro. Mesmo que seja algo notavelmente possível, a matéria não isenta traços do passado, trazendo imagens de famílias carentes, do rachar do sol e a escassez no local, dando a ideia de que a região não evoluiu desde a primeira seca ocorrida em alguns estados do Nordeste, entre 1580 e 15838. Além disso, tamanha exposição negativa atinge a região em geral, não somente lugares específicos, por não ser mostrado mudanças temporais sobre a questão. A reportagem, neste caso, tanto pelo tema quanto pelas imagens, generaliza um problema.

A presença de estereótipos nas falas dos jornalistas é destacada, de modo mais evidente, na previsão do tempo, por ser neste serviço que são retomadas as características já “conhecidas” sobre a região, como por exemplo, o predomínio do calor de forma generalizada, como se isso ocorresse em todos os estados do Nordeste, apesar de que em algumas cidades dos estados de Pernambuco, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte há o predomínio do frio, por exemplo, justamente pelas diferenças geográficas existentes. Essa questão não foi abordada nenhuma vez e, ao contrário, sempre que apareceu alguma sentença que retomasse uma construção histórica, era sobre a seca, sem qualquer delimitação sobre ela.

No mês de fevereiro, ao falar sobre a previsão do tempo da região, a jornalista responsável pela apresentação do clima diz a seguinte frase: “vamos falar do Nordeste, porque, no Nordeste, o que vai predominar é o sol, claro”. Em outro caso, também se tratando do fator climático da região, a jornalista fala: “vou começar pelo destaque do início da semana, que, olha, por incrível que pareça, é a chuva lá no Nordeste”. Observa-se, portanto, resquícios de uma ideia generalizada sobre a região nas falas dos jornalistas, sempre retomando e ligando essas “novas representações” a fatos antigos, como se ainda predominasse em todo o território geográfico, social e econômico. Albuquerque Júnior (2011) explana que, em relação ao Nordeste, o que mais interessa aos que não moram no local é o sofrimento, a miséria nas comunidades e a recorrente tragédia da seca. E isso se reforça com a cobertura e falas descontextualizadas e pouco explicativas.

Porém, não é somente a seca um estereótipo marcado sobre a região, a violência também é um dos aspectos que perpetuam durante anos a respeito do Nordeste. O Atlas da Violência9 mostra que, de 2010 a 2016 a taxa no índice de homicídio cresceu na região Nordeste, atingindo 24.863 casos. Das 83 matérias coletadas nos três meses de análise - excluindo-se a previsão do tempo -, dez eram voltadas para a violência nos estados do Nordeste, com a duração de, em média, um minuto e meio cada. Apesar do real aumento da criminalidade e da cobertura, especialmente por conta dos valores-notícia contidos nos fatos, especialmente pelo negativismo (GALTUNG; RUGE, 1965), a literatura mostra que a presença do tema já é um reforço de uma imagem historicamente construída.

As matérias que falavam sobre violência, no período de análise, estavam relacionadas a crime organizado, homicídios, vandalismo, assaltos a bancos, casas lotéricas e correios. Tem-se, como exemplo complementar do que já foi destacado no decorrer desta análise, a notícia sobre a morte de suspeitos, por policiais, que estavam tentando roubar um avião de transporte de valores na cidade de Salgueiro, a 500 km de Recife. Apesar do reconhecimento de que tais fatos possuem valores-notícia, como já abordado, é preciso ressaltar que mesmo com o passar do tempo, o Nordeste ainda é ligado a traços do cangaço e da pistolagem quando é retratado o índice de violência no local, ainda que esse movimento tenha ocorrido entre os séculos XIX e XX. No entanto, o cangaço ia além do “banditismo”, como era e ainda é traçado por muitos. O fenômeno representava a luta de indivíduos sociais pela procura de uma nova realidade para os que eram vistos como minoritários (SÁ, 2009). Porém, a falta de conhecimento contextualizado associado ao negativismo da cobertura, tem-se ideia estereotipada da região, caracterizada pela violência.

Outro aspecto interligado à essa luta social se concentra nas festividades juninas que, de acordo com Belém (2010), tem origem histórica ligada a rituais que as pessoas faziam para tornar a produção e o cultivo agrícola férteis. Com o tempo, essas festividades se integraram à devoção aos santos comemorados no mês de junho, Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo, advindos de uma cultura europeia e espalhados em todo território brasileiro, sendo no Nordeste o lugar de maior centralização da comemoração dos festejos juninos (BELÉM, 2010). Soma-se a isso a importância do movimento cangaceiro para os nordestinos, além da forte devoção e comemoração aos santos religiosos. Lusvarghi (2012, p. 10) sustenta que “o São João ajuda a recriar o mito romântico e revolucionário da esquerda nos anos 1960, que via no homem simples do campo a esperança da revolução”. Assim, o São João se tornou uma característica alusiva à região. Lusvarghi (2012) defende que as festividades juninas são um produto regional elegidas pela Rede Globo como referenciação ao Nordeste.

Entretanto, no período que se esperava a considerável representação da região sobre esses movimentos culturais, não houve sequer uma reportagem ou nota para falar das festividades na programação do Jornal Hoje. Apenas citação à uma das festas juninas no serviço de previsão do tempo, ocorrida na cidade de Caruaru, Pernambuco. A profissional responsável por apresentar as condições climáticas das regiões do país assim noticiou: “e como vai ser dia de São Pedro, trouxemos a previsão para Caruaru, Pernambuco, que tem uma das festas mais tradicionais do país”. Desse modo, foi preciso analisar se há espaço para as representações culturais em outro período considerado tradicional nos estados da região, o Carnaval, pois as festividades carnavalescas são consideradas também como algo demarcado sobre alguns estados do Nordeste.

Echeverria (2015, p. 8) em sua pesquisa sobre a região, salienta que “o que se vê [na mídia] é um modelo padronizado de edição e grande repetição temática. Em Salvador, os trios elétricos; no Recife o Galo da Madrugada, os Bonecos Gigantes de Olinda; os bois do Maranhão”. A autora ainda questiona a falta de cobertura em outros estados do Nordeste, como, por exemplo, no Piauí. Esse resultado é corroborado por este artigo, em que foi averiguado que houve somente espaço para essa manifestação cultural nos estados da Bahia e de Pernambuco, não havendo nenhuma menção sobre os festejos em outras unidades federativas da região, o que reforça o achado anterior de Echeverria (2015). Ao falar sobre a festividade, a mídia, na maioria das vezes, remete-a somente aos dois estados citados, sendo que isso é resultado, de acordo com Lusvarghi (2012), da Globo privilegiar o carnaval carioca, com apenas inserções sobre os carnavais de Salvador e Recife. Neste sentido, apesar da abordagem, tende a ser muito pontual e também desequilibrada.

Conjuntamente, Lima e Filho (2015) abordam a cobertura midiática acerca das praias e belezas naturais encontradas no território nordestino, como um estereótipo já conhecido na mídia. Ressalta-se, assim, que nem sempre o estereótipo está atrelado a aspectos negativos. Este se caracteriza também em abordagens de cunho positivo, mas, neste caso, resume-se a pontos turísticos de praias existentes em alguns locais da região, já reforçados pelos meios de comunicação. Por consequência, na análise havia somente uma matéria que falasse sobre essa temática na programação do telejornal, que foi a reportagem sobre os lençóis maranhenses. Fora isso, foi citado, no serviço de previsão do tempo, as praias existentes no Rio Grande do Norte, Alagoas e Paraíba, que atraem turistas de vários lugares.

Outro aspecto explanado pelos autores da literatura diz respeito ao subdesenvolvimento. No mês de setembro, o JH realizou uma série de reportagens para falar sobre a falta de saneamento básico em alguns lugares do Brasil. De acordo com os dados do da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - PNAD10 realizada em 2018, apenas 66,3% de domicílios no Brasil possuem rede de esgotamento sanitário ou fossa ligada à rede. Na série, um episódio inteiro foi destinado para falar sobre esse problema em alguns estados do Nordeste, relatando que a rede de esgoto atende apenas 26,8% dos moradores da região em geral. Na reportagem, foi falado e mostrado os estados de Alagoas, Bahia e Pernambuco. Entretanto, ao falar sobre os dados, depreende-se que o problema afeta todos os estados da região, mesmo havendo maior índice de alguns em relação a outros.

Visto isso, nota-se que, de forma geral, os estereótipos acerca do Nordeste estão ligados a pontos negativos, prejudicando um novo olhar sobre a região. No período de análise, as peculiaridades positivas existentes nos estados do Nordeste, sobre as quais se esperava coberturas mais amplas e abrangentes, não foram consideradas pelo telejornal. O São João não teve visibilidade no mês esperado, as belezas naturais da região foram pouco consideradas e as festividades do Carnaval se restringiram a cobertura do evento nas capitais Salvador e Recife, e na cidade Olinda.

Com efeito, essa permanência de assuntos vistos corriqueiramente e a “dizibilidade” de outras temáticas afetam o significado de representação regional, pois, como fundamenta Guareschi (2000), as representações sociais não são permanentes e imutáveis, pois elas se alteram e se modificam de acordo com as situações e evoluções do objeto. Barbalho (2004) e Albuquerque Júnior (2011) respaldam que o discurso acerca do Nordeste é visto e enraizado no imaginário social como lugar de tradição, onde não há mudanças, evoluções, novas imagens e identidades; como se ainda fosse um lugar do passado. Consequentemente, o que se extrai da análise é que este problema ainda afeta a representação da região, por transparecer na cobertura um enquadramento negativo e de traços ligados ao passado, como visto na matéria a respeito da seca na Paraíba, por exemplo. Assim, Barbalho (2004) fundamenta que a mídia colabora para a fixação da ideia que se tem do Nordeste, muito por conta do que é produzido em outro local, como no eixo Rio-São Paulo, por serem vistos como regiões de desenvolvimento e centrais do país. Em contrapartida, regiões como Norte e Nordeste se caracterizam pelo contrário.

5 Conclusão

Este artigo analisou - a partir de diferentes elementos - como a região Nordeste é representada a partir da construção jornalística do JH. A pesquisa - de viés quantitativo e qualitativo - trouxe diversos resultados e reflexões sobre a homogeneização, sobre o reforço de estereótipos e a negatividade dos quadros elencados. Apesar da valorização da regionalização midiática na década de 1990, o que se percebe de início, a partir da análise desta pesquisa, é a desigualdade na cobertura de assuntos relacionados à região Nordeste.

Com base no corpus de 157 matérias coletadas em 75 edições dos meses de fevereiro, junho e setembro, destaca-se a baixa quantidade de matérias que falaram sobre o Nordeste no Jornal Hoje. Dos três meses de análise, 74 reportagens tratavam do serviço de previsão do tempo. Assim, a cobertura é quase ausente demonstrando uma quebra com a proposta de ser um jornal de abrangência nacional. Sobre o enquadramento, 83 matérias tinham teor negativo. Além disso, 21 matérias continham estereótipos (neste caso, considerando a previsão do tempo, por ter sido percebido com mais assiduidade neste serviço falas dos jornalistas com resquícios dessas marcas já “conhecidas”). A respeito da representatividade da região, ainda há problemas que interferem na presença do Nordeste na mídia nacional. De 83 matérias (excluindo-se a previsão do tempo), 48 foram realizadas fora do território nordestino, ou seja, a maioria se resumia a menções de algo que ocorreu no Nordeste, se restringido ao factual.

Dessa forma, a pesquisa reitera que o modo como se faz jornalismo ainda reforça problemáticas pertinentes de serem discutidas no ambiente acadêmico, pois existem visões estereotipadas, enquadramentos generalizados, visibilidades limitadas e pouco espaço identitário. Sobre aspectos mais amplos da pesquisa, ressalta-se a relevância de se pesquisar como ocorrem os processos de representação na mídia, tendo em vista a importância da regionalização, seja do ponto de vista econômico e estratégico, além da centralidade que a produção jornalística possui como forma de mediação social.

Em relação aos resultados trazidos pela pesquisa, nota-se que o estudo contribui para os trabalhos que envolvem a representatividade da região Nordeste, tendo em vista que este é um assunto inesgotável e pode ser trabalhado a partir de diversas perspectivas. Aqui uniu-se os vieses quantitativo e qualitativo para ampliar o escopo analítico. Em termos de limitação, sabe-se que o ano escolhido para a análise teve diversos acontecimentos que interferiram na representatividade da região, entretanto, é justamente este um dos pontos a serem considerados, como o caso da hierarquização de outros assuntos em detrimento de conteúdos regionais. Por fim, cabe frisar que o estudo da representação do Nordeste contribui com pesquisas já existentes e futuras, haja vista que a perspectiva analítica pode ser trabalhada de forma comparativa e observando, até mesmo, outras regiões ou a mídia local e regional como alternativa à ausência da representação na mídia nacional.

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Mais adiante, a análise vai tratar exclusivamente do conteúdo noticioso sobre a região e não apenas quando havia menção sobre os estados. Porém, no início, cremos que seja importante mostrar todas as referências, especialmente porque mesmo quando matérias não falem amplamente sobre a região, apresentam citações atreladas aos estereótipos, o que será avaliado adiante.
Foi nesse utilitário que a região apresentou maior destaque e, muitas vezes, era importante observá-lo porque resquícios de estereótipos - a ser discutido mais à frente na análise - apareceram.
Neste caso, foram consideradas somente as reportagens e links que poderiam de fato trazer a presença do repórter local nas matérias.
Vale ressaltar que, nesse item tiveram casos em que uma mesma reportagem incluía a menção de mais de um estado.
Texto original: “There is a basic asymmetry in life between the positive, which is difficult and takes time, and the negative, which is much easier and takes less time”.
Ressalta-se que o serviço de previsão do tempo foi desconsiderado nesta tabela por, em grande parte, serem considerados apenas neutros, por estar tratando apenas de fatores climáticos de forma rápida.
Disponível em: https://bit.ly/38mf96a. Acesso em: 12 nov. 2018.
Disponível em: https://bit.ly/2RDMdQq Acesso em: 31 out. 2018.
Disponível em: https://bit.ly/38kU2BA. Acesso em: 17 jan. 2020.