Papéis discursivos para mulher: uma análise dos casos da revista Veja e do discurso presidencial brasileiro

Palavras-chave: Estereótipos, Pré-construído, Articulação em Discursos Transversos, Efeitos Ideológicos

Resumo

O objetivo deste texto é fazer uma análise teórico-comparativa entre estereótipos de mulher contidos em dois discursos diferentes: 1) a reportagem produzida pela revista Veja acerca de Marcela Temer, em abril de 2016; 2) o pronunciamento de Michel Temer na ocasião do Dia Internacional da Mulher, em março de 2017. Buscamos compreender efeitos de sentido ideológicos que aliam e complementam esses discursos. Partimos do arcabouço teórico da análise do discurso de matriz francesa, relacionando duas noções-conceito – a de pré-construído e a articulação de discursos transversos – aos estereótipos mobilizados, a fim de refletir como os dois discursos, dados em tempos distintos, formam essa correlação discursiva.

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Biografia do Autor

Samuel Ponsoni, Universidade do Estado de Minas Gerais

Pós-doutorado, doutorado e mestrado na Universidade Federal de São Carlos. Licenciatura em Letras português-inglês pela Universidade de Ribeirão Preto. Professor designado da Universidade do Estado de Minas Gerais, unidade de Passos, nos cursos de Jornalismo e Comunicação Social, Publicidade e Propaganda.

Júlia Lourenço Costa, Universidade Federal de São Carlos

Pesquisadora de pós-doutorado na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo/Universidade Federal de São Carlos (Fapesp/UFSCar), com estágio de pesquisa na Universidade Paris XIII Nord. Doutora em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP), com de estágio de pesquisa na Universidade Paris-Sorbonne IV. Mestrado em Linguística pela USP. Bacharel em Letras pela UFSCar.

Referências

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Publicado
2019-12-30
Como Citar
Ponsoni, S., & Costa, J. (2019). Papéis discursivos para mulher: uma análise dos casos da revista Veja e do discurso presidencial brasileiro. Revista Extraprensa, 13(1), 75-95. https://doi.org/10.11606/extraprensa2019.163202

Introdução

Neste artigo, buscamos uma análise teórica e comparativa por meio de algumas noções da chamada análise do discurso (AD) de matriz francesa (PÊCHEUX, 1988) acerca de dois acontecimentos midiático-políticos. O primeiro material a ser analisado é a reportagem publicada pela revista Veja, em 18 de abril de 2016, que veicula certos estereótipos de mulher; o segundo material é o discurso oficial do então presidente brasileiro, Michel Temer1, proferido em 18 de março de 2017, a propósito do Dia Internacional da Mulher, que também mobiliza estereótipos que dizem sobre uma dada compreensão social e histórica de mulher.

Nossa observação teórico-analítica acerca desses discursos, por meio da teoria discursiva mencionada, se dá sobretudo em compreender de que maneira(s) os dois discursos, dados em tempos distintos, formam uma espécie de aliança discursiva, que se complementa para reforçar e apresentar estereótipos femininos ideologicamente marcados por diversos elementos de conservadorismos, na medida em que circunscreve às mulheres posições e papéis que certamente encontram fortes contradições com o imaginário de parte da sociedade brasileira.

A partir de uma breve contextualização da noção de estereótipo para as chamadas ciências humanas e também para a análise do discurso, tentaremos uma aproximação teórica da noção de estereótipo com a noção-conceito de pré-construído (PÊCHEUX, 1988) e a articulação discursiva de discursos transversos em equivalência. Além disso, tentaremos responder, em alguma medida - a do discurso -, como as ideologias, uma força material (PÊCHEUX, 1988, 2010), marcam-se nos discursos ora analisados.

Porém, antes de partir para teorização e análise, é preciso fazer uma observação, a fim de contextualizar a escolha do corpus de trabalho deste artigo: na história política recente do Brasil, poucas vezes se viu um ator político envolvido, em variadas ocasiões, em tantas polêmicas decorrentes de seus discursos quanto Michel Temer. De muitas maneiras, tudo que está ligado ao nome de Michel Temer acaba envolto em algum tipo de querela.

Pode-se aventar que Temer e seu entorno pagam certo preço por uma grande crise institucional brasileira - em muito decorrida da atuação de seu círculo político -, com tons agravantes de grande crise econômica e forte repolarização dos embates e contradições de Brasil, inclusive ideológicas2.

Talvez eles paguem o preço também das diversas formas e meios de interação comunicativa entre os sujeitos, disponíveis atualmente. A contemporaneidade assiste à proliferação dos meios de comunicação e, decorrente deste fato, há diversas formas de circular os discursos e disponibilizá-los, instantaneamente, a qualquer sujeito disposto a dar “sua opinião”. Aliás, o Brasil, sobretudo a partir das disputas eleitorais de 20143, para presidência da República, incorporou marcas sociais que, certamente, estarão para sempre na história de nosso país.

No caso específico das eleições para a presidência do país, há inúmeros aspectos que corroboram esta asseveração: a narrativa da campanha - peças publicitárias, confronto de declarações, debates acalorados, as chamadas desconstruções dos atores políticos - bastante acirrada e, principalmente, o maior engajamento político de parte da população brasileira, embora, na maior parte dos casos, por vias virtuais. A peleja eleitoral ganhou, então, muita repercussão não somente na chamada mídia tradicional, isto é, os jornais de grande circulação (impressos e/ou digitais), mas principalmente nas redes sociais, de mais variados tipos (Facebook, Twitter, WhatsApp, entre outros).

Por um lado, o engajamento político em si, ainda que muitas vezes marcado por debates que não demonstram a devida profundidade, com a veiculação de informações imprecisas - seja por desinformação ou por desonestidade intelectual - é um saldo positivo. Democracia, apesar de ser a democracia burguesa possível, é também isso: engajamento e disputa ideológica o tempo todo4.

Por outro lado, entretanto, nas disputas eleitorais, houve também fatores perniciosos do engajamento político, assinalado, por exemplo, nas manifestações de ódio, de não tolerância da alteridade física e intelectual, de preconceitos de toda sorte.

Portanto, ao mesmo tempo em que ressurge o autoconhecimento do povo brasileiro sobre a importância da mobilização e da participação política, emerge também a falta de tolerância e o próprio ódio em relação aquilo que não sou “eu” ou não representa “meu” grupo de pensamento e convívio social; além de diversos outros tipos de preconceito e pensamentos arcaicos.

Parte do processo desse acirramento entre trocas intersubjetivas, mediadas pela linguagem e pelo discurso, está relacionado à cibercultura5. Como dissemos, o desenvolvimento e utilização de novas tecnologias propiciou a manifestação virtual do posicionamento político-ideológico do sujeito. Nessa conjuntura, Temer e sua base política estiveram no centro dos acontecimentos mais discursivamente polêmicos, alguns deles relacionados diretamente à concepção de Brasil que provavelmente esse grupo tem e do papel que cada sujeito deve ocupar na sociedade.

Desses acontecimentos, uma pequena frase surgida acerca de Marcela Temer, a então primeira-dama, fez emergir uma gama de discursos em discrepância ideológica acerca de seu conteúdo. “Bela, recatada e do lar” é título da reportagem veiculada pela revista Veja - um dos veículos midiáticos que mais se engajaram para que o grupo Temer chegasse ao poder - na qual Marcela Temer é o objeto principal de uma descrição que denota diversos estereótipos de mulher, atinados a certos pontos de compreensão social e histórica sobre o lugar que as mulheres podem e devem ocupar na sociedade brasileira.

O enunciado “bela, recatada e do lar”, destacado e elevado a título, está contido no corpo do texto e julga moralmente as características “femininas” positivas de Marcela, tais como a sua beleza (participou de concursos de miss, vai frequentemente ao dermatologista cuidar da pele), o seu cuidado com a família (leva e traz Michelzinho da escola, cuida da casa), a sua educação (é bacharel em direito, apesar de nunca ter exercido) e seu pudor (aparece em público poucas vezes; Temer foi seu primeiro namorado), como podemos verificar nos seguintes excertos:

Marcela se casou com Temer quando tinha 20 anos. O vice, então com 62, estava no quinto mandato como deputado federal e foi seu primeiro namorado. […]

Bacharel em direito sem nunca ter exercido a profissão, Marcela comporta em seu curriculum vitae um curto período de trabalho como recepcionista e dois concursos de miss no interior de São Paulo (representando Campinas e Paulínia, esta sua cidade natal). Em ambos, ficou em segundo lugar. Marcela é uma vice-primeira-dama do lar. Seus dias consistem em levar e trazer Michelzinho da escola, cuidar da casa, em São Paulo, e um pouco dela mesma também (nas últimas três semanas, foi duas vezes à dermatologista tratar da pele). […]

Em todos esses anos de atuação política do marido, ela apareceu em público pouquíssimas vezes. “Marcela sempre chamou atenção pela beleza, mas sempre foi recatada”, diz sua irmã mais nova, Fernanda Tedeschi. “Ela gosta de vestidos até os joelhos e cores claras”, conta a estilista Martha Medeiros (LINHARES, 2016).

Marcela é apresentada no texto verbal como modelo a ser seguido, uma vez que a reportagem é construída como espécie de manual, de cartilha, que elenca as características necessárias para a concepção mais eufórica, ou seja, valorizada, da mulher, segundo o ponto de vista estereotipado da revista. Isto é, uma compreensão de lugar histórico e social da mulher que endossa certo posicionamento a ser repetido. Marcela não é apenas a primeira-dama, ela representa metonimicamente a mulher ideal, e sua apresentação, segundo tais categorias, esclarece determinado papel social a ser por elas desempenhado na sociedade.

O enunciado veiculado pela revista Veja reproduz e reforça o papel historicamente determinado da mulher na sociedade, sob amplo domínio masculino, a partir do acionamento de estereótipos ligados à figura feminina: a mulher arrumada e feliz, que cuida apenas da casa e dos filhos, que não desempenha sua profissão em detrimento da família etc. Esse enunciado provocou grande polêmica não só nos veículos midiáticos, mas na sociedade como um todo, que se viu requisitada a tomar posição.

Além disso, a construção do texto visual corrobora com as características descritas no texto verbal: na foto, que faz parte da reportagem, Marcela aparece produzida (maquiada e com penteado simples, que enaltecem sua beleza); com um sorriso contido (encarnando o recato) e portando roupas escuras e que cobrem grande parte do corpo (que remetem ao seu pudor). A foto de meio-corpo, ademais, não permite o acento em sua silhueta feminina (Figura 1)6:

Foto da reportagem da Veja, de abril de 2016

[ Figura 1 ]: Foto da reportagem da Veja, de abril de 2016

O enunciado (bela, recatada e do lar) instantaneamente passou a circular nos mais diversos meios, tomando os mais variados contornos e avaliações, sob as mais diversas manifestações semióticas, como memes, matérias de outras revistas e jornais, redes sociais variadas, se colocando tanto a favor quanto contra tal estereótipo veiculado de maneira velada pela revista. Um exemplo, apenas ilustrativo, pode ser encontrado na revista Piauí, de setembro de 2016, que ironiza a situação criada pelo enunciado em sua capa.7

Se os discursos se constituem a partir de outros discursos e assim constroem as significações, eles carregam em si memórias de passado, presente e futuro e, dessa forma, são capazes de inter-relacionar e conectar diversas partes da estrutura social em seu conteúdo ideológico vinculado. Passam a significar para além das peculiaridades materiais e históricas, sendo repetidos e repetíveis ao longo dos percursos da sociedade e dos sujeitos. Por isso, é preciso pensar tais relações regidas por um interdiscurso que compreendemos “como conjunto de discursos […] que mantêm relações de delimitação recíproca uns com os outros” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU 2008, p. 286), além de definições mais específicas ainda trazidas neste artigo, mas que por esse mesmo primado de existência de interdiscurso é que a reportagem da revista Veja e a capa da revista Piauí podem ser colocadas em relação. A correspondência temática evidenciada pela construção dos ideais não só de mulher, mas também de homem e de família, está ancorada nos segmentos verbais e visuais veiculados por esses discursos.

Aliado a esse material da Veja, o discurso proferido pelo ex-presidente Michel Temer no Dia Internacional da Mulher (08/03/2017) reforça a construção da figura feminina alinhada ao comportamento estereotipado de Marcela e da mulher “ideal”, sob a perspectiva do então presidente e outros atores e setores sociais que lhe dão suporte. Observemos a seguir:

Eu não preciso, depois do discurso emocionado da Luislinda, de todos enfim, dizer da importância da mulher e da luta permanente que a mulher vem fazendo ao longo do tempo no Brasil e no mundo. Que aqui e fora do Brasil, em outras partes do mundo, a mulher ainda é tratada como se fosse uma figura de segundo grau, quando na verdade, ela deve ocupar o primeiro grau em todas as sociedades.

Eu digo isso com a maior tranquilidade, porque eu tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela, o quanto a mulher faz pela casa, o quanto faz pelo lar, o que faz pelos filhos. E, portanto, se a sociedade de alguma maneira vai bem, quando os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada educação e formação em suas casas. E seguramente isso quem faz não é o homem, isso quem faz é a mulher. […]

De modo que, ao longo do tempo as senhoras, as mulheres, deram uma colaboração extraordinária ao nosso sistema. E hoje, como as mulheres participam em intensamente de todos os debates, eu vou até tomar a liberdade de dizer que na economia também, a mulher tem uma grande participação. Ninguém mais é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados do que a mulher. Ninguém é capaz de melhor detectar as eventuais flutuações econômicas do que a mulher, pelo orçamento doméstico maior ou menor (DISCURSO…, 2017).

Depreende-se, a partir das análises das citações e das imagens, que os dois discursos, (reportagem da Veja e o discurso do ex-presidente na ocasião do Dia Internacional da Mulher), de maneiras diferentes, se valem de estereótipos pré-concebidos acerca da mulher, estruturados de acordo com determinada forma de compreender e pensar o Brasil para as mulheres.

Dessa maneira, de um lado, temos Marcela, que representa metonimicamente o estereótipo euforizado de mulher: na imagem veiculada pela revista Veja ela é fotografada de frente, levemente sorridente e portando um xale que vela a silhueta de seu corpo. Tais fatores corroboram o discurso da Veja, que descreve a primeira-dama como “bela, recatada e do lar”. De outro, define-se, na fala do ex-presidente, certo discurso calcado em estereótipos ideologicamente pré-construídos para definir o papel social da mulher, que de acordo com ele se resumem a cuidar da educação dos filhos e da economia nas compras do supermercado.

Temer profere um discurso que em muitos aspectos retoma o discurso publicado pela Veja, cerca de um ano antes, mobilizando a memória discursiva acerca do acontecimento anterior e de tantos outros que com este dialogam. Segundo Pêcheux, a memória discursiva é considerada como um espaço de regularização da materialidade discursiva, espaço potencial de coerência dos sentidos a um determinado direcionamento ideológico (PÊCHEUX, 2007). Na leitura e interpretação dos acontecimentos, a memória vem a preencher os implícitos, permitindo a interpretação do texto e reestabelecendo o que não está dito na enunciação e abrindo espaço a um caminho de rumores públicos (PÊCHEUX, 2007, p. 52).

Portanto, não se pode tratar a memória como algo cristalizado, um fenômeno rígido e fixo, ou um jazigo em que se pode observar os fatos históricos repousantes. A memória social deve ser compreendida como uma construção e, ainda que memória, uma dinâmica tensiva em que se pode observar diversas nuanças histórico-sociais por meio das vozes legitimadas, implícitos e outros elementos que contam essas próprias nuanças. Todavia, ainda na esteira da argumentação de Pêcheux (2007, p. 52), “a questão é saber onde residem esses famosos implícitos, que ‘estão ausentes por sua presença’”.

É dessa relação dos discursos de Veja e Temer, a partir do imbricamento, em aliança, desses estereótipos ideologicamente pré-construídos sobre articulados no dizer dos discursos sobre as mulheres que faremos as análises deste artigo e tentaremos responder, ainda que minimamente, a questão posta pelo filósofo francês.

Estereótipos: um preâmbulo

No tocante aos estereótipos, como bem aponta Amossy (1991, 2008) e Amossy e Pierrot (2007), aparentemente estamos lidando com algo que traz memórias pré-concebidas, sempre já-lá a serem usadas, mas de maneira geral e em um senso mais comum em perspectivas negativas e que de alguma forma transformam traços mais ou menos estáveis, mais ainda em certas regularidades negativas. Ou seja, entram e saem quadras históricas e os traços negativos cumprem a função de alimentar pré-conceitos mais ou menos estabilizados - e justamente esse movimento contribui para sua estabilidade - no corpo social. De acordo com a autora, o processo de estereotipagem é

a operação que consiste em pensar o real por meio de uma representação cultural preexistente, um esquema coletivo cristalizado. Assim, a comunidade avalia e percebe o indivíduo segundo um modelo pré-construído da categoria por ela difundida e no interior da qual ela o classifica (AMOSSY, 2008, p. 125).

Se, por um lado, ao senso comum, fenômenos ligados a estereótipos estiveram quase sempre associados a traços de negatividade e, até mesmo, como diz Amossy (1991, 2008) e Amossy e Pierrot (2007),considerados como evidência de banalidade, por outro lado, nos domínios mais científicos, os estereótipos foram frequentemente analisados em suas múltiplas funções nas esferas de atividade social,

O estereótipo aparece, portanto, como objeto transversal e contemporâneo nas reflexões das ciências humanas, e nem sempre tomado como algo ruim. Ele atravessa questões de opinião e de senso comum, de relações com o Outro, de categorizações, permitindo estudar as interações sociais, a relação do discurso com o imaginário social e, mais amplamente, a relação entre língua e sociedade (AMOSSY, 1991, p. 7, tradução nossa).8

É o caráter mais amplo, como se vê nessa citação, qual seja, entender a relação entre língua (e também discursos) e sociedade, que nos faz crer na hipótese de que pode o estereótipo ser uma noção-conceito bastante produtiva para a compreensão dos objetos que aqui buscamos analisar.

Segundo Amossy (1991), é após os anos de 1950 que começa a existir uma ampliação de matizes de sentidos para o termo estereótipo. É por via da psicologia social, sobretudo de base norte-americana, ou inspirados na esteira desses estudos, que se questiona estereótipos ligados somente aos critérios depreciativos.

Com efeito, estereótipos possuem caracteres mais ou menos fixos e rígidos, que esquematizam e categorizam, dão certo padrão a elementos simbólicos e materiais circulantes em um ambiente social. Isso se torna fundamental na inter-relação entre sujeitos ou grupos à luz cotidiana da necessidade de interação9. São ainda essenciais à própria cognição, embora possa se questionar o padrão generalizante e simplificador de uma categoria tão ampla como “cognição”, o que evidentemente não cabe à nossa discussão também10.

Na dimensão da compreensão histórica, os estereótipos nos são dispostos e/ou impostos pelo que temos de modelos já existentes, já-lá, já construídos, para que depositemos nossa compreensão de mundo e, mais ainda, nossa filiação identitária canalizadas nessas formas mais ou menos fixas de significar sujeitos, lugares e grupos sociais.

Do homem ao sujeito, passando por diversas instâncias, buscamos a previsibilidade e o padrão de repetição, aos quais ajustamos nosso comportamento (signos, observação do tempo, espaço, universo, navegação, clima etc.). Assim, ao se tornar objeto de pesquisa mais amplo, isto é, ao se pesquisar mais aspectos na teoria de estereótipo, como advoga Amossy, o conceito se revitaliza e passa a operar em outras aplicações científicas, que, por sua vez, visam a explicar variados fenômenos, principalmente de cunho social. Tais definições alternativas, como ressalta a autora, têm sido propostas para relativizar ou neutralizar os aspectos degradantes do fenômeno e jogá-lo também em uma dimensão construtiva de interações entre sujeitos, grupos sociais e a história material que os cerca.

Há, nessa esteira de análise, outros estudiosos que empreenderam pesquisas sobre a noção-conceito de estereótipo, especialmente nas ciências da linguagem. Estes estudos se localizam em diferentes escopos, que vão desde a ligação de estereótipos e as palavras que os referem (a forte ligação entre as palavras e os referentes correspondentes) até estudos, por exemplo, da AD, que lidam com questões de formação histórica.

Em uso comum, no entanto, o termo estereótipo continua geralmente sendo usado para designar uma imagem coletivamente fixa, uma vez que, ao pensar na noção-conceito com o descrédito pejorativo, estereótipos estariam numa relação fortemente marcada na causa e efeito, com elementos e expedientes que ligam uma dada visão de mundo à própria cultura de onde ela se originou.

Em uma frente mais contemporânea, Pierre Bourdieu (1996, 2013), trabalhando nos domínios epistemológicos da sociologia, mais precisamente naquilo que ele asseverou como “sociologia dos campos”, trouxe a noção de doxa à evidência, para de alguma forma relacioná-la à noção-conceito de estereótipo. De fato, a noção de doxa, ainda que nos entornos literários, ganhou força nos estudos que Bourdieu empreendeu sobre a linguagem dos códigos e seu papel naquilo que se denomina trocas simbólicas, terreno fecundo, em que, heterodoxamente, introduziu-se um novo quadro para o estudo do estereótipo. Para este filósofo e sociólogo francês, são de fato estereótipos que estão em jogo, e não somente elementos de dimensões de cunho estético, tal qual se poderia pensar de um clichê.

O conceito de doxa, ainda na geografia francesa, já era conhecido através dos trabalhos de estudos literários na obra de Roland Barthes (1985) sobre mitologias contemporâneas. O citado Barthes, neste caso, se distanciaria em parte de Bourdieu, pois para ele o símbolo é uma força de afirmação. Desta perspectiva, portanto, estereótipos fariam parte de um conjunto amplificado do sentido de doxa, sendo esta, por exemplo, uma opinião pública, um pensamento que controla e lidera uma massa, uma voz natural que determina o que pode e deve ser dito, ou mesmo ainda a violência do preconceito. Barthes, com efeito, coloca na centralidade do debate a questão da construção social, via simbolismos dos estereótipos, atrelada, via linguagem, à questão da enunciação, tal qual ele compreende. Portanto, o fenômeno dos estereótipos afeta diretamente a forma de enunciação no nível do enunciador e do coenunciador.

Assim, na enunciação, não poderíamos nos desgarrar da noção de estereótipo sem apresentar um ato enunciativo, que, em si, traz algo já mais ou menos estabilizado em crenças públicas, criando então um movimento “infinito”. De acordo com Amossy, a leitura barthesiana, sobretudo durante os anos 1970 e 1980, encorajou a procura de formas que provassem suas ideias. Nos estudos literários existiram grandes adeptos, que foram fortemente influenciados pela crítica generalizada de sua ortodoxia, apartados das dimensões de linguagem que, ao contrário da negação, estavam, à época de Barthes, no ápice do desenvolvimento com o advento estruturalista. Mas neste contexto de desconfiança em relação ao já dito, ao já pensado, a crença, a ortodoxia e os estereótipos estão ligados sem distinção real em terminologias.

Seguindo as frinchas teóricas de Barthes, Amossy, principalmente em Les idées reçus: semilogie du estereotype, vê essa obsessão generalizada com a ortodoxia uma marca de um dado tempo epistemológico. Nutrida em uma tradição semiológica francesa, majoritária por muito tempo, ela enfatiza não só a bivalência da noção-conceito de estereótipo, mas também suas funções construtivas. Para Amossy, o estereótipo deve ser estudado como um fenômeno separado do clichê e/ou do lugar-comum, por considerá-lo como uma representação social, um esquema coletivo, retratado a um dado tempo, o que, portanto, corresponde a um modelo cultural localizado no tempo-espaço, por exemplo, em uma pesquisa.

A análise de enunciação considera o jogo com a crença de que se desenvolve entre o texto e imagens ideológicas implementadas no jogo social, muito em função de desempenhar um papel de interação social por meio de gêneros textuais. Finalmente, Ruth Amossy mostra que os estereótipos modernos provocaram várias estratégias operacionais de sistemas coletivos já previamente estabelecidos, circulando em saberes fixos às ideologias constituidoras das identidades dos sujeitos em interação social.

A partir do exposto, é possível, então, depreender que estereótipos são formas basais daquilo que a AD entende por um já-dito?

Estereótipos: pré-construções ideologicamente marcadas em discursos

No início dos trabalhos que ficaram conhecidos na França e, posteriormente, no mundo, como a escola francesa de análise do discurso, não se colocou abertamente em causa estudos acerca dos estereótipos, embora um dos primeiros investimentos teóricos de Michel Pêcheux tenha sido tentar dar conta das chamadas condições de produção dos discursos, que, em parte baseada nos estudos advindos da psicologia social, trabalhou a formulação das imagens ideológicas que sujeitos, mobilizados em práticas discursivas, faziam de si e de si diante do outro e do universo social. Além disso, essas imagens e outros elementos ligados aos discursos estariam sob a circunscrição de um primado de interdiscurso, um “todo e complexo com dominante” (PÊCHEUX, 1988), conceito este que requer uma análise que tentaremos observar mais à frente neste artigo.

Com efeito, este conceito de condições de produção figura e se articula para substituir questões da ligação entre a circunstância em que um discurso é produzido e a produção de efeitos de sentidos derivados das condições que lhe são pertinentes, levando em conta as formações imaginárias ideológicas e a relação entre sujeitos e sua posição histórica ocupada. Além disso, essa mesma noção de condições de produção veio a surgir na AD para pensar e romper a mobilização das noções de contexto e sujeito de correntes linguísticas de filiação pragmaticista e teorias da enunciação11.

Esse movimento que a AD realiza, além de tentar analisar sob outra abordagem as questões de contexto, circunstância, lugar enunciativo, trata de marcar o território epistemológico e institucional de onde ela deseja partir, rompendo, assim, com as abordagens pragmáticas em muitos aspectos. Assinalaremos duas rupturas: em primeiro lugar, a ruptura do entendimento de sujeito em relação às correntes pragmáticas; em segundo lugar, a ruptura da noção de contexto substituída pela argumentação do conceito de condições de produção.

Na análise do discurso, ao contrário de algumas conceituações pragmáticas, o que se leva em consideração na interação comunicacional não são somente elementos da ordem da língua, mas também os elementos que escapam à ordem da língua em aspectos em que estão imbuídos componentes ideológicos e históricos, estes que são construídos nas enunciações a partir da tomada de posição - gerando, então, um posicionamento - a que os sujeitos se condicionam. Isto é, a garantia que sustenta o sentido da posição do enunciador de determinado discurso não está no contexto imediato, ou no próprio ato da enunciação, em que cada sujeito sabe e domina toda a produção enunciativa do que diz, nos ditames da regência de um contrato, mas está materializada em elementos linguísticos e em elementos implícitos dos enunciados.

Esses elementos são postos na enunciação e sustentados por outra ordem, a saber, a ordem ideológica a que sujeitos inscrevem seu dizer e o atualizam de acordo com o que já foi dito antes naquele mesmo lugar, para representar o sistema de imagens que vão sendo construídas conforme as posições ocupadas pelos sujeitos.

Dessa forma, ainda que não tenha tratado diretamente a questão dos estereótipos, a teoria do discurso francesa estabeleceu uma frincha importante e favorável para a prospecção futura da noção-conceito de estereótipo em seu quadro teórico. Para além da sua diversidade atual, a análise do discurso é caracterizada por uma série de pressupostos teóricos que resvalam na noção de estereótipo.

Nesse sentido, Sírio Possenti (2010), em Humor, língua e discurso, aponta variados casos em que os estereótipos, traduzidos em simulacros - baseados, entre outros, nas teorias de Maingueneau (2005) -, trabalham, ao serem mobilizados discursivamente, para refutar, chacotear, difamar ou escachar os estereótipos que seriam seus opostos. A tese, consistente e bastante interessante, utiliza como parte mais ampla de suas análises um arquivo de piadas com estereótipos étnicos, regionais, comportamentais característicos. Entre outras coisas, são expostos quase sempre em uma relação disfórica de estereótipos, concepções e discursos ao que se trata de opostos discursivamente.

É dessa relação que se tem de suas pesquisas a teoria dos estereótipos básicos e dos estereótipos opostos, ligados a um primado de que o discurso vive sob interdiscurso, ou seja, toda ordem enunciativa dessas práticas - e de todas as outras, para a AD - vivem sob a coerção de orientação daquilo que pode e deve ser dito numa dada condição de produção histórica, abalizada, portanto, num universo interdiscursivo da realização dos discursos.

Assim, há de fato indícios que envolvem enunciativamente a articulação linguística e os expedientes sociais, discursivos e interdiscursivos, além da inclusão de restrições genéricas (que em parte lembram estruturas mais ou menos fixas para o uso linguageiro e de conteúdo por parte dos sujeitos) e institucionais que regem a fala encenada nas práticas discursivas, como o são as piadas analisadas por Possenti.

No entanto, diferentemente dos corpora trabalhados por Possenti, que parecem estar sempre em relação polêmica, de discrepância, contradição das identificações, em nossos dois objetos de análise há uma relação em aliança, a partir do que é pré-construído de estereótipo de mulher. Esse pré-construído se sustentará na articulação do discurso, um discurso transverso, aos dois objetos discursivos e que resultam em algo conservador, limitando o papel da mulher a espaços subjugados a um também conservadorismo machista, de conformidade familiar, em que a mulher, recatadamente, repousa em um lar e nunca a si mesma ou para si mesma de forma autônoma.

A partir deste ponto de vista, o significado e os efeitos de sentido dos discursos não são separáveis da gestão das condições históricas em que estão inseridos (pensando contextos como as manifestações sintáticas, enunciativas, genéricas); estas últimas relacionadas aos gêneros - como a notícia, a conferência, o editorial, o discurso solene sustentado oralmente etc., ou mesmo o lugar da subjetividade dos sujeitos no campo sócio-histórico e institucional.

Sob essa perspectiva, a noção de pré-construído, introduzida na análise do discurso de Michel Pêcheux, na década de 1970, por outro teórico, Paul Henry, torna-se uma importante contribuição teórica, que pode ter sido, segundo Amossy (1991), subutilizada no estudo dos estereótipos sociais. Pêcheux definiu a noção de pré-construído levando em conta a referência ao trabalho de Henry:

Foi isso o que levou Henry a propor o termo “pré-construído” para designar o que remete a uma construção anterior, exterior, mas sempre independente, em oposição ao que é “construído” pelo enunciado. Trata-se, em suma, do efeito discursivo ligado ao encaixe sintático (PÊCHEUX, 1988, p. 99).

Em geral, os pré-construídos procedem de uma concepção de sujeito que não é intencional idealista (ou uma aspiração disso, já que vivemos num mundo liberal-burguês), ao que seria para a pragmática linguística, mas um sujeito tomado em uma linguagem, cindido. Nessa conjuntura, elementos ditos de outra forma, independentemente da enunciação atualizada, “controlam” - talvez, melhor dizendo, direcionam a forma como deve ser enunciado - o que se asseverou discursivamente.

Diremos, então, que o “pré-construído” corresponde ao “sempre-já-aí” da interpelação ideológica que fornece-impõe a “realidade” e seu “sentido” sob a forma de universalidade (“o mundo das coisas”), ao passo que a “articulação” constitui o sujeito em sua relação com o sentido, de modo que ele representa, no interdiscurso, aquilo que determina a dominação da forma-sujeito (PÊCHEUX, 1988, p. 164, grifo do autor).

Nessa esteira, o estereótipo tangenciaria duas facetas da noção-conceito de pré-construído: o nível da memória dos sujeitos de que ele se refere a um tipo de construção sintática já pré-acordada e implementada, isto é, algo que possa ser trazido para compor a regularidade de identificação discursiva do dizível; e o nível do significado, mais amplo, pois desemboca também em efeitos de sentido. Estes dependem umbilicalmente dos implícitos nos enunciados12, que são como feixes ideológicos transitando nos pré-construídos circulantes no interdiscurso que circunscrevem o que as formações discursivas oferecem/impõem na instrução individual aos sujeitos daquilo que pode e deve ser dito nos processos enunciativos das práticas discursivas. Tal circunscrição, por seu turno, leva em conta pré-julgamentos ideologicamente formulados, cuja origem está desmarcada e/ou dissimulada, ou, ainda, em aliança ou contradição ideológica.

E a noção de pré-julgamento nos remete à ideia de estereótipos, até mesmo como representatividade social das interações intersubjetivas. A análise do discurso compreende, especificamente por sua parte em estereótipos, “esquemas” implícitos ou provas compartilhadas subjacentes a discursos localizados, a um discurso enunciado por práticas discursivas e institucionais.

Os discursos que, por primado, estão circunscritos por um interdiscurso que se lineariza em um intradiscurso, mobilizam a noção de estereótipo ao articular a construção já-lá, já construída, que cria efeitos de sustentação em discursos transversos, por exemplo. Aliás, por perspectiva discursiva de análise, não se pode deixar de levar em conta a relação fundamental entre intradiscurso e interdiscurso.

O intradiscurso é definido como o “funcionamento do discurso” em relação a ele mesmo (o que eu digo agora, em relação ao que eu disse antes e ao que direi depois), logo, o conjunto de fenômenos de “correferência” que asseguram o que podemos chamar o “fio do discurso”, enquanto discurso de um sujeito. O intradiscurso só pode ser pensado em relação ao interdiscurso” (MALDIDIER, 2003, p. 54).

Estes discursos transversos são, então, evidências discursivas que aludem a uma dada causa e efeito do que se tem pré-construída e o que se pode enunciar em dada posição das formações discursivas.

Veja e Temer: uma aliança discursiva?

Nos dois materiais de análise aqui nesta seção, recortes dos discursos da Veja e do pronunciamento de Temer, os quais chamaremos Recorte-1-Veja e Recorte-2-Temer, buscamos compreender e refletir acerca da evidência ideológica que determina aos sujeitos o conhecimento e o saber de o que é ser mulher, representar uma mulher, o lugar da mulher e seu papel social.

Recorte-1-Veja:

Marcela é uma vice-primeira-dama do lar. Seus dias consistem em levar e trazer Michelzinho da escola, cuidar da casa, em São Paulo, e um pouco dela mesma também (nas últimas três semanas, foi duas vezes à dermatologista tratar da pele) (LINHARES, 2016, grifo nosso).

Recorte-2-Temer:

Eu digo isso com a maior tranquilidade, porque eu tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela, o quanto a mulher faz pela casa, o quanto faz pelo lar, o que faz pelos filhos. E, portanto, se a sociedade de alguma maneira vai bem, quando os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada educação e formação em suas casas. E seguramente isso quem faz não é o homem, isso quem faz é a mulher […] (DISCURSO…, 2017, grifo nosso).

As ideologias que ganham contornos nos estereótipos de mulher trazidos no discurso de ambos os recortes parecem trazer também certa regularidade de formação discursiva. Diríamos, nesses casos, haver uma conformação discursiva. A regularidade que os discursos apresentam parece ser ofertada/imposta para cada formação discursiva, trazida dos mesmos lugares interdiscursivos, de um certo exterior específico e que se encaixa como evidência de sentidos em ambos os discursos. Tal conclusão é alcançada “ao reconhecermos que a formação discursiva é o lugar da constituição do sentido (sua ‘matriz’, por assim dizer)” (PÊCHEUX, 1988, p. 162).

A noção de formação discursiva, central para a análise do discurso francesa, foi introduzida por Foucault (1969) e reformulada por Pêcheux, que a define como “aquilo que pode e deve ser dito […] a partir de uma posição dada em uma conjuntura dada” (HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX, 2007, p. 26). Dessa maneira,

Uma FD não é um espaço estrutural fechado, pois é constitutivamente “invadida” por elementos que vêm de outros lugares (isto é, de outras FD) que se repetem nela, fornecendo-lhe suas evidências discursivas fundamentais (por exemplo sob a forma de “pré-construídos” e de “discursos transversos”) (PÊCHEUX, 1990, p. 314).

A formação discursiva aparece, então, inseparável do interdiscurso, ou melhor, de elementos de interdiscurso, como o pré-construído, que determinam o exterior específicos das formações discursivas, como já dissemos, além de ser lugar em que se constituem os objetos e a coerência dos enunciados que provêm de uma formação discursiva que, por sua vez, vem de formações ideológicas.

Falaremos de formação ideológica para caracterizar um elemento suscetível de intervir - como uma força confrontada a outras forças - na conjuntura ideológica característica de uma formação social em um momento dado. Cada formação ideológica constitui desse modo um conjunto complexo de atitudes e de representações que não são nem “individuais” e nem “universais”, mas que se relacionam mais ou menos diretamente com a posição de classes em conflito umas em relação às outras (HAROCHE; HENRY; PÊCHEUX, 2007, p. 27).

Nesse sentido de ideologia, a análise do discurso, via Pêcheux, busca novas compreensões para as descrições e interpretações de ideologia, ao colocá-la como fundamental na relação com a linguagem, materializada na língua, nos processos discursivos. Ideologias, mais comumente teorizadas, são forças materiais e simbólicas que apagam e/ou mitigam as contradições históricas entre as classes sociais. Distorcem, falseiam e dissimulam as condições reais da existência dessas classes, reforçando/forçando as condições entre dominantes/dominados. As ideologias não são algo já dado, mas construídas numa inter-relação entre ideologias predominantes e ideologias não-predominantes, que alinham ou discrepam a própria relação de dominados e dominantes. Essa construção ideológica circunda a conjuntura e as condições históricas do dizer no discurso, em que as ideologias constituem-se em evidências/apagamentos de sentidos para sujeitos também nelas constituídos.

Os sentidos aparecem para os sujeitos como uma evidência/apagamento, como se sempre já estivessem ali, prontos para serem dispostos e significar o mundo à sua perspectiva. Evidenciam posições-sujeito em contradições com sua condição, formação e posição de classe. Ou seja, a ideologia, como objeto de interpretação dos sentidos para os sujeitos, se manifesta na linguagem como transparência, apagando ou emergindo elementos da ordem da história como algo naturalizado.

As posições do sujeito requerem um preenchimento ideológico, como formas-sujeito inscritas em discursos. A ideologia não é somente a ocultação de sentidos, mas a função de ligação/entrelaçamento entre linguagem e mundo por meio dos discursos.

Nos casos por nós analisados, a dissimulação ideológica do discurso de Temer, por exemplo, está ligada à ordem dos sentidos de seu discurso, uma vez que, ao fazer um pronunciamento em uma data historicamente constituída para as mulheres - como um acontecimento de luta, busca de espaço e afirmação social - Temer, a propósito de lhes ser enaltecedor, simpático e reverenciador de suas conquistas e importância, dissimula aquilo que é da ordem historicamente ideológica na sua matriz de sentido, ou seja, de sua formação discursiva, que busca, a partir da circunscrição do complexo de dominância, formas pré-construídas e estereótipos, designar predicações discursivas sobre as mulheres.

Dissimulando e mitigando as contradições ideológicas que circulam historicamente no interdiscurso, fazendo-as parecer evidentes, na transparência do discurso, Temer tenta tornar possível suas palavras como a representação mais adequada, mais consolidada e mais bem formulada acerca do papel da mulher. Assim, ele deixa aparecer e evidenciar sua posição de classe, esquecendo-se sua real condição no papel de presidente, segundo a qual seria pressuposto lidar com tais questões de forma a agregar e ser o mais inclusivo possível acerca dos direitos e conquistas de todos os cidadãos e, principalmente, neste acontecimento de 8 de março, sobre as conquistas de todas as mulheres.

É interessante observar que os sentidos e predicações discursivas dadas à mulher, tanto por Temer quanto pela Veja, circulam ou parecem circular nos mesmos trilhos interdiscursivos, formando, portanto, matrizes ideológicas nas formações discursivas de ambos de forma muito similar. Tão similares que os pré-construídos, dados em estereótipos, são praticamente os mesmos, ditos em processos discursivos que lançam mão de formulações linguísticas distintas, mas que formam perfeitamente uma relação de equivalência. Um sistema de evidências - aceitas e experimentadas - e uma identificação entre os discursos e as formações que os dominam.

Além disso, os dois recortes analisados encontram-se em aliança de complementaridade e equivalência, isto porque no Recorte-1-Veja encontramos enunciado que “Marcela é uma vice-primeira-dama do lar. Seus dias consistem em levar e trazer Michelzinho da escola, cuidar da casa, em São Paulo […]”, algo corroborado pelo discurso do Recorte-2-Temer, como equivalência, principalmente quando este faz referência ao papel social desempenhado pela mulher na criação dos filhos, por exemplo.

Os pré-construídos e discursos transversos na Veja são retomados por Temer e funcionam, em complemento, a favor de seus argumentos discursivos. A noção de estereótipo já construída na revista - que serve para qualquer outrora dito desse mesmo exterior específico das formações discursivas de ambos - pode ser retomado aqui sob o discurso de Temer, no qual ele afirma saber “até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela, o quanto a mulher faz pela casa, o quanto faz pelo lar, o que faz pelos filhos” (Recorte-2-Temer).

Esse discurso outrora já dito e significado sobre o que é e sobre o que pode e deve ser desempenhado pela mulher na sociedade faz com que esse sujeito do discurso funcione e forneça (e também imponha), por seu turno, as identificações necessárias para que outros tomem a posição:

Observaremos, por outro lado, que o interdiscurso enquanto discurso-transverso atravessa e põe em conexão entre si elementos discursivos constituídos pelo interdiscurso enquanto pré-construído, que fornece, por assim dizer, a matéria-prima na qual o sujeito se constitui como “sujeito falante”, com a formação discursiva que o assujeita (PÊCHEUX, 1988, p. 167).

A partir da referida citação é possível depreender que a evidência, nas palavras e ações, das ideologias ligadas aos estereótipos de mulher já-lá significados e já-antes significados funciona não só como efeito discursivo, mas também, para os sujeitos, como forma de adesão e identificação para si e para outros. Os discursos da Veja e Temer confundem-se entre o que é dito e aquilo que é a propósito do que foi dito.

O real ideológico-discursivo é determinado e materializado na realização do interdiscurso em discurso transverso. Os pré-construídos para cada formação discursiva são aceitáveis a depender das condições de produção do que se enuncia. A evidência de sentido de cada formação discursiva é também determinada pelas condições de produção dos discursos, seja levando em conta os pré-construídos, que já foram ditos antes - e estes podem vir em formas de estereótipos -, seja as conjunturas sócio-históricas mais imediatas.

Em outras palavras, os pré-construídos podem ser concebidos como o conhecimento partilhado entre todos. No universo de sentido criado por meio dos discursos de Veja e Temer - provavelmente correlatos -, podem e devem saber os estereótipos de papel social da mulher evocados na articulação - discurso transverso - daquela conjuntura sócio-histórica dada, que são concretizados na figura de mulher servil ao homem e recatada às questões do lar.

É bastante significativo Temer, principalmente, em sua posição discursiva, aludir ao estereótipo de mulher bastante ligado à ideia conservadora de compreensão do papel, lugar e função social da mulher, fazendo, neste discurso, coincidir ideologicamente sua posição de classe e sua condição de classe, ambos em conservadorismo machista.

Considerações parcialmente finais

Com a escrita deste artigo, buscamos refletir teórica e analiticamente como Veja e Temer trazem os estereótipos de mulher que, pela aliança, se fazem “positivos”, dignos de serem ditos e escritos, como a mais forte definição e evidência histórica, social e ideológica de mulher brasileira ideal. Veja e Temer não observam os estereótipos de mulher de seus discursos como negativos, mas não o fazem justamente pela evidência ideológica de seus discursos. Na proposição discursiva feita, ao contrário, eles enaltecem o ser mulher: a causa e o efeito de ser bela, recatada e do lar/boa mãe, aquela que cuida da família, retroalimentando-se na aliança ideológica dos dois discursos proferidos.

A fim de alcançar tal compreensão, relacionamos os estereótipos de mulher trazidos nos discursos como formulações pré-construídas, articuladas em dados discursos transversos em relação de aliança, complementação e equivalência nos dois casos analisados. Essa relação, em nosso entendimento, se faz de fundamental importância para os efeitos de sentido dos estereótipos pretendidos, que estão no interdiscurso dessas duas formações discursivas analisadas, que determinam, impõem e oferecem as identificações acerca de um conhecimento sobre o papel social da mulher.

Referências

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O governo de Michel Temer se deu entre abril e agosto de 2016, provisoriamente, e em definitivo depois do polêmico e bastante controverso processo de impedimento da então presidenta Dilma Rousseff, entre agosto de 2016 e dezembro de 2018.
Repolarização, pois compreendemos que a polarização em um país de grandes proporções territoriais, diversidades culturais e políticas como o Brasil, além de evidente grande desigualdade social de todas as ordens entre sua população, esteve desde sempre em grande conflito tensivo entre as classes em discrepância. Movimento de polarização este que está sempre à espera de condições de produção político-sociais para reemergir com bastante força.
Todavia, há quem advogue que o “ponto de não retorno” desta polarização foram as chamadas jornadas de junho de 2013, uma espécie de “primavera” brasileira, a qual, de início, parecia apontar para um debate mais intenso e amplo sobre as questões políticas nacionais, mas que acabaram reaflorando certas questões, até mesmo de cunho fascista, na sociedade brasileira. Tese esta que em parte concordamos.
Vale lembrar isso, ressaltamos, ainda que redundante e amplamente tratado, porque há quem insista no exercício de poder por golpismos de toda ordem, o processo fajuto de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, por exemplo, se tratou de um golpe escancarado e a história, mais breve do que imaginávamos, está a provar isso.
O que comumente tem sido chamado de “cibercultura” é uma resposta positiva da cultura na criação de uma “nova ordem do real” frente aos novos contextos práticos que desafiam as categorias tradicionais de interpretação da realidade (KIM, 2004, p. 207).
Outro discurso frequentemente assinalado pela mídia é a oposição de feminilidade entre Marcela Temer e a ex-presidenta Dilma Rousseff. A primeira é construída como ideal feminino pela formação discursiva da revista Veja (que ressalta a beleza, a elegância, a feminilidade, o comportamento conservador de mulher a servir aos maridos e aos lares, certo padrão de família etc.); enquanto a segunda é erigida como a imagem da mulher que é mãe solteira, mal vestida, com jeito de homem e muitas vezes aludida sua suposta homossexualidade.
Disponível em: http://piaui.folha.uol.com.br/edicao/120/, acesso em: 4 dez. 2019. Nesta capa, está representada a típica situação familiar cotidiana, em que a referência de cena fundadora está alocada no clássico “American way of life” como modo de (re)produção ideológica material - a aquisição de bens de consumo, produzidos por empresas do “Atlântico Norte” - e de (re)produção simbólica - um determinado mundo ideal a ser consumido. De forma irônica, assistimos à cena do ex-presidente da República, Michel Temer, chegando em sua casa, com a faixa presidencial, trajado a rigor pela indumentária exigida (terno, camisa social, pasta de documentos, típica de homens de negócios), um pai que retorna à sua casa depois de mais um dia de trabalho. Temer é recepcionado por seu filho, Michelzinho, e por um cachorro vindo também a seu encontro com a bola de brinquedo. A primeira-dama, Marcela, está à porta, sorridente, de braços abertos, denotando um contentamento contagiante ao ver o marido-presidente chegando ao seu “lar doce lar”, como nos mostra os dizeres do avental de cozinha da dona de casa Marcela.
No original: “Le stéréotype apparaît ainsi comme un objet transversal de la réflexion contemporaine dans les sciences humaines, qui ne le prennent pas toujours en mauvaise part. Il traverse la question de l’opinion et du sens commun, du rapport à l’autre, de la catégorisation. Il permet d’étudier les interactions sociales, la relation des discours aux imaginaires sociaux et plus largement le rapport entre langage et société.
A presença e a circulação na sociedade de fórmulas mais ou menos rígidas pelas quais os grupos sociais interagem, como os enunciados concretos e os gêneros à luz do pensamento do círculo de Bakhtin, ou mesmo a noção de fórmula que se inicia, dentro do escopo de estudos da linguagem, nos anos 1970, com Jean-Pierre Faye e, nos anos 1980, com Michel Ebel e Pierre Fiala, todos na França, e posteriormente com Alice Krieg-Planque, também na geografia francesa.
Um trabalho discursivo que discute e problematiza a questão da cognição e outras compreensões, digamos, mais históricas e sociais, se dá nas pesquisas de Marie-Anne Paveau (2013), sobretudo em seus estudos acerca dos pré-discursos, memória e cognição distribuídas.
Pensamos aqui nas teorias de ato de linguagem empreendidas principalmente pelos trabalhos de Austin e Searle. Todavia, também esta na crítica de Pêcheux, mesmo que indiretamente, em Análise automática do discurso, de 1969, quando de sua análise e reformulação do quadro de funções da linguagem de Roman Jakobson. Outros estudos muito interessantes acerca dessa questão que problematiza as condições de produção, assim como utiliza-se do conceito de estereótipo ligando-o ao conceito de ethos, é possível ver em Dominique Maingueneau (2005).
E essa noção de implícito se torna relevante na argumentação mesmo que se toma das teorias argumentativas de Oswald Ducrot, pois Paul Henry (2013) toma suas postulações como a contraposição da noção de pressuposto e subentendido do próprio Ducrot, ao dizer, resumidamente, que as noções de pressuposição dos enunciados não dão conta de compreender os implícitos, se somente se levar em conta o elemento posto no enunciado, ou seja, a argumentação na própria estrutura linguística.