Interpretabilidade de traços e as posições do possessivo de 2.a pessoa em português brasileiro dialetal

  • Bruna Karla Pereira Universidade Federal dos Vales do Jequitinhona e Mucuri, Diamantina, Minas Gerais.
Palavras-chave: Possessivos de 2.a pessoa. Concordância no DP. Traços de número. Posição sintática. Cardinais. NumP.

Resumo

Conceitos como interpretabilidade e valoração de traços-φ (Chomsky, 2001; Pesetsky and Torrego, 2007) têm desempenhado um papel central no estudo dos universais linguísticos. Neste respeito, em português padrão, assim como em outras línguas românicas, os pronomes possessivos carregam traços não interpretáveis de número, que são valorados via concordância nominal. No entanto, certos dialetos do português do Brasil (PB) mostram que o possessivo de 2.a pessoa, principalmente em posição posposta, não concorda em número com o nome. Por exemplo, no dialeto mineiro, um N no singular pode coocorrer com possessivo no plural, que se refere à 2.a pessoa do plural (‘de vocês’). Do mesmo modo, um N no plural pode coocorrer com possessivo no singular, que se refere à 2.a pessoa do singular. Para explicar esses fatos, argumentarei que, nesta gramática, os traços de número no possessivo de 2.a pessoa são (i) traços da pessoa e não do nome e são (ii) interpretáveis. Com base na primeira formulação, prediz-se que ‘seu’ seja o possessivo de 2.a pessoa do singular, e ‘seus’ do plural. Com base na segunda formulação, não se desencadeia concordância em número no possessivo. Além disso, seguindo Danon (2011) e Norris (2014), argumentarei que os cardinais dividem DPs do PB em dois domínios, sendo que os sintagmas situados acima de NumP são marcados com o morfema de plural em concordância nominal, enquanto os situados abaixo de NumP são impedidos de terem esta marca. Assim, pelo fato de o possessivo pré-nominal estar antes do cardinal, ele é obrigatoriamente marcado com o morfema de plural, enquanto o possessivo pós-nominal não tem esta marca. Livre da marca morfológica de concordância nominal, o possessivo pós-nominal de 2.a pessoa favorece a reanálise do ‘-s’ como indicador do número da pessoa.

Biografia do Autor

Bruna Karla Pereira, Universidade Federal dos Vales do Jequitinhona e Mucuri, Diamantina, Minas Gerais.
Visiting Scholar at Massachusetts Institute of Technology Grant from Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.

Referências

Augusto M, Ferrari Neto J, Corrêa L. Explorando o DP: a presença de NumP. Revista de Estudos da Lingugem, 2006;14(2):245-275.

Blühdorn H et al. Sintagmas nominais contáveis e não-contáveis no alemão e no português brasileiro. In: Battaglia MH, Nomura M, editors. Estudos linguísticos contrastivos em alemão e português. São Paulo: Annablume; 2008. p. 41-82.

Brito AM. European Portuguese possessives and the structure of DP. Cuadernos de Lingüística del I.U.I. Ortega y Gasset, 2007;14:27-50.

Castro A. Os possessivos em português europeu e português brasileiro: unidade e diversidade. XVI Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística; 2001; Lisboa, Portugal. Lisboa: APL; 2001: p. 599-613.

Castro A, Pratas F. Capeverdean DP-internal number agreement: additional arguments for a distributed morphology approach. In: Costa J, Figueiredo Silva M, editors. Studies on agreement. Amsterdam: Philadelphia: John Benjamins; 2006. p. 11-24.

Cerqueira V. A forma genitiva ‘dele’ e a categoria de concordância (AGR) no português brasileiro. In: Roberts I, Kato M. Português brasileiro: uma viagem diacrônica. Campinas: UNICAMP; 1993. p. 129-161.

Chomsky N. Derivation by phase. In: Kenstowicz M, editor. Ken Hale: a life in language. Cambridge MA: The MIT Press; 2001. p. 1-52.

Cinque G. Deriving Greenberg’s Universal 20 and its exceptions. Linguistic Inquiry, 2005;36(3):315-332.

Costa J, Figueiredo Silva M. Nominal and verbal agreement in Portuguese: an argument for distributed morphology. In: Costa J, Figueiredo Silva M, editors. Studies on agreement. Amsterdam; Philadelphia: John Benjamins; 2006. p. 25-46.

Danon G. Agreement and DP-Internal Feature Distribution. Syntax, 2011;14(4):297-317.

Giusti G. The categorial status of quantified nominals. Linguistische Berichte: Forschung, Information, Diskussion. Opladen, 1991:438-454.

Kato M. A complementaridade dos possessivos e das construções genitivas no português coloquial: réplica a Perini. DELTA, 1985;1(1) e (2):107-120.

Maynor N. Battle of the pronouns: Y’all versus you-guys. American Speech, 2000;75(4):416-418.

Müller A. A gramática das formas possessivas no português do Brasil. [Tese]. Campinas: Instituto de Estudos da Linguagem, UNICAMP; 1997.

Neves MH. O pronome possessivo. In: Neves MH. Gramática de usos do português. São Paulo: UNESP; 2000. p. 471 – 489.

Norris M. A theory of nominal concord. [PhD Dissertation]. Santa Cruz: University of California Santa Cruz; 2014.

Pereira BK. O possessivo de 2aPL no dialeto mineiro: DP e CP em análise. Linguistic Studies 11: Contemporary approaches to Portuguese Linguistics: interfaces, variation and innovation. Lisboa: Colibri/CLUNL; 2015. (In press).

Pereira BK. Second person possessives and allocutive agreement. In: Pilati E, organizador. Essays in generative grammar: tribute to Lucia Lobato. Brasília: UnB; 2016a. p. 71-83.

Pereira BK. The DP-internal distribution of the plural morpheme in Brazilian Portuguese. MIT Working Papers in Linguistics; 2016b. (In press).

Perini M. O surgimento do sistema de possessivo coloquial: uma interpretação funcional. DELTA, 1985;1(1) e (2):1-16.

Pesetsky D, Torrego E. The syntax of valuation and interpretability of features. In: Karimi S et al., editors. Phrasal and clausal architecture. Amsterdam: John Benjamins; 2007. p. 262-294.

Silva G. Estertores da forma ‘seu’ na língua oral. In: Silva G, Scherre M, editors. Padrões sociolinguísticos: análise de fenômenos variáveis do português falado na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; 1996. p. 170-181.

Zribi-Herts A. Les syntagmes nominaux possessifs en français moderne: syntaxe et morphologie. In: Guéron J, Zribi-Herts A, editors. La grammaire de la possession. Paris: Université Paris X – Nanterre; 1998. p. 129-166.

Publicado
2016-12-12
Como Citar
Pereira, B. K. (2016). Interpretabilidade de traços e as posições do possessivo de 2.a pessoa em português brasileiro dialetal. Filologia E Linguística Portuguesa, 18(2), 199-229. https://doi.org/10.11606/issn.2176-9419.v18i2p199-229
Seção
Artigos