Coerência, referenciação e ensino

  • Paulino Paulo Fumo Universidade Paris 8, Paris
  • Maria Helena Araújo Carreira Universidade Paris 8, Paris

Resumo

CAVALCANTE, Mônica Magalhães; CUSTÓDIO FILHO, Valdinar e BRITO, Mariza Angélica Paiva. Coerência, referenciação e ensino. São Paulo: Cortez, 2014, 171p.

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Biografia do Autor

Paulino Paulo Fumo, Universidade Paris 8, Paris
Professor da Universidade Pedagógica de Maputo, Moçambique, África e doutorando na Universidade Paris 8, França prepararando uma tese intitulada “Referenciação e progressão tópica nos textos escritos por alunos do ensino secundário moçambicano: estudo de caso” sob a orientação da Professora Catedrática Maria Helena Araújo Carreira.
Publicado
2015-12-01
Como Citar
Fumo, P. P., & Carreira, M. H. (2015). Coerência, referenciação e ensino. Linha D’Água, 28(2), 199-202. https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v28i2p199-202
Seção
Resenhas

A obra intitulada Coerência, Referenciação e Ensino da autoria coletiva de Mônica Magalhães Cavalcante, Valdinar Custódio Filho e Mariza Angélica Paiva Brito constitui uma importante contribuição não só no âmbito das abordagens teóricas sobre a referenciação, enquanto construção evolutiva dos referentes e suas funções discursivas, mas também no contexto de ensino-aprendizagem de língua portuguesa, com particular incidência no ensino da leitura e da produção escrita. Esta dupla contribuição confere desde logo um elevado mérito ao livro.

Os autores abordam a referenciação na perspectiva sociocognitiva e discursiva proposta inicialmente pelos linguistas franceses e suíços Apothéloz, Kleiber, Charolles, Berrendonner, Reichler-Beguelin, Chanet, Mondada e Dubois que participavam do Projecto Cogniciência, nos anos 80, com os quais a referência discursiva começa a ganhar o sentido do que é hoje a referenciação, o que implica uma mudança da concepção dos referentes como entidades estáticas e pré-existentes ao texto para uma concepção dinâmica, em que os referentes são evolutivos, ou seja, podem ser transformados, modificados ou recategorizados ao longo do discurso, desempenhando funções diversas, segundo o objectivo comunicativo do locutor/escritor. Este livro procura descortinar algumas dessas funções de expressões referenciais, avalia as suas potencialidades na construção discursiva e mostra a importância do seu tratamento nas aulas de língua portuguesa, com o objectivo de instigar os professores a trabalharem este fenómeno da linguagem nas aulas, com vista ao desenvolvimento da competência comunicativa e textual dos alunos.

O livro que Cavalcante, Custódio Filho e Brito nos apresentam compreende três capítulos, antecedidos por uma introdução, em que se explicita o âmbito e o objetivo da obra e seguidos por breves considerações finais, onde se destaca a necessidade de os alunos compreenderem a natureza funcional dos fenómenos da linguagem, com aplicação prática nas actividades de produção e compreensão textual. Apresenta ainda um glossário, em que são destacados alguns conceitos importantes para o estudo da referenciação e, por fim, algumas sugestões de leitura complementar sobre a referenciação.

O primeiro capítulo que versa sobre "Características fundamentais do fenómeno da referenciação" tem por objetivo caracterizar o mecanismo de referenciação, relacionando-o com duas dimensões essenciais, texto e coerência. Assim, os autores discutem a noção de referenciação, buscando a sua contextualização no âmbito dos mecanismos linguísticos de coesão estabelecidos inicialmente por Halliday e Hasan e retomados no Brasil por Koch. Neste livro, a referenciação é vista como um mecanismo altamente dinâmico como são o texto e a coerência, no quadro dos processos sociocognitivos, e contribui inclusive para o alargamento da coesão, já que as expressões referenciais que participam na "costura" do texto não somente representam a possibilidade de recuperação de um referente no cotexto, mas também implicam a construção de uma representação ligada à orientação argumentativa e expressiva do locutor. Os autores sugerem, socorrendo-se de exemplos práticos, que estas funções devem ser trabalhadas nas aulas de língua portuguesa, a partir da análise de gêneros textuais diversos, com vista a melhorar os níveis de compreensão e produção escrita dos alunos.

No segundo capítulo, intitulado "Os processos referenciais", os autores abordam os processos referenciais com o objetivo primordial de demonstrar como estes atendem às diferentes funções, com o fim último de colaborar na construção da coerência, coesão textual e discursiva. Com efeito, os autores apresentam três categorias maiores de processos referenciais: a introdução referencial, a anáfora (indirecta e encapsuladora) e a deixis (pessoal, social, espacial, temporal, textual e de memória), discutindo para cada uma delas a conceituação e a relação com as diversas funções discursivas, todas de carácter argumentativo. A abordagem pormenorizada dos diferentes itens destas categorias articula-se com a exploração do seu valor formativo no processo de ensino-aprendizagem, que ganha maior relevo com a apresentação de sugestões de actividades de abordagem destes mecanismos discursivos no ensino da língua portuguesa.

O terceiro capítulo que se intitula "Funções argumentativas de processos referenciais" destina-se a descortinar as funções dos processos referenciais. Os processos referenciais cumprem, entre outras, as seguintes funções: argumentação, onde se procura mostrar a argumentatividade dos processos referenciais, trazendo exemplos de argumentação em géneros diversificados; marcação de efeito polifónico, em que são exploradas as diversas manifestações da polifonia quer sejam nítidas ou implícitas, analisando-se as suas funções discursivas específicas, articulação de (sub)tópicos, neste caso, avalia-se sobretudo como os processos referenciais participam no estabelecimento de relações hierárquicas e lineares entre tópicos e subtópicos; desambiguação de referentes, procura-se mostrar de que forma se usam as expressões referenciais para desfazer ambiguidades e resolver problemas de coerência local; manutenção de uma informação em suspenso, onde se testa a forma como se procede à antecipação de informação, mantendo dados em suspenso para causar efeitos diversos, criação de efeitos de humor, para ilustrar que certos usos de expressões referenciais podem desencadear efeitos de humor através da quebra de expectativas e marcação da interdiscursividade, para mostrar que as expressões referenciais podem exprimir heterogeneidade enunciativa, embate de vozes, diferentes discursos postos em diálogo. Além das análises de textos orientadas para o ensino, dos conselhos que acompanham toda a abordagem, o capítulo encerra com sugestões de actividades para a exploração das diferentes funções discursivas das expressões referenciais em textos autênticos, as quais podem ser flexibilizadas e alargadas a outros textos seleccionados pelo professor.

O livro destina-se de forma particular aos professores de língua portuguesa, embora possa igualmente servir aos interesses de alunos do ensino secundário e de outros níveis e pode ser facilmente manuseado pelos professores e alunos de forma livre e autónoma dado o seu carácter auto-instrucional. Através deste livro, os autores procuram ajudar o professor de língua portuguesa a melhorar a sua prestação, ajustando-a às exigências que o processo de ensino-aprendizagem hoje impõe, num contexto em que o conhecimento não é mais um produto acabado, que o professor transmite ao aluno, mas sim um produto em permanente construção na interacção professor-aluno. Da mesma forma que o texto deixa de ser visto como uma entidade estática, com sentido pré-elaborado e passa a ser encarado como dinâmico e, por isso, o seu sentido se constrói na interacção locutor-alocutário, escritor-leitor. Esta característica constitui o outro grande mérito deste livro.

Sublinhe-se ainda o importante contributo deste livro de Cavalcante, Custódio Filho e Brito ao nível da articulação entre a teoria e a prática, que se consubstancia na capacidade e na preocupação dos autores em trazer e analisar exemplos textuais diversos para ilustrar cada um dos conceitos introduzidos ao longo do livro e na apresentação de sugestões de actividades de muito valor para o ensino de língua portuguesa. Além disso, a abordagem teórica dos autores não revela intenção de ser tecnicista, mas o seu conteúdo apresenta uma riqueza informativa que responde aos objectivos definidos para este trabalho e não coloca o risco de não ser compreendido pelos seus potenciais leitores, nomeadamente professores e alunos.

O equilíbrio na distribuição e no entrosamento das informações ao longo da obra é também um aspecto a destacar, quer entre os capítulos, quer dentro destes, inclusive nas sugestões de actividades, onde em cada capítulo se apresentam três actividades, constituída cada uma delas por objectivo, descrição e comentário.