A crítica textual pula o muro da escola

  • Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida Universidade de São Paulo
  • Gabriela de Souza Morandini Universidade de São Paulo
  • Lilian Barros de Abreu Silva Universidade de São Paulo
Palavras-chave: crítica textual, literatura brasileira, Iracema, Quincas Borba, material didático.

Resumo

O texto apresenta a proposta de pesquisa, em andamento, que estuda a transmissão de textos literários em material didático (livros, apostilas, textos paradidáticos) nas aulas de literatura. Tem como objetivos: (i) fazer o levantamento e a classificação das variantes surgidas no processo de transmissão das obras nesse tipo de material; (ii) investigar a gênese das variantes na transmissão desse material para encontrar o motivo do surgimento das alterações; (iii) discutir a influência dessas alterações numa análise crítico-literária da obra e do seu autor. A pesquisa tem como guia a base teórico-metodológica proposta para a Crítica Textual. Para a classificação ou tipologia das variantes, segue-se a proposta de Blecua (1983). Para análise e identificação dos padrões ou modelos gerais e específicos que regem as modificações sucedidas nos textos literários, o estudo apoia-se em Cambraia e Laranjeira (2010). São expostas partes das análises já realizadas em Quincas Borba, de Machado de Assis, e Iracema, de José de Alencar. Os resultados dessa pesquisa podem contribuir positivamente na produção do material didático e, consequentemente, na formação de professores de língua e literatura.

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Publicado
2018-09-13
Como Citar
Santiago-Almeida, M., Morandini, G., & Silva, L. (2018). A crítica textual pula o muro da escola. Linha D’Água, 31(2), 159176. https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v31i2p159176
Seção
Artigos originais

Introdução

O material didático1, como se sabe, é instrumento importante no processo de ensino-aprendizagem. Como também é sabido, o texto escrito é a forma mais recorrente nesse processo em sala de aula. Essa constatação, que é óbvia em relação ao estudo literário, já justifica uma pesquisa que tem como objeto de investigação livros didáticos, apostilas e textos paradidáticos que transmitem excertos de obras literárias como pretextos para o estudo crítico-literário de uma determinada obra e seu respectivo autor.

Não são, todavia, preocupações inéditas. Desse tema já se ocuparam Mendes (1986) e Bender (2006), dentre outros. A distinção que se quer imprimir neste estudo diz respeito a dar conta dos três objetivos específicos listados no resumo, tendo como objeto de análise, neste momento, Quincas Borba, de Machado de Assis, que foi publicado pela primeira vez em livro no ano de 1891, e Iracema, de José de Alencar, cuja primeira edição é de 1865. São obras com grande número de edições e consideradas importantes e indispensáveis para o estudo de Literatura Brasileira. Decidiu-se, por isso, verificar a autenticidade dos trechos desses romances reproduzidos em material didático, considerando os problemas intrínsecos à transmissão de textos.

É evidente que o estabelecimento de textos literários nesse tipo de material, conjugando estudos de natureza linguístico-filológica, à luz dos princípios teóricos e metodológicos da Crítica Textual, no meio acadêmico e editorial no Brasil, ainda é uma prática pouco desenvolvida. Desse modo, reafirma-se que essa pesquisa dá contribuição para o desenvolvimento dessa linha de investigação e que também proporciona a discussão sobre a reprodução de obras literárias integrais ou de seus excertos em material destinado ao ensino de literatura.

Materiais e métodos2

Até o momento o trabalho tem sido realizado em duas etapas. Na primeira, são feitas a recensão (recensio) de excertos dos romances Quincas Borba e Iracema reproduzidos em material didático e a colação (collatio) desses excertos com os testemunhos-base dos romances para o levantamento das variantes. Na segunda, são realizadas a classificação e a tabulação das variantes surgidas no processo de transmissão da obra nesse material. Na terceira etapa, ainda em andamento, investiga-se a gênese das variantes na transmissão dos romances para encontrar o motivo do surgimento das alterações; e, por fim, discute-se sobre a influência dessas alterações numa análise crítico-literária das obras e dos seus respectivos autores.

Para a realização das duas primeiras etapas do trabalho adotam-se estes critérios:

  • (a) A seleção dos trechos para a realização da colação é determinada pelos excertos dos romances Quincas Borba e Iracema transcritos no material didático.

  • (b) A transcrição do trecho ou frase que contém o lugar crítico é feita em itálico.

  • (c) A classificação das variantes segue a tipologia sugerida por Blecua: adição (adiectio), omissão (detractatio), alteração de ordem (transmutatio) e substituição (immutatio)3.

  • (d) As variantes são identificadas assim: adição - variante acrescentada no material didático (negrito) e, portanto, ausente no texto de base; omissão - variante apagada no material didático (tachada) e, portanto presente no texto de base; alteração de ordem - ordem no texto de base (negrito), seguida da ordem no material didático (sublinhado); substituição - variante substituída no texto de base (negrito),seguida da variante substituída no material didático (sublinhado).

MD. A transmissão de Quincas Borba4

Foram escolhidos como testemunhos-base, em princípio, duas edições de Quincas Borba: a terceira (1899), por ser a última forma da obra dada por Machado de Assis, e a edição crítica de 1977, por ter a autoridade de uma edição crítica estabelecida pela Comissão Machado de Assis.

Na recensão de material didático foram coletados excertos do romance reproduzidos nos livros, apostilas e textos paradidáticos de escolas públicas e particulares, totalizando vinte e cinco testemunhos levantados. Na tabela 1, o corpus apresentado consta de materiais didáticos produzidos entre os anos de 1970 a 2009, coleções muito usadas pelo sistema de ensino brasileiro e apostilados.

Tabela 1::
Material didático utilizado na pesquisa
  Título Autor Editora Ano
1 Coleção Objetivo Sistema de Métodos de Aprendizagem - Literatura I - livro 14 Fernando Teixeira de Andrade Não consta S/ data
2 Anglo Sistema de Ensino - Literatura português Ensino médio 2ª série Antonio Medina Rodrigues; Dácio Antônio de Castro Não consta S/ data
3 Etapa 3 - Português Não consta Não consta S/ data
4 COC Pré-Vestibular Linguagens e Códigos - Língua portuguesa 4 Não consta COC S/ data
5 Telecurso 2000 - 2º grau - Língua portuguesa Não consta Globo S/ data
6 Português: ensino médio José de Nicola Scipione 2009
7 Antologia comentada de literatura brasileira: poesia e prosa Zina C. Bellodi (Org.) Vozes 2006
8 Português: literatura brasileira: em diálogo com outras literaturas e outras linguagens Willian Roberto Cereja; Thereza Cochar Magalhães Atual 2005
9 Literaturas brasileira e portuguesa: teoria e texto Samira Yousseff Campedelli ; Jésus Barbosa Souza Saraiva 2004
10 Língua e literatura (vol. 2) Carlos Emílio Faraco; Francisco Marto Moura Ática 2001
11 Língua e literatura Carlos Emílio Faraco; Francisco Marto Moura Ática 2000
12 Textos, leituras e escritas - literatura, língua e redação Ulisses Infante Scipione 2000
13 Literatura brasileira Willian Roberto Cereja; Thereza Cochar Magalhães Atual 2000
14 Português: linguagens: literatura, produção de texto e gramática Willian Roberto Cereja; Thereza Cochar Magalhães Atual 1999
15 Estudos de língua e literatura (vol. 2) Douglas Tufano Moderna 1998
16 Novas palavras: literatura, gramática, redação e leitura Emília Amaral et al. FTD 1997
17 Português: linguagens. Literatura, gramática e redação Willian Roberto Cereja; Thereza Cochar Magalhães Atual 1995
18 Estudos de literatura brasileira Douglas Tufano Moderna 1995
19 Estudos de língua e literatura brasileira (vol. 2) Douglas Tufano Moderna 1994
20 Língua e literatura: 2º grau (vol. 2) Carlos Emílio Faraco; Francisco Marto Moura Ática 1993
21 Português: 2º grau G. Mattos; L. Megale FTD 1990
22 Estudos de língua e literatura Douglas Tufano Moderna 1990
23 As formas da literatura brasileira Afrânio Coutinho Bloch 1984
24 Machado de Assis. Literatura comentada seleção de textos, notas, estudo biográfico, histórico e crítico Não consta Abril 1980
25 Antologia brasileira de literatura Não consta Distribuidora de Livros Escolares 1970

Variantes encontradas5

Adição (vírgula | é): Logo depois, a mesma alma, que se acusava, defendia-se. | Sim, é preciso resistir-lhe... (FARACO; MOURA, 1993, p. 220-221)

Adição (o): - Mas o que é isso, seu compadre? Como foi que chegou assim? (COC, s/d, p. 70-71)

Omissão (trecho): porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. (NICOLA, 2009, p. 334-335)

Omissão (vírgula): Uma turba de moleques acompanhava o Rubião, alguns tão próximos, que lhe ouviam as palavras. (COUTINHO, 1970, p. 76)

Omissão (trecho):

– Mas então que foi?

– Não sei; adivinha.

– Não posso. Dize logo.

– Com uma condição, acudiu ela; não quero zangas nem barulhos...

Palha foi ficando mais sério. Zangas? Barulhos? Que diabo podia ser? Pensava ele. Já se não ria; tinha só um resto de sorriso forçado e resignado. Olhou bem para ela, e perguntou-lhe o que era.

– Você promete o que lhe disse?

– Vá lá. Que foi? (CAMPADELLI; SOUZA, 2004, p. 258)

Alteração de ordem (pontuação): e que a certeza da tua amizade ou, - - ou, vá logo tudo, _ do amor que me tens é que me tranquiliza. (ASSIS, 1980, p. 48)

Substituição (há por faz) | (ponto e vírgula por vírgula): Não faz dez minutos, disse o Rubião. | Sofia acudiu que não, ao contrário;, mas precisava ir fazer sala às visitas... (TUFANO, 1995, p. 173)

Substituição (da por de) porque a supressão de uma é a condição da de sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. (ANDRADE, s/d, p. 117)

Frequência das variantes6

A tabela 2 mostra a consolidação dos dados obtidos. Nela pode-se verificar que há algum tipo de variante em todos os 25 testemunhos cotejados e que a variante mais frequente nos materiais didáticos é a de substituição (180), seguida de omissão (41), adição (32) e alteração de ordem (1), totalizando 254 casos.

Tabela 2::
Frequência das variantes em cada material didático7
Material didático Adição Omissão Alteração de ordem Substituição Total
1 - - - 7 7
2 - - - 2 2
3 1 2 - 15 18
4 3 1 - 2 6
5 - 1 - 1 2
6 - 2 - 7 9
7 3 4 - 6 13
8 - - - 1 1
9 - 4 - 4 8
10 2 1 - 3 6
11 1 0 - 2 3
12 2 1 - 7 10
13 - - - 1 1
14 - - - 1 1
15 6 5 - 23 34
16 - - - 4 4
17 - - - 1 1
18 2 1 - 13 16
19 2 1 - 12 15
20 3 1 - 4 8
21 - 1 - 14 15
22 1 - - 13 14
23 - 4 - 5 9
24 6 7 1 27 41
25 - 5 - 5 10
Total 32 41 1 180 254

A frequência total das variantes em dados percentuais mostra, de forma geral, o tipo de variante mais recorrente, considerando todo material cotejado. Foram obtidos os seguintes dados percentuais aproximados: 71% são variantes de substituição, 16% variantes de omissão, 12,5% variantes de adição e 0,5% variante de alteração de ordem (cf. Gráfico 1). Ainda que não se tenha realizado uma análise qualitativa das variantes, os resultados quantitativos desta pesquisa revelam que o material didático que reproduz o romance Quincas Borba tende a um distanciamento e redução do texto original, já que as variantes mais frequentes foram as de substituição e de omissão, respectivamente.

Porcentagem das variantes de todo material didático

Gráfico 1:: Porcentagem das variantes de todo material didático

II. A transmissão de Iracema8

Na realização do trabalho com Iracema, além das duas etapas já mencionadas em Materiais e método (recensão/colação e classificação/tabulação das variantes), coteja-se - quando há a indicação - o texto utilizado como fonte do material didático. O objetivo, com isso, é identificar em que etapa as alterações foram feitas: se na edição que serviu como fonte ao material didático, ou se na edição do próprio material didático9.

Elegeu-se como testemunho-base a edição de 1965, organizada por M. Cavalcanti Proença em comemoração ao centenário de lançamento da obra. Trata-se da edição crítica que conta com a análise e comparação das três edições do texto publicadas com o autor ainda vivo: a primeira, de 1865, a segunda, de 1875, e a terceira, de 1878. Essa última edição em vida não foi usada como testemunho-base por dois motivos: primeiro, a dificuldade (pelo menos por enquanto) de se ter acesso à edição; segundo, porque se considera a edição crítica um material confiável, estabelecido a partir de um estudo criterioso das três edições revistas pelo autor. E também porque se espera que editores e autores de material didático que tratem de Iracema, no mínimo, recorram à edição crítica da obra como fonte.

Variantes encontradas

Tabela 3::
Língua portuguesa - literatura II, Sistema COC de Ensino, s/d
COC Tipo de variante
O cristão adormeceu ouvindo suspirar, (p. 32) Adição (“vírgula”)
e o sol traga, luz a teus olhos, (p. 31) Omissão (“vírgula”)
sobre a cúpula da floresta, guiou seu passo (p. 31) Omissão (“vírgula”)
mas se o sol tornandotornadonão trouxer (p. 32) Substituição (“tornando” por “tornado”)
O pajé vibrouvirouo maracá (p. 31) Substituição (“vibrou” por “virou”)
  Adição = 1 / Omissão = 2 / Substituição = 2

A fonte utilizada no material do COC é uma edição de Iracema publicada pela Ática em 1973. O texto dessa edição de 1973 está igual ao testemunho-base (edição crítica de 1965). A edição de 1973 apresenta a seguinte nota: “cotejado com a 3ª edição de B. L. Garnier, Rio de Janeiro, 1878, última edição revista pelo autor”. Apenas uma diferença há na edição de 1973: nela também foi omitida a vírgula em “e o sol traga, luz”, como no material didático. Porém, como todas as outras variantes estão apenas no material didático, conclui-se que houve erro de cópia e/ou mudanças no texto no processo de edição do material do COC.

Atual Tipo de variante
Iracema quebrou a flecha homicida: ; (p. 214) Substituição (dois pontos por ponto e vírgula)
  Substituição = 1

O material da Atual Editora utiliza como fonte a 2ª edição da edição crítica de Iracema, de M. Cavalcanti Proença, publicada pela Edusp em 1979. Na edição, há uma “Advertência” sobre as mudanças feitas em relação à primeira edição crítica (1965): foram apenas de diagramação (o livro está dividido em duas partes ao invés de três, como está na versão de 1965; as ilustrações foram retiradas do corpo do texto e colocadas no final do livro). Portanto, tudo indica que a intenção foi a de preservar o texto da 1ª edição crítica de Proença. Mesmo assim, a edição de 1979 apresenta essa mesma substituição de pontuação observada no material da Atual Editora. Conclui-se que a variante é reprodução do que estava na versão que serviu de fonte ao material didático.

Tabela 5::
Souto & Souza. Língua portuguesa e literatura brasileira - 2ª série do ensino médio, Rede Pitágoras, 2006.
Pitágoras Tipo de variante
bate as asas, e voa a aconchegar-se (p. 36) Omissão (vírgula)
Assim a virgem do sertão, aninhou-se (p. 36) Omissão (vírgula)
ainda achou Iracema ali debruçada, (p. 35) Omissão (vírgula)
os lábios da virgem de Tupã, (p. 36) Omissão (vírgula)
Ficou tímida e inquieta, como a ave (p. 36) Omissão (vírgula)
  Omissão = 5

O material didático da Pitágoras tem como fonte uma edição de Iracema publicada pela livraria Francisco Alves, s/d. Na edição da fonte encontram-se as mesmas variantes do material didático, o que demonstra que foi no processo de edição da Francisco Alves que as mudanças ocorreram e foram reproduzidas no material da Pitágoras.

Tabela 6::
Os livros da Fuvest e Unicamp II, Objetivo-CERED, s/d
Objetivo Tipo de variante
e a borrasca enverga, como o condor; , (p. 45) Substituição (ponto e vírgula por vírgula)
  Substituição = 1

O material do Objetivo não apresenta explicitamente a fonte dos trechos reproduzidos, embora recomende a leitura da 1ª edição crítica de Proença, de 1965. O fato de haver apenas uma variante (substituição de pontuação) nos trechos apresentados pelo material didático levanta a hipótese que a edição crítica de 1965 foi utilizada como fonte e houve um erro de cópia ou substituição proposital da pontuação nesse trecho.

Tabela 7::
Literatura brasileira, Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), 2010
UTFPR Tipo de variante
a jandaia nas frondes da carnaúba; . (p. 102) Substituição (ponto e vírgula por ponto)
alvas praias ensombradas de coqueiros; . (p. 102) Substituição (ponto e vírgula por ponto)
Abre-se a imensidade dos mares; , (p. 103) Substituição (ponto e vírgula por vírgula)
e te poje nalguma enseada amiga. ! (p. 103) Substituição (ponto por exclamação)
vogas assim à discrição do vento, (p. 103) Omissão (assim)
Escondidos na folhagem, os pássaros (p. 103) Adição (vírgula)
chama a virgem pelo nome; outras, (p. 104) Adição (vírgula)
Iracema quebrou a flecha homicida: ; (p. 104) Substituição (dois pontos por ponto e vírgula)
  Omissão = 1 / Substituição = 5 / Adição = 2

O material didático da UTFPR não informa a fonte dos trechos reproduzidos.

Tabela 8::
Carvalho et al. Para ler o mundo - português - ensino médio, Scipione, s/d
Scipione Tipo de variante
os cabelos mais negros que as asas da graúna, (p. 305) Omissão (vírgula)
Às vezes, sobe aos ramos da árvore (p. 305) Adição (vírgula)
a renda, e as tintas de que matiza o algodão. (p. 305) Omissão (vírgula)
  Omissão = 2 / Adição = 1

Esse material do ensino médio da Scipione usou como fonte uma edição de Iracema, sem data, da editora Ciranda Cultural. As alterações presentes no material didático são as mesmas da edição usada como fonte.

Tabela 9::
Nicola. Painel da literatura em língua portuguesa, Scipione, s/d
Scipione Tipo de variante
folhagem, os pássaros ameigavam o canto. (p. 281) Adição (vírgula)
Iracema saiu do banho: ; (p. 281) Substituição (dois pontos por ponto e vírgula)
a flecha de seu arco, ; (p. 281) Substituição (vírgula por ponto e vírgula)
chama a virgem pelo nome; outras, (p. 281) Adição (vírgula)
os alvos fios do de crautá (p. 281) Substituição (do por de)
branco das areias que bordam o mar; , (p. 282) Substituição (ponto e vírgula por vírgula)
Iracema quebrou a flecha homicida: ; (p. 282) Substituição (dois pontos por ponto e vírgula)
  Adição = 2 / Substituição = 5

Nesse outro material a Scipione utilizou como fonte uma edição de Iracema publicada em 2004 pela própria editora. As alterações, porém, aparecem apenas no livro didático. O texto da edição usada como fonte está idêntico ao testemunho-base, a edição crítica de 1965. Portanto, nesse caso, as variantes surgiram no processo de edição do material didático.

Tabela 10::
Aburre & Pontara. Literatura brasileira: tempos, leitores e leituras, Editora Moderna, s/d
Moderna Tipo de variante
Quando suas estrelas eram muitas;, (p. 335) Substituição (ponto e vírgula por vírgula)
mas, antes que o dia morra, (p. 336) Adição de pontuação (vírgula)
Tupã quis que estes olhos vissem, (p. 336) Adição de pontuação (vírgula)
  Adição = 2 / Substituição = 1

No material da editora Moderna, foi usada uma edição da L&PM de 2002, como fonte dos trechos que apresenta. Essa edição ainda não foi encontrada, de modo que a comparação com o texto do material didático para determinar a origem da alteração poderá ser realizada na próxima etapa do projeto.

Tabela 11::
Total de variantes
Omissão Adição Substituição Total
2 0 0  
1 0 0  
9 8 12  
- - 1  
12 8 13 33

Sobre a origem das variantes, percebe-se que dos oito livros didáticos analisados (incluindo as apostilas), dois apresentam variantes que não estavam no texto utilizado como fonte e três apresentam variantes que foram transmitidas pelo texto-fonte. Não foi possível determinar a origem das variantes em três livros didáticos por falta da fonte utilizada.

Tabela 12::
Origem das variantes (material didático ou texto-fonte)
Material didático (MD) Texto-fonte (TF) Origem da variante
COC Ática, 1973 MD
Atual Edusp, 1979 TF
Pitágoras Francisco Alves, s/d TF
Objetivo Edição Crítica, 1965 (hipótese) MD
UTFPR Não consta A determinar
Scipione (Para Ler...) Ciranda Cultural, s/d TF
Scipione (Painel...) Scipione, 2004 MD
Moderna L&PM, 2002 A determinar

Analisando as tabelas apresentadas, observa-se que a maioria das alterações tem a ver com a pontuação, envolvendo todos os tipos de variantes (adição, omissão, substituição e, considerando Quincas Borba, alteração de ordem). Trata-se de correção normativa de uso da pontuação provavelmente originada na etapa de revisão do texto (seja a revisão do texto-fonte do material didático, seja a revisão do próprio material didático).

No entanto, a correção de um “erro” de norma gramatical pode gerar um “erro” de transmissão textual que, dependendo do grau da alteração, pode comprometer a interpretação fidedigna a respeito do estilo da obra e do autor. Nesse sentido, afirma Blecua (1983, p. 228), que “la figura del corrector de estilo puede perturbar ciertos rasgos estilísticos de un autor”.

Um exemplo de alteração no estilo da obra pode ser visto no material da UTFPR. O trecho reproduzido nesse material está editado no testemunho-base com ponto e vírgula no final dos dois primeiros parágrafos:

Fac-símile do início do Capítulo I da edição crítica de 1965.

Figura 1:: Fac-símile do início do Capítulo I da edição crítica de 1965.

A separação desses dois parágrafos por ponto e vírgula remete à forma do gênero poético em que o romance, originalmente, foi escrito. Na Carta à 1ª edição de Iracema, Alencar afirma que primeiro escreveu o texto em versos, mas que teve dificuldade em dar continuidade à história usando esse gênero, e, assim, sempre abandonava e voltava à escrita do texto, até que:

Em um desses volveres do espírito à obra começada, lembrou-me de fazer uma experiência em prosa. O verso pela sua dignidade e nobreza não comporta certa flexibilidade de expressão que entretanto não vai mal à prosa a mais elevada. A elasticidade da frase permitiria então que se empregassem com mais clareza as imagens indígenas, de modo a não passarem despercebidas. (PROENÇA, 1965, p. 139).

Apesar de ter optado pela prosa, Alencar afirma na mesma carta que no livro “estão ainda e estarão cerca de dois mil versos heroicos.” (PROENÇA, 1965, p. 142). A substituição do ponto e vírgula pelo ponto final desfaz o ritmo e a configuração poética do texto, causando prejuízo a uma possível discussão sobre o caráter de prosa poética da obra. A manutenção da pontuação original possibilita levantar a discussão sobre a licença poética do escritor, quando extrapola a norma gramatical e a usa de modo coerente em favor do gênio inventivo, criador e poético. Como afirma Alencar, não é justo a soberania gramatical tachar de “erro” o que é apenas uma opinião (PROENÇA, 1965, p. 222).

Considerações finais

Esse projeto de pesquisa, ainda em curso, deverá provocar discussões teórico-metodológicas na área de Crítica Textual e alcançar uma utilidade prática, influenciando o trabalho de reprodução de textos literários em material didático - seja em que suporte for.

Considerando a relevância do material didático na formação do público que atinge, é meta do projeto concluir as etapas previstas de investigação com os romances Quincas Borba, Iracema, e com Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. A proposta é incluir outras obras de autores de relevância para o ensino de literatura de língua portuguesa. Nessa perspectiva, o projeto inaugura nova etapa na linha de investigação em Crítica Textual. A criação da linha e do grupo de pesquisa de Crítica Textual da Fundação Biblioteca Nacional é um passo importante nessa direção.

Referências

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  24. , (). . . Rio de Janeiro: Lucerna. .
  25. (). . . São Paulo: Cultrix/Edusp. .
Artigo apresentado no seminário O Manuscrito Grego da Biblioteca Nacional: Crítica Textual e Práticas de Edição de Texto de 13 a 15 de agosto de 2014, realizado na Fundação Biblioteca Nacional/FBN.
Para o desenvolvimento da pesquisa são usadas, como base teórico-metodológica, as propostas para Crítica Textual descritas em Spina (1977), Azevedo Filho (1987), Blecua (1983), Castro (1990), Cambraia (2005), Cambraia; Laranjeira (2010), Candido (2005), Spaggiari; Perugi (2004) e Santiago-Almeida 2009).
BLECUA, 1983, p. 20. Interessam nessa etapa apenas as variantes substantivas levantadas no processo de colação. As variantes substantivas são as alterações encontradas no texto que interferem no sentido e estilo da obra e seu autor. São importantes, portanto, as variantes sintáticas (incluindo a pontuação), lexicais e morfológicas que, seguramente, alteram a autenticidade do texto original.
O estudo foi realizado por Lilian Barros de Abreu Silva (USP, IC).
Por questão de espaço, não estão transcritas neste texto todas as variantes encontradas nos 25 testemunhos do material didático.
Segue-se também o modelo de análise utilizado por Souza (2011).
Os números de 1 a 25, apresentados na coluna “Material didático”, correspondem aos números dos testemunhos listados na tabela 1. Servem, portanto, para identificá-los na referida tabela.
O estudo foi realizado por Gabriela de Souza Morandini (USP/CNPq, IC).
Trata-se de um dos objetivos da terceira etapa do projeto, em que se investiga a gênese das variantes na transmissão dos romances para encontrar o motivo do surgimento das alterações.