Análise comparativa estilística do gênero resumo

um estudo de caso nas publicações científicas no Brasil e na Rússia

  • Maria Glushkova Universidade de São Paulo
  • Raphael Bessa Ferreira Universidade do Estado do Pará
Palavras-chave: Estilística da língua portuguesa, Estudos estilísticos, Comparação, Estilo científico

Resumo

Este artigo compara o gênero do resumo acadêmico em duas línguas: o russo e o português do Brasil. Inicialmente, ele apresenta algumas ideias sobre a estilística e relata brevemente a chegada desse modelo de análise no Brasil e na Rússia. Após mostrar o desenvolvimento das ideias de Mikhail Bakhtin sobre estilo e gênero em diálogo com a escola da estilística funcional russa, promove a análise comparativa do gênero ‘resumo de artigo científico’ nas respectivas comunidades etnolinguísticas com vistas a evidenciar semelhanças e diferenças entre seus enunciados. O gênero é abordado na pesquisa como uma forma fixa da comunicação científica que refrata e reflete a situação imediata da realidade científica em ambos os países.

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Publicado
2018-12-11
Como Citar
Glushkova, M., & Ferreira, R. (2018). Análise comparativa estilística do gênero resumo. Linha D’Água, 31(3), 45-72. https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v31i3p45-72
Seção
Artigos originais

Introdução

A análise comparativa, entre duas ou mais comunidades etnolinguísticas distintas, centrada no categoria de gênero, é um campo de pesquisa ainda pouco explorado no Brasil, mesmo assim, preferimos nesta pesquisa, ao invés de optar por um enfoque pouco testado, seguir os parâmetros de Patricia von Münchow (2011) para o exercício da análise comparativa1, até por que, em nossa abordagem, não se trata da análise entre duas línguas - como seria o caso para a linguística contrastiva tradicional - mas da análise entre manifestações do mesmo gênero discursivo (resumo de artigo científico) em duas comunidades etnolinguísticas (Brasil e Rússia).

A análise, para V. Münchow, acontece em três níveis: enunciativo (em francês: des modules énonciatif), semântico (sémantique) e composicional (compositionnel). No nível enunciativo, analisaremos, por exemplo, dentre outros: o uso da voz passiva, do tempo verbal, do gênero e da primeira pessoa do plural; no nível semântico, estudaremos a abstração e a generalização, a camuflagem de generalização, a camuflagem da subjetividade e, por fim, no nível composicional, abordaremos o tamanho e a estrutura do resumo.

A expressão híbrida do título do nosso artigo: análise comparativa estilística, explica-se, em grande parte, por estarmos aqui utilizando a teoria da estilística funcional russa em combinação com a de Bakhtin e com os parâmetros de von Münchow (que trabalha dentro da escola francesa da análise do discurso).

Este artigo é resultado do trabalho conjunto de dois pesquisadores, um brasileiro e outro russo, que têm em comum, além da formação em linguística, o fato de terem realizado pesquisas na área da estilística, nas esferas da linguagem literária e não-literária, tanto no idioma russo, quanto no português do Brasil.

A estrutura do artigo está assim ordenada: primeiramente, apresenta-se a situação dos estudos estilísticos no Brasil, com ênfase na influência de alguns teóricos franceses (Bally, Cressot, Marouzeau, Guiraud e Riffaterre) sobre os brasileiros; posteriormente, mostrar-se-á a perspectiva de Mikhail Bakhtin sobre a estilística que será apresentada numa relação de estreito diálogo com os fundamentos da estilística funcional russa, constituindo, esse pormenor, uma novidade no campo da abordagem do estilo e do gênero produzidas no Brasil e, assim sendo, uma modesta colaboração para diversificar o conhecimento, já bastante extenso, que se tem no Brasil, das correntes de análise russa baseadas na linguagem.

O uso das ideias da escola da estilística funcional, que em certos aspectos substituiu os estudos discursivos na Rússia (KÓJINA et al., 2008, p. 189-201), justifica-se, em nossa análise, pelos resultados que obteve na abordagem do estilo da fala científica russa, em particular do gênero ‘resumo de artigo científico’, que pretendemos enriquecer com o suporte de algumas noções bakhtinianas, aplicando as duas a um estudo comparativo de enunciados em duas comunidades etnolinguísticas diferentes: a brasileira e a russa

Iniciaremos nosso estudo explicando as ideias sobre a estilística no Brasil em diálogo com a teoria bakhtiniana; na sequência, exporemos os princípios da visão estilística formulada pelos pesquisadores da escola da estilística funcional e, a seguir, articularemos seus princípios com os fundamentos bakhtinianos. Por fim, realizaremos uma análise comparativa de enunciados do gênero ‘resumo de artigo científico’ em português e em russo.

1 Percurso dos Estudos Estilísticos no Brasil

Podemos destacar quatro marcos significativos pertinentes à chegada das teorias da corrente de crítica estilística no Brasil. O primeiro é o lançamento das obras de Said Ali e de Rocha Lima, mais precisamente a Gramática secundária da língua portuguesa (1931) e a Gramática normativa da língua portuguesa (1957), respectivamente. O segundo momento é a publicação das Contribuições à estilística portuguesa (1953), de Matoso Câmara Jr., marcando um diálogo com Said Ali, seu tutor e influenciador. O terceiro momento ocorre quando Gladstone Chaves de Melo publica o Ensaio de estilística da língua portuguesa (publicado em 1976). Por fim, o quarto momento é a edição da Introdução à Estilística (1989), de Nilce Sant’anna Martins, dialogando com as obras de seus antecessores.

Destaque-se que estas obras estão filiadas basicamente a duas correntes de pensamento estilístico: o idealismo alemão e o estruturalismo francês, em decorrência de que, à época, a maior parte dos pesquisadores brasileiros importavam, ou mesmo estudavam in loco, as noções epistemológicas trabalhadas nos grandes centros de investigação linguística do momento: França, Alemanha e Suíça. Não é por acaso que noções como “estilo é expressividade”, “estilo é escolha” e “estilo é desvio” se tornaram constantes nos tratados sobre o assunto no país.

Said Ali, responsável por iniciar as discussões sobre a estilística no Brasil, tem como foco de seus estudos as questões gramaticais. Dando ênfase aos aspectos sintáticos, Said incursiona pela noção de que o estilo corresponde ao bom uso do idioma.

Sendo herdeiro da tradição alemã, principalmente da escola idealista representada por Croce e Vossler, o linguista brasileiro considera as noções de uso das figuras de retórica e dos aspectos semânticos da língua como elementos importantes no ato das escolhas que os falantes fazem durante a comunicação, buscando, a exemplo de seus mentores, revelar o constituinte psicológico do indivíduo. Exemplo disso é o estudo que publica em 1927, intitulado Meios de Expressão e Alterações Semânticas, em que obras de autores da literatura brasileira, como Machado de Assis, são analisadas conforme os domínios ou alterações semânticas presentes em sua escrita romanesca, sempre ligados à psique criativa do escritor: “Não dissocio do homem pensante e da sua psicologia as alterações por que passou a linguagem em tantos séculos. É a psicologia elemento essencial e indispensável à investigação de pontos obscuros” (ALI, 1969, p. 32).

A tradição da estilística alemã, introduzida por Said Ali, receberá adesões importantes, que resultarão em estudos de grande amplitude, como podemos comprovar nos trabalhos de Mattoso Câmara Jr., seu discípulo, especialmente se levarmos em consideração o desenvolvimento distinto dos campos de estudo do Estilo, da Filologia e da Linguística, que ele propunha, fundado na visão estruturalista francesa da qual era herdeiro.

Câmara Jr. mostrou aos pesquisadores das Letras no Brasil a nova visão analítica existente nos tratados estilísticos de Saussure e Bally, aplicáveis quer à fala cotidiana, quer à produção literária. Partindo dos postulados de Bally, para quem o estilo era “afetividade”, Câmara Jr. desenvolve seus estudos sobre o estilo centrado na noção de que o aspecto individual apresentado pela “expressividade” decorre das possibilidades oferecidas pela langue, o que implica em sua adesão a uma estilística estruturalista (Bally e Saussure) que, em última análise, pretende classificar o que de padronizável existe no efeito “afetivo” localizável na parole. Para Câmara Jr., o estilo pressupõe um indivíduo que corresponde a um coletivo, ao social e ao uso da língua naquele grupo. O estilo, portanto, a que ele se refere seria o que há de expressivo e de localizável na parole em íntima conexão com esse coletivo. Não se trata, portanto, ainda, de uma estilística do efeito estético.

Posteriores aos estudos de Câmara Jr., mas também ligados às noções epistemológicas das correntes francesas são os livros de Gladstone Chaves de MeloEnsaio de estilística da língua portuguesa (1976) e de Nilce Sant’anna Martins Introdução à Estilística (1989), que marcam um segundo momento dos estudos de estilo no país.

A obra de Gladstone Chaves de Melo, de 1976, consolida os estudos estruturalistas em terras brasileiras, na medida em que destaca as contribuições de Marouzeau, Guiraud e Riffaterre aos estudos do estilo. Estilística Estrutural, de Riffaterre, que chega ao Brasil em 1973, é lançada três anos depois de A Estilística, de Guiraud. Neste quadro, a obra de Chaves de Melo se afina com as teorias em voga na Europa naquele momento, em particular com aquelas surgidas na França, já antecipando, inclusive, algumas das questões que somente em 1980 chegariam, via tradução lusitana do livro O estilo e as suas técnicas, de Cressot. Não por acaso, Gladstone enfatiza os termos “escolha” (Marouzeau) e “flexibilidade” (Cressot) em sua obra.

O que se nota, a partir de então, é que, no Brasil, as principais obras sobre o assunto enfatizaram as tendências estruturalistas francesas, mesclando-as. Muitas vezes, a variedade dessas influências tornaram um pouco dispersas as formulações que entre nós circularam, basta que para tanto se diga que se tentou distinguir, e mesmo agregar, estudiosos distintos como Jakobson, Bakhtin, Levin, Marouzeau, Vossler, Spitzer, Alonso, Riffaterre, Delas e Filliolet.

Nilce Sant’anna Martins lança sua Introdução à Estilística em meio aos últimos momentos de efervescência dessas correntes nos estudos do estilo no Brasil. Apesar de fazer um apanhado histórico das principais correntes da estilística, com destaque para as vertentes europeias e anglo-americana (Enkvist, Spencer e Gregory), a autora apresenta uma abordagem funcional do estilo (ou uma estilística funcional) com base nos estudos de Jakobson (apesar do próprio estudioso russo ter rejeitado os termos ‘estilo’ e ‘estilística’ no constructo de seu pensamento).

Com o livro de Alicia Yllera Estilística, Poética e Semiótica Literária, de 1979, traduzido em Portugal, Bakhtin - incluso no capítulo sobre a Poética, “O pós-formalismo soviético” - passa a ser estudado direta e concomitantemente a outros estudiosos do estilo.

Este é também o ano de lançamento da primeira obra traduzida do Círculo de Bakhtin no Brasil, ainda que traduzida do francês, Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Essa obra somente foi retraduzida diretamente de russo em 2017, sendo até agora uma das mais conhecidos da área no Brasil.

Posteriormente, nos anos 80, o Brasil recebeu mais três publicações de Bakhtin, algumas já traduzidas diretamente do russo: Problemas da poética de Dostoiévski (1981); A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (1987) e Questões de literatura e de estética: a teoria do romance (1988). A partir disso, a área das Letras e dos estudos estilísticos tomou conhecimento de uma nova visão do estilo, agora correspondente ao caráter dialogal da língua, ao seu papel de interatividade entre os sujeitos da comunicação, dialogismo e interatividade veiculadas pelos diversos gêneros orais e escritos.

Contudo, no Brasil, a visão bakhtiniana sobre o estilo só aparece nos manuais de estilística a partir de Monteiro (2005), Micheletti (2008) e Henriques (2011), no que se pode chamar de uma nova e mais recente fase dos estudos estilísticos no país: a fase da estilística discursiva. Estes três autores já empregam no estudo do estilo o suporte discursivo da linguagem, destacando seu interesse pelos aspectos dialógicos e interativos da língua, afastando-se da visão centrada em um sujeito escritor/enunciador, como faziam os estudos estilísticos até então, cuja premissa utilizaremos nas análises deste artigo.

2 Os estudos bakhtinianos e a estilística funcional

Levar em conta a concepção bakhtiniana dialógica de estilo implica considerar as relações entre estilo e gênero. Para fazer isso, levaremos em conta os resultados da escola da estilística funcional, que se desenvolveu paralelamente às ideias do Círculo. As relações entre essas vertentes não caracterizam nem conflito, nem mútua inspiração, mas sim diálogo ou conversa, ou também, por assim dizer, elaboração de questionamentos sobre o campo da estilística.

Dos anos de 1950 até os dias de hoje, o paradigma dominante na linguística russa era a estilística funcional. Essa escola desenvolveu-se bastante e encontra-se bem representada no ambiente das universidades, incluindo as principais, a saber, a de Moscou e São Petersburgo.

Dentre os mais importantes estudiosos dessa linha atualmente, podemos citar Rógova K.A. (São Petersburgo), Solgánik G.Ia. (Moscou), Kójina M.N., Kotiúrova M.P. e Salimóvski V.A. (Pierm). Os linguistas dessa escola geralmente relacionam ao estilo as caraterísticas de uma unidade linguística e textual. O estilo é associado às qualidades da fala, à sua expressividade e aos meios adequados de expressão e de organização do discurso (KÓJINA et al., 2008). Essas qualidades são empregadas em tarefas de comunicação, que se realizam em uma determinada área e contexto; o estilo se revela nos meios linguísticos mais comuns e efetivos utilizados recorrentemente em determinadas situações de comunicação. Por isso, o estilo é considerado o caráter da linguagem, influindo de modo importante nas tarefas de comunicação.

Sobre o estilo no Círculo de Bakhtin, Beth Brait (2005, p. 79-102) diz que este é um dos conceitos centrais no conjunto das reflexões bakhtinianas, mencionando a dimensão dialógica como sua ideia principal sobre o tema. Essa noção já está presente em Problemas da poética de Dostoiévski e A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, livros em que Bakhtin, ao estudar o estilo dos dois autores, utiliza a perspectiva dialógica:

As tonalidades dialógicas preenchem um enunciado e devemos levá-las em conta se quisermos compreender até o fim o estilo do enunciado. Pois nosso próprio pensamento - nos âmbitos da filosofia, das ciências, das artes - nasce e forma-se em interação e em luta com o pensamento alheio, o que não pode deixar de se refletir nas formas de expressão verbal do nosso pensamento (BAKHTIN, 1987, p. 316-317).

Segundo Bakhtin, a estilística deve basear-se não apenas na linguística, mas também “... na metalinguística, que estuda a palavra não no sistema da língua e nem em um ‘texto’ tirado da comunicação dialógica, mas precisamente no campo propriamente dito da comunicação dialógica, ou seja, no campo da vida autêntica da palavra” (BAKHTIN, 1997, p. 14-15). Essa ideia foi fortemente desenvolvida tanto pelo Círculo de Bakhtin quanto pela escola da estilística funcional, que trabalha com a noção do meio extralinguístico enquanto influência direta nos vários níveis da produção do discurso.

Em O autor e o herói na atividade estética, assinado por Bakhtin e escrito entre 1920-1930, o estilo é definido como “o conjunto dos procedimentos de formação e de acabamento do homem e do seu mundo”, pois o estilo “não trabalha com palavras, mas com os componentes do mundo, com os valores do mundo e da vida (BAKHTIN, 1992, p. 208-209). Isto quer dizer que, para Bakhtin, as relações axiológico-semânticas produtoras de sentido, ou seja, o dialogismo, são construídas interativamente no nível social de uma dada comunidade etnolinguística.

As ideias do Círculo convergem com certas ideias da escola da estilística funcional. Alguns pesquisadores russos do estilo e do gênero (Diemiéntiev, Siedóv) enfatizam a ideia da primazia do comportamento social na comunicação verbal. O principal objeto de análise é a comunicação cotidiana. Daí o grande o interesse desses autores na “ideologia do cotidiano” referida por Bakhtin, o que justifica nossa pretensão em abordar o estilo com ambas as teorias.

Ressaltemos que Bakhtin considerou a “ideologia do cotidiano” em unidade com os sistemas ideológicos dominantes (as superestruturas) que, para a escola da estilística funcional, correspondem às “formas da consciência social22”, a saber: a arte, a ciência, a lei, a religião etc.

Na década de 1950, Bakhtin escreve “Os gêneros do discurso”, ensaio em que o estilo é apresentado em ligação com o enunciado e suas formas estáveis (os gêneros). Os gêneros discursivos, segundo ele, devem ser pensados culturalmente a partir de seus temas, formas de composição e estilo.

(...) o estilo, assim colocado, entra como elemento na unidade de gênero de um enunciado. O estilo pode ser objeto de um estudo específico, especializado, considerando-se, dentre outras coisas, que os estilos têm a ver, também, com gênero, o que implica coerções linguísticas, enunciativas e discursivas, próprias da atividade em que se insere (BRAIT, 2005, p. 94-95).

Entretanto, se para Bakhtin o estilo faz parte do estudo do gênero, sendo o gênero mais abrangente, para a escola da estilística funcional, os estudos do gênero e a estilística têm problematizações diferentes.

Bakhtin converge com a escola da estilística funcional ao definir o propósito e o objetivo da comunicação, num campo dado, como determinados pelo emprego da forma adequada da consciência social no discurso, ou seja, pelo tipo de pensamento típico de determinado campo e das características típicas do conteúdo a ser expresso em cada caso. Essas caraterísticas típicas da consciência social constituem o fundamento extralinguístico básico para a escola da estilística funcional. Segundo os funcionalistas, o fundamento extralinguístico básico do estilo científico, por exemplo, é a expressão de conceitos e raciocínios científicos (cf. KÓJINA et al., 2008).

Dependendo dos objetivos e tarefas da comunicação, das formas de pensamento e do tipo de conteúdo, certas unidades linguísticas são ativadas no discurso em diferentes níveis, da mesma forma que o são alguns dos valores semânticos e das caraterísticas estilísticas e funcionais. Essas unidades linguísticas estão ligadas entre si por tarefas comunicativas comuns e é através dessa conexão que o enunciado recebe um recurso estilístico.

Segundo Kójina (KÓJINA et al., 2008, p. 28), para Vinográdov, um dos grandes teóricos dessa escola, o estilo funcional constitui um sistema apropriado de meios de expressão em diferentes esferas da comunicação, cujas formas são histórica e comunicativamente construídas, e a estilística funcional é a ciência linguística que estuda as leis do funcionamento da linguagem em várias esferas da comunicação. Além disso, a estilística funcional corresponde, para ele, a uma determinada espécie de atividade humana, ao sistema linguístico vigente com seus estilos funcionais, padrões de seleção e à combinação destes nos meios de linguagem (KÓJINA et al., 2008, p. 39).

A classificação dos estilos foi uma das principais discussões dos estudos desta área na Rússia. Na escola funcional, foram utilizadas para a classificação formas de consciência social (ciência, política, direito, religião, arte, etc.), todas correspondentes a um determinado tipo de atividade humana. Como resultado, em língua russa, a escola funcional descreveu os seguintes estilos: científico, dos negócios/oficial, publicístico/jornalístico, artístico, religioso, cotidiano ou da conversação (em russo: razgovórnyi).

Ressalte-se que Bakhtin se refere não à ‘conciência social’, mas à ‘determinada função’ e ‘condições de comunicação discursiva’:

Em cada campo existem e são empregados gêneros que correspondem a determinados estilos. Uma determinada função (científica, técnica, publicística, oficial, cotidiana) e determinadas condições de comunicação discursiva, específicas de cada campo, geram determinados gêneros, isto é, determinados tipos de enunciados estilísticos, temáticos e composicionais relativamente estáveis. (BAKHTIN, 2003, p. 266).

Segundo Dolínin (de 2003), o texto de Bakhtin “Os gêneros do discurso”, citado acima, representa uma alternativa à proposição da escola da estilística funcional ao fazer “apelo à abordagem indutiva, a partir de gêneros concretos”.

Sheila Grillo (2013) dialoga com Dolínin em sua tese “Divulgação científica: linguagens, esferas e gêneros”, concluindo que Bakhtin considera a classificação dos funcionalistas para avançar no estudo da estilística. Eles se aproximam em relação às funções dadas às esferas (científica, técnica, ideológica, oficial etc.), porém o projeto de Bakhtin se distancia quando defende que “as esferas são os lugares de existência de diversos gêneros e, portanto, que os estilos se ligam mais aos gêneros que as esferas, vastas e diversificadas demais para só terem um estilo” (GRILLO, 2013, p. 32-33).

Ao contrário, para a escola da estilística funcional, os estilos são considerados mais abrangentes que os gêneros. A escola da estilística funcional concentra sua atenção no estudo dos padrões de uso da linguagem em diferentes áreas e situações de comunicação. Para ela, o aspecto funcional da linguagem é tema de um estudo especial e tem relação direta com a classificação dos estilos.

3 O estilo científico3

No Brasil, as pesquisas sobre o estilo científico ganharam relevância a partir dos estudos de alguns pesquisadores da linguística textual, que o trataram na perspectiva do gênero. Inclui-se aí uma diferente gama de tipologias textuais, seja por influência de uma visão interacionista (Bakhtin), linguístico-textual (Marcuschi), ou mesmo enunciativa (Bronckart). Nomes como Maria José Coracini, de vertente estruturalista, e Luiz Antônio Marcuschi, herdeiro dos estudos da linguística textual, empreendem, ao longo de suas pesquisas, reflexões sobre as características, estruturas e usos do que chamam de “texto científico” (CORACINI, 1991) ou de “gênero científico” (MARCUSCHI, 2000).

Coracini (1991), por exemplo, destaca que o tipo de texto comumente chamado de científico é direcionado a um público de usuários da língua que se interessam por uma determinada área de especialidade. Tal público consome um texto estruturado conforme as noções da ciência sobre um assunto específico. A autora afirma ainda que este tipo de texto é caracterizado pela escolha lexical (termos especializados e palavras oriundas de áreas do saber) e pelo ordenamento sintático (prezando por uma estrutura padrão, complexa e formal do uso da língua).

Para Marcuschi (2000), os gêneros, escritos ou orais, revelam domínios discursivos ou modalidades de discurso que organizam estratégias comunicativas conforme suas esferas sociais ou institucionais. Com esse enfoque, Marcuschi salienta que há um continuum entre as formas comunicacionais (do oral ao escrito) que vai da conversação até o texto acadêmico, passando ainda por entrevistas e reportagens; tal continuum relaciona-se com o grau de formalidade e de estruturação textual.

Sob essa perspectiva, pode-se dizer que o viés de Marcuschi (2001) assemelha-se ao ponto de vista bakhtiniano sobre gênero e discurso, uma vez que ele propõe que a interação dos participantes do ato comunicativo é constitutiva de determinados gêneros. Acrescente-se que tanto para Marcuschi quanto para Coracini, o texto que apresenta um estilo científico pressupõe em sua estruturação maior objetividade e uma linguagem mais precisa e padronizada.

Apesar da crescente publicização de trabalhos que versam sobre o gênero científico no país (cf. MACHADO, 2002; MATÊNCIO, 2002), ainda são os manuais de metodologia da ciência e de métodos de pesquisa, como o de Lakatos e Marconi (1991; 1996) e de Severino (1986), que fornecem, aos pesquisadores de ensino superior, o acesso às técnicas de escrita do texto científico. Acrescente-se a eles as versões das regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que fundamentam e estipulam as formas convencionais dos variados tipos de texto acadêmico (resenha, resumo, monografia, etc.).

O que estamos denominando de ‘estilo científico’ neste trabalho é tratado de maneiras diferentes no Brasil e na Rússia. Enquanto na Rússia a separação entre gênero e estilo está relativamente consolidada, no Brasil a ausência de resultados para ‘estilo científico’ e a abundância para ‘gênero científico’ mostra que o país adota uma nomenclatura diversa que, por sua vez, pode indicar que a abordagem também é diversa. O processo de busca do material levou-nos a acreditar que, aparentemente, no Brasil desenvolveu-se mais o estudo sobre o gênero do que propriamente sobre o estilo.

A respeito da língua russa, os historiadores (Sienkiévitch, Kójina) mencionam que a própria ciência na Rússia aparece mais tardiamente do que outras atividades, como, por exemplo, os negócios, e que somente muito depois - no século XVIII - acontece a formação e reflexão do conhecimento científico em língua nacional.

Nas primeiras décadas do século XIX, surgiram, na Rússia, estilos funcionais básicos que foram mudando segundo o desenvolvimento da linguagem. Inicialmente, ocorreu um processo de transformação dos muitos novos recursos linguísticos, o crescimento dos sistemas de terminologia e um aumento no vocabulário abstrato, fenômenos que são particularmente ativos na esfera científica da comunicação.

No século XX, após os acontecimentos de 1917, em que se inicia uma época de intensa revolução científica e tecnológica, ocorreram mudanças significativas no sistema estilístico da língua russa. Nessa época, houve forte e mútua influência entre os estilos.

A partir da segunda metade do século XX, período de rápido desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e da forte competição científica entre os Estados Unidos e a União Soviética, essa influência aumentou, coincidindo (entre os anos 1960 e de 1980) com o desenvolvimento dos estudos da estilística funcional (essa pode até mesmo ter sido a razão pela qual a atenção voltou-se aos estudos do estilo científico na Rússia). A história do desenvolvimento dos estilos funcionais do russo, bem como de outras línguas europeias, não foi até o momento escrita. Existe hoje um grande número de estudos dedicados à pesquisa sincrônica do estilo científico, apesar da abordagem diacrônica ser ainda incipiente.

O estilo científico, segundo a escola funcional russa, representa a esfera científica da comunicação associada à execução da ciência como uma forma de consciência social. O objetivo da ciência tem sido não somente ‘descobrir’, mas também construir o conhecimento humano com base na sistematização e na organização dos fatos.

Para os teóricos da estilística funcional, fatores extralinguísticos básicos contribuem para o princípio construtivo do estilo científico, destacando-se entre eles o fato de centrar-se na expressão da especificidade do conhecimento científico e na atividade cognitiva em geral, do que resulta tender este estilo para a expressão de pensamentos com lógica e clareza.

A aplicação deste princípio construtivo constitui as características do estilo científico e de sua consistência. Como resultado da abstração e da lógica estrita do pensamento nessa esfera, são características dele: a abstração, a generalização e a lógica narrativa.

A abstração e a generalização da fala científica são expressas no uso de vocabulário abstrato, incluindo aquele associado à terminologia. Quase todo nome aparece como a designação de um conceito geral ou de um objeto abstrato: Fonologia é a parte da Gramática Normativa que estuda os fonemas de uma língua... (fonologia em geral) ou Os fonemas da língua portuguesa classificam-se em... (fonemas em geral). Mesmo um léxico concreto é usado para denotar conceitos abstratos: Pesquisador tem que prestar atenção aos... (qualquer pesquisador, todos os pesquisadores).

Em língua portuguesa, esta função é realizada por artigos definidos e indefinidos. Essa natureza abstrato-generalizada do discurso científico é enfatizada por unidades lexicais especiais (geralmente, normalmente, regularmente, sempre, todos, etc.) e por outros meios gramaticais como: frases impessoais, construções passivas etc. A abstração e a generalização da fala científica em língua portuguesa, portanto, estão associadas às significações de uma grande variedade de unidades gramaticais, em particular morfológicas, acessíveis à escolha do enunciador.

São aspectos importantes da fala científica, a clareza, a tendência à objetividade4 e o caráter não-categórico. A fala científica também possui caráter dialógico; ponto em que a escola da estilística funcional converge com a teoria de Bakhtin. O rigor da fala é típico, por conseguinte, dos textos científicos, sendo que o estilo científico, na Rússia, representa um exemplo normativo da fala em geral do que decorre a pretensão de a escola da estilística funcional descrever um padrão idealizado da comunicação científica, persuadindo os cientistas a seguir como norma o resultado dessa descrição.

Para abordar o discurso científico brasileiro, vamos aqui considerar os trabalhos de Sueli Mara Soares Pinto Ferreira e Maria das Graças Targino, em Brasília, e de Maria José Coracini, em São Paulo.

No livro Um fazer persuasivo: o discurso subjetivo da ciência (1991), Coracini questiona o conceito de objetividade/subjetividade expresso pela língua e, mais particularmente, o caráter objetivo do discurso científico. Segundo a hipótese central de sua pesquisa, o discurso científico, a despeito das aparências, é altamente subjetivo, constituindo-se, assim, de um fazer persuasivo, que ela chama de ‘simulacro da objetividade’ (CORACINI, 1991, p. 104). Por exemplo, nas frases: Alguns aspectos apresentados conduzem a uma ideia de primitividade...; Os dados indicam que...; O espectro de massa mostrou... o objeto é transformado em agente, o que resulta no apagamento da subjetividade do cientista enquanto aquele que interpreta os dados (CORACINI 1991, p. 104-105).

A pesquisadora compara o discurso científico brasileiro e francês no quesito “expressão da subjetividade”, analisando tempo, pessoa, modalidade, linguagem metafórica e o fenômeno da intertextualidade como manifestações da subjetividade discursiva, alicerçada teoricamente nas ideias defendidas por filósofos da linguagem como Austin (1962), Derrida (1967), Foucault (1969) e Bourdieu (1982).

Coracini, mediante questionário escrito, entrevistou 16 cientistas atuantes na Universidade de São Paulo na área de biociências. O corpus se constitui de 35 artigos em francês e outros 35 em português, publicados em revistas especializadas francesas e brasileiras. Apesar das conclusões, que estendem os dados observáveis a um dado conjunto de possibilidades, Coracini desenvolveu sua pesquisa com base num corpus brasileiro, motivo pelo qual a tomamos como referência da realidade do estilo ou gênero científico no Brasil. Entendemos, também, que o fazer persuasivo da esfera científica referido por ela é um dos componentes extralinguísticos que, segundo as ideias da escola da estilística funcional e de Bakhtin, interferem no resultado textual.

Resumindo as ideias filosóficas sobre a ciência, em geral, e as observações sobre o discurso científico no Brasil, especificamente, Coracini conclui que uma pesquisa “só é objetiva e os resultados verdadeiros, com relação a um dado paradigma que, afinal, se situa numa dada comunidade científica inserida num determinado momento e lugar” (CORACINI, 1991, p. 33).

O discurso científico produz asserções que pretendem representar linguisticamente - de acordo com os recursos disponibilizados por cada língua - a realidade dos fatos, como demonstrado nos exemplos trazidos pela autora, em que o objeto da investigação vira agente no português do Brasil. Sua conclusão nos interessa para comparar como isso ocorre em textos científicos escritos em russo e português.

Mesmo que as linhas teóricas brasileira e russa ofereçam diferentes interpretações sobre as caraterísticas da comunicação científica, acreditamos poder aplicar os conceitos da escola da estilística funcional e de Bakhtin para realizar nossa abordagem comparativa.

4 A formação do corpus e o gênero ‘resumo de artigo científico’ em português e em russo

O corpus desta pesquisa é formado por enunciados do gênero ‘resumo de artigo científico’, que representa o discurso científico tradicional e seu respectivo estilo. Escolhemos 4 resumos em português e 4 em russo para efetuar a comparação cuja temática concerne aos enunciados da área da Linguística e da Literatura.

Para manter a proximidade temática, foram escolhidas quatro palavras-chave em português: 1) ‘gênero’, ‘gêneros do discurso’ ou ‘gêneros discursivos’; 2) ‘discurso e/ou estudos discursivos’; 3) ‘divulgação/popularização científica’ ou ‘popularização do conhecimento científico’; 4) ‘estilística’, ‘estilo’ ou ‘estudos estilísticos’. Em seguida, observamos a tradução típica destas palavras-chave para o inglês: 1) ‘genre’, ‘speech genres’ ou ‘discourse genres’; 2) ‘discourse’ ou ‘discourse studies’; 3) ‘pop science’, ‘scientific diffusion’ ou ‘scientific popularisation’; 4) ‘stylistics’ ou ‘stylistics studies’. Por meio do inglês, a ‘língua franca’ da ciência na realidade moderna, conseguimos achar os termos correlatos em russo: 1) ‘rietchev’yie zhánry’ ou ‘ zhánry riétchi’; 2) ‘diskúrs’ ou ‘diskursívnyi análiz’; 3) ‘na’utchnaya populiarizátsiya’ ou ‘populiarizátsiya naúki’; 4) ‘stilística’ ou ‘stilistítcheski análiz.

Para a seleção do corpus brasileiro, foram pesquisadas revistas nacionais dentro do parâmetro Qualis B2 até A15 (sendo este último o indicador dos considerados melhores periódicos da área), segundo as palavras-chave mencionadas acima. Já para o corpus russo, foi feita uma vasta pesquisa de artigos com palavras-chaves semelhantes, publicados nas melhores revistas científicas do país dentre os anos 2013 e 2017. Na Rússia, há uma comissão6 governamental que avalia todos os trabalhos científicos, revistas, teses, bancas etc. Na página on-line desta comissão há uma lista das revistas aprovadas; podemos considerar, consequentemente, que são as melhores das respectivas áreas no país7. Todas as revistas da área de linguística e dos estudos da língua russa foram acessadas para este artigo. Foi acessada, também, a biblioteca online8, onde é possível achar os artigos e seus resumos pelas palavras-chave. O público-alvo das revistas é formado, basicamente, por pesquisadores de nível superior, mais precisamente das áreas das Letras. Duas das publicações brasileiras são do ano de 2008 e as outras duas do ano de 2012 e 2013. Os autores das pesquisas têm titulação de doutores e são docentes de IES brasileiras.

Dentre os tipos de gêneros acadêmicos exigidos pelas ciências, o gênero “resumo de artigo científico”, que inclusive compõe o artigo científico, a monografia e as dissertações e teses no Brasil, é o registro sucinto das principais informações de uma pesquisa acadêmica. Segundo Machado (MACHADO, 2002, p. 150), o resumo visa “informar o leitor sobre esses conteúdos”, tendo autonomia em relação ao texto completo, que esmiúça todos os passos da pesquisa. Primando pela forma concisa, o resumo organiza em seu conteúdo o objeto da pesquisa, o método, possíveis hipóteses e as principais vozes que dão suporte à investigação ali tratada.

A descrição resumida do gênero ‘resumo de artigo científico’9 foi feita com base na análise efetuada, que considerou: 1) os resultados da escola da estilística funcional russa, que descreveu este gênero de maneira normativa, mostrando como este tipo de enunciado idealmente deveria ser, e 2) as instruções para formar os resumos recebidos pelas revistas temáticas e conferências no Brasil nas respectivas áreas. Nas circulares brasileiras também observamos uma visão idealizada sobre o gênero ‘resumo de artigo científico’ e encontramos regras estritas para sua produção. Concluímos, então, que o gênero ‘resumo de artigo científico’ se caracteriza por:

  1. Na Rússia: precisão no ato de generalizar a informação do artigo; uso das figuras de linguagem a serviço da exatidão do discurso (palavras e termos inequívocos); construção das orações sempre com o sujeito explícito e, na maioria dos casos, com o verbo no infinitivo como predicado; utilização das seguintes figuras de linguagem para generalizar: adjetivos amplos10, visando a expressar as qualificações constantes do objeto, e verbos na 3ª pessoa do presente, ou no singular, ou no plural, sinalizando ação permanente.

  2. No Brasil: uso de parágrafo único, o que significa que a forma seja breve e precisa, deve conter introdução, objetivo, metodologia ou material e métodos, resultados (parciais ou finais), conclusões ou considerações finais, tudo estruturado, portanto, de modo sempre conciso.

Além disso, se o resumo é um tipo de gênero comum no meio científico e destinado a veicular informações e conteúdos a pesquisadores de distintos graus da formação científica (graduação e pós-graduação), decerto ele deve ser também um meio de divulgação de um saber.

Tais informações e propriedades do resumo sublinham a legitimação das práticas investigativas de uma instituição científica e daquele que pesquisa. Sua circulação, que ocorre geralmente em periódicos acadêmicos e/ou eventos científicos, garante a este tipo de texto seu papel de relevância diante da ciência por estabelecer também a junção e/ou conflito entre as outras vozes apropriadas por determinado autor, o que valida a especificidade da ciência. Em ambos países, o objetivo deste gênero é informar sobre o conteúdo do artigo de maneira resumida e objetiva, além de conquistar a atenção do leitor, que pode ser um leigo na área acadêmica do artigo.

5 A análise do corpus e resultados

Resumindo a experiência de busca e análise do material,de acordo com a base teórica de Bakhtin, da escola da estilística funcional e segundo a estrutura composicional da análise do discurso comparativa de von Münchow (2011) chegamos às observações que se seguem.

Durante a pesquisa, não foi detectado no corpora brasileiro nenhum padrão no tamanho exato dos resumos e na organização das palavras-chave. Estes parâmetros dependem de cada revista e conferência. Atualmente, muitas revistas na Rússia não publicam os resumos, inclusive as mais respeitadas do mundo acadêmico, como, por exemplo, a Acta Linguística Petropolitana11 ou algumas publicações do Instituto de Pesquisa Linguística da Academia da Ciência Russa12. Sobre o tamanho e estrutura do resumo, na Rússia, aparentemente não se segue um padrão para a confecção de resumos em artigos científicos e conferências (mesmo que ele exista), como foi demonstrado anteriormente. No Brasil, entretanto, os autores são compelidos a seguir as normas definidas de escrita, sob pena de terem seu artigo desaprovado pelas revistas.

O próprio site da Comissão Atestadora do Ministério da Educação da Rússia não se encontra disponível em inglês. Por ora, buscar por informações em geral (incluindo artigos e resumos) no âmbito da produção russa, é uma tarefa complicada. Acreditamos que esta situação seja uma herança da superestrutura da União Soviética que, provavelmente, já está em fase de mudança, pois já há tendência a padronizar a produção científica no país, traduzir os sites das universidades e revistas para o inglês e disponibilizar os resumos e palavras-chave em russo e inglês.

Tanto no Brasil quanto na Rússia há a tendência de se internacionalizar as respectivas produções científicas. Essa tendência pode ser observada quando tomamos em conta o fato de que as produções científicas escritas na atual “língua franca” da ciência, o inglês, vêm crescendo ao longo do tempo nessas sociedades, bem como a procura por textos científicos indexados em bancos de dados internacionais e de grande reconhecimento no meio acadêmico mundial. Esta é uma das influências diretas do meio extralinguístico na produção do gênero ‘resumo de artigo científico’, como teorizado tanto por Bakhtin quanto pela escola da estilística funcional (Kójina, Kotiúrova).

Os exemplos de resumo em nosso corpora, em ambas as línguas, têm o propósito de informar o leitor acerca da realização e do desenvolvimento da pesquisa de forma lógica e clara. Isto vai de encontro ao que a escola da estilística funcional chamou de ‘fundamento extralinguístico básico’ e ao que Coracini afirma ser parte de uma estratégia para simular a lógica, ou seja, transmitir ao leitor um pensamento científico racional e verdadeiro com ênfase no convencimento - a camuflagem da subjetividade. Em ambas línguas se utiliza essa estratégia, a diferença entre elas consiste em como, ou seja, com quais ferramentas linguísticas disponíveis o russo e o português constroem essa camuflagem.

Para analisar comparativamente essas ferramentas, utilizaremos a seguir as categorias de Patrícia von Münchow, que são: nível composicional, semântico e enunciativo da estrutura do gênero.

No nível composicional, temos o tamanho e a estrutura do resumo, que variam de acordo com cada revista no material russo, e que se dispõem em um único parágrafo, no material brasileiro. Reproduzimos abaixo os exemplos do corpora, para o leitor ter uma referência visual que facilite a comparação.

Quadro 1::
Exemplo de resumo em língua portuguesa e em língua russa
PORT RUS

Fonte: Elaborado pelos autores, 2017.

No nível enunciativo, uma das possibilidades em língua portuguesa é o uso da voz passiva: “A Estilística, por muito tempo, foi tomada como uma disciplina que se aproximava da Retórica... “; “Neste ensaio, define-se letramento escolar na perspectiva dos letramentos múltiplos e situados...”; “Esse olhar redutor foi ampliado...”. Nos exemplos em língua russa também encontramos uso de voz passiva com frequência: “...com base em que foram mostradas as características estilístico-pragmáticas das palestras de televisão”; “Nestes documentos está formulada a requisição oficial dos representantes do gabinete do promotor público...”; “No artigo, são caracterizadas as particularidades de fala e composição do texto de documento...” e até “Está indicado pelo autor “ no lugar de “o autor indica”. Vemos que o uso de voz passiva é comum nos exemplos das duas línguas, o que é considerado uma das caraterísticas do estilo científico pela escola da estilística funcional (KÓJINA et al., 2008, p. 289-319).

Quanto ao nível semântico, outras caraterísticas do material em língua portuguesa que observamos em nosso estudo são a abstração e a generalização (otvliet-chiónno-obobschiónnost) também é uma das caraterísticas do estilo científico em língua russa (KÓJINA et al., 2008, p. 291): “Está indicado pelo autor que cada13 ato típico é caracterizado pela sua composição”. Contudo, nos exemplos estudados observamos a tendência à ‘camuflagem da generalização’: “A análise estilístico-discursiva de até dois modelos de gênero - protestos e declarações - nos permite identificar neles o reflexo de algoritmos típicos... O estudo persuade que o estilo profissional em geral representa uma das variedades de atividades de fala...”. Neste exemplo, o autor menciona que analisa somente dois modelos, mas adiante tira conclusões sobre o estilo profissional em geral, ao mesmo tempo apontando que é uma das variedades.

Concluímos, portanto, que em ambas as línguas há desvios em relação às respectivas propostas de clareza e precisão do gênero, resultando na coexistência entre precisão (caracterizada pela falta de ambiguidade, léxico cuja semântica é clara, uso dos termos, referências/citações) e generalização.

Mesclando os níveis enunciativo e semântico, o tempo verbal dos enunciados dos resumos russos assenta-se no presente do indicativo14, o que imputa ao texto o aspecto assertivo da pesquisa, sendo também considerado um instrumento de generalização na escola de estilística funcional (KÓJINA et al., 2008, p. 293).

Outra caraterística de generalização no discurso científico em língua russa é o uso dos verbos de movimento no sentido indireto: b’yli v’yvedeny, do verbo de movimento vyvodít/vy’vesti, tem o sentido de ‘foram mostradas ou indicadas’, assim como o uso do neutro Issliédovaniie (o estudo), otrajiéniie (o reflexo) etc15.

Por fim, a nível enunciativo temos a voz impessoal, marcada por modos verbais que distanciam a autoria e é comum a todo corpora. O uso da primeira pessoa do plural ocorre nas duas tradições do estilo científico: “investigaremos procedimentos”, “estaremos então subsidiados pelo pensamento bakhtiniano...” etc.

Vale mencionar que em nosso material observamos uma nova tendência: os autores já não usam com tanta frequência a primeira pessoa do plural, mas ainda não estão usando a primeira pessoa do singular. Em língua russa chegamos a encontrar um exemplo que utiliza somente a voz passiva, sem nenhuma ocorrência de voz ativa: “A relevância deste trabalho deve-se ao entendimento”, “No artigo é apresentada uma análise do projeto” ou “com base em que foram mostradas as características”. Tendência semelhante foi observada nos resumos em língua portuguesa, podendo ser considerada outro exemplo de camuflagem de subjetividade, assim como o uso de gerúndio: “Entendendo o processo de apropriação de gêneros discursivos...”, “...colocando especialmente problemas em relação às linguagens especializadas”. O apagamento do espaço-tempo resulta, consequentemente, no apagamento/camuflagem dos sujeitos autores e suas subjetividades, indicados na conjugação do verbo.

Em ambas as línguas observamos a inclinação ao caráter não-categórico do discurso científico, isso fica ressaltado, por exemplo, nas avaliações neutras sobre a importância do tema, na referência à eficácia da teoria e dos resultados da pesquisa, mesmo que se refiram às opiniões dos autores citados. Ao mesmo tempo, é possível observar as seguintes avaliações subjetivas em alguns trechos: olhar redutor, diversidade estilística muito grande e mesmo o uso de advérbios categorizantes como “efetivamente”.

Considerações finais

Nosso artigo indica, portanto, entre outras inferências que possam ser feitas, que apesar do gênero ‘resumo de artigo científico’ não seguir o mesmo padrão no Brasil e na Rússia, há vários aspectos que aproximam a escrita deste gênero nos dois países, sendo, entre eles, o mais marcante, a tendência à camuflagem da subjetividade. Isso levanta a questão de poder ser este um traço do gênero científico em geral. Em ambas as línguas, observamos o caráter não-categórico do discurso científico, o que é verificável em avaliações neutras sobre a importância do tema, eficácia da teoria e dos resultados da pesquisa, mesmo quando se referem às opiniões dos autores citados. Esse tipo de avaliação ajuda a construir efeitos de neutralidade e de objetividade, mesmo que isso ocorra, por vezes, concomitante à presença de avaliações subjetivas em alguns trechos.

Nele fizemos um breve apanhado historiográfico sobre a chegada e as influências das principais correntes europeias da estilística no Brasil, quais sejam: a vertente franco-germânica, estruturalista e idealista e, a partir dos anos 2000, a vertente representada por Mikhail Bakhtin.

Introduzimos, para dar mais amplitude à análise, as ideias da escola da estilística funcional russa, que cresceram juntamente com as do Círculo de Bakhtin. Nossa proposta de abordagem teórico-metodológica reuniu, por conseguinte, algumas ideias de Bakhtin e da escola da estilística funcional, postas também em diálogo com as categorias de análise comparativa e discursiva de von Münchow.

Resumidamente, a noção do meio extralinguístico enquanto influência direta nos vários níveis da produção do discurso é a ideia comum entre o Círculo e a escola da estilística funcional, tendo sido fortemente desenvolvida por ambas. O estilo, segundo Bakhtin, trabalha com os componentes do mundo e da vida; enquanto que, segundo os pesquisadores russos do estilo funcional, trabalha com a ideia da primazia do comportamento social na comunicação verbal. As ideias de Bakhtin convergem com as da escola da estilística funcional ao definir o propósito e o objetivo da comunicação como determinados pelo tipo de pensamento e de características típicas do conteúdo a ser expresso em cada caso e campo. Como na esfera científica, da qual faz parte o gênero ‘resumo de artigo científico’, a objetividade é, em teoria, um dos principais componentes, isso consequentemente influencia a produção dos resumos.

A esse respeito, a estruturalista Maria José Coracini, ao refletir sobre as características, estruturas e usos do gênero científico - que para a escola da estilística funcional tendem a expressar a lógica e a clareza do pensamento científico - ressalva que: i) nele são utilizadas estratégias de persuasão, com vistas a convencer o público sobre a objetividade do pensamento científico e ii) que este é, na verdade, altamente subjetivo. Essa estratégia foi denominada pela autora como “camuflagem da subjetividade”. Constatamos, em nossa análise, o emprego desta estratégia tanto no corpora brasileiro quanto no russo (uso de voz passiva, abstrações, generalizações e o apagamento tanto dessas generalizações quanto do espaço-tempo, resultado do uso de gerúndios), mas notamos também que em ambas as línguas há desvios em relação às respectivas propostas de clareza e precisão do gênero.

Consideramos que os apontamentos de Coracini, combinados às categorias de von Münchow, nos oferecem uma ferramenta precisa para observarmos como se constrói, nos textos do gênero ‘resumo de artigo científico’, o simulacro de objetividade que a esfera científica pretende propagar e que influencia, enquanto componente da vida (Bakhtin) ou dado do meio extralinguístico (escola da estilística funcional), a produção escrita do gênero. A tendência à camuflagem da subjetividade observada tanto no russo quanto no português brasileiro levanta para nós a questão de poder ser este aspecto um traço do gênero científico em geral.

Não foi detectado nenhum padrão no tamanho dos resumos e na organização das palavras-chave, que dependem de cada revista e conferência. Algumas revistas na Rússia não publicam os resumos, enquanto no Brasil os resumos possuem o status de seleção dos trabalhos, sempre acompanhando as publicações, servindo de ‘cartão de visitas’ das mesmas durante as buscas.

Finalmente, é possível concluir que, tanto no Brasil quanto na Rússia, há a tendência de se internacionalizar as respectivas produções científicas e que, no resultado geral de nossa análise comparativa, encontramos mais convergências do que divergências estilísticas na elaboração do ‘resumo de artigo científico’ em ambas as línguas.

Referências

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Estes parâmetros da análise comparativa são adotados e aplicados nos estudos do grupo de pesquisa Diálogo, da USP.
fórmy obchtchiéstviennogo soznániia (KÓJINA et al., 2008, p. 123).
Gostaríamos de salientar que a tradução literal do termo russo ‘naútchny diskúrs’ para o português brasileiro é ‘discurso científico’, significando o discurso acadêmico em geral que engloba tanto as ciências exatas e naturais quanto as humanas.
Considerando as observações de Coracini, nessa pesquisa vamos considerar que o discurso científico tradicional não necessariamente tem todas as caraterísticas aqui mencionadas, mas tem a tendência de ser objetivo, lógico, abstrato etc - ou melhor: tem a tendência de parecer objetivo, lógico, abstrato etc. Estes critérios são, na verdade, usados como estratégias de persuasão.
A nossa escolha incluiu: Matraga - Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ; Linguagem em (Dis)curso da Unisul; Alfa: Revista de Linguística e Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso.
Em russo,Vserossíiskaia Attestatsiónnaia Komíssia,- ВАК. (http://vak.ed.gov.ru - acceso 15/6/2017).
A nossa escolha incluiu: Sbórnik naútchnykh statiéi, 2016. Izdátielstvo: Ómskiy gosudárstviénnyi universitiet im. F.M. Dostoiévskogo; Viéstnik piérmskogo univiersitiéta. Rossíiskaia i zarubiézhnaia filológiia; Viéstnik Volgográdskogo gosudárstviennogo univiersitiéta. Siériia 2: Iazykoznániie, entre outros.
https://elibrary.ru E-Library é a maior biblioteca digital de publicações científicas da Rússia. O projeto é integrado com o Index Russo de Citações Científicas (RINTS), criado por ordem do Ministério da Educação. RINTS - Rossíiski Índeks Naútchnogo Tsitírovaniia, em russo, РИНЦ.
annotátsiia (аннотация).
Em russo há duas formas de adjetivos, os amplos e os curtos (mais antigos). A forma curta expressa o ponto de vista, avaliação do falante e características mutáveis do objeto; a forma ampla expressa as características imutáveis. No discurso científico russo é observada a mudança dessas caraterísticas: a forma curta dos adjetivos é usada com frequência para descrever as caraterísticas imutáveis (KÓJINA 2008, p. 294).
(https://alp.iling.spb.ru - acceso 15/6/2017)
Institút Lingvistítcheskich Isslédovaniy Rossíiskoi Académii Naúk, em russo - ИЛИ РАН. (https://iling.spb.ru - acesso 15/06/2017)
O autor russo usa a palavra ‘kázhdyi’, que pode ser traduzida como ‘cada’ ou ‘todo’.
Nastoiáscheie nievriemiennóie, ou seja, presente atemporal.
Uma observação interessante sobre o material em língua russa é o que podemos notar no diálogo entre a esfera científica e a sociedade: “A relevância deste trabalho deve-se ao entendimento, na sociedade, da necessidade da popularização da ciência”, o que mostra o caráter dialógico do discurso científico no sentido bakhtiniano. Este tipo de diálogo também foi observado pela autora em entrevistas com cientistas - corpora sobre o qual apresentou no SIMELP em outubro de 2017, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Santarém, Portugal. http://simelp.ese.ipsantarem.pt/simposio-45/ - Acesso em 31/10/2017.
Universidade de São Paulo - USP, São Paulo, SP, Brasil; FAPESP Proc. 2015/10458-0; maria.glushkova@yahoo.com
Universidade do Estado do Pará - UEPA, Belém, PA, Brasil; FAPESP Proc. 788939/2014; ru-98@hotmail.com