Amor Estabelecido” - pedido de casamento através de carta

uma análise linguístico-filológica

  • Rita de Cássia Ribeiro de Queiroz Universidade Estadual de Feira de Santana
Palavras-chave: Filologia;, Linguística Histórica;, Carta pessoal;, Edição;, Variações grafemáticas

Resumo

Durante séculos o homem vem registrando, através da escrita, os seus feitos. Todos esses registros representam a memória da humanidade e constituem-se em um vasto acervo documental, classificado pela UNESCO como patrimônio cultural. Vários foram os suportes, dentre eles pedra, mármore, osso, estofo, pele, folhas de palmeira, carapaça de tartaruga, papiro, pergaminho e papel. O documento escrito representa o armazenamento de informações, permitindo a comunicação através do tempo e do espaço. Neste sentido, analisar cartas pessoais, revela o quanto a escrita se fez presente ao longo da história, fazendo com que a distância entre pessoas fosse amenizada. Deste modo, pretendemos, com este artigo, trazer à tona, através dos postulados da Filologia Textual e da Linguística Histórica, a edição de uma carta de pedido de casamento, com a resposta ao pedido, não datada, e uma análise das variações grafemáticas constantes no texto. Embora a carta não esteja datada, traz à baila um hábito que na contemporaneidade não se faz mais entre nós, ou seja, escrever cartas e remetê-las por correio deixou de ser uma prática das novas gerações, mas que revela em si elementos gráficos de uma escrita fonética que indica a baixa escolarização do(a) escrevente.

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Publicado
2018-09-13
Como Citar
Queiroz, R. de C. (2018). Amor Estabelecido” - pedido de casamento através de carta. Linha D’Água, 31(2), 103-122. https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v31i2p103-122
Seção
Artigos originais

Introdução

Escrever sempre foi um ato revolucionário, pois deste modo se pode perpetuar a memória, seja esta individual ou coletiva. Desde que a escrita se fez presente, remontando ao seu surgimento há pelo menos 5 mil anos, o acúmulo de textos também se tornou preponderante. Mas, devemos o conhecimento de tantos fatos, feitos, sentimentos à escrita.

Os suportes da escrita variaram ao logo do tempo: das pedras das cavernas à virtualidade, ou seja, a humanidade usou a pedra, a tabuinha de argila, o papiro, o pergaminho, o papel e, atualmente, os meios virtuais, fluidos como as relações mantidas em várias esferas. No entanto, o papel ainda marca fortemente sua presença, pois se faz necessária a materialização da escrita através de um suporte menos volátil.

Na contemporaneidade, a prática da escrita é muito frequente, usamos constantemente as famosas redes sociais para a interação interpessoal. Seja no whatsApp, seja no facebook, seja no instagram ou em outros veículos, boa parte da população está escrevendo e interagindo. É fato que isso se dá mais entre a camada da população cuja faixa etária possua idades mais baixas.

Há bem pouco tempo, o e-mail (correio eletrônico) se tornou uma ferramenta indispensável, seja para negócios, seja para atividades acadêmicas, seja para trocas de mensagens de um modo geral. As antigas cartas manuscritas, enviadas pelos correios, deixaram aos poucos de serem usadas. A velocidade com que a comunicação deve ocorrer foi deixando para trás um hábito muito comum, seja este realizado por pessoas com domínio da norma padrão da língua, seja por aqueles sem muita habilidade. No entanto, a literatura epistolar é uma fonte documental que fornece dados importantes a filólogos, linguistas, historiadores, dentre outros estudiosos. Para Moraes (2008, p. xi),

[...] atrai também os olhares das mais diversas áreas do conhecimento, da história à psicologia (e psicanálise), da sociologia e filosofia às artes em geral, das ciências exatas às biológicas, olhares que desejam captar testemunhos e ideologias, fundamentos artísticos e científicos, experiências vividas ou imaginadas.

É uma documentação cujo valor vai além da simples função de uma comunicação entre remetentes e destinatários. Neste sentido, a prática epistolar só existe a partir do momento em que quem enuncia uma fala espera uma resposta, conforme podemos ver na carta sob análise, através da figura a seguir, quando o senhor Guilherme pede a resposta ao seu destinatário, senhor José Barreto.

Pedido de resposta feito pelo remetente

Figura 1:: Pedido de resposta feito pelo remetente

Tudo se resolvia através das cartas: saber notícias de entes queridos distantes; comunicar algum acontecimento, como morte, casamento, mudança de endereço; formaturas; e pedidos de namoro e casamento. É este último que nos interessa, pois tomamos conhecimento há pouco tempo, no acervo da família1, de um traslado de uma carta contendo o pedido de casamento e a resposta do pai da moça ao pedido. Segundo Santiago e Carneiro (2011, p. 1517), “[...] as cartas, produzidas em relação simétrica entre remetente e destinatário, produtos de uma mão pouco hábil/inábil, são documentos pessoais que representam a escrita cotidiana [...]”.

Deste modo, apresentamos, neste artigo, o tratamento filológico dado à carta, a partir das edições fac-similar e semidiplomática, pois, segundo Santos (2006, p. 80),

[...] o texto é o testemunho de um povo, de uma época, de um autor, etc. e, desse modo, deverá ser reconstituído em sua forma genuína para que sirva de fonte segura para estudos vários. Ressalte-se, porém, que os editores, na prática de seu trabalho, não alcançam o ‘verdadeiro texto’, mas sim aquele que dele mais se aproxima.

Assim, a partir das edições, apresentamos análises da escrita da carta, através da variação das relações fonográficas, estas ocorridas devido à uma forte influência da oralidade. De acordo com Rodrigues (2005, p. 1):

No estudo da evolução fonética da língua, a partir de palavras em que ocorram processos de evolução fonética, intervêm noções como as de produção e classificação dos sons da fala, relações de proximidade e distância dos fonemas da língua e de processos fonológicos (inserção, supressão e alteração de segmentos, metátese).

Isso posto, constatamos interferências dos planos fônico/fonético e gráfico da língua na carta de pedido e resposta de casamento.

1 O Corpus

Trata-se de um traslado de uma carta de pedido de casamento e sua resposta, escrita em papel pautado, medindo 220mm X 325mm, em um único fólio (recto e verso), com trinta e três linhas, em tinta azul, redigida por Dinalva de Souza Ribeiro2. Não consta datação. Este documento está salvaguardado no acervo da família Ribeiro, em um caixa onde constam também fotografias de familiares. A carta foi dobrada em quatro partes, cujas marcas podem ser observadas na edição fac-similar aqui apresentada nas subseções 2.1 e 2.2.

Assinatura da escrevente da carta

Figura 2:: Assinatura da escrevente da carta

A escrevente da carta de pedido e resposta de casamento, Srª. Dinalva de Souza Ribeiro, possui apenas o ensino fundamental até o 5º ano. Nascida na zona rural de um município baiano, Conceição do Almeida, foi jovem para Brasília e depois para São Paulo. Teve de trabalhar e os estudos ficaram para trás. Hoje está com 76 anos. O traçado de sua escrita mostra-nos um cuidado, uma alfabetização que priorizava uma boa letra. Mas as marcas da oralidade em sua escrita são bastante recorrentes, como podemos comprovar na figura a seguir:

Escrita das palavras Vossa Mercê, nobre e família

Figura 3:: Escrita das palavras Vossa Mercê, nobre e família

Dinalva de Souza Ribeiro transcreve a carta do pedido e da resposta de casamento, por interesse de Sr. Guilherme da Silva (quem faz o pedido de casamento) e do Sr. José Barreto (pai da moça pedida em casamento pelo Sr. Guilherme da Silva). Como se pode comprovar nas figuras que se seguem:

Remetente da Carta de Pedido de Casamento

Figura 4:: Remetente da Carta de Pedido de Casamento

Destinatário da Carta de Pedido de Casamento

Figura 5:: Destinatário da Carta de Pedido de Casamento

1.1 Descrição extrínseca do corpus

Nesta subseção são explicitados, através do quadro a seguir, os aspectos relacionados ao suporte no qual a carta foi escrita, como: manchas de tinta, rasgos e interferências endógenas feitas posteriormente à escrita da carta.

Quadro 1::
Características Extrínsecas da Carta de Pedido de Casamento
CARACTERÍSTICAS EXTRÍNSECAS FÓLIOS EXEMPLO
Interferências de terceiros na escrita - uso de tinta vermelha 1r
1v
Rasgos 1r
1v
Manchas de tinta 1r
1v

1.2 Descrição intrínseca do corpus

Nesta subseção, são apresentados, através do quadro a seguir, os aspectos intrínsecos mais relevantes encontrados na carta, as abreviaturas. As ocorrências das interferências nos planos fônico/fonético e gráfico são tratadas na seção 3.

Quadro 2::
Características Intrínsecas da Carta de Pedido de Casamento
CARACTERÍSTICAS INTRÍNSECAS FÓLIOS EXEMPLO
Abreviaturas 1r
Illustrissimo
Senhor
Por a 1v

2 A edição da Carta do Pedido e Resposta de Casamento

Para o devido tratamento filológico da Carta do Pedido e Resposta de Casamento, foram escolhidas as edições fac-similar, esta por ser o registro fiel do documento através da reprodução mecânica, ou seja, a fotografia (feita a partir do registro através do equipamento iPhone 7, com câmera de 12 MP, abertura f/1.8 e zoom digital de até 5x); e a semidiplomática, por esta ser a que preserva mais as características intrínsecas do texto: linhas, elementos grafemáticos (sendo estes os que serão analisados neste texto sob a ótica da Linguística Histórica), divisão do texto, etc.; cujos critérios de edição se voltam para o caráter mais conservador.

Os critérios de edição se aliam aos seguintes princípios:

  • • Para a descrição do documento, observar e anotar:

  • a) Número de colunas;

  • b) Número de linhas da mancha escrita;

  • c) Existência de ornamentos;

  • d) Maiúsculas mais interessantes;

  • e) Existências de sinais especiais;

  • f) Número de abreviaturas;

  • g) Tipo de escrita;

  • h) Tipo de papel.

  • • Para a transcrição:

  • a) Respeitar fielmente o texto: grafia, linhas, fólios etc.;

  • b) Fazer remissão ao número do fólio no ângulo superior direito;

  • c) Numerar o texto linha por linha, constando a numeração de cinco em cinco;

  • d) Separar as palavras unidas e unir as separadas;

  • e) Desdobrar as abreviaturas usando itálico;

  • f ) Utilizar colchetes para as interpolações: [ ];

  • g) Indicar as rasuras, acréscimos e supressões através dos seguintes operadores:

  • ((†)) rasura ilegível;

  • [†] escrito não identificado;

  • (...) leitura impossível por dano do suporte;

  • / / leitura conjecturada;

  • < > supressão;

  • ( ) rasura ou mancha.

2.1 Edição fac-similar da Carta de Pedido e Resposta de Casamento (1r - O Pedido)

2.2Edição fac-similar da Carta de Pedido e Resposta de Casamento (1v - A Resposta)

2.3 Edição semidiplomática da Carta de Pedido de Casamento (1r - O Pedido)

O Pedido 1r

Illustrissimo Senhor José Barrêto

5 Desejo saude a vosmincê e nobe famia. Meu

senhô o tempo é chegado eu tou com um amor

estabelecido todo infetiado dento do meu coração, sua

fia Mariquinha, para mim ela é uma lindêza,

é mermo que oiá pra um pé de maracujá todo

10 enfolorado este amôr embocou em meu peito atento

desde o dia da reza de Sinha Chica, meu eu agora

detriminei botar ele para fora. Ela já vumitou

para mim dizeno que o amor já ta encabulado

namoração dela.

15 Purisso peço a mão de Mariquinha em casamento

com todo prazê, e tamen boto o cazo a saber que

é do gosto de vosmincê e tamen de sua inreispeita_

ve familia famia.

A resposta dos meus teres o que eu tem

20 vosmince já sabe, terei o meu cavalo lasão carêto

que sempre vou montado nele tem umas 4

cabêças de caba que dei a cumade de vosmice a

meia, e tamen tem uma roça de feijão que já

cati bage. Precisamo de lhe falar na maiada

25 de fumo que tá é gande eu vô fazer um

cobe esse ano, as prova do que vão dizer que

eu tem as pernas curta pra mode tratar

dela, mai vosmicê sabe que eu tenho trabaido

mermo como tatu peba para cavar terra no

30 buraco, se for do gosto de vosmincê e dela e da veia

me aresponda em riba funças, pois eu preciso

outro negoço deixo mai ceao cedo. [S]<s>ertando o cazamento

Do seu futuro genro que ama muito a ela

35

Guilerme da Silvas. Me aresponda.

2.4 Edição semidiplomática da Carta de Pedido de Casamento (1v - A Resposta)

a Resposta 1v

Amigo e Senhô Guilerme da Silva

5 Llhe desejo saude a toda creola. Arrecebi a sua

em cima do rasto, pruquê a minha mué ta

passando muito duente. Eu sarto daqué eu

sarto da culá prucurano um arremédio que

apalacou mai a dôr e mermo que eu tava

10 penssando primeiro o que divia de lhe arrespon/der/

Voincê mandou pedí a mão de minha fia

Maiquinha porem a não só dou de bom gôsto,

lhe dou a menina toda. Ela ta muito verdin/ha/

mai sendo do seu gosto e do dela, purtanto

15 desne o dia da reza de cumade Chica que tava

discunfiada pruquê eu viu toda arripiada toda

pra vomincê; Aê eu dixe logo a mué Maiquinha

ta toda sulbstraída. Enquanto os trem da menina

não é da mai desprevenida, poi ela tem um baie

20 no chiqueiro qué ta fatigano, tem uma leitoa fia

da porca de cumade Zéfa do fucin curto com 5

bacuri atra<i>[z].

Tem um pedaço de mio que ta emcabelano

na baixa de cumade Zéfa e tamen tem uma gata

25 que ta na hora de da cria, não, falono nus

bicinho do terreíro que é muita coisa. Os pa/t/o traz

de rede curta pra mode os ôvos das galinha dela

e tamen uma franga que tá quereno apô.

Não e mai cumprida a carta pruquê eu vou

30 prucurá o arremedio pra voice.

Aqui fica o seu sôgo gato que lhe deu a fia

que deve ser.

José Barrêto.

35 fim; P. a Dinalva

Dnalva Souza Ribeiro

3 Análise da variação das relações nos planos fônico/fonético e gráfico

Na carta de pedido de casamento e sua resposta, constatamos a ocorrência de variações grafemáticas devido à interferência da oralidade, ou seja, determinadas palavras foram grafadas de acordo com a pronúncia dos envolvidos na escrita da epístola. A seguir, apresentamos essas ocorrências e as devidas explicações para o fato.

Quadro 3::
Análise das variações grafemáticas
PALAVRAS OCORRÊNCIAS ANÁLISES CONTEXTO
saude 1r - l. 5 Falta de acentuação “Desejo saude a vosmincê[...]”
1v - l. 5
vosmincê/vosmince/vosmice/vosmicê/voincê/vomincê/voice 1r - l. 5, 17, 20, 22, 28, 30 Variações de Vossa Mercê, pronome de tratamento, o qual sofreu uma simplificação fonética resultante da redução de segmentos e sílabas átonas. “Desejo saude a vosmincê [...]”
1v - l. 11, 17, 30 “[...] o que eu tem vosmince já sabe, [...]”
  “[...]que dei a cumade de vosmice [...]”
  “[...] mai vosmicê sabe que eu tenho trabaido [...]”
  “[...] Voincê mandou pedí a mão de minha fia [...]”
  “[...] toda arrepiada toda / pra vomincê; [...]”
  “[...] prucurá o arremedio pra voice.”
nobe 1r - l. 5 Apagamento do encontro consonantal oclusiva bilabial + vibrante /br/>/b/, havendo a síncope da consoante vibrante. “Desejo saude a vosmincê e nobe famia.”
famia 1r - l. 5, Despalatalização da palatal líquida /ʎ/ > /i/. “Desejo saude a vosmincê e nobe famia.”
senhô/Senhô 1r - l. 6 Apagamento da consoante final /R/, ou seja, apócope. “Meu / senhô o tempo é chegado [...]”
1v - l. 3
tou 1r - l. 6 Aférese da sílaba inicial /es/ “[...] eu tou com um amor [...]”
dento 1r - l. 7 Apagamento do encontro consonantal oclusiva dentoalveolar + vibrante / tr/>/t/, havendo a síncope da consoante vibrante. “[...] dento do meu coração [...]”
fia 1r - l. 8 Despalatalização da palatal líquida /ʎ/ > /i/. “[...] fia Mariquinha, para mim ela é uma lindêza, [...]”
1v - l. 11, 20, 31
mermo 1r - l. 9, 29, Rotacismo: /s/>/r/ “[...] é mermo que oiá [...]”
1v - l. 9
oiá 1r - l. 9 Temos dois processos: despalatalização da palatal líquida /ʎ/ > /i/; apócope da consoante final /R/. “[...] é mermo que oiá [...]”
enfolorado 1r - l. 10 Epêntese de /o/, na sílaba /fo/. “[...] um pé de maracujá todo / enfolorado [...]”
Sinha 1r - l. 11 Variação de Senhora, muito usada nos meios rurais, no diminutivo, senhorinha, havendo as alterações: senhá, sinhá, sinhazinha. “[...] desde o dia da reza de Sinha Chica [...]”
detriminei 1r - l. 12 Temos dois processos: metátese de /r/; assimilação de /i/. “[...] detriminei botar ele para fora.”
vumitou 1r - l. 12 Alteamento da vogal /o/ > /u/. “[...] Ela já vumitou [...]”
dizeno 1r - l. 13 Assimilação do encontro /ndo/ em /no/. “[...] dizeno que o amor já ta encabulado [...]”
ta / tá 1r - l. 13 Aférese da sílaba inicial /es/. “[...] dizeno que o amor já ta encabulado [...]”
1v - l. 6, 13, 18, 28 “[...] e tamen uma franga que quereno apô.”
Purisso 1r - l. 15 Alteamento da vogal /o/ e junção gráfica de duas palavras: por + isso. Purisso peço a mão de Mariquinha em casamento [...]”
prazê 1r - l. 16 Apócope da consoante final /R/, marcada com a acentuação indevida. “[...] com todo prazê, [...]”
tamen 1r - l. 16, 17, 23 Temos dois processos: síncope da consoante oclusiva bilabial /b/ e falta de acentuação. “[...] e tamen boto o cazo a saber [...]”
1v - l. 24, 28
cazo 1r - l. 16 Grafia que confirma a realização fonética. “[...] e tamen boto o cazo a saber [...]”
inreispeitave 1r - l. 17-18 Temos três processos: Prótese da sílaba /in/; epêntese de /i/ na sílaba <reis>; apócope da consoante final /L/. “[...] é do gosto de vosmincê e tamen de sua inreispeita- / ve [...]”
lasão 1r - l. 20 Aférese da vogal /a/; substituição do grafema <z> por <s>. “[...] terei o meu cavalo lasão [...]”
caba 1r - l. 22 Apagamento do encontro consonantal oclusiva bilabial + vibrante /br/>/b/, havendo a síncope da consoante vibrante. “[...] cabêças de caba que dei a cumade de vosmice [...]”
cumade 1r - l. 22, Apagamento do encontro consonantal oclusiva dentoalveolar + vibrante / dr/>/d/, havendo a síncope da consoante vibrante. “[...] que dei a cumade de vosmice [...]”
1v - l. 15, 21, 24
cati 1r - l. 24 Síncope da vogal /e/. “[...] cati bage.”
Precisamo 1r - l. 24 Apócope da consoante final /S/. Precisamo de lhe falar na maiada [...]”
maiada 1r - l. 24 Despalatalização da palatal líquida /ʎ/ > /i/. “Precisamo de lhe falar na maiada [...]”
gande 1r - l. 25 Apagamento do encontro consonantal oclusiva dentoalveolar + vibrante / dr/>/d/, havendo a síncope da consoante vibrante. “[...] de fumo que tá é gande [...]”
1r - l. 25 Apócope de /u/. “[...] eu fazêr [...]”
fazê 1r - l. 25 Apócope da consoante final /R/, ocasionando o uso do acento para marcar a tonicidade. “[...] eu vô fazêr [...]”
cobe 1r - l. 26 Apagamento do encontro consonantal oclusiva bilabial + vibrante /br/>/b/, havendo a síncope da consoante vibrante. “[...] cobe esse ano, [...]”
mode 1r - l. 27 Dissimilação vocálica: /o/>/e/. “[...] eu tem as pernas curta pra mode tratar [...]”
1v - l. 27
mai 1r - l. 28, 32 Apócope da consoante final /S/. “[...] mai vosmicê sabe que eu tenho trabaido [...]”
1v - l. 9, 14, 19, 29
trabaido 1r - l. 28 Dois processos: despalatalização da palatal líquida /ʎ/ > /i>; e síncope da vogal /a/. “[...] mai vosmicê sabe que eu tenho trabaido [...]”
veia 1r - l. 30 Despalatalização da palatal líquida /ʎ/ > /i/. “[...] se for do gosto de vosmincê e dela e da veia [...]”
aresponda 1r - l. 31, 36 Prótese de /a/. “[...] me aresponda em riba [...]”
negoço 1r - l. 32 Síncope da vogal /i/, provocando a despalatalização. “[...] outro negoço deixo [...]”
Sertando 1r - l. 33 Temos dois processos: aférese da vogal /a/; e o outro meramente gráfico, substituição do grafema <c> por <s>. Sertando o casamento [...]”
cazamento 1r - l. 33 Representação gráfica da realização oral: <s> por <z>. “Sertando o casamento [...]”
Guilerme 1r - l. 36 Despalatalização da palatal líquida /ʎ/ > /i/. Guilerme da Silvas. Me aresponda.”
1v - l. 3
Llhe 1v - l. 5 Meramente gráfico, com a duplicação do grafema <l>. Llhe desejo saude a toda creola.”
Arrecebi 1v - l. 5 Prótese de /a/. Arrecebi a sua [...]”
rasto 1v - l. 6 Apagamento do encontro consonantal oclusiva dentoalveolar + vibrante / tr/>/t/, havendo a síncope da consoante vibrante. “[...] em cima do rasto, [...]”
pruquê 1v - l. 6, 16, 29 Temos dois processos: metátese de /r/ e alteamento da vogal /o/ > /u/. “[...] pruquê a minha mué ta [...]”
mué 1v - l. 6, 17 Temos dois processos: síncope da consoante palatal /ʎ/ e apócope da consoante final /R/. “[...] pruquê a minha mué ta [...]”
“[...] Aê eu dixe logo a mué [...]”
duente 1v - l. 7 Alteamento da vogal /o/ > /u/. “[...] passando muito duente.”
sarto 1v - l. 7, 8 Rotacismo: /l/>/r/. “Eu sarto daqué [...]”
culá 1v - l. 8 Temos dois processos: aférese da vogal /a/ e alteamento da vogal /o/ > /u/. “[...] sarto da culá [...]”
prucurano 1v - l. 8 Temos dois processos: alteamento da vogal /o/ > /u/ e assimilação do encontro /ndo/ em /no/. “[...] prucurano um arremédio [...]”
arremédio/ arremedio 1v - l. 8, 30 Prótese de /a/. “[...] prucurano um arremédio [...]”
“[...] prucurá o arremedio [...]”
tava 1v - l. 9 Aférese da sílaba inicial /es/. “[...] e mermo que eu tava [...]”
penssando 1v - l. 10 Ocorrência gráfica, apenas, com a duplicação da consoante <s>. “[...] penssando primeiro [...]”
divia 1v - l. 10 Alteamento da vogal /e/ > /i/. “[...] o que divia de lhe arrespon/ der/ [...]”
arrespon/der/ 1v - l. 10 Prótese de /a/. “[...] o que divia de lhe arrespon/ der/ [...]”
Maiquinha 1v - l. 12, 17 Síncope da consoante /r/. “[...] Maiquinha porem a não só [...]”
porem 1v - l. 12 Falta de acentuação. “[...] Maiquinha porem a não só [...]”
purtanto 1v - l. 14 Alteamento da vogal /o/ > /u/. “[...] sendo do seu gosto e do dela, purtanto [...]”
desne 1v - l. 15 Dissimilação de /d/ > /n/. “[...] desne o dia da reza de cumade Chica [...]”
discunfiada 1v - l. 16 Alteamento das vogais /e/ > /i/ e /o/ > /u/. “[...] discunfiada pruquê eu viu toda arripiada [...]”
arripiada 1v - l. 16 Assimilação da vogal /i/. “[...] discunfiada pruquê eu viu toda arripiada [...]”
dixe 1v - l. 17 Palatalização de /s/ > /ʃ/. “[...] Aê eu dixe logo a mué [...]”
poi 1v - l. 19 Apócope de /S/. “[...] poi ela tem um baie [...]”
fatigano 1v - l. 20 Assimilação do encontro /ndo/ em /no/. “[...] qué ta fatigano, [...]”
fucin 1v - l. 21 Temos três processos: alteamento da vogal /o/> /u/, despalatalização de /ɲ/ e apócope de /o/. “[...] do fucin curto [...]”
atraz 1v - l. 22 Meramente gráfico, com a substituição do grafema <s> por <z>. “[...] bacuri atra<i>[z].”
mio 1v - l. 23 Despalatalização da palatal líquida /ʎ/ > /i/. “Tem um pedaço de mio [...]”
emcabelano 1v - l. 23 Dois processos se apresentam: um apenas gráfico, substituição da nasal /n/ por /m/; e assimilação do encontro /ndo/ em /no/. “[...] pedaço de mio que ta emcabelano [...]”
da 1v - l. 25 Apócope da consoante final /R/. “[...] na hora de da cria, não, falono [...]”
falono 1v - l. 25 Temos dois processos: assimilação do encontro /ndo/ em /no/ e dissimilação de /a/ > /o/. “[...] na hora de da cria, não, falono [...]”
nus 1v - l. 25 Alteamento da vogal /o/ > /u/. “[...] não, falono nus [...]”
bicinho 1v - l. 26 Despalatalização de /ʃ/ > /s/. “[...] bicinho do terreíro [...]”
rede 1v - l. 27 Monotongação do ditongo /ea/ > /e/, favorecendo a despalatalização. “[...] de rede curta pra mode [...]”
ôvos 1v - l. 27 Acentuação indevida. “[...] de rede curta pra mode os ôvos [...]”
quereno 1v - l. 28 Assimilação do encontro /ndo/ em /no/. “[...] uma franga que tá quereno apô.[...]”
apô 1v - l. 28 Apócope da consoante final /R/. “[...] uma franga que tá quereno apô.”
e 1v - l. 29 Falta de acentuação que marca a 3ª pessoa do verbo ser = é “Não e mai cumprida [...]”
prucurá 1v - l. 30 Temos dois processos: assimilação de /o/ em /u/; e apócope da consoante final /R/. “[...] prucurá o arremedio [...]”
sôgo 1v - l. 31 Dois processos se apresentam: apagamento do encontro consonantal oclusiva velar + vibrante /gr/>/g/, havendo a síncope da consoante vibrante; e acentuação indevida. “Aqui fica o seu sôgo gato que lhe deu a fia [...]”
gato 1v - l. 31 Apagamento do encontro consonantal oclusiva velar + vibrante /gr/>/t/, havendo a síncope da consoante vibrante. “Aqui fica o seu sôgo gato que lhe deu a fia [...]”
Dnalva 1v - l. 36 Lapso de escrita, pois anteriormente foi escrito corretamente “Dinalva”, com a vogal /i/. Dnalva Souza Ribeiro”

Conclusão

As cartas pessoais manuscritas são documentos que favorecem o conhecimento de dados particulares da língua, pois são escritas, em sua maioria, informalmente, revelando aspectos históricos, sociais, culturais e linguísticos, pois muitos destes estão vinculados à oralidade, fazendo com que o/a escrevente não se preocupe com determinadas regras da língua padrão. Neste sentido, a carta de pedido e resposta de casamento traz à tona diversas alterações fonéticas realizadas oralmente sem maiores problemas (como: ‘prucurá’, ‘quereno’, ‘nus’, ‘bicinho’, ‘fucin’, dentre outros), mas que no código escrito causam estranhamento, pois demonstram o baixo grau de escolarização de quem escreveu e que não domina as regras ortográficas (como: ‘atraz’, ‘penssando’, ‘cazo’, dentre outros).

Há outros aspectos a serem estudados a partir das edições da carta, como o lexical, o morfossintático, etc. No entanto, tais estudos ficarão para outras oportunidades, pois concluímos apenas esta análise, outras ainda virão.

Referências

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Trata-se do acervo da família materna da autora deste artigo, Souza Ribeiro, o qual contém fotografias e algumas cartas.
Tia materna da autora deste artigo.