Perspectivas de uma escrita de si

análise comparativa de discursos no gênero autobiografia

  • Yuri Santos Universidade Estadual de Santa Cruz
  • Vânia Lúcia Menezes Torga Universidade Estadual de Santa Cruz
  • Urbano Cavalcante Filho Universidade Estadual de Santa Cruz
Palavras-chave: gênero autobiografia, análise comparativa de discursos, escrita de si, espaço biográfico

Resumo

A circulação de textos em primeira pessoa que tematizam a escrita de si em tons (auto) biográficos é presença cada vez mais marcante na atualidade. Não somente em gêneros tradicionais da esfera literária, mas também sob outras formas que tem se proliferado cada vez mais numa sociedade altamente midiatizada. O presente artigo apresenta uma análise comparativa de discursos no gênero autobiografia considerando-o em relação à confluência de formas (auto) biográficas que compõem o horizonte contem-porâneo do espaço biográfico (ARFUCH, 2010). Nossa abordagem teórico-metodológica centra-se no diálogo entre estudos voltados para análise comparativa de discursos (GRILLO, GLUSHKOVA, 2016) e os postulados do círculo bakhtiniano. Pensando na esteira da metalinguística bakhtiniana, buscamos comparar construções discursivas produzidas em contextos linguísticos e extralinguísticos distintos. Nosso corpus é então composto por duas autobiografias de autores conceituados em seus respectivos contextos: Por parte de pai (1995) do brasileiro Bartolomeu Campos de Queirós e El cuarto de atrás (1978) da espanhola Carmen Martin Gaite. Obser-vamos, dentre outros pontos, que a escrita autobiográfica pode assumir diferentes configurações dentro do espectro de características de um gênero discursivo, sinalizando sua heterogeneidade discursiva.

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Biografia do Autor

Vânia Lúcia Menezes Torga, Universidade Estadual de Santa Cruz

 

 

Publicado
2018-11-25
Como Citar
Santos, Y., Torga, V. L., & Cavalcante Filho, U. (2018). Perspectivas de uma escrita de si. Linha D’Água, 31(3), 191-210. https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v31i3p191-210
Seção
Artigos originais

Introdução

Partindo da premissa de que toda e qualquer atividade humana ocasiona no uso da linguagem, pensá-la é também lançar um olhar sobre quem a usa e como a usa, visto que “uma definição de língua, ou linguagem é sempre, implícita ou explicitamente, uma definição dos seres humanos no mundo” (WILLIAMS, 1979, p. 27). Assim, numa perspectiva de linguagem enquanto materialidade que dimensiona as diversas esferas da atividade comunicadora humana ao longo do tempo e, portanto, um ato dotado de singularidade, mantido por vínculos de responsabilidade e responsividade (BAKHTIN, 2010), acreditamos que essa subjetividade, ainda que única, insubstituível, reflete/refrata o mundo ao seu redor tendo por influência os diálogos com a comunidade que a cerca.

Nesse sentido, a escrita de si nos contornos do gênero autobiografia traz a expressão de uma voz que dizendo ser “eu” ecoa como representante de um coletivo, uma cultura discursiva (von MÜNCHOW, 2006) presente nas vozes que povoam o mundo dos interlocutores envolvidos nesse ato enunciativo, sejam eles o próprio autor ou os leitores, “porque escritura não é a voz de um autor, mas conjunto de vozes culturais que falam ao leitor”, como bem sugere Machado (1995, p. 98). Esse trabalho, então, se justifica pelo fato de que ao investigar o projeto (auto) biográfico de uma existência por meio das marcas impressas por ela no âmbito do texto autobiográfico, tem-se margem para (re) pensar a constituição da subjetividade que ali se insere. Ao mesmo tempo, pressupomos que os discursos presentes na escrita do eu são representativos do olhar cultural de uma coletividade sobre as representações sociais circunscritas a determinados contextos situacionais. Dessa forma, entendemos que a escritura autobiográfica nos dá margem para analisar o funcionamento das construções discursivas que marcaram/marcam não somente a perspectiva individual, como também a referente a um grupo etnolinguístico.

Essas impressões de uma vida ficam evidentes através de marcas enunciativo-dialógicas observáveis na tessitura mnemônica, elemento comum à constituição do gênero autobiografia e demais formas que coabitam o que Arfuch (2010) conceitua como espaço biográfico. Sobre esse conceito que norteia nossa percepção acerca do gênero autobiografia, notamos em suas características a possibilidade conferida ao ser linguageiro de ressignificar suas experiências a partir da visão extralocalizada da alteridade, externa ao eu e detentora de um ângulo de visão singular em relação ao que fora uma vez vivenciado.

Temos por objetivo no entorno desse artigo, (re) pensar por meio de um olhar contrastivo a configuração do gênero autobiografia à luz de conceitos advindos dos estudos literários em diálogo com a importante noção bakhtiniana dos gêneros discursivos. Além disso, intencionamos analisar o funcionamento de alguns discursos evidentes nos relatos autobiográficos sobre a infância em obras representantes de culturas discursivas distintas.

Nesse sentido, uma proposta de estudo sobre a escrita autobiográfica como possibilidade de reinvenção dessas impressões que marcaram/marcam vidas mobiliza investigações que interseccionam estudos linguísticos, estudos literários, entre outras áreas do conhecimento, de maneira a propor um diálogo interdisciplinar. Para além desses fatos, a proposta aqui estabelecida tem por base um viés metodológico recentemente difundido no horizonte dos estudos discursivos em solo brasileiro: a análise comparativa de discursos (GRILLO; GLUSHKOVA, 2016).

Tal metodologia nos permitiu a realização de nosso empreendimento analítico aqui constituído pela comparação de construções discursivas presentes em obras que integram a escrita autobiográfica de escritores inscritos em contextos etnolínguísticos distintos, a saber, a escritura autobiográfica do brasileiro Bartolomeu Campos de Queirós e da espanhola Carmen Martin Gaite. O nosso corpus é constituído por trechos de Por Parte de Pai (1995) e de El cuarto de atrás (2012[1978]), obras que respectivamente representam a escritura autobiográfica do escritor brasileiro e da escritora espanhola anteriormente citados.

Discorreremos inicialmente sobre a materialidade autobiográfica dando ênfase a sua constituição à luz de algumas conceituações no campo dos estudos literários. Posteriormente destacamos os parâmetros metodológicos que alicerçam nossa análise para então apresentar as constatações tecidas por meio do presente estudo comparativo. Por fim, deixamos nossas considerações acerca do que a nós foi descoberto no decorrer dessa pesquisa, abrindo espaço para pensarmos futuras propostas no viés teórico-metodológico empregado.

(Re) pensando a autobiografia e o pacto autobiográfico

Ao longo dos anos o privado, o vivencial foi sendo introduzido no âmbito da escrita de uma esfera dita “pública”. Como propõe Arfuch (2010), escritores como Goethe, por meio de uma escrita considerada intimista, permitiram a inserção do si mesmo num espaço literário que ainda não abrigava (auto) biografias e seus desdobramentos.

Com base em Lejeune (2014), somente em meados do século XVIII, data o início da consolidação de um espaço autorreflexivo, tencionando a constituição de uma nova forma de subjetividade. Nesse ponto, mencionamos a publicação das Confissões de Jean Jacques Rousseau como um dos maiores marcos da emergência do “eu” no âmbito da esfera literária. Delineando sua escrita sob os contornos de uma voz que se autorreferencia, o pensador francês coloca de maneira assertiva o tom autêntico e inovador que sua obra traz, para aquele momento, em especial, uma proposta um tanto inusitada. A saber, já na página introdutória essa proposta nos é bem clara:

Dou começo a uma empresa de que não há exemplos, e cuja execução não terá imitadores [...]. Quero mostrar aos meus semelhantes um homem em toda a verdade da natureza; e serei eu esse homem [...] (ROUSSEAU, 2008, p. 29).

A partir da forma com que Rousseau sugere o exercício daquele que narra a si mesmo, o teórico e crítico francês Philippe Lejeune propõe um estudo da autobiografia e gêneros de matizes autobiográficos pela ótica do “pacto autobiográfico”. Esse conceito usado na década de 70 possibilitou maior credibilidade teórica aos estudos, envolvendo autobiografia na esfera da crítica e teoria literárias. O pacto autobiográfico que descreve Lejeune (2014) é um tipo de vínculo semeado entre autor e leitor sob o princípio de um gesto contratual. Tal contrato está alicerçado na premissa de que no entorno daquela obra existe uma relação de identificação entre autor, narrador e personagem. O leitor, em contrapartida, reconhece como marcas desse pacto a isonomia presente entre essas três instâncias na obra autobiográfica, além de outras formas com que esse pacto vem a adquirir contornos reais.

Tomando por base a relação que se estabelece entre autor e leitor por meio do pacto autobiográfico, adentramos a conceituação de Lejeune para a autobiografia e os gêneros que tem desdobramento a partir dessa definição. A autobiografia, nos termos do pacto, é uma “[...] narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando focaliza sua história individual, em particular a história de sua personalidade (LEJEUNE, 2014, p. 16)”. Fica para nós perceptível a hipótese da identificação entre autor, narrador e personagem enquanto eixo que sustenta essa definição, visto no nível em que a pessoa real por trás da enunciação assume de maneira explicita ser a mesma que outrora vivenciou a ação a ser contada, narrando a si própria naquele momento enunciativo. Essa característica que segundo Lejeune marca-se como “tudo ou nada”, é a raiz do pacto autobiográfico e a partir dela define-se para Lejeune o que é uma autobiografia e o que em partes apresenta características autobiográficas conforme a citação a seguir.

Uma identidade existe ou não existe. Não há gradação possível e toda e qualquer dúvida leva a uma conclusão negativa. [...] Para que haja autobiografia (e, numa perspectiva mais geral, literatura íntima) é preciso que haja relação de identidade entre o autor, o narrador e o personagem (LEJEUNE, 2014, p. 18, grifos do autor).

Em outras palavras, a existência de um dado pacto entre autor e leitor que valida a relação de identidade entre as três instâncias literárias destacadas na última citação, seria essencial para a existência da autobiografia e de traços autobiográficos nos conformes da conceituação de gênero autobiográfico proposta por Lejeune. Existem, contudo, alguns pontos a serem problematizados no âmbito do pacto e no conceito de autobiografia que ele encerra, bem como na própria ideia de subjetividade.

Trataremos dessa problematização ao mesmo passo em que colocamos em foco a análise comparativa de trechos das obras que representam os escritos autobiográficos integrantes do corpus de referência nossa pesquisa. Tratamos a seguir da descrição da perspectiva metodológica utilizada para a presente proposta e também destacamos o traçado dos passos metodológicos que embasam nossos procedimentos de análise.

A análise comparativa de discursos

A partir da proposta de Grillo e Glushkova, ao observarmos os textos bakhtinianos, é sempre presente “a comparação de fenômenos em culturas e línguas distintas” por parte dos pesquisadores que integraram o conhecido Círculo de Bakhtin, o que, por exemplo, se evidencia pelo:

[...] uso de obras e autores de culturas variadas como a italiana, a francesa, a russa, pois o próprio modo de pensar de Bakhtin advém da análise comparativa de culturas (francesa, italiana, alemã, russa etc.) e de esferas de uma mesma cultura (música, dança, literatura, religião etc.) (GRILLO; GLUSHKOVA, 2016, p. 71).

Pensando a partir da estética do romance, Bakhtin analisava e contrastava a constituição discursiva plurilíngue daquele gênero a partir do estudo de obras de autores, épocas e contextos de produções diversos, alguns deles pouco divulgados no Brasil, inclusive. O que para Bakhtin possibilitava a aproximação dessas obras, a despeito de sua considerável diversidade, era justamente a grande temporalidade (BAKHTIN, 2016), ou seja, o potencial que tais obras tinham de habitar o grande tempo cruzando os limites temporais de sua própria temporalidade e tendo a chance de ter suas possibilidades de sentidos ampliados.

A proposta bakhtiniana sugere uma análise de discurso que envolva um olhar dialógico intercultural, que percebe as culturas enquanto contextos de produção e circulação dos discursos, de forma que a literatura seja assim estudada em paralelo com as esferas culturais às quais se vinculam os discursos ali presentes. As construções discursivas identificáveis no processo de análise nunca são mostras individuais e isoladas, se relacionam, na verdade, com uma cultura discursiva (von MÜNCHOW, 2006) na qual se insere o sujeito da linguagem responsável pela enunciação. Tal noção em destaque discute o vínculo entre os discursos e as representações sociais que circulam no chão da interação entre os sujeitos representantes de uma comunidade etnolinguística e circunscritos a uma realidade cultural-social-historicamente situada.

A comparação de discursos identificáveis na materialidade linguageira em obras representantes de culturas discursivas distintas seria forma de evidenciar e enfatizar o funcionamento discursivo naquela esfera histórica-social-cultural, sem que haja sobreposição ou hierarquização dos sentidos em foco. Os benefícios de tal gesto de análise se concentram no fato de que a posição a qual o um ocupa é em si singular, uma vez vista em contraposição com a singularidade que detém o outro, as peculiaridades de ambas as partes são mais nítidas, consequentemente, melhor identificáveis. As lentes de uma análise que pressupõe a comparação entre culturas discursivas permitem que os sentidos construídos culturalmente por meio do uso linguageiro no decorrer do tempo sejam evidenciados e contemplados num recorte não excludente, mas compreensivo no que tange peculiaridades, semelhanças e diversidades.

Tendo esses direcionamentos em vista, o Centro de pesquisa sobre discursos cotidianos e especializados (Clesthia Cediscor axe sense et discours) que atua nos estudos discursivos desde 1989, reuniu um grupo de pesquisadores com interesse comum em estudar as diferentes formas de vínculo entre a cultura e a produção de discurso. A partir desse esforço conjunto constitui-se um novo eixo de pesquisas no grupo: “Comparação, língua e cultura em perspectivas discursivas” o qual vem a lançar as bases da recém conceituada no Brasil análise comparativa de discurso. Conforme Grillo e Glushkova, as constantes metodológicas aplicadas nos trabalhos do grupo demonstram que

A representação discursiva tem um papel de destaque nessas análises, sendo compreendida como a reconstrução das representações mentais do autor por intermédio de marcas linguísticas. Como essas representações normalmente estão ligadas a causalidades institucionais, históricas, materiais etc., a análise adquire uma perspectiva interdisciplinar, uma vez que a interpretação recorre a disciplinas externas às ciências da linguagem (GRILLO; GLUSHKOVA, 2016, p. 75).

Enquanto os trabalhos do Cediscor apresentam algumas divergências com relação a conceitos chave como língua, cultura e discurso, o conceito bakhtiniano de gêneros do discurso (BAKHTIN, 2011) é primordial para a operacionalidade desses fundamentos metodológicos. Os gêneros do discurso, em sua estabilidade relativa, são os segmentos de linguagem “similares” no diálogo entre culturas, podendo assim ser considerado de fato o pontapé inicial para a descrição de um processo comparativo entre culturas. A comparação no nível dos gêneros discursivos constitui o primeiro ponto do tertium comparationis (GRILLO; GLUSHKOVA, 2016), definido pelos elementos a serem comparados na análise proposta. Em paralelo com os objetivos e inquietações de nossa pesquisa nosso tertium comparationis é constituído da seguinte forma: 1) o gênero discursivo autobiografia; 2) os discursos que se constroem nos relatos das memórias de infância.

Com base nessas considerações buscamos comparar construções discursivas produzidas em contextos linguísticos e extralinguísticos distintos. Para tanto, consideramos os postulados de Rastier (2011) no campo da linguística de corpus, propondo a delimitação de um corpus de referência e um corpus de estudo. Delimitamos o nosso corpus de referência, usando os seguintes critérios: 1) produções representantes do mesmo gênero discursivo, no caso, o gênero autobiografia (ARFUCH, 2010); 2) obras que tenham proximidade em questões de língua de circulação (português/espanhol) e sejam acessíveis aos proponentes da pesquisa. A partir dos aspectos supracitados, nosso corpus é composto por trechos de Por parte de pai (1995) do brasileiro Bartolomeu Campos de Queirós e El cuarto de atrás (2012[1978]) da espanhola Carmen Martin Gaite. As obras em destaque representam a escrita autobiográfica dos ditos autores e a partir da seleção de marcas enunciativo-dialógicas referentes aos discursos analisados em um diálogo intercultural, constituiremos o corpus de estudo.

A escrita autobiográfica de Bartolomeu Campos de Queirós trata das memórias de infância de um menino-narrador em momentos não tão distintos da sua meninice. Em uma escrita dita pelo próprio autor prosa poética, encontramos na obra em destaque as experiências de um narrador que descobre um lugar onde paredes eram repletas de vínculos de ausência/presença lembrar-se/esquecer-se, relações estabelecidas através da escrita que o menino-narrador desenvolve pelo olhar do homem adulto.

O tom confessional da escrita autobiográfica de Carmen Martin Gaite em El cuarto de atrás trata a memória e a história por uma visão não convencional e descomprometida com uma versão unívoca dos fatos: importa aqui o olhar da narradora-personagem que vivenciou e agora relata à sua maneira histórias e memórias. A segunda obra, por sua vez, é narrada no olhar de uma mulher que recebe uma visita inesperada e que a partir daí compartilha suas memórias acerca da sua vida, suas experiências e seus escritos.

A autobiografia em contrastes discursivos

Sendo a autobiografia uma manifestação da atividade humana materializada na linguagem em suas múltiplas formas e concebida a partir de situações concretas que envolvem o uso linguageiro, podemos aqui pensar sua constituição enquanto um gênero discursivo. Conforme Bakhtin, adquirimos a língua materna através da interação discursiva sob a interface de variados gêneros do discurso, o que destacam a alta relevância que estas estruturas discursivas ocupam.

Se os gêneros do discurso não existissem e nós não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo do discurso, de construir livremente e pela primeira vez cada enunciado, a comunicação discursiva seria quase impossível. (BAKHTIN, 2011, p. 283)

Quanto à organização de um gênero do discurso é imperativo que levemos em conta três elementos chave: tema, construção composicional e estilo. Esse tripé sintetiza as unidades constitutivas de um gênero discursivo, o vínculo que este estabelece com os três elementos citados se dá no nível da organicidade. O tripé aqui mencionado detém, por sua vez, traços que conferem a cada gênero seu caráter individualizante.

Dessa forma ao contrapormos o conceito bakhtiniano de gênero discursivo, considerado vital para o viés dialógico sobre o qual tem estrutura nosso fazer epistemológico, e os postulados de Lejeune em relação à autobiografia, visualizamos nesse esquema de nossa elaboração:

Estilo Construção composicional Tema
- Predomínio de verbos e indicadores temporais referindo ao passado; - Narração em prosa; - Memórias dos fatos e acontecimentos reais que marcaram o passado daquele sujeito, determinado pelo que este seleciona em relação à história de sua personalidade.
- Uso da primeira pessoa no singular e no plural; - Unidade narrador-autor-personagem;
- Narração “pessoal” marcada pela frequente adjetivação e modalização; - Descrição dos fatos, tempo e espaço na ordem individual do sujeito.

Se observarmos o trecho a seguir sob o ângulo da noção de gênero discursivo autobiografia à luz da proposta de Lejeune (2014) notamos que quanto aos aspectos estilísticos em El cuarto de atrás (ECA) há maior desdobramento de categorias temporais para além do passado e suas variações, tendo na narradora-personagem a descrição frequente de ações num tom de presentificar sua fala. Em Por Parte de Pai (PPPai) as formas do passado são de maior recorrência, nos permitindo inferir que nesse ponto a escrita autobiográfica queiroseana mais se alinharia ao estilo de uma autobiografia como sugere Lejeune. O uso de primeira pessoa é característica presente em ambas as construções sendo esse marcadamente um traço de escrita autobiográfica no viés apresentado até aqui.

El cuarto de atrás , (2012[1978], p. 69) Por Parte de Pai, (1995, p. 8)
Eu percebo um incentivo que me faltou há meses atrás, o primeiro que é necessário é um pouco de ordem para que a solidão se torne hospitaleira; Amanhã mesmo eu começo a revisar documentos e a limpar pastas. A conversa com este homem me estimulou e atualizou o meu antigo tema de amor no pós-guerra. Entre os parentes corria, à boca pequena um boato sobre minha avó. Numa manhã, ela se levantou dizendo ter sonhado com um bicho, mas não se lembrava qual. Meu avô, acreditando em sonhos e até sabia decifrá-los chamou minha avó de vaca. Nesse momento, um cambista bateu na porta oferecendo uma tira da vaca. Ele não vacilou e comprou o bilhete inteiro.

Na comparação em destaque a seguir, deixamos evidenciada uma questão pertinente à construção composicional delineada no gênero autobiografia conforme conceitua Lejeune (2014). A linguagem prosaica na composição de ambos os relatos é facilmente identificável, bem como a descrição das categorias de espaço e tempo sob ordem narrativa estilizada ao fazer narrativo do autor-narrador na forma específica com que conta o fato vivido. Em PPPai notamos uma ordem espaço-temporal de maior linearidade, tendo um retorno a espaços que constituem um semelhante topos enunciativo. Já em ECA se nos atentarmos, veremos que a ordem temporal, em especial, é consideravelmente mais elíptica e sinuosa. Nesse ponto descrito (ECA, pg. 69), trata-se de um flashback da personagem que durante uma ação corrente no curso do tempo presente de sua narração, retoma outros acontecimentos de uma ordem temporal distinta e distante do momento em que a narração se passava antes de ser interrompida. É curioso observar que a narradora-personagem agora encontra a si mesma em dois pontos diferentes de sua própria vida, aos 8 e aos 18 anos de idade, confrontando-se nesse episódio por uma situação que a marcara desde ainda a infância, as tarefas domésticas com as quais convivia em especial por ser mulher.

Quanto a esse último destaque nos cogitamos a pensar a relação de plena identificação que deve reger a as instâncias narrativas autor-narrador-personagem no âmbito do texto autobiográfico como acentua Lejeune. Será mesmo que podemos afirmar que esta que hoje narra a si mesma é exatamente quem diz ser que era?

( El cuarto de atrás, 2012[1978], p. 70) ( Por Parte de Pai, 1995, p. 14)
Terminei de limpar o tecido oleoso da mesa, levanto os olhos e vejo-me refletida com um gesto esperançoso e espirituoso no espelho quadrado antigo à direita, em cima do sofá marrom. O sorriso é tingido com uma leve zombaria quando ele percebe que eu tenho um pano na minha mão; para dizer a verdade, quem está me olhando é uma menina de oito anos e depois uma moça de dezoito anos de idade, de pé na grande sala de jantar da casa dos meus avós na rua principal de Madri, ressuscitada na parte de trás do espelho - foi esse mesmo espelho ? - está prestes a levantar um dedo e apontar para mim: “Olha só, você também está limpando, só vivendo para ver”. História não faltava. Eu mesmo só parei de urinar na cama quando meu avô ameaçou escrever na parede. O medo me curou. Leitura era coisa séria e escrever mais ainda. Escrever era não apagar nunca mais. O pior é que, depois de ler, ninguém mais esquece, se for coisa de interesse. Se não tem interesse, a gente perde ou joga fora. Um dia Milicão pediu o serrote emprestado. Meu avô disse estar muito cheio de dentes. Milicão foi embora e meu avô escreveu a história na parede. Milicão voltou e disse que serrote tem dentes mesmo.

Se pensarmos no princípio da identificação identificamos que as conceituações colocadas por Lejeune são um tanto normativas e parecem ditar um formato de autobiografia, certo cânone configurado em moldes que tomam a uniformidade no trio autor/narrador/personagem, anteriormente descrita, como uma prerrogativa autobiográfica. Dessa forma, o que acontece, por exemplo, com aquelas construções em que personagem e autor não coincidem em nome mais que ainda assim tem-se uma vida em autorreferência? No caso anteriormente evidenciado em ECA, como podemos conceber uma relação autorreferente entre um sujeito que se refere a si mesmo num diálogo entre três pontos difusos de sua vida?

Por outro lado, nos colocamos a cogitar o fato de que fugindo aos contornos estabelecidos pelo pacto autobiográfico e não identificando essa relação isonômica entre o tripé anteriormente citado, o status de “verdade” que envolve esse contar-de-si-mesmo encerrado no pacto se perderia. Nesse caso, a obra teria um valor ficcional, porém numa perspectiva mais direcionada ao fictício, inventado, imaginado. O que Lejeune traz no princípio da identificação é uma credibilidade do texto autobiográfico em relação ao seu leitor que nos faz discutir essa ideia de real enquanto representação fiel do que uma vez foi vivido. Pensando o próprio conceito de representação na esteira de Walter Benjamim proposta por Gagnebin (2005) vemos que não existe relação direta entre a apreensão do que se diz ser real e o que registra o sujeito sobre esse real, há sempre de se admitir um desvio próprio da tarefa representacional que impede a objetividade e consequentemente a noção de fidelidade nesse ato. Dessa forma, podemos pontuar que a hipótese de uma escrita baseada na confiabilidade do relato de uma memória fica comprometida.

Ainda em tom problematizador, se retomarmos a subjetividade construída em meio à concepção de uma identidade múltipla, fragmentada, descentrada e em constante deslocamento (HALL, 2006) a possibilidade dessa plena uniformidade é uma ideia inatingível. Quando nos pautamos num viés dialógico que considera o inacabamento enquanto elemento constituinte do sujeito, podemos levar essa pergunta para outro terreno.

No que se refere à escrita autobiográfica, o sujeito que se coloca na condição de autor é o mesmo que narra e vivencia os fatos narrados quando colocamos a isonomia dessas três instâncias como um dos critérios para essa identificação. Entretanto, percebemos nessas categorias a existência de três consciências enunciativas distintas, em outras palavras três consciências que se diferem a partir de seus estágios de acabamento. Por mais que quem relata seja a mesma pessoa que vivenciou toda a trajetória relatada, nunca se poderá narrar tais fatos sob a mesma perspectiva do eu que uma vez os vivenciara. Assim, embora se tratem do mesmo indivíduo, quem narra e quem é narrado no âmbito da escrita autobiográfica são, para Bakhtin, eus diferentes, ou, melhor dizendo, se estabeleceria então uma relação eu/outro consigo mesmo, conquanto:

Eu não sou aquele que olha de dentro dos meus olhos para o mundo, mas eu me vejo com os olhos do mundo, com os olhos dos outros; estou possuído pelo outro. [...] Não tenho em mim uma perspectiva externa sobre mim mesmo, eu não tenho nenhuma visão correta para a minha própria imagem interna. No meu olhar estão os olhos do outro (BAJTIN, 2000, p. 156, tradução nossa, grifos do autor)1

Cabe ao autor na esfera de escrita autobiográfica extralocalizar-se (BAKHTIN, 2011), em outras palavras, distanciar-se de seu eu atual e mergulhar no espaço da memória para trazer à tona as experiências outrora vivenciadas, deixando que seu excedente de visão dada a sua extraposição em relação a si mesmo, lhe permita reconstruir o já vivido sob um olhar ressignificado. As experiências são transmitidas com tons diferentes já que o eu que as revisita se encontra num estado de acabamento distinto daquele que as vivenciou.

Assim, por mais que as consciências que se fragmentam a partir da instância autoral na obra autobiográfica estejam em momentos de acabamento distintos, a ideia de identificação que poderia manter-se entre elas é mantida pelo fio da dialogia. O diálogo possibilitado através da extralocalização é mantido entre essas vozes a ponto de funcionar como vínculo que lhes confere um ar de organicidade, identificação.

As discussões feitas até aqui dão lugar para outro olhar sob a autobiografia, quando identificamos no conceito de espaço biográfico território para encontrar respostas a questionamentos que envolvem acima de tudo essa noção de identidade desenvolvida contemporaneamente. Tal termo cunhado por Leonor Arfuch (2010) atua como lócus em que coabitam a biografia, a autobiografia e outras possibilidades de gêneros autobiográficos que envolvem desde os tradicionais diários, memoriais, a gêneros marcados por relações hipermidiáticas como os blogs, vlogs e as tão famosas redes sociais (facebook, instagram, twitter, etc) que chancelam um gosto por um privado demasiadamente público (ARFUCH, 2010). Nas palavras de Arfuch (2010, p. 49) o espaço biográfico pode ser entendido como:

[...] confluência de várias formas, gêneros e horizontes de expectativa [...] Permite a consideração das respectivas especificidades sem perder de vista a sua dimensão relacional, sua interatividade temática e pragmática, seus usos em vários campos da comunicação e ação.

O espaço biográfico leva em conta os pontos de intersecção que sinalizam a possibilidade de diálogo entre essas formas (auto) biográficas ao mesmo tempo sem a perda de suas especificidades. Utilizando do termo bakhtiniano gêneros do discurso, Arfuch propõe

ir além dos gêneros auto/biográficos canônicos para abranger a multiplicidade de formas, que atualmente adota a narrativa vivencial, com uma grande diversidade retórica em relação a seus ancestrais do século XVIII [...] (ARFUCH, 2009, p. 113).

A autora propõe de uma forma geral (re)discutir o espaço canônico que orienta a análise e estudo das (auto) biografias, pensando em justamente dar conta da complexidade e multiplicidade de formas em que se constrói a escrita autobiográfica no decorrer do tempo, considerando principalmente uma sociedade midiatizada. Fica aí sinalizada, dentre outras coisas, uma nova forma de autobiografar uma existência, em que não mais se pondera unicamente a uniformidade, tanto preconizada como marca da hipótese de identificação levantada por Lejeune e pela rigidez de seu pacto.

Nesse sentido, retomando a conceituação da autobiografia enquanto gênero discursivo, vejamos a categoria de conteúdo temático, ao que destacamos aqui os discursos construídos em torno dos relatos sobre a infância dos narradores-personagens em questão, comparando a forma com que estes ressignificam na escritura autobiográfica esses sentidos construídos sobre suas infâncias. Quanto ao tema nos escritos (auto) biográficos, Arfuch levanta que pontos como “o ‘bem familiar’, as rotinas, as fraquezas, a felicidade perdida ou encontrada formará uma parte inseparável de qualquer narrativa pessoal (ARFUCH, 2010, p. 149, grifo nosso)”. Sobre a infância de maneira específica a autora coloca:

Assim, a infância será a âncora obrigatória de todo o devir, lugar sintomático cuja funcionalidade permite estabelecer uma certa causalidade entre virtualidade e realização. A evocação idealizada de figuras ou situações emblemáticas, o anedotário do lugar comum - o desejo dos pais, a tradição, os apoios ou as oposições - geralmente envolvem uma ‘novela familiar’ para uso público que atrai um forte efeito de identificação (ARFUCH, 2010, p. 151).

Dessa maneira destacamos em nosso corpus de referência notamos evidências que giram em torno de discursos relacionados a perdas que os sujeitos em questão demonstram ao longo de seus relatos sobre a infância. As perdas descritas em ECA são da ordem de interdições, cerceamentos que em sua grande maioria não percebemos estarem ligados com a sua idade, mas em contraste com os relatos de PPPai, em ECA, vemos que tratando-se de uma menina havia certas limitações de espaço e atividades as quais para a narrador-personagem de Carmen Martin Gaite não eram permitidas. Para o narrador-personagem em PPPai havia mais espaço para tentar, se aventurar, errar, uma vez que as restrições que lhe eram impostas se alinhavam muito mais com o fato de ser ainda criança. A menina-narradora em ECA enfrentava uma série de cobranças e restrições filiadas ao sexo que podem ser caracterizadas como perdas de liberdade no relato autobiográfico em questão. Há de notar-se a relação da narradora-personagem com a limpeza, por exemplo, pois enquanto menina o asseio era uma condição preconizada de forma que algumas brincadeiras e atividades não lhe eram possíveis.

( El cuarto de atrás, 2012[1978], p. 71) ( Por Parte de Pai, 1995, p. 18)
Muito mais do que em minha casa em Salamanca, e na de verão em Galicia, foi naquela de Madri, quando chegávamos nos feriados da Semana Santa ou do Natal, onde minha desobediência às leis da casa foi forjada e minhas primeiras rebeliões foram preparadas, frente a ordem e limpeza,duas noções diferentes e um único deus verdadeiro a ser adorado, entronizado invisivelmente com as imagens de São José e a Virgem do Perpétuo Socorro, em todos os cantos do terceiro andar, a partir do número catorze da Calle Mayor, um convento dirigido por minha avó com duas criadas antigas - tia e sobrinha - nativas da província de Burgos. Apreciava meu avô e sua maneira de não deixar as palavras se perderem. Sua letra, no meio da noite era a única presença viva, acordada comigo. Cada sílaba um carinho, um capricho penetrando pelos olhos até o passado. Meu avô pregava todas as palavras na parede com lápis quadrado de carpinteiro, sem separar as mentiras das verdades. Tudo era possível para ele e suas letras. Não ser filho do meu pai era perder meu avô. O pesar estava ai.

Se observarmos o contexto extralinguístico do enunciado, a infância de Gaite foi em meio ao findar da Guerra civil espanhola, momento em que as mulheres tinham de cumprir um curso chamado Servicio social o que limitava seu acesso aos estudos, restringindo a formação educacional feminina a conhecimentos relativos ao lar e à família. Nessa atmosfera de restrições a saída da jovem Carmen era transgredir a ordem e se fechar em seu mundo particular onde a imaginação e o sonho tornavam suas vontades lícitas.

Para o menino-narrador, observamos que o sentido das perdas muito se filia às ausências de pessoas normalmente importantes no universo de uma criança, como o pai e a mãe, que eram exatamente as figuras de quem o menino-narrador sentia a falta. A mãe havia morrido quando este ainda era criança e o pai era consideravelmente ausente, sendo o menino criado em sua infância na casa dos avós ao passo que seu avô era o exemplo e a figura presente que lhe inspirava e estimulava.

Ao passo que discutimos os sentidos relacionados às perdas, decidimos ainda analisar a forma com que esses narradores-personagens agora adultos, descrevem as expectativas projetadas sobre eles quando ainda era crianças.

( El cuarto de atrás, (2012[1978], p. 85). ( Por Parte de Pai, 1995, p. 55).
Minha mãe não era uma casamenteira,nem me ensinou a costurar ou a cozinhar, embora eu a assistisse com grande curiosidade quando a via fazer isso, e acho que, ao vê-la, eu aprendi, mas ela sempre me incentivou nos meus estudos e quando, depois da guerra, meus amigos chegavam em casa durante os exames, trazia merenda e nos olhava com inveja.(ECA, pg. 84) Depois ele me tomava lições pedia para escrever até 100 ou até 1000 pelo prazer de me ver mordendo a língua no esforço de não saltar nenhum número.[...] E meus colegas elogiavam a minha atenção, enquanto meu avô me ensinava, junto com a escola a saldar a vida.(PPPai, p. 40,41)
[...]todos os esforços estavam indo, em suma, ao mesmo objetivo: que aceitássemos com alegria e orgulho, com uma prova contra qualquer desânimo, através de um comportamento sóbrio que, mesmo a menor sombra de maledicência não conseguia esconder, nossa condição de mulheres fortes, complementos e espelhos do homem. Meu avô me ensinou, desde muito pequeno a não chorar. Choro não era coisa de homem.

Observamos no destaque que para a personagem de Carmen Martin Gaite as expectativas projetadas por parte de sua família, no trecho representada por sua mãe, recaem sobre a necessidade ter uma boa formação acadêmica em detrimento de apenas ser habilidosa nas tarefas domésticas. A contradição se instaura nesse sentido quando sabemos (ECA, p. 85) ser justamente o inverso a expectativa para a mulher no âmbito da sociedade espanhola em tempos de governo repressor que condicionava as mulheres a serem educadas como complementos da figura masculina.

Em contraste com esse quadro, as expectativas que a família do jovem Bartolomeu projetava sobre o ainda menino era que ele tivesse uma boa formação educacional, sobretudo que ele tivesse acesso aos conhecimentos materializados no ato de “ler, escrever e fazer conta de cabeça” (PPPai, p. 40,41) a forma como sua família representava a boa educação. No que concerne sua posição social enquanto homem era necessário que o menino desde cedo fosse forte e que não fosse dado ao choro, sendo esse um elemento normalmente atrelado à figura feminina registrada em sua feição mais sensível, frágil e delicada pelo discurso corrente nessa cultura discursiva.

Considerações finais

Ao conjecturar sobre o funcionamento do enunciado autobiográfico por meio de um viés comparativo, podemos considerar que quanto à constituição da autobiografia em relação a seu repertório discursivo, Lejeune conceitua o gênero autobiografia endossado por um viés positivista da linguagem que concebe dentre outras coisas, a plena identificação do sujeito a si mesmo como razão de ser do relato autobiográfico. Constatamos ser relevante repensar as condições do gênero autobiografia alicerçados por uma visão de sujeito mais coerente com a heterodiscursividade que lhe compõe e concomitantemente também a materialidade linguageira.

Identificamos esse caminho na brecha que Arfuch abre para que (re) pensemos justamente as questões nomeadas anteriormente, balizando a constituição identitária do sujeito em seu trajeto até a sociedade contemporânea com a confluência de inúmeras formas que tematizam as tonalidades do eu. No espaço biográfico, identificamos o terreno para o empreendimento de uma nova conceituação para a autobiografia enquanto gênero que se âncora na dialogicidade discursiva fundante da linguagem, como nos apresentam Bakhtin e o círculo ao longo da breve discussão aqui apresentada.

Sobre a comparação entre os discursos nos relatos de infância e as respectivas visões das distintas culturas discursivas em destaque, observamos que a narradora-menina em ECA é constituída por vivências que endossam um olhar restritivo para a posição feminina na sociedade, delegando à mulher desde a mais tenra idade a condição de segundo dos pares em relação ao homem. Na sociedade brasileira descrita em PPPai, percebemos que essa relação social entre os papéis sociais de homens e mulheres é semelhantemente mantida, tendo o homem a expectativa de uma formação acadêmica para o trabalho e as relações sociais na vida da cidade.

Ao fim desta proposta nos é nítido como a metodologia da análise comparativa de discursos efetiva-se por meio da aproximação dos discursos em comparação sem que haja qualquer hierarquização entre as culturas discursivas sob enfoque. Percebemos também que como em outros aparatos metodológicos nos estudos discursivos, a análise comparativa considera o lugar de onde observa o analista do discurso, tendo em suas análises nunca a última palavra sobre o objeto em questão, uma vez que esta, para Bakhtin, não foi ainda pronunciada.

Referências

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No soy yo quien mira desde el interior de mi mirada al mundo, sino que yo me veo a mí mismo con los ojos del mundo, con los ojos ajenos; estoy poseído por el otro. [...] No poseo un punto de vista externo sobre mí mismo, no tengo enfoque adecuado para mi propia imagen interna. Desde mis ojos están mirando los ojos del outro (BAJTIN, 2000, p. 156).