Filologia e Crítica Textual

homenagem a Ivo Castro

Resumo

Com esse tema, o leitor é convidado à reflexão advinda de estudos sobre a transmissão do texto escrito de variados domínios discursivos que, necessariamente, envolve o processo de edição ou reprodução ou estabelecimento ou fixação desses textos. Por sua vez, a depender dos critérios utilizados por quem os edita e publica, pode conduzir a leituras ou interpretações desafinadas (para mais ou para menos) com as possíveis leituras ou interpretações que poderiam e podem ser realizadas a partir da versão mais afinada do texto deixado pelo seu autor.

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Biografia do Autor

Maria Inês Batista Campos, Universidade de São Paulo

Editora responsável da Linha d'Água

 

Publicado
2018-10-02
Como Citar
Campos, M. I., & Santiago-Almeida, M. (2018). Filologia e Crítica Textual. Linha D’Água, 31(2), 1-6. https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v31i2p1-6
Seção
Editorial

Filologia e Crítica Textual: homenagem a Ivo Castro

Com esse tema, o leitor é convidado à reflexão advinda de estudos sobre a transmissão do texto escrito de variados domínios discursivos que, necessariamente, envolve o processo de edição ou reprodução ou estabelecimento ou fixação desses textos. Por sua vez, a depender dos critérios utilizados por quem os edita e publica, pode conduzir a leituras ou interpretações desafinadas (para mais ou para menos) com as possíveis leituras ou interpretações que poderiam e podem ser realizadas a partir da versão mais afinada do texto deixado pelo seu autor.

Sendo assim, estamos nos conduzindo pela área da “Filologia” que, resumidamente, nos remete a, pelo menos, dois conceitos: (1) o, mais amplo, que define Filologia como uma disciplina histórica que se dedica à reprodução ou reconstrução de textos do passado [literários e não literários], identificando e definindo as suas diretrizes ou coordenadas sincrônicas e diacrônicas, linguísticas e situacionais1 e (2) o, mais restrito, que define Filologia, culminada na Crítica Textual, como uma disciplina que se dedica à edição ou reprodução ou estabelecimento ou fixação de texto escrito - primordialmente literário, antigo e moderno, manuscrito e impresso - em sua forma ou versão, teoricamente, original ou genuína: trata-se, supostamente, da última versão autoral ou de maior autoridade ou vista ou autorizada pelo autor, publicada ou não com o autor vivo.

Esta definição de Crítica Textual está na esteira do que escreveu, há quase 35 anos, o nosso homenageado, professor emérito da Universidade de Lisboa, doutor Ivo Castro (http://www.clul.ulisboa.pt/pt/researchers-pt/119-castro-ivo) ao se referir que, atualmente, a Filologia se:

limita ao exercício de uma missão deixada vaga pelas outras disciplinas da palavra e que é a de verificar se um texto que vai ser lido e interpretado dá garantias de estar tão próximo quanto é possível daquilo que o seu autor escreveu.

Esta filologia estrita equipa-se com recursos técnicos muito desenvolvidos (contributo das ciências da escrita e do livro, da história e da linguística) para desempenhar a sua missão, que não é estética nem semântica, mas técnica e, de certo modo, ética: a missão de interrogar os objectos escritos sobre a sua proveniência e a sua existência, antes de os declarar aptos a serem lidos pelos outros, os literatos, os linguistas e outros que, distraídos pelas suas especialidades, tendem demasiadas vezes a confiar em que a palavra escrita é sempre a palavra do seu autor.2

Este número de Linha d’Água, estendendo sua interlocução e envolvendo pesquisadores portugueses e brasileiros, congrega artigos sobre Filologia - no seu sentido mais restrito e amplo - que contemplam resultados de investigações acerca do processo de transmissão e edição de texto literário e não literário mono e poli-testemunhal de diferentes épocas, tendo em alguns deles abordagens relacionadas ao ensino de língua e literatura e a suas práticas, além de tratar, como se pode inferir, das interfaces da Filologia/Crítica Textual, incluindo Crítica Genética, com outras disciplinas que se dedicam aos estudos sobre a linguagem.

Estão reunidos, neste número, nove artigos e uma resenha, oferecendo ao leitor um material bem cuidado e de qualidade para o conhecimento teórico e metodológico aplicado aos trabalhos de Filologia/Crítica textual.

De diferentes universidades brasileiras (UFBA, UEMS, UEFS, USP) e uma portuguesa (UL), pesquisadores discutem as várias abordagens dessa disciplina filológica, conforme segue:

Quem conhece Isaac de Nínive? Foi um religioso que nasceu em Bet Qatraye, atualmente Qatar, e fora ordenado bispo em 676 d.C, tendo renunciado ao cargo meses depois. Transferiu-se para um monastério no atual Irã, onde aprofundou seus conhecimentos das escrituras sagradas. A produção de Isaac no século VII no Oriente Médio foi traduzida para diversas línguas, e entrou na tradição portuguesa. Esse trabalho minucioso de reconstituir a história da tradução medieval portuguesa da obra de Issac e o caminho para alcançar o objetivo de reconstituir sua história está contada detalhadamente na resenha - feita por Phablo Roberto Marchis Fachin, professor e pesquisador na área de Filologia e Língua Portuguesa - da obra Livro de Isaac: edição crítica da tradução medieval portuguesa da obra de Isaac de Nínive, de autoria de César Nardelli Cambraia (2017).

No primeiro artigo, Saberes em diálogo na prática filológica editorial, Rosa Borges delineia o fazer filológico na contemporaneidade e trata a partir de práticas editorais e da crítica filológica do texto teatral censurado. Borges promove sua práxis filológica, recuperando a novela de Jorge Amado Quincas Berro d’Água, adaptada para o teatro por João Augusto. Os materiais que compõem o dossiê dessa peça de teatro compõem o material, levando a um esboço de uma proposta editorial que considera os saberes em diálogo no campo da Filologia e as abordagens críticas, textual, genética e sociológica.

Em O dossier genético de Novelas do Minho: planificação e construção da obra, Carlota Pimentel focaliza o estudo do professor Emérito da Universidade de Lisboa, Ivo Castro, sobre a gênese de Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. A análise genética do manuscrito autógrafo e das edições revistas pelo autor é o foco desse texto. Castro foi pioneiro no campo dos estudos genéticos camilianos e multiplicou os estudos genéticos sobre outras obras do escritor, contribuindo para a comparação de tipos e práticas de escrita. Pimentel apresenta o dossier genético de Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco, a fim de elucidar como características materiais do manuscrito autógrafo e da 1.ª edição contribuem para o conhecimento sobre a relação de Camilo com a sua escrita, o ritmo de produção e a planificação da obra. A autora caracteriza o processo de escrita camiliano e o tipo de cenário composicional refletido no dossier genético da obra.

No terceiro artigo, Uma análise crítica sobre “The Origin of Suffixes in Romance”, de David Pharies, Clóvis Luís Alonso Junior apresenta o artigo “The Origin of Suffixes in Romance”, de David Pharies, professor de espanhol da Universidade da Flórida nos Estados Unidos. O texto faz parte do volume terceiro de Word-Formation: an International Handbook of the Languages of Europe, que constrói acurada tipologia das origens dos sufixos românicos. Alonso Junior propõe o rendimento do binômio metáfora/metonímia como motriz da constituição de fenômenos linguísticos, em especial, de ordem morfológico-lexical.

Marcelo Módolo e Nathalia Reis Fernandes, no artigo intitulado O caderno que era diário: a seleção de corpus influenciada por gênero discursivo e ensino de língua propõem uma valorização em torno da escolha do corpus, porque o consideram um elemento importante do trabalho do crítico textual. A partir dessa escolha a investigação abre possibilidade de expor o material e de se encontrar novidades em termos de estudos linguísticos ou literários. Os autores discutem a tendência de estudiosos dessas áreas analisarem textos cujo gênero é facilmente classificável, e levantam como hipótese o ensino de gênero focalizar no instrumentalismo da língua e em gêneros privilegiados pelos vestibulares. Módolo e Fernandes analisam a construção do gênero diário menos convencional, importante para os estudos linguísticos e literários.

No artigo intitulado Da necessidade de edições críticas de grammaticas portuguezas publicadas no Brasil: um trabalho auxiliar à história das ideias linguísticas, Jorge Viana de Moraes aborda a necessidade de se criar e desenvolver uma linha de pesquisa em edições críticas de Grammaticas Portuguezas publicadas no Brasil entre os séculos XIX e XX, como auxílio à História das Ideias Linguísticas e à Gramaticografia brasileira. Moraes propõe alguns caminhos para a consolidação da tarefa filológica dessas grammaticas no âmbito acadêmico. Além disso, apresenta exemplos de trabalhos que poderiam ser realizados em edições de textos de algumas gramáticas publicadas no Brasil no período estudado.

Em “Amor Estabelecido” - Pedido de Casamento Através de Carta: uma análise linguístico-filológica, Rita de Cássia Ribeiro de Queiroz se propõe a analisar cartas pessoais, observando o quanto a escrita se fez presente ao longo da história, o que possibilita que distância entre pessoas seja amenizada. Queiroz, sob a perspectiva da Filologia Textual e da Linguística Histórica, analisa a edição de uma carta de pedido de casamento, com a resposta ao pedido, não datada, e uma análise das variações grafemáticas constantes no texto. Discute a ausência de data na carta e reflete sobre o hábito de escrever cartas que deixou de fazer parte da vida contemporânea, mas permite um estudo dos elementos gráficos de uma escrita fonética, sinalizando a baixa escolarização do(a) escrevente.

Elsa Pereira, em seu artigo intitulado Autoria, revisão colaborativa e apropriação cultural: para um modelo de edição da poesia de Pedro Homem de Mello, discute sobre o problema da atribuição crítica de autoridade, nos casos em que se documentam situações de revisão colaborativa e apropriação cultural. Para isso, toma como referência o modelo editorial a ser desenvolvido para a poesia de Pedro Homem de Mello (1904-1984). A partir da fundamentação teórica de James Thorpe e Siegfried Scheibe, Pereira defende que, do ponto de vista editorial, todos os testemunhos sancionados pelo autor estão em pé de igualdade, apresentando o texto como lição autêntica, adotando um tratamento não-hierarquizado de vários estágios textuais.

Neide Luzia Rezende e Maria Celeste de Souza, no trabalho intitulado Do ensino escolar da escrita de textos narrativos apresentam o resultado de um exercício de reflexão teórica e de aplicação prática, realizado no curso de Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa (MELP) na Faculdade de Educação da USP, com o objetivo de (re)significar o ensino de escrita de narrativas.

Finalmente, no artigo A crítica textual pula o muro da escola, Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida, Gabriela de Souza Morandini e Lilian Barros de Abreu Silva analisam a transmissão de textos literários em material didático (livros, apostilas, textos paradidáticos) utilizado nas aulas de literatura no ensino médio. Para consecução desse objetivo, os autores identificaram variantes do processo de transmissão nas obras didáticas, com a finalidade de investigar a gênese dessas variantes na transmissão do material. Finalmente, apresentam uma discussão das alterações numa análise crítico-literária da obra e do seu autor. Tomando como base teórico-metodológica a Crítica Textual, a análise se apoia em Cambraia e Laranjeira (2010). O intuito é apresentar resultados das análises de obras como Quincas Borba e Iracema, a fim de refletir sobre a produção do material didático.

Linha d’Água espera que a leitura desses artigos seja profícua aos professores, pesquisadores da área de Filologia/Crítica Textual e ensino.

A publicação deste número contou com o auxílio do Programa de Apoio às Publicações Científicas Periódicas da Universidade de São Paulo/SIBi e do Programa de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa, por meio do Plano de Incentivo à Publicação/ Proap/Capes 2018, a quem agradecemos por permitir a manutenção de Linha d’Água, que a partir deste ano foi indexada na Web of Science, base de dados de citações científicas do Institute for Scientific Information, mantido pela Clarivate Analytics, nas áreas de ciências sociais, artes e humanidades.

O processo de submissão e seleção dos artigos conta com pareceristas do Conselho editorial e ad hoc, procedimento que torna este número de alta qualidade. Linha d’Água mantém seu espaço aberto para publicações ligadas à língua portuguesa, aos estudos discursivos e sua relação com o ensino, mantendo um diálogo constante com os estudos desenvolvidos no Brasil e no exterior.

Agosto de 2018

CONTINI, G. Breviario di Ecdotica. Milano-Napoli: Riccardo Riccardi Editore, 1986.
Castro, I. Livro de José de Arimateia. Dissertação de Doutoramento, Universidade de Lisboa, 1984.