Análise comparativa de discursos

quais são seus precursores?

  • Sheila Vieira de Camargo Grillo Universidade de São Paulo
  • Flávia Sílvia Machado Université Paris Nanterre
  • Maria Inês Batista Campos Universidade de São Paulo
Palavras-chave: literatura comparada

Resumo

A proposta deste número é congregar artigos que avancem reflexões teóricas e metodológicas, bem como realizem análises comparativas de discursos em duas ou mais línguas/culturas.

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Publicado
2018-11-20
Como Citar
Grillo, S., Machado, F., & Campos, M. I. (2018). Análise comparativa de discursos. Linha D’Água, 31(3), 1-17. https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v31i3p1-17
Seção
Editorial

A proposta deste número é congregar artigos que avancem reflexões teóricas e metodológicas, bem como realizem análises comparativas de discursos em duas ou mais línguas/culturas. A análise comparativa foi tema do “I Colóquio Brasileiro-Franco-Russo em Análise de Discurso (CBRF-AD). Análise de discurso e comparação: questões teóricas, metodológicas e empíricas” que aconteceu nos dias 7, 8 e 9 de novembro de 2017, na Universidade de São Paulo, em uma parceria entre o grupo de pesquisa Diálogo (CNPq/USP), o centro de pesquisas francês CLESTHIA - axe sens et discours (Université Sorbonne Nouvelle Paris 3) e a Universidade Górnyi (São Petersburgo). Parte dos trabalhos reunidos neste número são o resultado de comunicações realizadas durante o CBRF-AD, que se transformaram em artigos e foram submetidos a rigorosa avaliação de pares. Se, por um lado, a disciplina “Análise de discurso” tem grande tradição e repercussão no horizonte da linguística brasileira, por outro, o acréscimo do adjetivo “comparativa” agrega um campo de atuação ao mesmo tempo novo e velho à disciplina.

O campo “velho” diz respeito à existência de inúmeros trabalhos em análise de discurso que lançaram mão de comparações para evidenciar o funcionamento de discursos. Por exemplo, o conhecido livro de Dominique Maingueneau Sémantique de la polémique (1983) utiliza-se de confrontos para caracterizar diferentes formações discursivas ou os textos de Sheila Grillo A produção do real em gêneros do jornal impresso (2004) e Divulgação Científica: linguagens, esferas e gêneros (2013) comparam discursos em diferentes veículos de comunicação dentro de uma mesma esfera da atividade humana ou no diálogo entre esferas, a fim de evidenciarem funcionamentos discursivos em relações polêmicas e/ou em diálogo. Essas pesquisas não tinham a pretensão de fundar uma análise comparativa de discursos, mas utilizaram-se de procedimentos metodológicos de comparação, pois, como assinala Posnett (2011[1986]), um dos fundadores da literatura comparada, a base da razão e da imaginação é operar de indivíduo para indivíduo de modo objetivo, com o auxílio de comparações e diferenças. Ainda segundo Posnett, a proposição mais antiga da lógica - a afirmação de uma comparação, A é B, ou a negação de uma comparação, A não é B - é sustentada pela estrutura primitiva da comparação e da diferença. Portanto, a utilização de comparações em diversos trabalhos de análise de discurso decorre, a nosso ver, desse modo básico de construção do conhecimento humano por meio de contrastes e semelhanças, capazes de revelar os funcionamentos do discurso no interdiscurso; em veículos de comunicação, dividindo espaço em uma mesma esfera da atividade humana; e em diferentes esferas da atividade humana, cuja aproximação é capaz de revelar as especificidades de cada esfera.

O campo “novo” refere-se, primeiramente, aos trabalhos desenvolvidos por pesquisadores do CLESTHIA - axe sens et discours (Université Sorbonne Nouvelle Paris 3) - que, desde os anos 2000, vêm se dedicando a desenvolver uma disciplina intitulada análise comparativa de discursos para comparar/contrastar línguas/culturas distintas (francês/japonês, alemão/francês, francês/português etc.) (CISLARU, 2006; PUGNIÈRE-SAAVEDRA, F./TRÉGUER-FELTEN, 2013; von MÜNCHOW, 2005, 2011, 2013, 2017), por meio de conceitos da análise do discurso, da linguística textual e das teorias da enunciação. Particularmente o conceito de tertium comparationis formulado por esses pesquisadores tem sido produtivo para realizar comparações empreendidas por pesquisadores do grupo Diálogo (CNPq/USP) (GRILLO, S. V. C./GLUSHKOVA, 2016; GRILLO, S. V. C.; HIGACHI, A., 2017). O traço característico desse grupo é desenvolver uma análise comparativa com base em conceitos e procedimentos metodológicos de Bakhtin e seu Círculo, articulando-os aos resultados do CLESTHIA - axe sens et discours.

Mikhail Bakhtin (1895-1975) foi professor de literatura estrangeira na Universidade de Saránsk e suas pesquisas sobre a obra de Dostoiévski, o romance e a obra de François Rabelais empregam largamente procedimentos comparativos entre literaturas de diversas partes do mundo e entre a literatura e outras esferas da cultura (o carnaval, por exemplo), e este é talvez um dos motivos do seu prestígio. As análises literárias de Bakhtin procuram descobrir a gênese de uma obra de arte literária na tradição anterior e na vida, mas ao mesmo tempo identifica como o ato criativo do escritor suplanta essa tradição, evitando, com isso, tanto o estudo tipológico (do folclore, por exemplo) de tradições anônimas, que possuem como natureza a impessoalidade, quanto o ato criativo descolado de suas origens literárias e do meio sócio-histórico-cultural. Nesse processo analítico, o sentido das obras e de uma cultura é revelado na distância temporal e espacial entre obras e culturas. Os laços de uma obra com outras do passado de outras culturas garantem a sua sobrevivência no grande tempo futuro.

A base bakhtiniana para uma análise comparativa de discursos nos conduz a dois precursores do comparativismo: análise comparativa de línguas e a literatura comparada.

Desde os séculos XVII e XVIII, procedimentos de comparação têm sido empregados na análise entre diferentes línguas - sem necessário parentesco genético entre si - com o propósito de criar dicionários bilíngues, gramáticas gerais e fundamentar o ensino de língua estrangeira (KODUKHOV, 1974). Desde então, formou-se um sistema de procedimentos de análise, utilizado para a descoberta de aspectos comuns e específicos entre as línguas investigadas, cuja produtividade dependia de uma adequada delimitação de fenômenos semelhantes.

No final do século XVIII, Wilhelm Humboldt apoia-se sobre o modelo da anatomia comparada para propor sua antropologia comparada, que visava confrontar as diferenças de organização espiritual de diferentes povos e indivíduos (CHABROLLE-CERRETINI, 2014), entendidas como caráteres, isto é, os modos de produção, de desenvolvimento e de sucessão de pensamentos, sensações, inclinações e decisões de uma nação, grupo de pessoas ou época. Um princípio fundamental da antropologia de Humboldt é a comparação, pois, uma vez que a compreensão do particular só pode ser apreendida por meio do conhecimento da diversidade, a comparação é um método incontornável. Para descrever um caráter, Humboldt propõe que se parta dos fatos reais, que ele agrupa em discursos, ações e as exteriorizações em geral, a fim de se chegar ao que é menos manifesto: a constituição interna do caráter. Depreendemos que uma análise comparativa de discursos é uma parte da antropologia comparada de Humboldt, pois se propõe a investigar a cultura manifesta nos discursos em diferentes línguas: “Graças à variedade de línguas cresce imediatamente para nós a riqueza do mundo e a variedade do que descobrimos nele; ao mesmo tempo alarga-se para nós as fronteiras da existência humana e surgem novos modos de pensar e sentir”. (HUMBOLDT, 2018, p. 203)1. Segundo Chabrolle-Cerretini (2014), o fio condutor do comparativismo de Humboldt é a compreensão e a descrição dos caráteres nacionais que são expressões particulares da humanidade. Para chegar aos caráteres nacionais, Humboldt analisa as línguas, que são entendidas como uma necessidade interna do homem desenvolvida em condições geográficas, históricas, sociais, culturais específicas. No decurso de sua obra, Humboldt opera a passagem de uma antropologia comparada a uma linguística comparada.

A concepção de linguagem que norteia a obra de Humboldt compreende o diálogo como sua dimensão intrínseca. Conforme já havíamos assinalado no ensaio introdutório à tradução de “Marxismo e filosofia da linguagem” (GRILLO, 2017), a linguagem faz a ligação entre o espírito individual e o espírito objetivo: “Falar - mesmo nas formas mais simples da fala - significa unir o seu sentido individual à natureza geral humana. O mesmo pode ser dito sobre compreensão daquilo que foi comunicado” (HUMBDOLT, 2013 [1859], p. 52)2. A língua é o elo entre os homens, que só se compreendem depois de certificarem-se da compreensão de suas palavras pelos demais. WALKER (2017) assinala que o caráter dialógico original da linguagem em Humboldt está relacionado tanto com o modo como aprendemos as línguas, quanto com a maneira como as línguas se desenvolvem entre uma pluralidade de diferentes línguas individuais (“tongues”). A variedade de línguas ao mesmo tempo revela a capacidade plural do pensamento humano de conceber a realidade e a necessidade de estudá-las comparativamente para compreender a linguagem e a humanidade. Em Humboldt, a compreensão da diversidade e da objetividade da linguagem não implica a renúncia da subjetividade: a humanidade toda tem uma mesma linguagem e cada pessoa tem a sua própria, aspectos centrais para uma filosofia ética e política da liberdade humana.

Na esteira desses trabalhos, Robert Lado, na obra Linguistics across cultures, publicada em 1957, argumenta que a comparação entre línguas e culturas pode ser eficaz no processo de aquisição-aprendizagem de uma língua estrangeira. Apoiando-se em autores da antropologia cultural, a metodologia elaborada por Lado visa ao reconhecimento de diferenças entre aspectos linguísticos e culturais das línguas materna e alvo do aprendiz. Neste contexto, assume-se que a cultura seja estruturada em sistemas de comportamentos padronizados que possuem como unidades constitutivas a forma, o significado e a distribuição. As formas e os significados seriam determinados e modificados culturalmente, enquanto a distribuição estaria relacionada aos ciclos de tempo, espaço e posição em relação às unidades anteriores.

Por meio da análise de tais unidades, que são intrinsecamente indissociáveis, Lado julga ser possível apontar a natureza da recorrência de determinados tipos de erros, má compreensão ou dificuldades que incidem no processo de aquisição-aprendizagem da língua alvo. Há casos em que a forma coincide nas línguas A e B, mas seus significados divergem. Em outras ocasiões, como bem mostra o autor, o mesmo significado dá-se em formas distintas em cada língua. Finalmente, as línguas podem valer-se de forma e significado comuns com distribuição diferente. Em relação a este último elemento, Lado aponta que o observador da língua estrangeira pode assumir que a distribuição de um aspecto em sua cultura nativa seja o mesmo ou mais homogêneo na cultura do outro.

Em 1958, um ano após o aparecimento do estudo de Lado, os pesquisadores Vinay e Darbelnet lançaram um método de tradução intitulado Stylistique comparée du français et de l’anglais. A obra integra a coleção Bibliothèque de stylistique comparée, organizada por Alfred Malblanc, que também abrange outros números voltados para a comparação da estilística e o “valor das partes do discurso” em francês, alemão, espanhol e inglês. Durante uma viagem de Nova York à Montreal, os pesquisadores notaram diferenças linguísticas marcantes em placas de trânsito de províncias francófonas e anglófonas. Segundo eles, as placas em inglês revelavam um caráter de aconselhamento “quase paternal e docemente autoritário” (p. 18). Já as placas em francês apresentavam palavras longas e pesadas, como advérbios terminados em ‘mente’, e frases que indicavam mais claramente os efeitos da transgressão de uma determinada regra de trânsito.Tal observação levou os autores a refletir sobre o exercício da tradução e acabaram por considerá-la uma disciplina de natureza comparativa que se apoia tanto no conhecimento de duas estruturas linguísticas distintas quanto em duas concepções particulares de uma mesma realidade.

Dez anos mais tarde, em 1968, Alfred Malblanc apresentou o segundo livro da coleção, intitulado Stylistique comparée du français et de l’allemand. Além de estabelecer um diálogo direto com a obra anterior de Vinay e Darbelnet, Malblanc propôs uma reflexão mais detalhada sobre a estilística comparada, com base no pensamento de Humboldt sobre as diferentes visões de mundo de cada língua, e no Tratado de Estilística (1951) do linguista francês Charles Bally. Em oposição à estilística interna, que seria voltada para o estudo dos elementos intelectuais e afetivos no interior de uma língua, a estilística externa ou comparada estaria interessada em contrastar as características específicas de línguas distintas. A investigação no campo da estilística comparada estaria voltada tanto para o entendimento da correspondência de dois sistemas linguísticos e dos modos de passagem de um para o outro (tradução), quanto para a relação entre seus gêneros e estilos. Para Malblanc, a relação entre a estilística e a tradução é fundamental, pois “é pela comparação de textos de mesma significação que procede a estilística comparada e a tradução é seu principal instrumento de exploração; uma vez constituída, a estilística informa e esclarece, por sua vez, a tradução” (MALBLANC, 1968, p. 18). Na obra em questão, após confrontar o alemão e o francês no que tange ao léxico, agenciamento, infraestrutura e mensagem, Malblanc conclui ter reconhecido dois grandes planos recorrentes de representação. Por um lado, o alemão revelou estar mais próximo ao plano do real e do concreto, repleto de ‘palavras-imagens’ e ‘palavras-signos’, com tendência a movimentar-se do fato às ideias. Por outro, o francês aproxima-se mais do plano da compreensão e da generalização, composta de ‘palavras-motivadas’ e ‘palavras-arbitrárias’, partindo das ideias rumo aos fatos.

Outro precursor do comparativismo bakhtiniano parece-nos ser a literatura comparada que surge como disciplina acadêmica, no século XIX, fundamentada na “noção de transversalidade, seja com relação às fronteiras entre nações e idiomas, seja no que concerne aos limites entre áreas do conhecimento”. (COUTINHO, 2011, p. 7). Nasceu inspirada nas ciências “comparativas” em biologia, no início do século XIX, com o propósito de “cotejar os objetos análogos de um mesmo grupo para fins de classificação, mas a comparação de fenômenos destacados, sob certos aspectos, do grupo ao qual normalmente pertencem e submetidos a uma confrontação que evidencia um caráter comum e, com isso, sugere uma relação de parentesco e de desenvolvimento entre grupos tidos como estranhos até então”. (BALDENSPERGER, 2011[1921]), p. 83-84). Apesar de questionável por grande parte dos comparatistas contemporâneos, duas concepções e dois modos de pesquisa norteiam os estudos comparatistas: por um lado, a literatura geral compreendida como a investigação da literatura sem preocupação com fronteiras linguísticas e, por outro, a literatura comparada tomada como o estudo de literaturas nacionais em relação umas com as outras.

O compatriota de Bakhtin, Victor Zhirmunsky (2011[1967]), entende que o estudo comparativo no interior ou além de uma literatura nacional é o princípio fundamental da explanação histórica e da pesquisa literária. Segundo Zhirmunsky, movimentos literários internacionais baseiam-se parcialmente na unidade e regularidade na evolução social da humanidade e parcialmente em suas relações culturais e literárias recíprocas: “Cada grande literatura desenvolveu seu caráter nacional em constante interação com outras literaturas”. (2011[1967]), p. 222).

A literatura comparada apresenta três orientações principais inter-relacionadas que podem iluminar diferentes abordagens da análise comparativa de discursos. A primeira estabelece como propósito o exame das influências de uma literatura ou cultura sobre a outra, por meio do estudo das fontes, da fortuna crítica, da reputação, do mito. Essa abordagem é importante para os trabalhos que Grillo tem realizado de comparação das linguísticas brasileira e russa, sob a influência de autores como Ferdinand de Saussure e Wilhelm Humboldt. A segunda busca investigar duas civilizações, duas psicologias distintas, a fim de revelar a originalidade de cada povo: “A natureza da história da literatura comparada é (...) penetrar na essência dos fenômenos literários individuais através da comparação de fenômenos análogos; desvendar as leis que são responsáveis pelas semelhanças bem como pelas diferenças”. (BETZ, 2011[1973], p. 56). As pesquisas de von Münchow (2005, 2011) comparam as culturas discursivas alemã e francesa em uma perspectiva próxima a essa. Por fim, a terceira a concebe como “um método de ampliação da perspectiva na abordagem de obras literárias isoladas (...) a fim de que sejam discernidos movimentos e tendências nas diversas culturas nacionais e de que sejam percebidas relações entre a literatura e as demais esferas da atividade humana”. (ALDRIDGE, 2011[1969], p. 272). Por meio dessa definição, percebemos que os trabalhos de Bakhtin que comparam as esferas literárias e científica, a literatura e a vida inserem-se nessa perspectiva também.

Uma questão já colocada no âmbito da literatura comparada (WEISSTEIN, 2011[1973]) é o critério de definição da análise comparativa de discursos: político-históricos ou linguísticos. Com isso, queremos chamar atenção para a questão: enunciados em língua portuguesa (critério linguístico) produzidos no Brasil, em Moçambique e em Portugal (critério político-histórico), por exemplo, seriam caracterizados como análise comparativa? A nossa posição atual é que os dois critérios caminham juntos e devem ser considerados simultaneamente, pois a língua portuguesa dos países mencionados tendem a adquirir autonomia linguística (hoje, fala-se em português europeu e brasileiro, por exemplo) e cultural em decorrência de fatores políticos e históricos.

Este número temático da Revista Linha d’Água reúne 8 artigos dedicados à temática da comparação em análise do discurso. Os estudos aqui apresentados apoiam-se em diferentes fundamentações teórico-metodológicas e oferecem diferentes perspectivas do exercício comparativo, seja entre gêneros de uma mesma língua/cultura (crônica versus relato e autobiografia); entre enunciados de um mesmo gênero, mas provenientes de línguas/culturas distintas (brasileira e russa, brasileira e estadunidense, ou brasileira e francesa), ou mesmo entre enunciados de mesmo gênero e língua, mas de países diferentes (Brasil e Portugal).

O primeiro artigo, desenvolvido por Daniela Nienkötter Sardá, intitula-se A Filosofia no Ensino Médio brasileiro e francês: uma comparação intercultural de livros didáticos e de textos oficiais de educação. A proposta da autora é analisar comparativamente os livros didáticos de filosofia no Brasil e na França, juntamente com discursos de textos oficias dos Ministérios da Educação de cada país. De maneira geral, Sardá observa muitas semelhanças na organização do ensino de filosofia nos dois países: ambas são disciplinas obrigatórias que participam de um currículo centralizado, possuem abordagem temática (em oposição a uma possível abordagem histórica) e participam das avaliações de seus respectivos exames nacionais. Uma diferença importante repousa no fato de que, no Brasil, a disciplina ainda não possui estabilidade garantida no currículo, enquanto na França a discussão gira em torno da antecipação da disciplina na grade do ensino fundamental. A autora conclui que o caráter inabalável da filosofia enquanto disciplina escolar na França dá-se por mecanismos de fortalecimento diversos, como a existência de associações e sindicatos que lutam pela sua permanência e expansão. Além disso, a maior solidez da área contribui para que os livros didáticos franceses sejam mais homogêneos e menos propensos a reformulações, o que permite a criação de mais ferramentas didáticas para o acompanhamento dos alunos, tal como a criação de listas de autores e noções.

No artigo seguinte, Análise comparativa estilística do gênero Resumo: um estudo de caso nas publicações científicas no Brasil e na Rússia, Maria Glushkova e Raphael Bessa Ferreira propõem uma análise estilística do gênero resumo acadêmico nas esferas científicas brasileira e russa. Em diálogo com teoria do Círculo de Bakhtin, os autores primeiramente traçam o percurso da estilística no Brasil e, em seguida, desenvolvem as ideias principais da escola de estilística funcional russa. Além de apresentarem uma análise comparativa do corpus, constituído de resumos de artigos de revista científica, os autores investem na comparação da estilística enquanto disciplina nos dois países. No Brasil, os estudos do estilo basearam-se na tradição alemã, observada nas obras de Said Ali, em teóricos franceses - que também inspiraram a coleção Bibliothèque de stylistique comparée de MALBLANC (1968) - tais como Bally, Cressot, Marouzeau, Guiraud e Riffaterre, nos textos de Matoso Câmara Jr., e nas obras de Mikhail Bakhtin que tratam sobre os gêneros do discurso. No contexto russo, destacam-se dois projetos de estilística que se desenvolveram paralelamente: o de concepção bakhtiniana e o da escola funcional, dentre os principais estudiosas foram Rógova K.A. (São Petersburgo), Solgánik G.Ia. (Moscou), Kójina M.N., Kotiúrova M.P. e Salimóvski V.A. (Pierm). O artigo avança em sua reflexão, ao revelar que na Rússia os estudos sobre estilo científico ou acadêmico são bem consolidados, enquanto que no Brasil há uma abundância de trabalhos sobre o gênero científico. Da análise, Glushkova e Bessa concluem que há mais convergências do que divergências nos estilos dos resumos científicos nos dois países, tais como a inclinação ao caráter não categórico do discurso científico, o apagamento do espaço-tempo e dos sujeitos, a generalização e a presença de uma grande diversidade estilística.

O artigo Análise comparativa de blogs de divulgação científica em português: a descoberta científica em perspectiva de Flávia Sílvia Machado demonstra como a análise comparativa de enunciados de duas variantes de uma mesma língua, português do Brasil e português de Portugal, pode revelar diferenças motivadas por contextos políticos e históricos diversos. Com isso, a autora responde à questão colocada por WEISSTEIN (2011[1973]), a respeito da adoção de critérios linguísticos e históricopolíticos para a realização de análises comparativas. Por meio do conceito de signo ideológico verbal - palavra - desenvolvido por Bakhtin e seu Círculo, a autora mostra como os sentidos do signo “descoberta” em dicionários brasileiros e portugueses atualizam-se em enunciados de blogs de divulgação científica do Brasil e de Portugal, por meio dos quais os diferentes contextos históricos, políticos e sociais refletem-se e refratam-se.

Urbano Cavalcante Filho, no artigo intitulado A construção composicional em enunciados de divulgação científica: uma análise dialógico-comparativa de Ciência Hoje e La Recherche visa estabelecer uma convergência teórico-metodológica entre a Análise Dialógica do Discurso, de perspectiva bakhtiniana, e a Análise Comparativa do Discurso, desenvolvida pelos pesquisadores do CLESTHIA, com o intuito de analisar a forma composicional de enunciados de divulgação científica das revistas Ciência Hoje (Brasil) e La Recherche (França). O elemento de comparação, Cavalcante elegeu o gênero discursivo reportagem de divulgação científica. Como resultado, o autor pode identificar semelhanças e diferenças entre as duas publicações. Dentre as convergências está o fato de que as construções composicionais dos enunciados franceses e brasileiros partiram de um mesmo “modelo formal” de distribuição das informações. Já no plano das diferenças. a revista Ciência Hoje apresentou mais informações antecipadas sobre a reportagem ao leitor em relação à La Recherche. Desse modo, a publicação francesa parece aguçar a curiosidade de seus leitores em relação a sua reportagem.

Em Gêneros no Facebook: Análise comparativa de discursos em divulgação científica anglófona e lusófona, Artur Daniel Ramos Modolo propõe uma análise quantitativa e qualitativa das formas responsivas encontradas na rede social Facebook, a saber, curtir, compartilhar e comentar. O autor também baseia-se nos preceitos da teoria do Círculo de Bakhtin e nos trabalhos publicados pelo grupo CLESTHIA - axe sens et discours (VON MÜNCHOW e RAKOTONOELINA, 2006) para eleger o gênero como categoria de comparação. O estudo busca investigar a frequência e a popularidade de alguns gêneros, assim como diferenças e semelhanças entre as postagens em português e em inglês no tocante ao uso das ferramentas responsivas nas páginas das revistas Cosmos (Austrália), New Scientist (Reino Unido), Scientific American (Estados Unidos da América), Galileu e Superinteressante (Brasil). Dentre os gêneros identificados, o artigo mostrou-se o mais produtivo em todas as páginas de revistas de divulgação científica selecionadas, enquanto os gêneros publicitários foram os que menos apareceram. Uma das contribuições do estudo foi compreender que as curtidas reduzem o caráter responsivo, pois parecem simplificar a interação verbal entre os usuários. O autor também apontou que os enunciados postados são constituídos de características de diferentes esferas da atividade humana e que a proximidade no tratamento dado ao leitor, quando comparado ao artigo científico da esfera acadêmica, é algo comum na divulgação científica oriunda de culturas discursivas. O humor e o uso de vídeos mostraram-se eficazes no engajamento do público presumido em relação às ferramentas responsivas. No plano quantitativo, os resultados revelaram a presença de um público heterogêneo, cujo comportamento responsivo é bastante variado em todos os países estudados. O que muda, neste caso, são as referências culturais utilizadas para a captação do leitor.

Gustavo Ximenes Cunha e Tatiana Emediato Corrêa contribuem para o número com o artigo intitulado A construção de imagens de si como um fenômeno enunciativo: estudo comparativo de depoimentos brasileiro e francês publicados na revista Marie Claire. Como fundamentação teórica, os autores mobilizam os conceitos da Teoria dos Pontos de Vista de Rabatel, inserido no campo da análise do discurso interacionista, para compreender de que forma as narradoras brasileiras e francesas representam os pontos de vista de enunciadores diversos. Considerando as especificidades e os contextos dos sujeitos retratados nas duas revistas, Cunha e Corrêa identificaram semelhanças significativas na construção da imagem da mulher bem sucedida, em consonância com o perfil do leitor presumido da publicação, constituído por mulheres brancas, de classe média, profissionalmente ativas, com poder aquisitivo e altamente escolarizadas. Nos dois depoimentos analisados, ambas as narradoras constroem para si imagens de mulheres empreendedoras e, mesmo utilizando estratégias distintas, inserem-se num mesmo conjunto de valores ligados ao mundo do trabalho. Confirmando sua hipótese inicial, os autores atribuem tais semelhanças ao projeto editorial que as publicações brasileira e francesa compartilham, constituído a partir de um público alvo comum.

Em O discurso outro em narrativas ficcionais e não ficcionais, de Dóris de Arruda C. da Cunha e Tatiana Simões e Luna apresentam um estudo sobre a representação do discurso outro (RDO) presente em narrativas ficcionais e não ficcionais. Neste artigo, a comparação é estabelecida entre dois gêneros do discurso distintos: a crônica e o relato. Um dos objetivos do trabalho é observar o uso das formas de RDO de acordo com o domínio de cada gênero pelo sujeito. O artigo baseia-se em duas frentes teóricas distintas: primeiramente, os esquemas de transmissão do discurso outro de Volóchinov e, em segundo lugar, os estudos de Authier-Revuz sobre a modalização do discurso segundo e a modalização autonímica do empréstimo. Num primeiro momento, as autoras desvendam o campo dos estudos sobre a representação do discurso do outro. Em seguida, discorrem sobre as narrativas ficcionais e não ficcionais, representadas respectivamente pela crônica literária e pelo relato de prática. Tendo como corpus doze textos premiados do Programa Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, a análise comparativa entre os dois gêneros revelou mais similaridades que diferenças em relação aos traços de RDO encontrados. Respeitando as condições de produção e circulação próprias de cada gênero, as autoras observam que ambos mobilizam os estilos linear e pictóricos na interação entre um enunciado autoral com enunciados alheios e utilizam discurso indireto livre de modo esparso. No entanto, os relatos, escritos exclusivamente por professores, apresentam maior domínio de determinadas formas de RDO em relação às crônicas que refletem o caráter iniciante de seus autores, os estudantes.

Finalmente, Yuri Santos, Vânia Lúcia Menezes Torga, Urbano Cavalcante Filho apresentam o artigo Perspectivas de uma escrita de si: análise comparativa de discursos no gênero autobiografia, no qual discutem diferentes acepções do gênero autobiografia, para, em seguida, empreenderem uma análise comparativa de Por Parte de Pai (1995) do brasileiro Bartolomeu Campos de Queirós e El cuarto de atrás (2012[1978]) da espanhola Carmen Martin Gaite. Os resultados alcançados apontam, por um lado, para a semelhança das culturas brasileira e espanhola sobre os papeis sociais dos gêneros feminino e masculino, e, por outro, para as diferenças nas autobiografias decorrentes de o autor brasileiro ser do gênero masculino e de a autora espanhola ser do gênero feminino.

Para o fechamento deste número, Miriam Bauab Puzzo faz uma resenha da obra A questão da ideologia no Círculo de Bakhtin, de Luiz Rosalvo Costa, publicada pela Ateliê Editorial/FAPESP.

Linha d’Água espera que a leitura desses artigos seja profícua aos professores, pesquisadores da área de Análise Comparativa, teoria bakhtiniana e ensino.

A publicação deste número contou com o auxílio do Programa de Apoio às Publicações Científicas Periódicas da Universidade de São Paulo/SIBi e do Programa de Pós-Graduação em Filologia e Língua Portuguesa, por meio do Plano de Incentivo à Publicação/ Proap/Capes 2018, a quem agradecemos por permitir a manutenção de Linha d’Água, que a partir deste ano foi indexada na Web of Science, base de dados de citações científicas do Institute for Scientific Information, mantido pela Clarivate Analytics, nas áreas de Ciências Sociais, Artes e Humanidades.

O processo de submissão e seleção dos artigos conta com pareceristas do Conselho editorial e ad hoc, procedimento que torna este número de alta qualidade. Linha d’Água mantém seu espaço aberto para publicações ligadas à língua portuguesa, aos estudos linguístico-discursivos e sua relação com o ensino, mantendo um diálogo constante com os estudos desenvolvidos no Brasil e no exterior.

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Благодаря многообразию языков непосредственно возрастает для нас богатсво мира и многообразие того, что мы в нём обнаруживаем; одновременно раздвигаются для нас границы человеческого бытия и новые способы мыслить и чувствовать встают перед нами в определённых и подлинных характерах.»
“Говорить - даже в простейших формах речи - значить примыкать своим индивидуальным чувством к общечеловеческой природе. То-же самое должно сказать о понимании сообщаемаго».