A questão da ideologia no Círculo de Bakhtin

e os embates no discurso de divulgação científica da revista Ciência hoje

  • Miriam Bauab Puzzo Universidade de Taubaté

Downloads

Não há dados estatísticos.
Publicado
2018-11-25
Como Citar
Puzzo, M. (2018). A questão da ideologia no Círculo de Bakhtin. Linha D’Água, 31(3), 211-220. https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v31i3p211-220
Seção
Resenhas

As novas traduções das obras de Bakhtin, Volóchinov e Mediviédev diretamente do russo, feitas por pesquisadores no Brasil como Paulo Bezerra, Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo, têm lançado novo olhar sobre a teoria dialógica da linguagem na perspectiva do Círculo. Embora tais autores estivessem discutindo no início do século XX a teoria discursiva da linguagem, ela ainda é produtiva na atualidade como demonstram os trabalhos recentes sobre gêneros das mais variadas esferas de produção, circulação e recepção. A pesquisa de Luiz Rosalvo Costa sobre o discurso de divulgação científica é um exemplo da produtividade dessa teoria. Após anos de pesquisa acadêmica, o resultado concretizado nessa publicação desfaz a visão simplista e redutora da teoria bakhtiniana tomada, geralmente, de modo utilitário e funcional para discutir a questão dos gêneros discursivos. Com foco no conceito de ideologia, conforme o título do livro indica, o autor reúne as obras dos três pesquisadores do Círculo, Medviédev, Volóchinov e Bakhtin, e num trabalho interpretativo de cada uma delas, procura demonstrar a convergência de pontos significativos na elaboração dos conceitos teóricos ainda que haja diferenças individuais entre os autores. Parte do princípio de que:

Para além da variedade de fontes e referências intelectuais e das diferenças de orientações filosóficas na origem de suas reflexões, o pressuposto da historicidade concreta dos processos de produção de sentidos permite que os trabalhos de Volóchinov, Medviédev e Bakhtin possam, a partir de determinado momento, ser costurados pela premissa comum do caráter inerentemente social tanto da linguagem quanto da estética, por consequência, pelo juízo de que tanto o objeto estético quanto o enunciado concreto refletem e refratam, cada um a seu modo a existência social. (p. 112).

Retomando as traduções recentes das obras do Círculo, Luiz Rosalvo procura articular os três interlocutores principais para tecer as relações dialógicas que mantêm elucidando a teoria cujos desdobramentos propiciam pesquisas relevantes sobre os gêneros discursivos, como a que o pesquisador escolheu para investigar as relações entre a divulgação científica e o posicionamento situado de seus enunciadores midiáticos, com reflexos sobre os valores atribuídos às pesquisas científicas. Acompanha, portanto, as pesquisas de Sheila Grillo já desenvolvidas sobre o tema, desmistificando a visão da simples informação dos novos resultados das investigações científicas ao público leitor. O conceito de linguagem na perspectiva do Círculo permite observar como tais gêneros refletem e refratam os enunciados científicos, alterando sua forma de produção e veiculação em função do momento histórico social, caracterizado pela tecnologia da informação. Na perspectiva do autor, “a ideologia da sociedade se constitui por significados e sentidos materializados em objetos-signo e em enunciados concretos produzidos nas diferentes esferas ideológicas e na comunicação da vida cotidiana”. O significado de tais signos reflete e refrata os valores difundidos pela economia e pela política expressando a tensão entre as forças produtivas e a sociedade cuja resposta se concretiza nos enunciados. No arcabouço teórico que descreve, procura sedimentar sua investigação nas relações dialógicas que os enunciados mantêm com o contexto sócio-histórico. Para compor o cenário social evolutivo que culmina na sociedade pós-moderna, cujas características afetam a linguagem, o pesquisador recorre aos autores que tratam da transformação social, a partir da evolução da industrialização, da tecnologia e dos recursos midiáticos, responsáveis pelas alterações na linguagem como meio de expressão do homem em sociedade. No percurso histórico que traça para explicar a contemporaneidade, busca apoio em autores que se dedicam ao tema e, segundo o pesquisador, embora usem terminologias específicas, não divergem muito da concepção de que a organização econômica é responsável pelas transformações sociais, entre eles Marx, Lyotard, Bauman.

Além desse referencial teórico também considera a linguagem verbo-visual que caracteriza os enunciados de divulgação científica compostos por ilustrações, gráficos, imagens e outros recursos que se tornam significativos como signos valorativos.

Sua pesquisa procura situar a concepção teórica do Círculo a partir de seus interlocutores mais próximos, questionando a tese de que Bakhtin distancia-se do conceito de ideologia em seus ensaios. Sob esse aspecto, o aprofundamento dos textos dos referidos autores sobre o conceito de ideologia torna-se fundamental para análise de seu objeto de pesquisa. Para discutir esse tópico nessa perspectiva teórica, parte do princípio de que há uma relação intrínseca entre os três autores mais significativos do Círculo e a teoria marxista em que pesem os questionamentos apresentados por Volóchinov em Marxismo e filosofia da linguagem (2017), por Medviédev ao questionar o método de analisar as obras literárias do formalismo russo em O método formal nos estudos literários: introdução crítica a uma poética sociológica (2012) e de modo mais sutil por Bakhtin ao tratar das relações dialógicas do enunciador com o contexto social, demonstrando seu posicionamento valorativo em todas as formas de enunciação. O fato de tais pesquisadores apresentarem questionamentos a respeito do marxismo não significa a negação absoluta dessa teoria. Como afirma Luiz Rosalvo:

Seja no campo do materialismo histórico, seja entre este e outras correntes, os debates comprovam a riqueza da vida intelectual e a centralidade do pensamento marxista como referência teórica do momento. Nenhum motivo, portanto, para se surpreender com a presença de vozes marxistas nas reflexões de Bakhtin, posto que no período de constituição das bases de seu pensamento, o encontro com o marxismo é simplesmente inevitável. (p. 46).

Procura demonstrar como a crítica ao posicionamento de Bakhtin em relação ao marxismo, por não tratá-lo explicitamente em seus textos, como nas obras de Volóchinov de Medviédev, não significa seu comprometimento com essa perspectiva teórica.

A justificativa apontada por Luiz Rosalvo quanto às diversas posições adotadas por Bakhtin e as formas de interpretação desses posicionamentos decorrem do processo de reflexo e refração dessa teoria em diversos momentos de elaboração teórica. Como fundamento dessas disparidades recorre à história da arte para comprovar as diversas interpretações de críticos e biógrafos como Emerson (2003), Clark&Holquist(1984), Todorov (1981), Bronckart (2012), Brandist (2004), Shepherd(2004), Tihanov (2004) entre outros. Demonstra, desse modo, a falta de consenso entre elas e as diferentes interpretações que ao longo do tempo expressam os posicionamentos situados de críticos e teóricos, apresentando contradições e divergências quanto ao papel de Bakhtin no Círculo. Para estabelecer as relações desses teóricos com o marxismo, o pesquisador traça uma retrospectiva histórica, desde os finais do século XIX até o início do século XX, quando a Rússia se preparava para introduzir o comunismo com a revolução de 1917. Nesse cenário em que as ideias eram discutidas, Rosalvo aponta as relações entre o Círculo bakhtiniano e a teoria de Marx e Engels, a partir dos conceitos de relações sociais, interação e materialidade da ideologia.

Para discutir essa questão polêmica que se estabelece entre os intérpretes de Bakhtin a respeito de sua relação com o marxismo e com os integrantes do Círculo, Medviédev e Volóchinov, Rosalvo recorre às traduções recentes, diretamente do russo, das obras desses autores.

Portanto, ao analisar cada uma dessas obras, procura relacionar os conceitos que expressam, comparando-os a partir da obra de Medviédev O método formal nos estudos literários em que faz crítica ao Formalismo russo, por reduzir a obra à sua materialidade linguística, abandonando sua relação com a sociedade. Ressalta, portanto, o princípio sociológico no âmbito literário em sintonia com a teoria marxista. Nesse percurso, Luiz Rosalvo coloca em evidência conceitos importantes formulados por Medviédev, como o de gênero discursivo, conceituado pela primeira vez e desenvolvido posteriormente por Bakhtin no ensaio de 1955 Gêneros discursivos, conceito pelo qual ficou consagrado. Também apresenta as relações da ideologia com todas as formas de sua manifestação sígnica, nas mais variadas esferas sociais, determinada pela base econômica que se encontra na consciência social, atuando sobre a consciência do indivíduo. Menciona também o conceito de enunciado concreto que reflete e refrata a realidade socioeconômica que a base das reflexões de Volóchinov e de Bakhtin.

Nas obras de Volóchinov Marxismo e filosofia da linguagem de 1929, Freudismo: um esboço crítico de 1927 e O discurso na vida e o discurso na poesia de 1926, a questão da ideologia torna-se relevante, principalmente pelo conceito de signo ideológico. Rosalvo enfatiza a questão da ideologia materializada nos signos, “utilizados na comunicação semiótica da sociedade e que se efetiva nas diversas esferas da comunicação ideológica”. Nessa perspectiva, a palavra como signo ideológico desempenha papel fundamental na comunicação humana tanto nas esferas instituídas como na vida cotidiana. Esse é o conceito fundamental que articula a proximidade entre esses intelectuais de modo mais ou menos explícito. A palavra dicionarizada expressa um sentido limitado e só se torna meio comunicativo na atualização prática, em enunciados concretos como centro da interação verbal que reflete e refrata as ideias predominantes no contexto social. Ao discutir o ensaio sobre a teoria freudiana, o pesquisador demonstra a coerência teórica de Volóchinov ao questionar os conceitos psíquicos determinados por Freud, reduzidos às reações individuais. O questionamento de Volóchinov decorre da percepção marxista de que os problemas individuais decorrem das forças do contexto social que atuam no indivíduo, expressando os conflitos e as contradições resultantes do sistema econômico e político que organizam as relações interindividuais e que se manifestam na linguagem. Sublinha ainda, nas reflexões de Volóchinov a concepção semiótica de ideologia em que os signos materializam as ideias presentes na consciência e como consequência da ideologia do contexto social, refletida e refratada pelo processo dialógico da linguagem.

No ensaio O discurso na vida e o discurso na poesia, o autor aponta, nas considerações de Volóchinov, a importância das relações entre consciência, linguagem e ideologia na perspectiva sociológica. Demonstra como a concepção ideológica encontra-se na linguagem tanto literária quanto cotidiana, resultante das relações interpessoais afetadas pelo contexto imediato. Ao destacar os conceitos de signo ideológico e de enunciado como elementos fundamentais para expressão dos conflitos sociais, Rosalvo aproxima os conceitos discutidos por Volóchinov aos de Medviédev, de modo mais explícito, em que as ideias marxistas encontram-se evidentes nos conceitos de reflexo e refração, superestrutura e infraestrutura, língua e linguagem.

Para demonstrar a proximidade entre a concepção dos dois intelectuais e Bakhtin, de cujo diálogo resulta a teoria da linguagem, Rosalvo confronta os primeiros textos de Bakhtin dos anos 20, em que predominam questões filosóficas, tais como ética, estética, responsabilidade, com as obras posteriores, numa adaptação de questões discutidas anteriormente com o Círculo. O encaminhamento dado por Rosalvo nesse percurso interpretativo de Bakhtin, demonstra o alinhamento de suas ideias com as do Círculo. Segundo o pesquisador, não há uma discussão específica sobre o conceito de ideologia como ocorre nas obras de Medviédev e Volóchinov, mas os ensaios a partir de 1930 revelam o amadurecimento das questões discutidas nos textos anteriores cujo enfoque estava centrado na ética e na estética. Em suas palavras:

...o que se observa na produção bakhtiniana posterior a 1930 é um processo de ressignificação e de reelaboração de sentido por meio do qual a natureza interacional (e, portanto, social, intersubjetiva, relacional, ideológica) dos acontecimentos estéticos e enunciativos passa gradativamente a ser recoberta de modo concentrado pelo conceito de dialogismo, cujo alcance vai se definir por uma espécie de síntese semântica reunindo traços de todos esses campos (o social, o intersubjetivo, o relacional e o ideológico).

Em sintonia com sua proposta comparativa, o pesquisador seleciona os textos mais significativos de Bakhtin para demonstrar a afinidade teórica com seus dois interlocutores mais próximos. Ao retomar Problemas da poética de Dostoiévski de 1929, demonstra como o conceito de dialogismo já pressupõem a “interação entre diversas consciências”. Segundo sua interpretação, “a chave usada por Bakhtin para compreender a organização do mundo ficcional de Dostoiévski vai, ao longo de sua produção, firmar-se também como chave para compreensão da própria vida social.” (p. 144).

De modo semelhante, evidencia no ensaio O discurso no romance, elaborado no período de 1934-1935) a articulação com as ideias discutidas pelo Círculo. Conforme as considerações do pesquisador, Bakhtin apresenta os principais conceitos do seu projeto relacionados ao “universo socioideológico”. Os conceitos de plurilinguismo, dialogização, pressupõem o embate entre as personagens, cujo diálogo ficcional expressa a heterogeneidade, a contradição das personagens em seus diferentes acentos e avaliações na composição do universo socioideológico reproduzido no romance. Desse texto, Rosalvo enfatiza a importância dos conceitos de tendências centrípetas e centrífugas resultantes das transformações por que a língua passa em função do contexto social. Também aponta o dialogismo como núcleo central da teoria bakhtiniana revelador do funcionamento ideológico-discursivo, presente na linguagem. Na perspectiva do pesquisador, os conceitos de reflexo e refração apontados por Volóchinov fazem parte desse processo interativo entre o eu e o outro, implícitos na concepção dialógica da linguagem. O autor demonstra como, ao relacionar a inserção das diferentes vozes no romance, Bakhtin enfatiza o embate entre elas, num campo social tenso em que os diálogos se constituem configurando tanto a consciência coletiva quanto a consciência individual das personagens que interagem na ficção.

Por último, o ensaio Os Gêneros do discurso de 1954-55 é analisado, demonstrando que, embora o conceito ideológico, presente nas obras de Volóchinov e Madviédev, não esteja claramente posto, manifesta-se na concepção de um universo constituído por visão de mundo, valores, crenças, saberes expressos pelas diferentes vozes, marcando posicionamentos relacionados com o contexto social. Portanto, a ideologia mais evidente nos ensaios anteriores encontra-se diluída em conceitos teóricos reformulados, mas cuja base se encontra nos postulados discutidos na década de 30.

Segundo Luiz Rosalvo, “o gênero do discurso opera como uma mediação pela qual os indivíduos são discursivamente socializados.” O gênero é, portanto, um elemento responsável pela manutenção e transformação por meio da linguagem e dos sujeitos discursivos constituídos socialmente. O gênero, assim, expressa de modo indireto a realidade sócio-histórica. Segundo sua avaliação:

...os objetos-sígno e os enunciados produzidos no âmbito das várias esferas constituem instâncias nas quais a construção de significados é atravessada por enfrentamentos e negociações entre diversas vozes, grupos e tendências antagônicas (dominantes e dominados, elite e povo, cultura popular, conservação e mudança, unidade e heterogenenidade, monologismo e dialogismo, forças centrípetas e forças centrífugas) que se confrontam no fluxo interativo e dialógico da sociedade. (p. 167)

Assim, ao apresentar o repertório teórico a partir do qual vai desenvolver sua pesquisa, procura sintonizá-lo com sua investigação.

Dessa forma, o pesquisador acrescenta à teoria da linguagem do Círculo um aspecto sugerido e não aprofundado a respeito da linguagem verbo-visual de acordo com o desdobramento que essa teoria tem propiciado conforme confirmam as pesquisas de Brait (2010; 2012;1013;2014) e como Grillo desenvolve no campo da divulgação científica: imagens, infográficos, tabelas são parte desse campo discursivo.

Antes de enfrentar o objeto de pesquisa, ou seja, os textos de divulgação científica para demonstrar os interesses, os posicionamentos, as transformações operadas nesses gêneros em função do contexto social, O pesquisador traça o panorama social do século passado e as mudanças ocorridas na sociedade, responsáveis pelo novo formato do gênero como reflexo e refração resultante das transformações que ocorrem na sociedade .

De forma coerente com a teoria dialógica que fundamenta sua pesquisa, Rosalvo analisa a mudança de paradigma entre o século passado e o momento atual, recorrendo à história social e aos teóricos responsáveis pela interpretação dos conceitos de modernidade, pós-modernidade, industrialização, tecnologia, informatização. Autores como Jameson, Lyotard, Bauman, Lévy são revisitados para explicar as transformações por que passa o mundo globalizado, suas implicações sociais e os novos perfis. Ao apresentar esse panorama interpretativo das mudanças sociais e suas consequências, procura explicitar o encaminhamento de sua pesquisa para verificar como esse processo afeta os enunciados concretos de divulgação científica. A linguagem verbo-visual, resultante desse contexto pós-moderno, globalizado deixa entrever as contradições, os embates, que se expressam nesses enunciados considerados informativos.

Para concluir, apresenta a análise dos enunciados concretos da esfera de divulgação científica, enfatizando na composição verbo-visual como a expressão sígnica expressa valores, posicionamentos e “verdades” científicas em função do desenvolvimento social, da evolução tecnológica e midiática, como resposta ao contexto e à ideologia do enunciador.

Os editoriais da revista Ciência hoje do período de 1990 a 2000 selecionados são analisados de acordo com a teoria discursiva apresentada de modo a demonstrar as transformações ocorridas na materialidade desses enunciados em função do momento histórico-social desvelando respostas diferenciadas de seus editores.

A pesquisa de Luiz Rosalvo Costa torna-se, por isso, referência como um trabalho bem articulado em que os diversos assuntos discutidos na parte teórica tornam-se pertinentes para a análise discursiva. Além da apresentação teórica consistente, o contexto histórico social de cada período em que os editoriais foram elaborados, demonstram as possíveis relações entre a editoria e os valores ideológicos que refletem e refratam nos enunciados editoriais os problemas sociais, econômicos e políticos que ocorrem no país. Integra, portanto, de modo produtivo, os conceitos teóricos discutidos pelos integrantes do Círculo de Bakhtin. Nenhum dos tópicos constitutivos da sua pesquisa é aleatório, ou seja, as questões teóricas foram totalmente aplicadas às análises. Confirma a teoria discursiva, na demonstração de como a ideologia é parte constitutiva de enunciados concretos. Torna-se, portanto, exemplar como pesquisa aplicada à análise de enunciados concretos fundamentada pela teoria dialógica da linguagem.