Interconexões na integração lusófona

expressões idiomáticas e interculturalidade

Palavras-chave: lusofonia;, interculturalidade, interconexão, idiomatismos, identidade

Resumo

A pesquisa aborda as possibilidades de interconexão no espaço lusófono a partir da ideia de construção identitária por meio do uso de expressões idiomáticas, destacando-se a integração no mundo da lusofonia. Objetiva discutir a interconexão numa interface de integração relativa à constituição de uma identidade lusófona cujo espaço se organiza com a utilização de idiomatismos comuns em diversos ambientes de produção, ressaltando tal espaço como propício à discussão de interculturalidade. Baseia-se na Lusofonia e no conceito de expressões idiomáticas, além da perspectiva da interculturalidade. Como procedimentos metodológicos, recolhe textos de jornalísticos para a análise em sítios de países com língua portuguesa oficial. Conclui que a noção de que os efeitos de sentido são produzidos de modo consubstanciado a partir do que as expressões idiomáticas podem assumir quanto à significação que as metáforas inscritas em si promovem para a construção de uma interculturalidade.

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Publicado
2019-08-22
Como Citar
Valadares, F. (2019). Interconexões na integração lusófona. Linha D’Água, 32(2), 107-125. https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v32i2p107-125
Seção
Artigos originais

Introdução

Lusofonia como um espaço cultural de interconexão precisa ter um olhar de que sua pluralidade é elemento primordial para que a diferença revele-se e possa-se, a partir disso, representar-se como uma congregação de comunidades com um passado em comum e com muitas características sociolinguístico-culturais aproximadas, ou seja, um espaço simbólico (MARTINS, 2006; NAMBURETE, 2006; BASTOS, 2012)

Nesse sentido, o espaço lusófono se caracteriza não apenas pelo uso oficial de uma língua comum, mas também, por realizações linguísticas que extrapolam tão somente estruturas, indo além disso, com um uso de sentido em cada cultura que se estende à compreensão nas várias culturas lusófonas, assinalando, neste espaço, o aspecto intercultural (VALADARES, 2016a, p. 167-168)

Sob esses pontos, com base em Carreira (2008), destacamos que a Língua Portuguesa, ao longo dos séculos, tem-se constituído em contextos multiculturais, de maneira a preservar e a construir memórias, saberes, além de avivar (inter)cultura(s) de contorno diversificado nos cinco continentes onde é falada por milhões de pessoas. Nessa perspectiva, é importante ressaltarmos “a comunidade lusófona como um híbrido cultural que permite trocas e que pode se configurar como um espaço intercultural na construção de sentidos semelhantes por meio do uso de expressões idiomáticas” (VALADARES, 2017b, p. 107).

Nossa pesquisa, então, mostra as possibilidades de interconexão nesse espaço definido como o da Lusofonia, em uma linha de raciocínio que demanda o entendimento da existência de uma construção identitária fecunda quando se pensa em usos como os das expressões idiomáticas nos diferentes países que adotam a Língua Portuguesa como oficial, e mais, que essa construção sinaliza uma integração que desemboca na noção de interculturalidade.

O artigo discute a interconexão numa interface de integração relativa à construção de uma identidade lusófona cujo espaço se organiza com a utilização de idiomatismos comuns em diversos ambientes de produção, ressaltando tal espaço como propício à discussão de interculturalidade, e utiliza como procedimentos metodológicos a recolha de textos do gênero jornalísticos em sítios de países com língua portuguesa oficial em que a análise do corpus está baseada.

Cabe, também, trazer Fiorin (2006, p. 46) que defende a ideia de que “[...] para que a lusofonia seja um espaço simbólico significativo para seus habitantes, é preciso que seja um espaço em que todas as variantes linguísticas sejam, respeitosamente, tratadas em pé de igualdade”. Ele acrescenta, “o que se espera na constituição do espaço enunciativo lusófono é a comunidade dos iguais, que têm a mesma origem”.

Interculturalidade e expressões idiomáticas: uma interconexão lusófona possível

Nesse ponto, é válido o entendimento de que cultura “não é somente o que se aprende nos bancos das escolas, mas também a memória de um povo e sua consciência dos valores que o rodeiam” (COSTA, 2012, p. 213). Em outros termos, toda troca subjacente aos diversos contextos margeados nas diversas culturas existentes nos países de língua oficial portuguesa corrobora a noção de que as diversas memórias historicamente construídas desembocam na constituição da cultura de um país lusófono específico, mas que dialoga, por meio da língua comum, com os outros países lusófonos.

Posto isso, o aspecto intercultural empreendido em nossa abordagem abarca a noção de múltiplos sujeitos com diferentes pontos de vista de ordem política, social, econômica, que se utilizam de instrumentos sociolinguísticos possíveis de permear essas diferentes nações lusófonas ao mesmo tempo em que solidificam a própria cultura naquilo que denominamos interconexão lusófona. Nas palavras de Fleuri (2003, p. 31), “enfatizar o caráter relacional e contextual (inter) dos processos sociais permite reconhecer a complexidade, a polissemia, a fluidez e a relacionalidade dos fenômenos humanos e culturais”.

Sob o ponto de vista dos instrumentos sociolinguísticos, ao selecionarmos as expressões idiomáticas, entendemos que a opção por seu uso em um texto do gênero jornalísticos nos vale a certeza de que uma interconexão se apresenta com reais possibilidades, visto que elas representam o que há de mais genuíno em uma cultura, ao assumirem sentidos a partir do que a metáfora inscrita em si provoca para a construção de seu(s) sentido(s) no que se refere ao uso em um determinado contexto.

Tal representação se ampara também na história comum desses povos lusófonos, já que as expressões idiomáticas, como explica o Dicionário Houaiss (2001, p. 1289), é uma “locução ou frase cristalizada numa determinada língua, cujo significado não é dedutível dos significados das palavras que a compõem e que ger. não pode ser entendida ao pé da letra (por ex., bater perna, falar para as paredes, bilhete azul etc.)”.

O fato de uma expressão idiomática não poder ser entendida literalmente leva à reflexão de que seu uso, com uma inscrição na cultura muito latente, espelha de forma muito contundente que as escolhas realizadas por uma comunidade para utilizá-las naquilo que é representativo em suas identidades também conduz à averbação de que a língua se constitui interculturalmente nesse espaço lusófono, posto que as estruturas se mantêm idênticas em vários dos usos.

Disso decorre que, ao serem armazenadas na memória individual e na memória coletiva, como salienta Biderman (2011, p. 756), “passam a fazer parte do léxico da língua”. Isso, de acordo com Xatara (1998, p. 170), transforma uma expressão idiomática em “uma lexia complexa indecomponível, conotativa e cristalizada em um idioma pela tradição cultural”. Ou, mais, conceitualmente, como assevera Ortiz Alvarez (2002),

a combinação (sintagma) metafórica de traços característicos próprios que se cristalizou pelo uso e frequência de emprego (passando do individual para o social) numa determinada língua, apoiada na sua tradição cultural. Do ponto de vista estrutural, ela representa uma lexia indecomponível e está constituída de mais de uma palavra. Do ponto de vista semântico, o significado dos seus elementos constituintes não corresponde ao sentido geral do todo, o sentido global do conjunto não é igual à somatória de suas partes; portanto, a interpretação semântica não pode ser calculada a partir da soma dos seus elementos. (ORTÍZ ALVAREZ, 2002, p. 199)

Válido também apresentar a concepção de Urbano (2008, p. 38) que caracteriza as expressões idiomáticas como “um índice significativo da linguagem popular, embora não lhe seja de propriedade exclusiva, de vez que aparecem com certa frequência no texto escrito, de modo esporádico ou mais planejado e estrutural, com maior ou menor fidelidade às formas originais ou retextualizadas”.

Considerando as noções de expressão idiomática, de interculturalidade e de lusofonia, a abordagem de interconexão se ampara no fato de se pensar que a adoção de uma unidade fraseológica tipifica que tal uso entranha-se numa determinada cultura e que, ao realizar esse uso em um contexto lusófono, a possibilidade de que haja um entrelaçamento de cultura surge com bastante propriedade (Cf. VALADARES, 2016a, 2016b, 2017a, 2017b).

Martins (2012, p. 33) advoga: “a visão do mundo de uma comunidade está presente nas E.I's [expressões idiomáticas] da sua língua. Estas são transmitidas de geração em geração e estão presentes nas mentes dos falantes que as atualizam no seu discurso quase de forma inconsciente”. Partimos, então, da ideia de que uma expressão idiomática, de fato, é simbólica em uma cultura, sendo ainda mais uma construção (inter)cultural quando se trata do espaço lusófono, promovendo a interconexão nesse espaço.

Na expressão idiomática - Nervos de aço 1, cujo sentido básico é uma pessoa com absoluto controle sobre suas emoções, que enfrenta qualquer perigo ou situação adversa, observamos que os exemplos selecionados mantêm a mesma estrutura e o mesmo sentido na comunidade lusófona. Esses dados, ainda que limitados, ratificam o fato de os idiomatismos terem sua ação interpenetrada nos contextos sociolinguísticos de modo que representam efetivamente o saber partilhado da comunidade. Nos exemplos a seguir, há dois usos na área do esporte, dois na área da política e um relativo às notícias gerais.

No exemplo 1, no último parágrafo do texto selecionado, a expressão nervos de aço é utilizada em seu sentido de alguém que, sem esboçar nervosismo, faz algo que gera um resultado positivo, no caso a garantia de um gol por ter se mantido calmo, tranquilo. Nesse aspecto, é importante o destaque para a opção do jornal ao selecionar esse idiomatismo para adjetivar um fato fundamental para o time português que havia perdido a primeira partida para os dinamarqueses, ou seja, a consolidação de que a unidade fraseológica agrupa o necessário para enfatizar a circulação dessa construção de sentido na sociedade portuguesa fica averbado no momento de sua escolha.

Nervos de aço, Moçambique

Exemplo 1: Nervos de aço, Moçambique

(Fonte: https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/chapeu-de-djalo-da-europa-ao-sporting Acesso em 30 abr. 2019)

Há, então, a ideia da interconexão no espaço lusófono justamente por ser uma notícia de um time português, veiculada no sítio de Moçambique, sobre um jogador de Guiné-Bissau que se destacou numa partida de futebol e que sempre foi jogador em Portugal. Nesse ponto, a integração se revela sólida, já que o idiomatismo exemplificado certamente resulta de uma interação social patente em cada uma das comunidades, que adota a expressão em seu acervo sociolinguístico e cultural, possivelmente pela peculiaridade pragmática ao expressar uma ideia mais complexa por meio de uma estrutura mais simples, além da facilidade para memorização.

No exemplo 2, também da área de esporte, a publicação de O Globo é feita a partir da agência Reuters (francesa) sobre a seleção espanhola em jogo contra a Itália pela Copa das Confederações, realizada no Brasil. Considerado esse contexto mínimo, destacamos o uso do idiomatismo Nervos de aço na manchete do jornal, o que eleva nossa perspectiva de que sua construção de sentido é algo que se apresenta de modo bastante robusta na cultura lusófona.

Nervos de aço, Brasil

Exemplo 2: Nervos de aço, Brasil

(Fonte: https://oglobo.globo.com/esportes/heroi-da-classificacao-navas-mostra-nervos-de-aco-8842888 Acesso em 1º mai. 2019)

Isso também se reitera se observarmos o uso, na terceira linha do texto, de “notável calma” como um referenciador retomado como sinônimo de nervos de aço, posto como manchete, localização que leva o leitor a ter sua atenção voltada para tal chamada, ao passo que notável calma não se caracteriza como um idiomatismo, isto é, se utilizado na manchete, não causaria o mesmo impacto, e mais, denota que a unidade fraseológica pode remeter a outros referentes, caracterizando, ainda mais, sua inserção na comunidade sociolinguística e, por conseguinte, produzindo seus efeitos de sentido.

No exemplo 3, o uso ocorre em matéria veiculada sobre política, com uso na manchete. O maior destaque à expressão e a sua oposição ao uso de Operação Liberdade enseja um jogo de “locuções” só possível quando há no idiomatismo a certeza de sua construção na identidade dos leitores, caso contrário não surtiria o efeito desejado.

Nervos de aço, Portugal

Exemplo 3: Nervos de aço, Portugal

(Fonte: https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/venezuela-guaido-anuncia-que-militares-estao-finalmente-do-seu-lado Acesso em 30 abr.2019)

Nesse aspecto, corroborando o fato de estar reportando um assunto de ordem internacional, a opção pela unidade fraseológica Nervos de aço reproduz o momento histórico vivenciado pela população venezuelana e pelo restante do mundo quanto ao destino daquele país, ou seja, propaga de modo contundente a ideia de que é necessário controle absoluto sobre a situação e, para tanto, deve-se ter nervos de aço.

Um outro fator, à parte, mas importante, é a veiculação dessa notícia em outros sítios da SAPO, nos demais países de língua portuguesa, o que reitera sobremaneira a perspectiva de que a circulação do idiomatismo é constitutiva de uma construção efetiva de sentido no espaço lusófono, isto é, em sua peculiaridade semântica, encontramos eco para um significado compositivo de ordem abstrata subjacente ao uso escolhido para a manchete.

Para o exemplo 4, retirado de um sítio de Angola, a temática também é a da área política, mas na parte interna, assunto da própria Angola. Isso nos encaminha novamente para a constatação de que o uso da unidade fraseológica Nervos de aço está presente na cultura angolana, visto que o sítio reproduz uma fala espontânea do presidente do país; em outros termos, a autoridade máxima se vale de uma expressão idiomática (2º parágrafo do texto selecionado) para enfatizar sua luta contra a corrupção, ressaltando ter ele “nervos de aço suficientemente fortes no sentido de levar este combate até ao fim”.

Nervos de aço, Angola

Exemplo 4: Nervos de aço, Angola

(Fonte: https://noticias.sapo.ao/actualidade/artigos/joao-lourenco-diz-que-luta-contra-a-corrupcao-em-angola-e-liderada-pelo-mpla Acesso em 1º mai.2019)

Isso é indicativo de que a idiomaticidade, condição fundamental para que a expressão circule nas comunidades com efetividade, ao estabelecer diferentes tipos de relações entre o significado dos componentes e sua significação totalizada, define a peculiaridade semântica necessária à consecução dos objetivos sociocomunicativos dentro daquela cultura. Dessa maneira, se nela há essa construção e se em outras do espaço lusófono também existe, logo a interconexão por meio do idiomatismo se funda.

No exemplo 5, uma notícia geral, sobre um acidente aéreo, na Filadélfia, de uma empresa aérea norte-americana. O texto traz no penúltimo parágrafo a expressão idiomática nervos de aço em uso com o mesmo sentido que os dos exemplos anteriores, nos países lusófonos Moçambique, Portugal, Brasil e Angola. Nesse aspecto, podemos tratar em termos de institucionalização do idiomatismo, à medida que ele pertença ao acervo linguístico da comunidade.

Nervos de aço, Cabo Verde

Exemplo 5: Nervos de aço, Cabo Verde

(Fonte: https://noticias.sapo.cv/sociedade/artigos/mulher-morre-em-acidente-com-aviao-obrigado-a-aterrar-de-emergencia-em-filadelfia Acesso em 1º mai.2019)

Dessa forma, também se manteve com a mesma ideia nos espaços lusófonos, como mostrado nos exemplos de cada um dos 5 países da comunidade lusófona selecionados, o que conduz à compreensão de que um idiomatismo como Nervos de aço representa a cultura de uma nação por conter nela a representatividade relativa a uma identidade de grupo que percebe na expressão uma forma de deliberar ações sociocomunicativas que levem a efeito uma ideia, uma noção, que encerra um sentido naquela comunidade de maneira a contemplar toda a cadeia de interação inscrita naquela cultura.

Em vista disso, na perspectiva de compreender o espaço lusófono e de como há uma interculturalidade que promove uma interconexão, constatamos nos exemplos selecionados que o uso da expressão idiomática Nervos de aço manteve-se em contextos muito específicos da cultura local e simultaneamente esse fato é que promove a interconexão, uma vez que sentidos construídos em contextos culturais distintos desembocaram numa mesma construção identitária, e isso pode ratificar nossa tese aqui defendida.

Assim, a fim de mostrar a fertilidade das expressões idiomáticas no espaço lusófono, retomamos também nossos estudos em outros quatro trabalhos publicados recentemente, cuja base de dados foi a recolha de textos jornalísticos. Neles, analisamos as expressões idiomáticas Mover mundos e fundos, Um mar de rosas, Comprar gato por lebre, Levar o barco a bom porto, Amor à camisa, Vai de mal a pior e Dar o braço a torcer (VALADARES, 2016a, 2016b, 2017a, 2017b).

Na configuração de análise do corpus selecionado, consideramos, em relação aos países lusófonos, as expressões idiomáticas quanto às semelhanças, com base no conhecimento linguístico-gramatical, do ponto de vista sociocultural; além disso, o processo de construção de efeitos de sentido, a compreensão de semelhanças no uso das expressões idiomáticas e a identificação de aspectos relativos aos conhecimentos construídos sob a perspectiva linguístico-gramatical, sob um viés intercultural.

Na expressão idiomática Mover mundos e fundos,

identificamos que existem ampliações que ultrapassam um uso restrito ao senso comum ou ao popular, isto é, há indicações, nos textos selecionados, ligadas à política e à economia para a expressão mover mundos e fundos. No caso do Brasil, ela é utilizada no texto com um sentido político no qual se questiona o fato de o Brasil não se esforçar suficientemente quanto a ter uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Nesse aspecto, demonstra a fragilidade política que o Brasil ainda apresenta e ratifica a noção de um certo desinteresse, o que fica patente no uso da expressão.

Igualmente, a expressão utilizada nos textos selecionados de Cabo Verde e de Moçambique demonstra a fragilidade política destes países, ao ser colocada uma situação de trama de golpe político e uma situação de criação de um partido político, respectivamente. No caso de Portugal, o uso em sentido político-econômico traz para tal âmbito a expressão em perspectiva de fazer oferecimentos para consecução da proposta de investimento. (VALADARES, 2016a, p. 159)

A conclusão a que chegamos é a de que “a expressão fora utilizada com objetivos comunicativos iguais nos 4 países, quais sejam os de ratificar a ideia de que se fez algum oferecimento para depois não cumpri-lo. Trata-se, assim, de uma sinonímia intercultural, já que remete a uma mesma imagem cultural” (VALADARES, 2016a, p. 159).

Para a expressão Um mar de rosas, observamos em nossa análise que o uso semelhante ratifica a ideia de que as culturas se ligam por elementos que ultrapassam o linguístico, uma vez que a adoção que figurou em nosso corpus foi para marcar algo negativo, isto é, chamar a atenção para acontecimentos ruins, ligados à política dos 4 países (Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal), o que denota uma aproximação bastante peculiar, considerando que a expressão tem, em sua origem, o sentido de se fazer muitas ofertas e não as cumprir ou apenas parcialmente cumpri-las.

Dessa análise também é importante citar que

a opção nas 4 culturas por um uso que ressalta o aspecto negativo em seu contexto indicia uma adaptação às necessidades culturais dos 4 povos e, por coincidir do ponto de vista pragmático, ratifica a ideia das trocas culturais e da mútua influência nas seleções e construções dos sentidos na intercultura.[...] acreditamos que a competência discursiva - “uma apropriação de diferentes organizações discursivas em função dos parâmetros da situação”, a competência referencial - “conhecimento do mundo, seus objetos e relações”, a competência pragmática - “conhecimento das formas linguísticas coenunciativas mais eficazes do ponto de vista do alcance das intenções comunicativas” e a competência sociocultural - “conhecimento das regras sociais e das normas de interação entre os indivíduos e ainda das crenças, valores artísticos e morais, leis, hábitos, etc…, que constituem o patrimônio civilizacional e cultural de um povo” conduzem à confirmação de nossa tese, já que constatamos no contexto de uso de cada um dos exemplos da expressão idiomática a conjunção de tais competências, permitindo-nos reafirmar o aspecto intercultural presente na lusofonia. (VALADARES, 2016a, p. 162-163)

Na outra expressão idiomática que analisamos Comprar gato por lebre em um contexto de economia/direito do consumidor (Brasil, Cabo Verde e Portugal) e de imprensa/direito do consumidor (Moçambique), fica evidenciada a manutenção de mesma estrutura linguística e de seu significado. Nos exemplos, o uso se manteve com o sentido de alguém que foi enganado, de se efetuar uma compra de algo com uma qualidade e receber com menos qualidade. Concluímos, na análise dessa expressão, que

as culturas, especificamente neste exemplo, estão marcadas por elementos que ultrapassam a estrutura gramatical, ou seja, vai muito além de um elo entre países, manifesto majoritariamente pelo idioma e por alguns outros traços culturais, como a culinária; entrecruzam-se via expressão idiomática e ratificam nossa ideia de que o espaço lusófono não se restringe ao idioma oficial, tendo nesse tipo de exemplo claramente trocas culturais e linguísticas, aproximando os países de língua oficial portuguesa. (VALADARES, 2016a, p. 167)

Destacamos, também, uma análise pertinente sobre a expressão idiomática Levar o barco a bom porto, que apresentou diferença na base porto > termo mesmo que mantivesse igual construção de sentido. Em Angola e em Portugal, o uso de porto; em Guiné-Bissau e no Brasil, o uso de termo. Essa diferença na base demonstra, mais uma vez, que as expressões idiomáticas mantêm o sentido que pretendem emanar e que cada cultura, dentro de um espaço intercultural, pode optar por uma maneira de torná-la mais própria àquela comunidade, sem com isso desconfigurar a interconexão existente. (VALADARES, 2016b)

Em outro trabalho, a expressão idiomática Amor à camisa demonstrou uma variação considerável na configuração de cada cultura. Em Timor-Leste, a expressão usada é Amor à camisola, assim como em Portugal, o que remete ao léxico específico em cada um dos países. Contudo, o conteúdo semântico se mantém inalterado. A conclusão a que chegamos foi a de que

isso é importante à medida que mostra a adoção, no Timor-Leste, já da variação que Brasil e Portugal adotaram, ou seja, constatamos uma influência triangulada, abonada por um uso atrelado a um universo lexical que passa ao uso em outro universo lexical.

Nesse ponto, Timor-Leste não tem tradição no esporte, principalmente, no futebol, mas o fato de utilizar a expressão em sua derivação de sentido remete ao que defendemos como aspecto intercultural no espaço lusófono, visto que amplia o uso e, ao mesmo tempo, legitima uma influência luso-brasileira em sua construção identitária, sob o viés sociolinguístico.

Como expressão idiomática, verificamos que há um aspecto fortemente conotativo, visto que o sentido literal está bloqueado pela realidade extralinguística, ressaltando seu caráter de difícil decodificação, o que ratifica nossa posição de construção pragmático-discursiva, ao ser usada em um ambiente corporativo no Timor-Leste, em forma de empréstimo do universo do futebol, como se usa mais frequentemente no Brasil e em Portugal. (VALADARES, 2017a, p. 70-71)

Outra expressão idiomática, Vai de mal a pior, traz conclusões bastante importantes:

Tanto em São Tomé e Príncipe quanto no Brasil o sentido é igual, considerada a estrutura adotada para representar a ideia de péssimo. Outro aspecto refere-se ao ambiente em que se utiliza, normalmente, o da economia. Nesse ponto, cabe a nós ratificar a noção de que a construção do sentido pela expressão manteve-se igual nos dois países, o que remete tanto a adoção do uso quanto à manutenção do sentido, e mais, reflete isso ao também ser usada na área da economia.

[...]

Fator importante a se observar é a variação existente com o uso do verbo, indicando uma ação a se concretizar, o que nos encaminha ao entendimento do aspecto pragmático que tal expressão exerce na cultura em que é utilizada. Isso se configura, mais uma vez, como uma aproximação intercultural, visto que a expressão funciona nas diferentes culturas de modo equivalente. (VALADARES, 2017a, p. 72-73)

O resultado a que chegamos, com a investigação das expressões Amor à camisola/Amor à camisa e De mal a pior/Mal a pior, reitera que a circulação dessas expressões abrange a cultura em sua totalidade de fato, que sua adoção promove contatos interculturais e propicia a troca desses dados, ou seja, estabelecem uma interconexão a partir de suas visões de mundo (VALADARES, 2017a).

No quarto trabalho realizado com expressões idiomáticas no espaço lusófono, selecionamos a expressão idiomática Dar o braço a torcer, em texto veiculado em sítios do Brasil, de Cabo Verde, de Moçambique e de Portugal. Em todos os casos selecionados, há o uso de mesma matriz, com construção conceitual idêntica e com utilização em contextos similares, o que nos levou a concluir que a perspectiva de integração lusófona se apresenta de modo latente, já que identificamos a apropriação de diferentes organizações discursivas, o conhecimento de mundo, as intenções comunicativas e o conhecimento de regras e normas de interação que constituem o patrimônio cultural de um povo (VALADARES, 2017b).

Conclusão

Compreendido nesses termos, o idiomatismo que circula com mesma estrutura e que carrega em si a metáfora que inscreve seu sentido vale de referência para o estabelecimento de trocas socioculturais muito valiosas se pensarmos na construção de um espaço muitas vezes negligenciado ou mesmo sem a devida atenção por governantes que não exatamente traçam políticas de integração capazes efetivamente de dimensionar a importância daquilo que nos liga historicamente, inclusive.

Para além, do ponto de vista do corpus selecionado, é possível entendermos como a riqueza de expressões idiomáticas perpassa as diversas culturas e simultaneamente elas abarcam uma imensidão de usos que nos unem naquilo que é primordial para nos conectarmos, como é o caso da língua.

No mais, é sempre válido que trabalhos sejam realizados em perspectivas de ordem mais intercultural, extrapolando o apenas linguístico, para que possamos compreender mais de perto como a lusofonia se constrói em filigranas e em gigantes maneiras de expressão da nossa rica língua.

Optamos por reproduzir parte do texto original, garantindo o contexto mínimo para a consecução do objetivo da pesquisa.

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