Contribuições de pesquisas acadêmicas para o campo do ensino de português como língua não materna

  • Maria do Carmos Ribeiro Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Palavras-chave: ensino, português língua estrangeira

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Publicado
2019-09-03
Como Citar
Ribeiro, M. (2019). Contribuições de pesquisas acadêmicas para o campo do ensino de português como língua não materna. Linha D’Água, 32(2), 189-194. https://doi.org/10.11606/issn.2236-4242.v32i2p189-194
Seção
Resenhas

Publicação organizada pela Profa. Dra. Sílvia Inês Coneglian Carrilho de Vasconcelos, da Universidade Federal de Santa Catarina, Práticas pedagógicas e material didático no ensino de Português como Língua não Materna (São Carlos: Pedro & João Editores, 2019, 194p.), é uma coletânea de capítulos situados na área de ensino de Português como Língua Estrangeira, escritos por professores e pesquisadores que atuam no ambiente acadêmico e que desenvolvem pesquisas relativas a questões teóricas e metodológicas nessa área, com embasamento teórico em M. Bakhtin, Joaquim Dolz, Bernard Schneuwly, Roxane Rojo, Queiroz e Silveira, entre outros. Fruto de experiências propiciadas por novos contextos de ensino/ aprendizagem, como os avanços da tecnologia, o uso cada vez mais intenso das mídias digitais e das redes sociais, que alteram a veiculação das informações e das relações humanas e, também, como a presença de alunos em situação de refúgio. Esses novos contextos requerem pesquisas teóricas, novos procedimentos e práticas de ordem metodológica para a atividade docente, dando origem a propostas de ações e reflexões sobre os resultados obtidos. Essa coletânea teve apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Os textos que compõem este livro retratam mais de uma modalidade de ensino de língua portuguesa, a saber, português como língua de acolhimento e português como língua não materna ou segunda língua, bem diversas entre si. Entretanto, compartilham de pontos em comum, como a preferência pelo ensino da língua em uso e aspectos pragmáticos dos enunciados nas práticas pedagógicas, ações que ocorrem dentro da perspectiva da interculturalidade.

Ensinar uma língua é dar ao aluno condições para interagir em seu meio, fornecer subsídios para administrar as urgências do cotidiano, utilizando a linguagem do seu contexto social. É também colocar o aluno em contato com a cultura da língua-alvo, com suas formas de interação e de representação, sob qualquer modalidade simbólica, seus significados implícitos, seus valores e estética. O ensino de línguas intercultural preconiza que, o indivíduo, ao entrar em contato com a cultura do outro, toma consciência da sua própria cultura, resultando não só adaptação ao novo entorno, mas sobretudo crescimento pessoal.

Assim, ensinar uma língua é muito mais que habilitar o aluno a utilizar enunciados linguísticos. É propiciar que tenha competências para lidar com um ambiente sócio cultural que lhe é estranho, por vezes enfrentando antagonismos e conflitos. É criar condições para que desenvolva interações saudáveis, produtivas e prazerosas. É apresentar o conjunto de instâncias que compõem a cultura da língua-alvo, sem estereótipos e preconceitos, nas práticas sociais, artísticas, entre outras.

Organizado em duas partes, o livro traz primeiramente relatos e reflexões sobre experiências motivadas por situações desafiadoras e, na segunda, discussão sobre manual didático e o material autêntico para ensino de PLE.

Sob o título Práticas Pedagógicas, concentram-se textos de professores-pesquisadores sobre atuação em sala de aula, para o que consideraram critérios como a língua materna, a faixa etária, contexto sócio cultural, núcleo de interesses dos alunos. Questões de ordem pragmática estão presentes em seu conteúdo programático: o trabalho com enunciados que mediam as interações sociais, de modo a promover a melhor adaptação ao estrangeiro em ambiente brasileiro, não deixando de lado o aspecto intercultural1.

Dentre as experiências relatadas, cinco delas ocorreram com grupos em situação de refúgio, caracterizando o que se define como ensino de português como língua de acolhimento. Nesta situação, a ação do professor é não somente ensinar a língua, mas avaliar a situação psicossocial do aluno, a urgência em aprender a língua para rápida inserção no mercado de trabalho, a receptividade da sociedade que o acolhe (AMADO, 2013). Os projetos desenvolvidos em ambiente acadêmico pelas mestrandas do PROFLETRAS, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com haitianos2 e aquele da professora Dra. Maria José Nelo3, da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), contemplam questões que vão além de um ensino de língua em sentido restrito.

As propostas desenvolvidas pela Universidade Federal de Santa Catarina tiveram como público-alvo refugiados haitianos radicados nesse estado, para os quais foi elaborado material relacionado com práticas sociais. Os alunos levantaram temas que extrapolavam a pura dúvida linguística, como o racismo e a intolerância, e tiveram a oportunidade de vivenciar interação e trocas interculturais, indispensáveis para a melhor adaptação do indivíduo em novo contexto sócio cultural.

Também voltado para alunos em situação de refúgio, mas com configuração multicultural, o curso ministrado na Universidade Estadual do Maranhão apresentou um desafio a mais: a heterogeneidade do grupo. Lançando mão das metodologias alternativas, segundo as quais professor e alunos são produtores das atividades em situação de aula, as práticas didáticas foram também situadas dentro de uma perspectiva interculturalista, segundo a qual, ao entrar em contato com a cultura do outro, o indivíduo toma consciência de sua própria cultura.

Para um público generalizado, dois outros textos trazem questões relacionadas a conteúdos a serem tratados em sala de aula: 1) os estereótipos de mulher brasileira4, a partir de atividades realizadas em aulas de PLA; e 2) o ensino da gramática para PLE5.

No primeiro, é feito um questionamento sobre o material veiculado pela mídia, apresentando a mulher brasileira de forma sexualizada, propondo-se a desconstrução dessa imagem, por meio da pesquisa de material condizente. No segundo, o autor faz uma retrospectiva da presença da gramática nos cursos de línguas, defendendo o seu ensino, não de forma exaustiva, mas inserindo-o numa perspectiva pragmática, na língua em uso.

Na segunda parte do livro, “Problematizando o material didático” os três capítulos versam sobre material disponível para Português Língua Estrangeira (PLE).

É de conhecimento corrente a dificuldade do professor ao ter de escolher um manual didático a ser utilizado em seu curso. Questões como adequação do conteúdo, metodologias utilizadas, atualização, temas abordados são empecilhos geralmente enfrentados na hora da seleção do material. Muitos livros didáticos privilegiam o ensino de gramática, minimizando ou trazendo uma imagem tendenciosa e equivocada da cultura brasileira. Essa questão é ilustrada com o texto de Miranda6, realizada com manuais didáticos utilizados em cursos de português na Argentina.

As propostas de Borges Sellan7 e Carrilho de Vasconcelos8, respectivamente sobre o uso de textos literários e de material com conteúdo humorístico, expandem o conceito de material didático autêntico. No primeiro momento, a presença da literatura e do texto humorístico são considerados também como recurso didático sob perspectiva interculturalista. A literatura, como forma de expressão de um povo é por si uma das manifestações culturais mais privilegiadas. O texto humorístico, por sua vez, é construído a partir referências comuns aos grupos sócio culturais. No entanto, tratar o texto literário como literatura, de modo a propiciar fruição estética, e o humorístico, por seu aspecto jocoso, risível, é promover momentos motivadores e prazerosos em sala de aula.

Os textos apresentados em Práticas pedagógicas e material didático no ensino de português como língua não materna trazem questões de ordem teórica e metodológica, não só discutindo os desafios enfrentados pelo professor de português, mas também abrindo perspectivas e propostas de trabalho. Discutem novas realidades e propõem reflexões e ações indispensáveis para a formação do professor de português para falantes de outras línguas.

Cap. 2: Experiência pedagógica com expressões idiomáticas em material didático do português brasileiro como língua adicional, de Maria Denize Carniel da Silva e Michelli Marchi Oss-Emer; Cap. 3: Culinária brasileira no material didático de português como língua adicional, de Jéssica Mendes da Silva Rodrigues e Fabiana de Fátima Cap. 4: Jogos lúdicos no ensino de português como língua adicional para mães haitianas: socialização e aprendizagem, Aline Suzana de Freitas Vaz e Maria Clara Dias da Cruz.
Cap. 1: Africanidades e saudades: um encontro entre Haiti e Brasil por meio da música brasileira,de Aline Cristina Pereira e Edna Kurisini Diatel;
Cap. 6: Reflexões sobre práticas de ensino de português para estrangeiro em São Luís do Maranhão, de Maria José Nélo.
Cap. 5. Desconstrução do estereótipo da mulher brasileira com alunos estrangeiros: uma proposta de intervenção nas aulas de português como língua adicional, de Maria Gabriela Abreu e Thaís Gonçalves Martins, discentes do PROFLETRAS.
O ensino de gramática na aula de português como língua estrangeira: opções para um ensino diversificado, de Luís Gonçalves (Universidade de Princeton, New Jersey, EUA).
As dimensões interlinguística e intercultural em livros didáticos de português para hispanofalantes, de Florencia Miranda, professora de português como língua estrangeira da Universidade Nacional de Rosário, Argentina.
Ensino de português como língua estrangeira e literatura: a didatização de materiais autênticos, de Aparecida Regina Borges Sellan, docente da PUC/SP e membro do Núcleo de Pesquisa e Ensino Português Língua Estrangeira (NUPLE) do Instituto de Pesquisas Linguísticas “Sedes Sapientiae” para Estudos do Português (I.P.),
O dispositivo humorístico no ensino de português como língua estrangeira, de Silvia Inês Coneglian Carrilho de Vasconcelos, docente do Mestrado Profissional em Letras/Profletras, da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

Referência

  1. (). . O ensino de português como língua de acolhimento para refugiados. Disponível em: http://www.siple.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=309:o-ensino-de-portugues-como-lingua-de-acolhimento-para-refugiados&catid=70:edicao-7&Itemid=113 (accessed )