Fake news, WhatsApp e a vacinação contra febre amarela no Brasil

Palavras-chave: Fake news, pós-verdade, vacina, saúde, mídia

Resumo

Este artigo tem como objetivo principal, a partir de uma perspectiva etnográfica, analisar como determinados usuários do Sistema Único de Saúde consomem e fazem circular informações sobre vacinação, e se confiam ou não nelas. Realizamos diversas entrevistas com pessoas à espera de se vacinar contra a febre amarela no final de 2017. Por meio das entrevistas numa situação tão particular, observamos algumas mudanças sensíveis no regime de verdade contemporâneo. Concluímos que as redes de comunicação on-line se hibridizam com outros processos de socialização existentes, especialmente com as crenças religiosas, o que nos fez entender que a confiança nas informações circulantes é mais da ordem da convicção do que da persuasão.

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Biografia do Autor

Igor Sacramento, Fiocruz/UFRJ

Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Professsor do  Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde da Fiocruz.

Raquel Paiva, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Professora titular da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisadora 1A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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Publicado
2020-05-07
Como Citar
Sacramento, I., & Paiva, R. (2020). Fake news, WhatsApp e a vacinação contra febre amarela no Brasil. MATRIZes, 14(1), 79-106. https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v14i1p79-106
Seção
Dossiê