Periódicos online na formação de professores de Educação Física

estudo com acadêmicos da UFSC

  • Bianca Natália Poffo Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Desportos
  • Giovani de Lorenzi Pires Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Desportos
Palavras-chave: Formação de Professores; Periódicos Online; Educação Física; Processo de Formação.

Resumo

Esta pesquisa se desenvolveu a partir do interesse em compreender a importância que o processo de formação para a pesquisa dos professores de Educação Física tem em relação à busca de artigos e conteúdos em periódicos online. Este é um estudo de natureza empírica, com abordagem descritiva e tratamento qualitativo dos dados, tendo como interlocutores sete discentes da 7ª fase do curso de licenciatura em Educação Física da UFSC. Os dados foram interpretados pela análise de conteúdo, que resultou na criação de categorias empíricas, uma delas discutida neste texto. Como reflexões finais, afirmamos a importância da prática de pesquisa para a formação acadêmico-científica dos professores: evidenciamos que a participação em programas e grupos de pesquisa ao longo do curso aperfeiçoa o desenvolvimento no que diz respeito ao processo de autoformação; consideramos que os documentos curriculares dão importância à pesquisa, mas há limites no currículo efetivamente desenvolvido.

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Publicado
2017-12-23
Como Citar
Poffo, B., & Pires, G. (2017). Periódicos online na formação de professores de Educação Física. Revista Brasileira De Educação Física E Esporte, 31(4), 845-856. https://doi.org/10.11606/1807-5509201700040845
Seção
Artigos

Introdução

Na literatura da área de formação de professores, diversos autores afirmam a importância do desenvolvimento da pesquisa na capacitação inicial e continuada, assim como no cotidiano dos professores, pois se trata da possibilidade de investigação pessoal que pode gerar transformações no pensamento e no fazer do professor, através do desenvolvimento de fatores que tendem a refletir e aperfeiçoar sua própria prática. Destaca-se assim o papel da pesquisa para uma formação que “cria condições para que os professores investiguem, indaguem, questionem e produzam explicações sobre o ensino como prática social”1 (p. 117).

Nesse contexto, emerge o conceito de professor-pesquisador2)- (6, com base na indissociabilidade entre ensino e pesquisa, afirma o caráter formador da atividade de pesquisa através da busca pela autonomia acadêmica e profissional.

Segundo a autora6, o conceito de professor-pesquisador remete àquele que é capaz de identificar problemas de ensino, construir propostas de solução com base na literatura e em sua experiência, realizar as ações propostas, seguidas das análises e correções dos resultados.

Essa formação para a pesquisa tende a acontecer na graduação por meio de habilidades como as de saber buscar, avaliar, selecionar e usar fontes confiáveis para a sua formação permanente. Enquanto espaço e etapa de formação do processo acadêmico-científico, considera a necessidade de saber investigar e modificar sua prática pedagógica constantemente. Isso pode ser possível através do interesse pela pesquisa, pelo acesso ao conhecimento que está disponível em fontes científicas confiáveis e pela continuidade destes hábitos, que também colaboram para a formação continuada dos futuros professores.

Entre essas fontes capazes de garantir uma permanente formação, estão os periódicos científicos, cada vez mais acessíveis e em maior quantidade, dada a sua disponibilização em formato digital em plataformas online, na sua maior parte, de acesso aberto. Por isso, é importante que acadêmicos aprendam, na sua formação inicial, a fazer uso dessa fonte tão importante.

O seguinte estudo7 apresentou dados sobre o acesso e uso dos docentes e discentes da área de biblioteconomia em relação aos periódicos eletrônicos, destacando que, na realidade das universidades federais da região nordeste, 87% dos acadêmicos afirmaram que utilizam produção bibliográfica nos periódicos de acesso livre como fonte de pesquisa.

E na graduação em Educação Física, estão sendo desenvolvidos habilidades e hábitos de recuperação da informação científica em periódicos online como fontes de pesquisa e formação?

A partir dessa problemática, esta pesquisaa direcionou seu interesse investigativo para o acesso e uso dos periódicos científicos do campo de conhecimento da Educação Física por acadêmicos dessa área. Ressalte-se que existem mais de vinte periódicos da área disponíveis no sistema SEERb, que participam da política de acesso aberto, disponibilizando de forma gratuita e de acesso livre e na íntegra seu conteúdo. O foco do estudo é o curso de graduação na formação de professores (licenciatura) de Educação Física da Universidade Federal de Santa Catarina, observado na sua relação com o a pesquisa e com periódicos online do campo. O objetivo da pesquisa é identificar se/como os periódicos científicos online da Educação Física são (re)conhecidos e utilizados por acadêmicos da área, no âmbito do curso de licenciatura em Educação Física da UFSC.

Para contextualizar o campo da pesquisa, é relevante informar que o currículo do curso de licenciatura em Educação Física da UFSC é organizado em regime semestral (fases), sendo constituído por eixos curriculares em torno dos quais são alocadas as disciplinas que tematizam o objeto de estudo Movimento Humano a partir das suas especificidades. No que interessa a esta pesquisa, o eixo curricular Dimensões Científico-Tecnológicas do Movimento Humano contempla quatro (04) disciplinas obrigatórias: 1) Metodologia do Trabalho Acadêmico (1ª fase, 36 h/a); 2) Metodologia da Pesquisa em Educação Física (6ª fase, 72 h/a), 3) Trabalho de Conclusão de Curso/TCC I (7ª fase, 72 h/a) e 4) Trabalho de Conclusão de Curso/TCC II (8ª fase, 72 h/a). Juntas, estas disciplinas correspondem a 7% da carga mínima para a integralização do curso.

Métodoc

A etapa empíricad da pesquisa iniciou com uma reunião com alunos matriculados na disciplina escolhida como campo, que foi a de Trabalho de Conclusão de Curso I (TCC I). Esta disciplina compõe a grade-sugestão da 7ª fase do curso de Licenciatura em Educação Física da UFSC. A escolha pelos alunos dessa disciplina deveu-se ao fato de que, nela, os acadêmicos precisarão exercer suas habilidades de busca e seleção de fontes para a produção do seu projeto de pesquisa para o TCC, o que interessa particularmente a esse estudo. Após breve explanação sobre o propósito da pesquisa, foi aplicado um questionário com onze (11) questões abertas e fechadas, elaborado para obter informações preliminares sobre o tema do estudo, a serem aprofundadas na etapa seguinte (entrevistas semiestruturadas).

As questões das entrevistas eram relacionadas aos seguintes temas: se os alunos conhecem periódicos online (quais), se costumam acessar para produzir seus trabalhos acadêmicos e para a produção do TCC, quais as formas de recuperação da informação (título, palavras-chave, autor) e quais são as maiores dificuldades, se tem cadastro em algum periódico online, se costumam navegar em edições recém-lançadas e quais disciplinas orientaram esse tipo de fonte de pesquisa. Se conhecem outras fontes online, como as bases de dados: SciELO, PubMed, Lilacs, Portal Capes, Medline e outros.

Dos vinte (20) alunos matriculados na disciplina, quatorze (14) estavam presentes à reunião e responderam ao questionário. Destes, nove (09) foram, posteriormente, selecionados para as entrevistas. A constituição do grupo amostral foi de natureza intencional, cujo principal critério esteve ligado ao intuito de constituir um grupo heterogêneo, de acordo com as respostas do questionário, compondo-o de forma equilibrada com: i) alunos que ao longo da graduação tivessem participado de grupos de formação especial (PIBIC, PIBID, PET e dos Núcleos, Laboratórios e Grupos de Pesquisa do CDS/UFSC), e ii) alunos que, ao contrário, não participaram de qualquer atividade extracurricular sistemática durante a graduação.

Com a impossibilidade de dois acadêmicos pré-selecionados em participar das entrevistas, o grupo terminou sendo constituído efetivamente por sete (07) sujeitos-interlocutores, com as seguintes características: quatro deles participaram apenas de projetos de extensão ao longo da formação, dois atuaram em grupos de pesquisa e/ou de formação especial, e um interlocutor relatou não ter se envolvido em nenhuma atividade de pesquisa ou de extensão no âmbito acadêmico durante o cursoe.

Duas entrevistas foram realizadas em pequenos grupos, como era planejado; outras duas, por questão de disponibilidade dos interlocutores, precisaram ser individuais. A intenção de se fazer as entrevistas em grupos visava ao aprofundamento das discussões, produzida pela possibilidade de diálogo entre os sujeitos-interlocutores. Tem-se claro que essa diferença no modo de realização das entrevistas (pequenos grupos e individuais) pode ter ocasionado alguma diversidade nas respostas, mas infelizmente não foi possível controlar tal situação.

Abaixo, apresentamos os dados referentes à realização das entrevistas:

TABELA 1:
Organização das entrevistas. f
Sujeitos-interlocutores Data Duração
Entrevista 1 - Ge e De 27/08 43 minutos
Entrevista 2 - Alex, Art e Tha 02/09 62 minutos
Entrevista 3 - Bru 08/09 35 minutos
Entrevista 4 - Wa 17/09 24 minutos

A interpretação dos dados produzidos nas entrevistas deu-se a partir de procedimentos recolhidos do modelo teórico-metodológico da Análise de Conteúdo8. Uma das categorias empíricas resultante dessa análise refere-se à relação dos sujeitos-interlocutores com a pesquisa e os periódicos online no cotidiano da sua formação, cuja descrição/interpretação constitui o foco desse texto.

Resultados e discussão

Os dados analisados a seguir dizem respeito a algumas características atribuídas pelos interlocutores ao tema da pesquisa, e mais especificamente no que concerne ao conhecimento e importância que eles conferem aos periódicos eletrônicos, ao mapeamento do acesso e uso durante a graduação, às disciplinas que proporcionaram aprendizagem e informação sobre os periódicos e as informações/influências adquiridas nos grupos de pesquisa, projetos de extensão e outros programas acadêmicos em relação aos periódicos online.

Para facilitar a organização das reflexões, os dados que constituem essa categoria de análise foram agrupados em três (03) tópicos, a saber: 1) Conhecimento e importância dos periódicos online; 2) Uso dos periódicos online… quando? e 3) Como os sujeitos são informados da existência dos periódicos eletrônicos?

Conhecimento e importância dos periódicos online

Em relação ao conhecimento e importância dos periódicos eletrônicos, a maioria dos sujeitos afirmou conhecer, atribuíram importância ao discutir a temática, embora haja aqueles que preferem o uso de livros ou até mesmo fotocópia dos artigos, justificando desconforto ao ler arquivos na tela do computador.

Os sujeitos reconhecem a importância de conhecer e aprender a fazer uso dos artigos disponíveis em periódicos eletrônicos; segundo eles, por causa de algumas características proporcionadas por esse tipo de fonte de pesquisa, como a atualidade da informação, a especificidade do tema e a facilidade do acesso.

O sujeito Art apresentou elementos para caracterizar a busca em artigos como uma fonte de pesquisa atual, mas, na continuidade da resposta, ele faz uma defesa da leitura dos livros, como um conhecimento mais fundamentador:

Eu acho que tem diferença do que está nos livros e do que sai em revista. Não sei, posso estar enganado. O livro vai te dar a base e a revista você vai ver o que as pessoas estão fazendo com essa base g (Art).

Nessa fala, é possível identificar que Art demonstra esclarecimento quanto à diferença de teor teórico em relação aos livros e artigos científicos, afirmando que o livro proporciona base para os assuntos buscados, enquanto os artigos promovem uma discussão atualizada sobre o tema. Essa postura crítica do aluno Art já se reflete como identificador de um diferencial na formação, que fica evidente em vários momentos da entrevista.

A respeito da característica que relaciona os periódicos à especificidade do tema de estudo, a recorrência na fala dos sujeitos é maior, pois alguns citaram os temas adequados conforme as disciplinas cursadas na graduação e como os professores apresentaram periódicos que tradicionalmente tratam de certos temas. Outros demonstraram que só a partir do início da produção do TCC é que o interesse e a necessidade pela recuperação de informações para a pesquisa aumentaram. Fato que vai ao encontro dos dados encontrados na pesquisa5 realizada com professores da educação básica do Rio de Janeiro, em que a maioria dos entrevistados identifica que desenvolver uma monografia não é suficiente para contribuir na formação do professor-pesquisador; é preciso participar continuamente de pesquisas durante a graduação.

Bru e De explicam melhor isso:

“Acho que dependendo do tema só encontra mesmo na revista eletrônica, acho que a principal motivação é procurar nas revistas eletrônicas. O meu tema mesmo eu não acho quase nada em livro - Educação Física Adaptada, especificamente deficiência visual, então achei bem pouca coisa de livro nessa área, daí eu pesquisei mais pelas revistas. É por necessidade.” (De).

“No meu caso, para o meu TCC eu tive que pesquisar mais em revistas internacionais porque o meu tema é só bem escrito mesmo internacionalmente” (Bru).

No caso de De o tema de interesse durante a graduação estava ligado ao projeto de extensão no qual o aluno esteve envolvido - Educação Física adaptada, especificamente com deficientes visuais. Em sua fala ficou evidente que a busca em periódicos online aconteceu pela necessidade de encontrar materiais específicos sobre o tema, pois afirmou ter encontrado um pequeno número de publicações em livros. Isso evidencia a forma como a maioria dos alunos conduz o curso em relação à formação para a pesquisa, buscando conteúdo e artigos em periódicos eletrônicos por necessidade e por não ter outra opção. O que também aconteceu com Bru, que ao escolher um tema pouco comum (esporte para o evangelismo cristão) para ser desenvolvido no TCC, afirmou que a presença do professor orientador foi decisiva para a procura de artigos internacionais, pois houve dificuldade em encontrar produções nacionais. Esse fato pode decorrer da pouca prática em pesquisar, em que o próprio aluno De justificou sentir falta da pesquisa e produção de textos no projeto de extensão do qual participou.

Reafirmamos a importância da aprendizagem e da prática do processo de pesquisa na formação dos professores, processo que segundo as autoras9 promove a “investigação e as interrogações de quem busca novas ideias”, seguido do alerta de que no ambiente em que os alunos não são preparados para a pesquisa “tendo em vista a produção do conhecimento, a elaboração de pensamentos novos e a construção de novos mecanismos de intervenção na realidade, tende a tornar o ensino vazio e obsoleto e a prática do profissional de educação uma prática frágil e inconsistente”.

Na questão da facilidade do acesso aos periódicos eletrônicos, é preciso destacar a importância da alfabetização para a internet, maximizando a opção de recuperação da informação online, segundo o conceito de internet literacy10, que visa alfabetizar os sujeitos para o uso da internet, desenvolvendo competências acerca das informações disponíveis e o “conhecimento sobre a questão da confiabilidade e importância de sites clássicos” (p. 149). Em relação aos dados da pesquisa, alguns sujeitos deixaram claro que a facilidade do acesso é uma característica bastante requisitada no momento da pesquisa, porém a escolha acontece mais pela comodidade do que pelo esclarecimento e valorização dos conteúdos existentes nos periódicos, conforme as falas abaixo:

“de modo a facilitar também o deslocamento até a Biblioteca Universitária. Às vezes tem um livro que não está disponível e já está reservado, então você não tem acesso. Então é muito fácil entrar na internet, que todo mundo tem acesso e buscar as informações que tu precisas.” (Alex).

Eu acho que é importante ensinar sim [a buscar em periódicos científicos] porque a maior parte dos trabalhos que eu vi durante a graduação as pessoas utilizavam como material teórico, como referência, a EFDeportes, que você não tem nenhum controle do material que é publicado lá, mínimo assim, e até revista normal [comercial] eu já vi aluno utilizando assim, no ambiente cientifico não seria o ideal usar isso .” (Art).

A constatação de Art acerca do uso de revistas não científicas ou sem rigor acadêmico no ambiente universitário indica que ele consegue visualizar e entender a importância dos periódicos científicos enquanto fonte de recuperação da informação, comportamento este que não é presente em todos os sujeitos entrevistados. É por meio de uma constatação como essa, que consideramos a importância da participação em grupos de pesquisa, na iniciação científica e no investimento da formação do professor-pesquisador ao longo da graduação5.

Já no caso de Wa a preferência é por buscar informações em livros:

eu gosto mais de procurar em livro, porque eu não tenho paciência de ler no computador, então eu gosto do papel, ou então era xerox de artigo mesmo, dos professores, essas coisas. Que eles traziam, ou deixavam à disposição” (Wa).

Outro aspecto interessante é que, ao longo das entrevistas foi possível perceber que a maioria dos sujeitos não sabe definir a diferença entre periódicos eletrônicos, portais, bases de dados e indexadores. Existe uma “confusão” técnica presente do discurso dos sujeitos, que demonstra fragilidade do conhecimento e das diferenças acerca das opções de recuperação da informação nos periódicos online.

A partir de algumas falas dos sujeitos, pressupõe-se que eles pensam que fontes de recuperação de informação, como o portal CAPES e indexadores como SciELO, PubMed e Medline são provedores de conteúdo. Essa constatação fica evidente nas vozes dos sujeitos:

“Olha, eu acessava aqueles bancos de dados assim; agora chegar e procurar especificamente numa revista não. Porque eu lembro que quando eu fazia parte do grupo de [modalidade de atividade física aquática], o professor falava da Apunts, só que não sei se é uma revista ou um banco de dados” (Wa)

A Movimento é uma revista também? Ela tem impressa e digital? (Wa).

“Não sei, na real. Eu tenho dificuldade básica, em alguns momentos eu me confundo entre portal e revista, eu sei que tem aquelas revistas que tem uma classificação A1, A2, das mais importantes. Mas não sei classificar quais delas é. Eu classifico assim, como as nacionais e internacionais.” (De).

Esses são exemplos de dificuldades básicas e fragilidades no quesito do conhecimento de periódicos eletrônicos. Considerando que nossos interlocutores, quando participaram das entrevistas, encontravam-se na 7ª fase do curso, já tendo cursado as disciplinas de Metodologia do trabalho acadêmico (1ª fase), Metodologia da pesquisa (5ª fase) e boa parte de TCC Ih, esse dado é alarmante.

O discurso diferenciado que demonstra conhecimento e esclarecimento para discernir os conteúdos disponíveis na web é demonstrado pelo acadêmico Art, que mostra que o conhecimento continuamente buscado se reflete numa formação ampla, autônoma e transformadora, capaz de formar o professor-pesquisador5) (p. 343): “não basta aos graduandos cursar disciplinas relacionadas a essa prática (pesquisa) e produzir monografias; é necessário que participem, ativamente, de pesquisas ao longo do curso”.

Uso dos periódicos online … quando?

Em relação ao conhecimento e importância dos periódicos eletrônicos, os sujeitos foram questionados em que momentos buscavam e usavam os artigos científicos, se possuem cadastro como leitor nestes periódicos e se acompanham o lançamento de novas edições.

Nas entrevistas foi possível perceber que alguns são cadastrados em periódicos, mas tem uma visão utilitarista com essa fonte de informação, pois acessam apenas sob demanda de algum trabalho acadêmico ou pela necessidade do desenvolvimento do TCC, nas duas últimas fases do curso:

“Eu pesquiso pra trabalho ou para o TCC, por exemplo; eu não participo de laboratório, participo de projeto de extensão; de repente eu já usei, procurei alguns artigos relacionados com a extensão” (De).

Abaixo, os alunos caracterizam especificamente se possuem e qual sua relação com cadastros nos periódicos eletrônicos:

“Não cheguei a fazer” (Wa).

“Eu tenho cadastro como leitor em algumas revistas, como a Motrivivência, eu acho que na Pensar a Prática também, se eu não estou enganado. Na RBCE eu acho que fiz recentemente. […] Porque, pensa, às vezes você esquece que vai sair a próxima edição, assim você já fica sabendo. Assim a gente consegue olhar bem, saber o que tá pesquisando, estudar naquela área. É bem interessante” (Bru).

Quando Bru foi questionado sobre por qual meio havia sido informado sobre a possibilidade de tornar-se cadastrado como leitor, respondeu:

Deixa eu lembrar, foi mais fuçando no site, daí diz “faça um cadastro aqui”, daí a gente aprendeu a fazer o cadastro ali e se dá pra fazer num site, obviamente dá pra fazer num outro. Mas a primeira pessoa que ensinou a gente a fazer isso foi um professor na primeira fase” (Bru).

A fala de Bru evidencia a importância de os professores ensinarem e estimularem o uso dos periódicos durante a graduação, pois desse modo o aluno aprendeu na primeira fase como tornar-se cadastrado e pode aplicá-lo aos próximos periódicos do seu interesse durante a graduação. Isso pode garantir o esclarecimento sobre a importância da pesquisa e o maior interesse pelos periódicos, que acaba viabilizando a pesquisa na formação inicial, ao contrário do que foi constatado pela autora já citada5. Neste caso, seus entrevistados afirmaram se preocupar com pesquisa apenas na formação continuada (pós-graduação, mestrado e doutorado); ou seja, os professores que não ingressaram nesta etapa continuaram desassistidos em relação à pesquisa.

Sobram também críticas ao nível de exigência dos professores quanto à necessidade de pesquisa ao longo da graduação, como nesse diálogo entre dois sujeitos-interlocutores:

“Se for olhar mais pro final do curso foi em portais de revistas […] mas olhando o resto do curso pra trás a gente quase não teve trabalho pra fazer . Pelo menos no meu caso, que eu me lembre, dos poucos trabalhinhos que tinha de coisa pra fazer” (Ge).

Não tem necessidade de pesquisa (De).

Qualquer página popular da internet aí você tira as informações que agradam os professores (Ge).

As afirmações de De e Ge suscitam a discussão em torno da necessidade da pesquisa durante o curso. Ambos afirmam que não é preciso recorrer aos periódicos científicos para produzir trabalhos acadêmicos (quando há trabalhos!), pois qualquer página da internet é suficiente. Essa não deveria ser uma questão sem importância na voz dos sujeitos, pois é através dessa prática que os alunos adquirem conhecimento, autonomia, capacidades e competências de futuros professores comprometidos com a profissão2.

Dando continuidade à análise dos dados, foi possível reconhecer nas vozes dos sujeitos que a demanda pela procura de artigos em periódicos eletrônicos e em portais aconteceu com maior recorrência a partir da disciplina Metodologia da pesquisa (6ª fase) e principalmente nas disciplinas TCC I e II. Abaixo segue a fala dos sujeitos evidenciando essa constatação:

No meu TCC não tinha muita pesquisa eletrônica, eu pesquisei bastante em livros, mas também no Google Acadêmico, Google normal, portal Capes, várias bases de dados” (Tha).

“Nas primeiras fases não, nem brincando eu não buscava, eu até pesquisava alguma coisa na internet, mas não sabia se a fonte era confiável ou não. […] o tempo vai passando, a gente vai chegando com a proximidade do TCC, e então a gente começa a pesquisa em algumas revistas […] Durante a graduação não, mas com a proximidade com o TCC foi obrigatório. Mas a graduação não dá um incentivo (Bru).

Eu acho que quando a gente entra na primeira fase, a gente tá com aquela cabeça de ensino médio ainda, a gente acha que fazendo de qualquer jeito dá. Eu acho que falta sim, dos professores e vontade própria do aluno de procurar onde é mais seguro. Pelo menos pra mim foi um pouco de preguiça, mas em relação aos professores só as matérias específicas falavam realmente que existia e que a gente deveria procurar e tudo mais (Wa).

A partir das constatações da maioria dos sujeitos é visível a diferença entre a postura acadêmico-científica do início e do final do curso. Wa reconhece que os alunos entram na graduação, de certo modo, imaturos e que existe uma facilidade em seguir pelo curso de forma acomodada, sem maiores esforços para envolver com a pesquisa, como seria desejável em se tratando de um curso superior.

Como os sujeitos são informados da existência dos periódicos online

Nesse ponto da pesquisa, a intenção foi explorar como os sujeitos receberam/recebiam informações acerca do acesso e uso dos periódicos eletrônicos. Também nos dedicamos a analisar qual a relação dos sujeitos-interlocutores com grupos de pesquisa, projetos de extensão e outros programas, no que concerne ao estímulo e uso dos periódicos nestes âmbitos.

Nesse sentido, constatamos que as disciplinas Metodologia do Trabalho Acadêmico e Metodologia da Pesquisa são as mais lembradas pelos sujeitos, junto com uma disciplina da 1ª fase de fora deste eixo curricular, seguido de coordenadores de grupo de pesquisa ou extensão de que fazem parte e através dos orientadores, muitas vezes recebendo destes a sugestão pronta e até mesmo já fotocopiada.

“Na verdade tem aquela Metodologia da pesquisa, que parece o TCC 1, ali eu não sei, a gente já tinha que buscar conforme o nosso estudo” (Ge).

[Met. da pesquisa] Ali foi um contato mais concreto. Tem uma disciplina no início que também cita alguma coisa, duas disciplinas assim eu acho que não é suficiente. Eu acho que é necessário toda a disciplina te mostrar quais são as revistas e meio que induzir (De).

“a própria disciplina é Metodologia da pesquisa, ela vai ensinar como você vai pesquisar. […] As disciplinas, foi o que eu falei, aquela Metodologia do trabalho acadêmico, da 1ª fase, a Metodologia da Pesquisa, da 6ª fase. A gente foi pra Biblioteca Universitária, aprendeu a fazer algumas coisas, a pesquisar. E o orientador também, que te diz onde procurar” (Tha).

“Com o professor XX, que deu aula na 1ª fase…” (Alex).

“Ele também deu aula ali no laboratório de informática, como procurar as coisas nas revistas” (Tha).

“Na realidade o maior contato que a gente pode perceber é na 6ª fase mesmo, que o pessoal que faz o pré-projeto do TCC. Porque a grande maioria não sabe nem pesquisar, não sabem onde pesquisar, então se os professores organizam cursos na BU, foi o que a gente fez” (Alex).

“inclusive por experiência própria também, não sabia muito onde pesquisar, pesquisava no Google normal e Acadêmico, e aí foram se abrindo as possibilidades” (Tha).

“A procura mesmo ficou focada nas disciplinas que falavam sobre isso, como Metodologia da pesquisa e Metodologia do trabalho acadêmico.[…] eu gosto mais de procurar em livro, porque eu não tenho paciência de ler no computador, então eu gosto do papel. Ou então era xerox de artigo mesmo, dos professores, essas coisas. Que eles traziam, ou deixavam à disposição (Wa).

Nas constatações em relação a esse tópico foi possível perceber que os sujeitos reconhecem que as duas disciplinas previstas no PPP do curso, para nortear a pesquisa na graduação, assim o fazem. Porém, De explica que, em sua opinião, apenas as duas disciplinas (uma na 1ª e a outra na 6ª fase) não bastam para estimular e ensinar como recuperar informações nos periódicos eletrônicos; o aluno sugere que seria melhor se todas as disciplinas de alguma forma assumissem e estimulassem essa prática ao longo da graduação.

No caso do comentário de Wa alertamos para o uso recorrente da fotocópia, que é entregue pelos professores. Essa questão mostra o quanto alguns alunos se acostumam e se acomodam com essa forma de receber material pronto e, a partir disso, não adquirem o hábito da busca, da procura e da recuperação da informação em novas fontes de conhecimento, neste, que deveria ser um período acadêmico de autoformação.

A partir do comentário abaixo de Art, verifica-se que há esclarecimento do aluno de perceber que os trabalhos acadêmicos poderiam ser melhor aproveitados na formação:

eu já tinha feito curso na BU, por iniciativa minha, porque eu queria buscar uma forma mais organizada os artigos assim, que eu não fazia de uma forma sistemática. Aí eu fiz o curso pra aprender mais sobre algumas bases de dados (Art).

A partir das constatações citadas acima, é preciso destacar que Art buscou construir sua autonomia e competência por soluções próprias. Isso também fica evidente no seguinte diálogo dele com Tha:

“É uma questão interessante, da Educação Física eu tenho utilizado bastante no TCC a revista Movimento, acho que é uma revista legal, boa, tem umas que eu já tenho um pé atrás. A do CBCE, eu não conhecia, comecei a ver alguma coisa; os Cadernos de Formação, que acho que seria interessante pra graduação utilizar, não foi utilizada, só no estágio que a gente foi descobrir que existia, na 6ª fase (Art).

É que tu tens conhecimento que dá pra falar qual que é confiável e qual que não é (Tha).

“Tha, quando o Art estava falando das revistas, o que você quis dizer com o seguinte comentário: “É que tu tem o conhecimento que dá pra falar qual que é confiável e qual que não é?” (Pesquisadora).

Ele tem o conhecimento das revistas, que ele falou que procurou a fundo nas revistas, e ele pode avaliar se é boa ou não; acredito que a gente, eu não tenho conhecimento das revistas, nunca entrei, a não ser na 2ª fase, não posso dizer se a revista é boa ou ruim. É difícil de reconhecer (Tha).

Essa última fase da conversa revelou que Tha se sente despreparada para o reconhecimento e uso dos periódicos eletrônicos e compreende que seu colega Art detém esse conhecimento e preparo, a partir da forma como o sujeito se expressa, pelo conteúdo que apresenta ao se referir à prática da pesquisa no cotidiano da graduação. A partir dessa constatação, ressaltamos, através das palavras de Art, que esse conhecimento foi adquirido através de sua própria busca e interesse em se preparar como acadêmico em formação.

Art justifica seu acesso e uso intenso de periódicos eletrônicos por ter sido bolsista de iniciação científica, fase do curso em que demonstrou estar envolvido com pesquisa, fazendo com que o hábito de acessar os periódicos e “ler os ciclos” tornou-se rotina acadêmica, não apenas por necessidade momentânea, o que é comum na fala dos demais sujeitos:

Eu fiquei mergulhado num universo das revistas quando eu fui bolsista de iniciação científica, que aí você tem que catar o que tem, daí eu olhava a refer ência que aparecia no artigo, ia buscando, então eu comecei a fazer uma coisa, que as revistas que eu via que tinha artigos bons eu começava a buscar nas edições da revista também, ler os ciclos e tudo mais” (Art).

Algumas pesquisas5), (6 também apresentam dados que demonstram a diferença entre alunos que participaram da iniciação científica. Para a primeira delas6 (p. 13) “esses programas têm impacto positivo na própria graduação, uma vez que os estudantes que deles participam costumam apresentar bom rendimento acadêmico”. E para a segunda5 (p. 338), em seu estudo sobre professores do ensino básico, os entrevistados que receberam essas bolsas se destacaram no grupo, pois puderam participar de uma pesquisa de um professor. De acordo com os sujeitos citados: “participar de uma pesquisa representa a melhor preparação para o futuro pesquisador, em todas as áreas”.

Em relação à falta de preparo evidente na fala de Tha, a pesquisa já citada anteriormente5 também constatou descontentamento nos sujeitos do seu estudo, alegando falta de preparação para a pesquisa; só que nesse caso, os sujeitos mencionaram que não haviam sido contemplados com uma disciplina ligada à Metodologia da pesquisa, o que agrava ainda mais a formação para a pesquisa.

Outro dado que chama atenção na conversa entre Art e Tha, é o fato de Art falar sobre os periódicos, avaliando alguns, sugerindo quais poderiam ter sido utilizados mais frequentemente pelos alunos da graduação e por fim, avalia periódicos para sua própria publicação. Em outro momento da entrevista ele relata que chegou a pensar em publicar em determinada revista, mas após avaliar e perceber que “tinha de tudo lá” e que não havia nenhuma avaliação, resolveu desistir e guardar o texto produzido. Outra avaliação foi realizada por ele para os Cadernos de Formaçãoi, publicação do CBCE desde 2009, onde afirma que vai publicar um texto. Esse interesse em publicar suas produções aparece apenas no discurso desse aluno, o que demonstra mais uma vez que a formação para a pesquisa proporciona transformação, desenvolvimento científico e educativo. Para o autor2 (p. 18), “quem pesquisa tem o que comunicar. Quem não pesquisa apenas reproduz ou escuta. Quem pesquisa é capaz de produzir instrumentos e procedimentos de comunicação. Quem não pesquisa assiste à comunicação dos outros”.

Diante dos dados analisados, percebemos que a participação em projetos de extensão, grupos de pesquisa e outros programas (como PIBIC) podem influenciar na formação dos sujeitos. No entanto, na conversa abaixo, dois dos quatro sujeitos que participaram apenas de projetos de extensão reconhecem que, no seu caso, a extensão não envolveu pesquisa para a formação, foram atividades puramente práticas, sem reflexão ou embasamento teórico para isso, nem estimulou a socialização dos trabalhos em participação de congressos. De acredita que o trabalho desenvolvido poderia ser amplamente divulgado para progredir e ter continuidade, mesmo com a rotatividade dos estudantes bolsistas:

mas a extensão está bem distante da pesquisa. É muito prática, só prática, só pra colocar o pessoal pra fazer alguma coisa. Mas eu acho legal, já foi falado várias vezes no projeto da necessidade de uma produção daquilo ali. Que poderia ser usado (De).

Podia ter os dois níveis. Podia ter aquele que “vamos botar o povo pra fazer alguma coisa”, e ter outro âmbito de pesquisa sobre aquela prática (Ge).

“Por exemplo, assim, eu em quatro anos, apresentei dois trabalhos só, e de relato de experiência; mas eu acho que podia ter sido muito mais bem aproveitado assim. Tanta coisa ali, que a gente produziu […] , acho que tem produção de conhecimento de primeiro mundo sabe , umas coisas assim bem importantes que acabaram se perdendo. Não vai ter utilidade, e que outras pessoas que passaram por ali vai ser um ciclo, vai avançar muito pouco (De).

Até é uma forma para melhorar a nossa formação em si. Eu queria ter montado uma equipe de treinamento [de uma modalidade esportiva em cadeiras de rodas], como na época o (aluno) F. teve, que eu participei como voluntário; eu queria montar pra eu ir trabalhando, eu ir pesquisando, mas aí o professor não quer se envolver, porque não quer mais compromisso, daí não abriu a extensão” (Ge).

Nesse sentido, compreendemos que apesar de não terem desenvolvido efetivamente uma prática de pesquisa sobre suas experiências com extensão, a percepção destes sujeitos em relação aos projetos se aproxima da concepção teórica proposta pela autora6 de professor-pesquisador como identificador de problemas. Condição que lhes permite ser capaz de desenvolver propostas de solução com base na literatura e em sua experiência.

Apesar dos sujeitos-interlocutores não se referirem à perspectiva da indissociabilidade da extensão com a pesquisa e com o ensino, intuitivamente eles vislumbram a possibilidade de associar essas práticas, no desenvolvimento mútuo dessas atividades acadêmicas. Esse é um dado a ser destacado, pois os sujeitos veem possibilidade de melhorar a estrutura dos projetos de extensão, bem como melhorar a própria formação para a pesquisa.

Outros dois interlocutores que também participaram apenas de projetos de extensão reconhecem que igualmente não receberam estímulo para o acesso e a busca em periódicos online:

“Não [tive acesso às revistas nesse período]. Agora eu vou ter, porque agora eu vou trabalhar na RBCE, eu vou trabalhar na formatação de artigos agora. Mas no projeto de extensão [de uma modalidade esportiva], mais especificamente, eu nunca tive contato (Bru).

Então, no projeto de [modalidade de atividade física] , sempre quando a gente se reunia, falava que tem pouco material na área; então, nacional a gente não encontrava praticamente nada . Foi quando o Professor falou, vamos procurar em espanhol, daí a gente tinha que traduzir, era um trabalhão ficar traduzindo, mas foi a única em que a gente encontrou mais material na área” (Wa).

Quando da entrevista, o interlocutor Alex era bolsista do PET - Educação Física e, nessa condição, participou de projetos coletivos de pesquisa; no entanto, ele afirmou que não recebeu orientações específicas para o uso de periódicos online:

Com relação a revistas não, nenhum tipo de orientação, qual seria a revista mais indicada e tal, mas as revistas de artigos científicos e outros tipos de publicações a gente é orientado a fazer uso e a pesquisar, na realidade as pesquisas assim a gente tem uma iniciação com o tutor e depois com o grupo, porque daí são duas pesquisas matriciais” (Alex).

Já Art relata a importância dos grupos de pesquisa, de iniciação científica e de estímulo à docência (PIBID) dos quais ele participou e recebeu informações sobre os periódicos; entretanto, em sua participação no PET Saúde também não recebeu orientações sobre o uso destes periódicos:

“Quando eu fui do PIBIC na 2ª fase tinha reuniões semanais […] . Então tinha estudos sempre da atualização da área, ali eu ficava sabendo das principais revistas daquela linha de pesquisa, das que tinham deficiências , tudo mais. No PIBID também tive uma boa orientação, só que daí da área pedagógica, que eu não conhecia o que era publicado. Então o professor deu uma orientação legal . No PET Saúde não foi trabalhado com revistas, algum livro foi utilizado, alguns textos só, foi isso” (Art).

Apesar da experiência com o PET Saúde não ter sido tão valiosa no sentido de informações e incentivo ao uso de periódicos, é visível a influência positiva recebida por Art pela participação em programas acadêmicos como a iniciação científica (PIBIC) e o PIBID. Pelo conhecimento e domínio com que o aluno relata as informações de cada etapa do curso, reafirma o dado apresentado por esta outra pesquisa5, em relação à participação em programas de iniciação científica, que proporcionam a vivência e a prática da pesquisa de forma mais intensa na formação dos acadêmicos que tem essa oportunidade.

Sínteses reflexivas a partir dos dados produzidos

Nesse momento da pesquisa chegamos a algumas constatações, indícios e possibilidades, mas que também fizeram surgir mais questionamentos e inquietações em relação ao campo. Entendemos que essa é uma pesquisa restrita a uma realidade de sete sujeitos, acadêmicos do curso de licenciatura em Educação Física da UFSC e que por esse motivo não temos a pretensão de generalizar as constatações realizadas. Porém, ela pode constituir-se numa tendência presente em outros cursos, principalmente no que diz respeito a algumas questões centrais como estrutura do currículo, fragilidades e possibilidades de pesquisa ao longo do curso.

Assim, o que pudemos perceber a partir dos dados produzidos na fase empírica da pesquisa foi que os nossos sujeitos-interlocutores, acadêmicos da 7ª fase da licenciatura em Educação Física, conhecem periódicos online do campo, mas alegam que durante o curso não houve necessidade de aperfeiçoar os seus trabalhos acadêmicos, porque não havia cobrança por parte dos docentes. Isso contribuiu em grande parte para o desconhecimento e a falta de interesse em criar o hábito de acessar os periódicos, pois percebemos que a maioria deles nem tem cadastro como leitor, por desconhecer seus benefícios. Também não acompanham novas edições dos periódicos, o que seria um recurso eficiente no desenvolvimento da prática para a pesquisa.

Os sujeitos foram unânimes em afirmar que tomaram conhecimento dos periódicos online, bases de dados e indexadores principalmente nas duas disciplinas obrigatórias do currículo ligadas ao eixo das dimensões científico-tecnológicas do movimento humano - Metodologia do trabalho acadêmico e Metodologia da pesquisa; porém, demonstram fragilidade no que diz respeito às características técnicas de cada fonte de recuperação da informação, pois se referem a bases de dados/indexadores como fontes distintas dos periódicos, por exemplo.

Em relação à participação em atividades extracurriculares na graduação, o diálogo com os sujeitos revelou que os projetos de extensão não incluem o eixo pesquisa nas atividades, e por isso não agregam conhecimento e prática de pesquisa aos alunos bolsistas, fato que inclusive desperta críticas por parte dos sujeitos. Já os grupos PET realizam pesquisas coletivas, porém, parecem não estimular o uso e não apresentam os periódicos online mais indicados em cada área específica. Como era de se esperar, o programa que mais se destaca na formação para a pesquisa e para a prática da recuperação da informação através dos periódicos online é o PIBIC (iniciação cientifica), caracterizada por um sujeito que se destacou em relação aos outros, no que diz respeito à autonomia, conhecimento e busca pela formação durante a graduação.

Durante a pesquisa empírica foi possível perceber que o grande problema relacionado à falta de prática na recuperação de informações em periódicos online acontece por dois fatores principais e consecutivos, num autêntico círculo-vicioso: falta de conhecimento e falta de exigência.

O primeiro indica que os sujeitos recorrem a informações de fácil acesso, que não implica maiores habilidades de recuperação da informação, e somente quando há necessidade extrema, por exigência, que é o caso da fase final do curso, ao ter que produzir o Trabalho de Conclusão de Curso. Ou seja, o acesso aos periódicos online acontece na maioria das vezes, apenas sob a pressão do final do curso. O segundo refere-se às informações relatadas pelos próprios sujeitos de que praticamente não há, por parte dos docentes das demais disciplinas do currículo, um nível minimamente razoável de exigência em relação à busca de fontes científicas para a elaboração dos trabalhos acadêmicos.

Outra questão imprescindível a ser lembrada é a importância da relação estabelecida pelos sujeitos com os professores orientadores. As análises demonstram que, em muitos casos, o orientador “garante” a produção do TCC, mas principalmente, pelos meios mais fáceis e rápidos, como entregar artigos fotocopiados aos orientandos, para que, “tenham a garantia de que a pesquisa possa fluir”. Outros sujeitos demonstraram que a relação de negociação e aprendizado também pode acontecer, mas normalmente isso é possível quando a parceria já existe e o TCC torna-se apenas mais uma produção a ser definida e desenvolvida.

Assim, passamos às considerações finais no sentido de identificar limitações e desdobramentos da pesquisa diante da formação de professores em relação aos periódicos online.

Fica evidente que a falta da prática para a busca de informações em periódicos online é resultado das diferenças entre o que o currículo anuncia e como ele é efetivamente desenvolvido. Ou seja, na parte documental da pesquisa, que consistiu em analisar documentos curriculares do curso de licenciatura em Educação Física da UFSC (como o PPP e a regulamentação do TCC e das Atividades complementares)j, constatamos que eles preveem, valorizam e, de certo modo, “garantem” a tematização das habilidades necessárias para a pesquisa, a indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão, a autonomia docente e a formação teórico-científica, bem como o desenvolvimento de um perfil acadêmico orientado para a pesquisa. Assim, corroborando com o que apresentam esses documentos curriculares, entendemos que o aprendizado sobre a existência dos periódicos online, além das habilidades técnicas para a busca, seleção e apropriação dos conteúdos, deveriam ser fundamentais para a formação inicial e continuada desses professores.

Porém, ao comparar as entrevistas e os dados documentais acima referidos, a realidade se mostra bastante diferente. Como exemplo, destacamos a lacuna existente entre as disciplinas que preveem em sua ementa o desenvolvimento do processo acadêmico-científico dos sujeitos, ministradas na 1ª e 6ª fase, que segundo os nossos interlocutores, são insuficientes para criar um cotidiano favorável à pesquisa. Além disso, nesse intervalo entre a 1ª e a 6ª fase, os docentes das demais disciplinas do currículo, ao que parece, não tem dado o necessário incentivo, nem a devida valorização às atividades de recuperação da informação, o que contribui para que os hábitos de busca, acesso e uso de fontes bibliográficas online, por exemplo, não sejam difundidos entre os acadêmicos.

Como consequência do currículo praticado, podemos inferir a existência de uma formação tardia para a pesquisa, contemplada apenas nas disciplinas das fases finais do curso. Isso aumenta a responsabilidade dessas disciplinas, que devem ensinar aos alunos como solucionar seu problema imediato, que consiste em produzir um TCC, sem terem sido ensinados, orientados e estimulados para a pesquisa durante todo o curso. Nesse caso vale destacar que, para muitos acadêmicos, o TCC é a primeira e única pesquisa propriamente dita, realizada durante quatro anos de curso, que acontece sob vários esforços e pressões. Isso pode acabar motivando um futuro professor que, por ter mascarado essa fase de aprendizagem, terá dificuldades em solucionar as questões recorrentes do cotidiano da profissão e se sentirá despreparado e desestimulado a pesquisar sua própria prática.

Diante de tais constatações, é possível dar destaque para mais um achado dessa pesquisa, pois entre os sujeitos da pesquisa encontramos duas experiências diferentes que são exemplos da distinção entre o currículo anunciado e o efetivamente desenvolvido. Um dos interlocutores (Art) é o exemplo de acadêmico que buscou se envolver em grupos de pesquisa, programa de iniciação científica, estágios diversos, cursos e oficinas; em suas falas é possível delinear a postura crítica, autônoma, que indica conhecimento da instituição da qual faz parte, vislumbra as oportunidades e possibilidades. Sua postura acadêmica, crítica e autônoma do sujeito foi desenvolvida por seu interesse e busca próprios, diante de oportunidades e de um currículo que na teoria prevê esse tipo de formação para todos os alunos, mas que, na prática, depende mais da iniciativa dos acadêmicos para a sua operacionalidade.

Aí nos questionamos: então quais são as características do outro sujeito-interlocutor que, ao que parece, resignou-se ao currículo praticado? Nesse caso, em seu percurso curricular, Tha revelou nunca ter participado de qualquer atividade extracurricular de ensino, pesquisa ou extensão na universidade, e diante das questões demonstrava dúvidas simples em relação aos periódicos online, e por vezes não as respondeu, mesmo com insistência da pesquisadora. Isso indica uma fragilidade na formação para a pesquisa, uma vez que ela reconhecia que o colega Art demonstrava domínio sobre vários aspectos referentes aos periódicos online que lhes eram estranhos.

Dessa forma, é necessário repensar como o atual currículo é efetivamente desenvolvido, uma vez que os documentos curriculares compreendem e contemplam as questões necessárias ligadas à formação para a pesquisa como elemento fundamental para a formação de professores, ainda que possa ser aperfeiçoado nesse sentido.

Para finalizar essas considerações finais acerca dos “achados” da pesquisa, é possível aferir um dado preocupante: há alunos que estão se tornando professores sem ao menos entender que no ambiente acadêmico é necessário aprender a buscar fontes científicas de informação e pesquisar em fontes científicas. Atributos estes, que lhes serão imprescindíveis para a sua formação profissional permanente. Nesse sentido, entendemos que estudos como este podem contribuir para reforçar o papel da pesquisa em nosso campo, destacando questões ligadas à formação de professores e seus desdobramentos, e incentivando o desenvolvimento de propostas que possam colaborar com o aperfeiçoamento da formação acadêmica e profissional em Educação Física.

Referências

  1. , , , (). . . Campinas: Papirus. .107-128.
  2. (). . . São Paulo: Cortez. .
  3. (). Formação de formadores básicos. Em Aberto 12(54), 23-42.
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  5. (). O professor e sua formação para a pesquisa. Eccos 7(2), 333-349.
  6. , (). . . Campinas: Papirus. .11-26.
  7. (). A influência do Open Access nas comunidades acadêmicas de biblioteconomia no Nordeste do Brasil. Enc Bibli 17(esp 2), 65-81.
  8. (). . . Lisboa: Edições 70. .
  9. , (). Reflexões sobre o ensino, pesquisa e formação de professores na sociedade contemporânea. Cad Educ (29)73-88.
  10. , (). Mídia-educação e recursos educacionais abertos mediações e práticas de produzir/criar, encontrar e publicar na cultura digital. Atos Pesq Educ 8(1), 142-164.
Este artigo é um recorte de dissertação de mestrado em Educação Física apresentada no PPGEF/UFSC. Obteve apoio financeiro da CAPES na forma de bolsa (Bianca Natália Poffo/2014).
SEER é a abreviatura de Sistema de Editoração Eletrônica de Revistas. Trata-se de um sistema digital de código aberto, traduzido, customizado e disponibilização pelo IBICT – Instituto Brasileiro de Incentivo à Ciência e Tecnologia – do Ministério da Ciência e Tecnologia. Sabe-se, porém, que muitas outras revistas também utilizam o sistema, sem fazer o devido registro no IBICT, assim como existem outras que empregam outras plataformas, igualmente digitais e de acesso livre.
A pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética em pesquisa com seres humanos da UFSC, processo n. 18477413.0.1001.0121.
Essa pesquisa teve também uma etapa documental, constituída pela análise dos documentos curriculares do curso de Licenciatura em Educação Física da UFSC, como o PPP, a grade-sugestão de disciplinas, as normas do TCC e das Atividades Complementares, os planos de ensino das disciplinas do eixo curricular das dimensões científico-tecnológicas, além da análise das referências bibliográficas dos TCCs apresentados nos últimos dois anos. No presente artigo, essa parte da análise não está contemplada, ainda que informações sobre aspectos curriculares do curso sejam feitas ocasionalmente para melhor compreensão de alguns comentários feitos pelos entrevistados.
Mesmo com a ausência de dois (02) dos nove (09) pré-selecionados às entrevistas, entende-se que o grupo manteve essa característica.
Autorizados pelos sujeitos no TCLE, optamos por manter seus próprios nomes, ainda que utilizando apenas a sílaba inicial.
Ao longo do texto, traremos vários depoimentos dos sujeitos-interlocutores com trechos em negrito, cujo objetivo é destacar aspectos interessantes que foram tomados para a análise.
A disciplina tem como proposta de avaliação a apresentação de um pré-projeto de pesquisa.
Que, lembrando, não foram tratados nesse artigo.