Mindaugas e Radvilas

Dois brasileiros nascidos na Lituânia

  • William Douglas de Almeida Universidade de São Paulo. Escola de Educação Física e Esporte
  • Katia Rubio Universidade de São Paulo. Escola de Educação Física e Esporte
Palavras-chave: Jogos Olímpicos; Basquete; Atletas Olímpicos Brasileiros; Imigração.

Resumo

Desde 1920, quando enviou uma delegação pela primeira vez aos Jogos Olímpicos, o Brasil já foi representado por 2.111 atletas. Parte deles nasceu fora do país e é brasileira nata, por questões de ancestralidade familiar, ou naturalizada. Este texto discorre sobre Radvilas Gorauskas, que nasceu na Lituânia, imigrou para o Brasil no fim da década de 1940 e atuou como pivô pela seleção brasileira de basquete nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. Refere-se ainda a Mindaugas, irmão de Radvilas, também nascido na Lituânia e atleta da seleção brasileira de basquete, por meio de quem a história do membro olímpico da família pode ser resgatada. O objetivo desse artigo é recuperar a memória da carreira esportiva de Radvilas, contextualizando todo o processo de deslocamento e a imigração desencadeada pela Segunda Guerra Mundial da família Gorauskas. O método utilizado baseia-se nas narrativas biográficas, e a entrevista com Mindaugas é a principal referência para a realização do trabalho, além de objetos biográficos trazidos pelo entrevistado. Conclui-se que a recuperação de um universo informativo é possível quando um narrador ainda vivo compartilha suas memórias. A entrevista com Mindaugas revelou dados pouco ou nada conhecidos não apenas sobre o processo migratório da família Gorauskas para o Brasil, como também do basquetebol das décadas de 1960 e 1970.

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Publicado
2017-12-23
Como Citar
Almeida, W., & Rubio, K. (2017). Mindaugas e Radvilas. Revista Brasileira De Educação Física E Esporte, 31(4), 869-876. https://doi.org/10.11606/1807-5509201700040869
Seção
Artigos

Introdução

A segunda maior colônia lituana do mundo está em São Paulo, na zona Leste. A região da Vila Zelina se tornou um reduto dos lituanos que migraram para o Brasil principalmente no fim do século XIX e início do século XX. Parte destes imigrantes chegou aqui com passaporte russo, uma vez que o país integrava o império Czarista no século XIX. Segundo dados do consulado da Lituânia no Brasil, somente no período entre 1923 e 1932, 24.128 lituanos se registraram como imigrantes. Não há um dado preciso, mas a estimativa é que antes da década de 1940 a população de lituanos e descendentes superasse as 40 mil pessoas no Brasil. A eclosão da Segunda Guerra Mundial e a anexação do território lituano à União Soviética dificultou o controle de dados sobre imigrantes que vieram depois deste período para o Brasil, mas esta migração continuou ocorrendo.

O objetivo deste artigo é narrar parte da trajetória de um destes imigrantes, Radvilas Gorauskas, por meio da narrativa do irmão Mindaugas, que deixou o Leste Europeu ainda criança, em 1947, acompanhado da família, rumo ao Brasil. Aqui, os Gorauskas se radicaram em São Paulo. Radvilas cresceu, naturalizou-se brasileiro e seguiu a carreira de engenheiro. Paralelamente a isto, foi também jogador de basquetebol, tendo representado o Brasil nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. Por meio dessa história pretende-se não apenas apresentar a carreira esportiva do atleta, mas principalmente contextualizar a história pessoal no cenário histórico em que ela se desenvolveu, como se deu a iniciação esportiva e como foi o processo de adaptação/construção da identidade no novo país.

Em alguns casos, o processo migratório está diretamente relacionado à prática esportiva. Este, todavia, não é o único motivo que leva atletas a migrarem. Há quem migre ainda muito jovem para o Brasil, acompanhando a família em um contexto de crise internacional. Outros migraram por decisão individual, sem nenhuma relação com o esporte. FAGGIANI et al. (1 apontam para uma série de desafios enfrentados pelos migrantes (sejam eles esportistas ou não), tais como a adaptação a uma nova língua, cultura e estilo de vida diferentes daqueles do país de origem.

É importante ainda buscar compreender como os atletas, em diferentes contextos, enfrentam a imigração, uma vez que a condição de imigrante impõe inúmeros desafios. Pensando na condição de atleta há a apropriação do idioma, a adaptação aos novos padrões culturais, a aceitação pelos companheiros de equipe - tanto no clube como na seleção, uma vez que o atleta estrangeiro pode ser visto como um intruso -, e por fim o direito de escolha sobre qual país defender. Esta dificuldade já foi detectada por CARTER2, que considera irônico o fato de alguns atletas sofrerem rejeição no país de origem por terem escolhido representar outras nações em competições. A escolha muitas vezes é feita porque no país natal o atleta não teve a oportunidade e/ou condições de se desenvolver como atleta e chegar a representar a equipe nacional.

Neste trabalho, porém, seguiremos para a mesma direção apontada por GIRALDES3 que estudou as migrações, e observou o fenômeno migratório deve ser analisado para além dos fatores socioeconômicos. O autor discute a condição do migrante considerando o novo cotidiano da pessoa que migra, os processos de adaptação a fatores culturais, como o idioma e alimentação, e toda a ordem de mudanças sofridas para facilitar o processo de adaptação. Assim sendo, este trabalho buscará compreender a história de vida de Radvilas, entendendo que essa é uma via para compreender não apenas o esporte olímpico brasileiro, mas também a sociedade do momento histórico em que essa carreira se desenvolveu.

Método

As histórias de vida como método

A entrevista que norteia este texto faz parte da pesquisa “Memórias Olímpicas por Atletas Olímpicos Brasileiros” e tem como método as histórias de vida. Nesse sentido, os atletas são convidados a contar suas histórias e a dinâmica narrativa adotava é respeitada pelo entrevistador. No caso dos falecidos, como ocorre com Radvilas, são procuradas as pessoas próximas como familiares, companheiros de jornada esportiva, ou conhecidos.

Conforme observou RUBIO4 avanços e recuos marcam a narração das histórias de vida, e a ausência de cronologia ou de uma sequência lógica na apresentação dos fatos podem constituir indícios que permitirão a formulação de inferências sobre a importância pessoal dos episódios narrados. Nessa lógica além do conteúdo envolvido no discurso das histórias de vidas tem-se a forma como elas são expressas perpassadas pela gramática, pela semântica e pela melodia da narração, colaborando para a sua complexidade.

Ao detalhar o método empregado na pesquisa, RUBIO5 aponta que a busca inicial pelas histórias de vida deu-se pelo entendimento da necessidade de respeitar o tempo para que os atletas organizassem suas lembranças, trajetórias e memórias, afinal o conteúdo relatado não era composto apenas de dados objetivos como as principais conquistas, as participações olímpicas, quem os influenciou, mas principalmente conteúdos afetivos de ordem pessoal e subjetivos.

Neste caso a história de vida narrada parte de outro sujeito. O narrador não é mais o protagonista da própria história, mas alguém que conta a história de outro, do próprio irmão, pessoa com quem partilhou não apenas relações familiares, mas também esportivas. KOTRE6 aponta que após a morte de uma pessoa, a memória que a família tem dela passa por uma série de mudanças:

Como as lembranças autobiográficas de um indivíduo entram na de uma família? Vamos considerar apenas um modo, observando o que acontece na época da morte de alguém. Aqui retomamos a história de preparação de uma identidade para a posteridade, mas o fazemos agora da perspectiva da posteridade. Neste ponto, existem mais reviravoltas e distorções na história porque os sucessores nem sempre veem os falecidos da mesma maneira como estes viam a si mesmos (p. 228).

Sendo assim, é preciso cautela com o relato de Mindaugas para que ele não seja tomado como uma substituição literal da fala de Radvilas. O que temos, na realidade, é um discurso de um sujeito que também fez parte da história, mas ocupando um papel diferente do personagem da pesquisa (que foca atletas que participaram de Jogos Olímpicos), e que por isso tem suas memórias construídas por uma perspectiva distinta.

MEIHY7 classifica a história oral em três possíveis vertentes: a história oral de vida, a história oral temática e a tradição oral. O autor discute ainda a existência da história oral híbrida e pura, sendo a primeira um trabalho que mescla a coleta de entrevistas com outras fontes. Neste trabalho será adotada a história oral híbrida por recorrer a fontes orais e também os materiais biográficos. Para BOSI8 objetos biográficos são objetos que envelhecem junto com o dono e apresentam a morfologia própria de algo degradado pelo tempo. Eles contêm ligações de enraizamento e identidade do possuidor e estão depositados em regiões de destaque das dimensões afetivas. O acervo guardado por Mindaugas ao longo da vida foi suporte fundamental para a construção de sua narrativa sobre o irmão. LEMOS9 ressalva que o uso de jornais ou documentos não pode ser feito de maneira isolada, mas que tomando os devidos cuidados, eles se tornam um instrumento importante para ampliar a compreensão de fatos e/ou do contexto em que os mesmos ocorreram.

A entrevista em história de vida é uma tarefa que exige escuta ativa e cuidadosa, que respeita os tempos do sujeito que narra, respeitando a reflexão, a elaboração e expressão de suas recordações. A intimidade de quem fala também merece respeito e para isso é fundamental a paciência do ouvinte com quem se constrói uma relação, de onde brota a voz do entrevistado. Esse pode ser o resultado de uma interação no qual o sujeito não é um mero objeto da pesquisa. MEDINA10 aponta que: “a entrevista, nas suas diferentes aplicações, é uma técnica de interação social, de interpenetração informativa, quebrando assim isolamentos grupais, individuais e sociais” (p. 8).

Contexto histórico: as migrações no pós-Segunda Guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética avançou sobre diversos territórios que antes tinham independência política. Em 1940, a Lituânia foi anexada ao país, assim como a Estônia e Letônia. Após o fim do conflito estes territórios não retomaram a independência, com destaque para as nações do leste europeu anexadas à União Soviética, que dominava boa parte do globo e tentava ampliar seu domínio, conforme pontua HOBSBAWN11. É preciso lembrar que a Europa passava por um momento de reconstrução e que havia ainda vários refugiados, dentre eles, alguns nascidos em território lituano, descontentes com a anexação soviética.

Conforme aponta OLIVEIRA12 o grande número de refugiados de guerra demandou uma série de atitudes e acordos conjuntos entre as nações que compunham o bloco dos Aliados: “A opção dos países aliados (britânico, francês e norte-americano) foi a criação de campos de displaced persons (deslocados) nas áreas sob sua administração: Alemanha, Áustria, Itália e Grécia. Nestes campos a alternativa era a imigração” (p. 11). Diante desse cenário o Brasil passou a receber um grande número de migrantes originários de diferentes partes do mundo. Segundo a autora, a cooperação internacional foi fundamental para o acolhimento destas pessoas em solo brasileiro que chegou a receber mais de 13.900 refugiados da Alemanha Ocidental entre os anos de 1948 e 1949, dentre esses 4.200 alemães. Isso porque boa parte dos imigrantes que deixaram a Alemanha, na realidade, haviam sido levados para lá durante o período da Guerra e, apesar do fim do conflito, não vislumbravam o retorno para os países de origem, que também passavam por um processo de reconstrução.

PAIVA13 detalha que, apesar do Brasil ter voltado a receber oficialmente imigrantes da Europa desde 1947, o decreto que regulamentou essa entrada só foi assinado em 1948. O autor aponta que foram tomados vários cuidados pelas instituições responsáveis na caracterização dos migrantes, como, por exemplo, a adoção do termo “Deslocados de Guerra”, um eufemismo para abrandar a rejeição dos imigrantes pela população brasileira e também para evitar tensões na política externa com a URSS: “Considerar estas populações como refugiadas, teria sérias implicações políticas” (p. 6).

A compreensão deste cuidado pode ser compreendida em um contexto em que as mudanças na política migratória ocorreram em um curto prazo. SALLES et al. (14 dividem a entrada de imigrantes no Brasil, após a Segunda Guerra, em dois períodos: entre 1947 e 1951 chegaram ao país os refugiados que estavam em campos na Alemanha e na Áustria, sendo a maioria originária do Leste Europeu. Esta entrada ocorreu graças a acordos entre o Brasil e instituições como a Organização Internacional dos Refugiados (IRO) e a Assistência Internacional dos Hebreus (HIAS). Após 1952, as entradas de imigrantes passaram a ser feitas com base nos acordos bilaterais entre o Brasil e os países de origem.

SALLES et al. (14 mostram ainda que, já em solo brasileiro, o destino escolhido pela maioria destes imigrantes foram os estados de São Paulo, seguido por Paraná e Rio Grande do Sul. A escolha por São Paulo deveu-se, entre outras questões, à carência de mão de obra qualificada no estado, que passou por uma diversificação do parque industrial durante os anos 40. Outro fator a ser considerado são as redes formadas pelas pessoas nos movimentos migratórios. GOLGHER15 esclarece que a existência de pessoas conhecidas no destino era um fator determinante na tomada decisão sobre a nova moradia. A presença de conhecidos ajudava na redução de alguns custos associados à migração, como o abrigo temporário, o auxílio na colocação no mercado de trabalho e também a inserção em uma rede de apoio com outras pessoas nativas ou não do local de origem.

O apoio familiar e de conhecidos acabou por formar “redutos”, bairros ou regiões com predominância de imigrantes, que trouxeram consigo elementos culturais e sociais, assim exemplificados por SALLES et al. (14:

Na Vila Zelina, a construção da Igreja São José e de escolas lituanas, passou a atrair a população lituana. Além deles, os russos se estabeleceram na região onde mantêm, um Centro cultural importante. Na Vila Alpina, igualmente, concentram-se lituanos e russos. A leva que veio em 1906, chamada de “velhos crentes”, se estabeleceu na Vila Alpina, onde ainda funciona uma Igreja e um centro cultural (p. 21).

A busca pela identificação dos sujeitos que se dispersaram se dá pelas condições do mundo contemporâneo em que barreiras como tempo e espaço são superadas com mais facilidade do que em qualquer outro momento histórico. Estas facilidades permitem que o fluxo de pessoas aumente, e que os indivíduos vivam de maneira desterritorializada, ou seja, migrando, deslocando-se de um ponto a outro, até encontrarem o lugar onde melhor se adaptam. GIRALDES3 pontua que a cada mudança o indivíduo passa por um processo de adaptação, necessário em função de um estranhamento natural, afinal há diferenças entre os locais de origem e de destino. No caso deste trabalho, a maneira encontrada para compreender estas histórias foi buscar o sujeito, para que o mesmo pudesse narrar sua trajetória. Entretanto, o sujeito pesquisado, Radvilas Gorauskas, faleceu na década de 80, razão pela qual decidiu-se buscar pela família afim de se conhecer um pouco de sua trajetória. Conseguimos, então, contato com o irmão do ex-jogador da seleção, Mindaugas Gorauskas, que também foi atleta de basquete no mesmo período de Radvilas e que atualmente vive em Piracicaba, no interior paulista.

De posse destas observações, foi feito o primeiro contato, via telefone, com Denis, filho de Mindaugas Gorauskas, que se prontificou a colaborar com o projeto. De imediato avisou que o pai ficaria feliz em ajudar, mas havia recentemente sido submetido a uma traqueostomia, estava com a saúde um pouco debilitada e impossibilitado de falar. O local do encontro seria a casa da família, na região central de Piracicaba. Chegando lá, Mindaugas estava acompanhado dos filhos Denis e Douglas. Durante um breve café, antes de começar a entrevista propriamente dita, foi possível perceber como Mindaugas se comunicava com caneta e papéis de rascunho em mãos, escrevendo bilhetes. Somado a isso também fazia uso de gestos e, mesmo sem conseguir emitir sons, era possível ler em seus lábios algumas frases.

Resultados

Da Lituânia para as quadras de São Paulo

Ao começar a entrevista, porém, as primeiras questões foram para Denis. Questionado como fora o processo de chegada da família Gorauskas ao Brasil, o filho foi interrompido pelo pai que discordava da versão ali narrada. Ele balançou a cabeça, pegou o papel, a caneta e começou a explicar detalhes, deixados de lado pelo filho. Só então foi possível notar o equívoco cometido no início da entrevista: dirigir a questão a Denis, o filho, e não a Mindaugas, que apesar da limitação física, mantinha intacta a memória. Rapidamente o curso da entrevista foi alterado e o protagonista passou a ser Mindaugas, que mesmo com as limitações da fala utilizou-se de todos os recursos de que dispunha para expressar e explicar os detalhes de sua vida e do irmão, apontando para a impossibilidade de dissociar sua carreira da de Radvilas.

Ouvindo os filhos, ajudando a completar frases e, principalmente, sabendo respeitar o tempo do entrevistado, foi possível construir uma rica história que apresentou informações inéditas até mesmo para os filhos do ex-jogador.

Aos 74 anos, Mindaugas Gorauskas veste orgulhosamente a camisa da seleção brasileira de veteranos do basquetebol. A última vez que entrou em quadra foi em 2007, mas as memórias do esporte ainda marcam a identidade do ex-jogador, que atuou por mais de duas décadas entre os veteranos do Brasil. Um atleta que não nasceu brasileiro, mas tornou-se brasileiro, assim como o irmão, Radvilas, que atuou pela seleção brasileira de basquetebol nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.

A trajetória da família Gorauskas até o Brasil está intimamente ligada à Segunda Guerra Mundial. Ocupada por russos, a região da Lituânia foi forçada a um grande êxodo e a família Gorauskas estava nesse grupo. Abrigada em um acampamento comandado por franceses e canadense, viajou para o Brasil no ano de 1947. Mindaugas tinha apenas cinco anos de idade, mas lembra-se de alguns fatos ligados à esta vinda: a escolha do novo país estava relacionada ao tio, Bóris, nascido na Polônia e já migrado para a América do Sul, na Vila Gustavo, em São Paulo. Mesmo com esse contato familiar não foi possível mudar-se imediatamente para onde ele estava. Era preciso esperar por um período na Ilha das Flores, no litoral do Rio de Janeiro. Naquela época, a Vila Zelina, na zona leste da capital paulista, era um bairro formado por um grande número de lituanos. A presença de outros familiares no bairro do Ipiranga, porém, fez com que os Gorauskas se instalassem ali onde o pai, Algyrdas Gorauskas, começou a trabalhar como comerciante.

O contato dos irmãos com o esporte ocorreu ainda na infância. Mindaugas conta que a iniciativa foi de Radvilas, que era um ano mais velho: “O Radi foi uma tarde ao Florestaa pegar convite para frequentar o clube. Viu as luzes acesas e foi até lá. Era um treino de basquete. Quando o técnico viu o garoto de quase 1,90m convidou-o para treinar. “O treinador era Pedro Genevicius, o Pedroca, responsável pelas equipes infantil e juvenil, e deu a chance para Radvilas iniciar no basquetebol. Selecionado, o jovem lituano avisou ao técnico que tinha um irmão com características físicas semelhantes às suas. Ao vê-lo, imediatamente fez o convite para que Mindaugas também treinasse no clube. Como a família morava longe, os irmãos eram obrigados a pegar dois bondes para cruzar a cidade e chegar aos treinos. O apoio dentro de casa veio principalmente do pai, entusiasta do esporte com passagem pela função de árbitro de futebol na Lituânia.

Ainda nas categorias de base, Radvilas e Mindaugas brilharam. A relação com o clube ficou mais estreita e acabou rendendo uma nova ocupação para os pais dos jovens atletas, que passaram a administrar o restaurante do clube Floresta. Dentro de quadra, os garotos chamavam atenção pelo tamanho e pela habilidade. Eram tempos de amadorismo, ou amadorismo marromb, e isso facilitou o surgimento de uma proposta para defender o Sírio, que acabou sendo aceita. A mudança de clube, porém, foi bastante conturbada. Acusados de profissionalismo, a denúncia chegou aos tribunais esportivos levando os irmãos há ficarem um ano sem poder atuar. Incapazes de barrar o processo essa pausa acabou por prejudicar a carreira de ambos.

O amadorismo, segundo Rubio4, que prejudicou Radvilas e Mindaugas foi um dos pilares do Olimpismo até os anos 1980. Conforme FERREIRA JÚNIOR16 os anos 70 são marcados como um período de transição entre o amadorismo e o profissionalismo no basquetebol. Nesse período: “os grandes nomes do esporte ainda eram amadores ou profissionais cujos salários não superavam significativamente o de profissionais não-atletas” (p. 24). A escolha por seguir no esporte foi um risco assumido pelos irmãos Gorauskas.

Paralelamente aos problemas com a justiça desportiva, os irmãos tiveram ainda de lidar com as questões de ordem burocrática por serem estrangeiros domiciliados no Brasil. O processo de naturalização foi lento, aumentando ainda mais a incerteza sobre a continuidade da carreira de ambos os lituanos. A assinatura final do processo foi feita pelo presidente Jânio Quadros. “Ele estava bêbado, assinou depois renunciou”, brinca Mindaugas, sobre o processo que o tornou brasileiro. Fato é que, livres das amarras formais - fossem as acusações de profissionalismo ou a questão da nacionalidade -, os irmãos estavam aptos para representar o país que escolheram para viver.

A chegada de ambos à seleção brasileira aconteceu em 1968, quando Radvilas ainda defendia o Sírio e Mindaugas jogava pelo XV de Piracicaba. O bom desempenho dos irmãos os credenciou para fazer parte do grupo que iria para a Cidade do México, disputar os Jogos Olímpicos de 1968. Mindaugas acabou cortado. Radvilas, que jogava como pivô, foi convocado, mas teve de abrir mão. Estava com o casamento marcado e preferiu manter os planos iniciais.

A desistência, porém, não representou o fim da passagem do atleta pela seleção brasileira. Às vésperas dos Jogos Olímpicos de Munique, em 72, Radvilas já era considerado um atleta veterano. Mas, para o técnico Kanela, que havia assumido o comando da seleção, a experiência e a força física do pivô eram um diferencial. Assim, Radvilas tornou-se o terceiro atleta não nascido no Brasil a representar o basquetebol brasileiro em uma edição olímpica. Antes dele foram Sucar (nascido na Argentina) em 1960, 1964 e 1968, e Vitor Mirshawka (nascido na Ucrânia) em 1964c.

Formado em engenharia, Radvilas atuou como atleta por mais alguns anos e depois passou a dedicar-se exclusivamente à profissão. Acometido por diabetes, faleceu em 1983.

A morte precoce tirou do pivô a chance de voltar a jogar ao lado do irmão em 1993, quando foi criada a seleção brasileira de veteranos, a qual Mindaugas representou até 2007. Radvilas também não viu os filhos Jonas e Leonardo em quadra. Eles atuaram durante algum tempo em equipes brasileiras e depois radicaram-se nos Estados Unidos, assim como Douglas, filho de Mindaugas, que também joga como ala-pivô. Apesar de nunca ter ido ao país onde o pai nasceu, Douglas tem no braço uma tatuagem que une as bandeiras da Lituânia e do Brasil. Carrega na pele parte da história da família que imigrou para fugir da guerra e fez história em quadras brasileiras.

Discussão

A memória de Radvilas revisitada a partir da narrativa do irmão, dos sobrinhos e dos objetos biográficos permitiu a recuperação de um universo de informação que corria o risco de se apagar depois de seu falecimento. Apesar das limitações físicas, Mindaugas se esforçou em conceder a entrevista, demonstrando a importância que aquele gesto de lembrança representava, mantendo viva a memória não apenas de si e do irmão, mas da família Gorauskas. KOTRE6 aponta que:

A sensação de satisfação causada por uma revisão da vida pode ser ampliada ao se ver a própria vida como parte de uma peça teatral maior, como uma variante de algum conto arquetípico. Você pode chegar a ver seu lugar na história (p. 177).

Os objetos biográficos, cuidadosamente guardados durante anos, ajudaram a construir a narrativa e a ilustrar alguns fatos, embora não fosse a principal fonte de informações utilizada. Aponta KOTRE6 que folhear antigos diários, jornais, observar documentos, são modos eficazes de ajudar a resgatar lembranças. Os principais dados brotaram do exercício narrativo realizado por meio da escrita dos bilhetes de Mindaugas que aguardava pacientemente a leitura para uma eventual explicação do que foi descrito.

A junção destes elementos fez com que o trabalho tivesse um ganho qualitativo e se pudesse definir aquele momento como uma boa entrevista. Mesmo com a limitação da fala de Mindaugas, isso foi possível no diálogo que se construiu naquela manhã. Dali se conheceu fatos que ajudaram na compreensão do contexto histórico em que se produziu a imigração, a adaptação à nova nação, os desafios enfrentados e também a “adoção” de uma nova nacionalidade. Na prática, esta experiência reforçou um procedimento metodológico que é a conexão entre as histórias individuais e o momento histórico vivido pelos atletas durante os Jogos Olímpicos.

Observou-se também um fato recorrente entre os atletas mais velhos que é o desconhecimento das novas gerações sobre fatos relacionados ao familiar. Os filhos de Mindaugas não sabiam, por exemplo, que ao chegar ao Brasil a família precisou ficar na Ilha das Flores antes de se dirigir para a capital paulista. Desconheciam ainda a importância do tio Bóris na determinação da escolha do bairro onde os Gorauskas se instalaram. Ou o fato do avô ter sido árbitro de futebol no país natal, informação que mostra uma relação ainda mais antiga da família com o esporte. Mindaugas era o “guardião” destas informações. Ou seja, o exercício da memória individual colabora para a construção da memória familiar e coletiva.

Referências

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Durante a Segunda Guerra Mundial, o Clube Espéria mudou de nome e passou a se chamar Associação Desportiva da Floresta, retomando o nome original em 196517.
Termo usado para se referir a negociações envolvendo clubes e atletas amadores, mesmo proibidos pelas normas olímpicas. Nas décadas de 1960 e 1970 essa foi uma prática comum no basquetebol, segunda modalidade mais praticada no Brasil e com inúmeros times com equipes competitivas4.
Levantamento com base na obra de RUBIO18.