Corpos doentes, curas extraordinárias

a prática médica de Georges-Louis Liengme nos caminhos para Gaza (sul de Moçambique, 1891-1895)

Palavras-chave: Disciplinarização, Missão Suíça, Mandlakazi, Gaza, Século XIX, Moçambique, Georges-Louis Liengme, Medicina Social

Resumo

Resumo

O artigo analisa Notice de géographie médicale: quelques observations sur les maladies des indigènes des provinces de Lourenço Marques et de Gaza, escrito por Georges-Louis Liengme (1859-1936), reconstituindo a confluência entre a medicina como prática social e o paradigma civilizatório que o levou a viajar para o sul do atual território de Moçambique no ano de 1891. Dominando a gramática clínica apoiada no poder de intervenção e de controle diretos sobre o indivíduo, Liengme buscou decodificar o universo africano pelo signo da doença e sob a perspectiva de corpos particularmente enfermos, à espera da ação de governos e sociedades missionárias. Para intervir nesse mundo em desordem, de loucuras e de cegueiras, o seu olhar se voltou para os referentes capazes de produzir “conexões de sentido” e “convergência de horizontes simbólicos” com as populações, mas, nesse processo, avançou em direção a uma liminaridade que acabou por subverter o sentido de sua própria presença.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Gabriela Aparecida dos Santos, Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Doutora em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, com projeto de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Desenvolveu pesquisa em arquivos históricos de Moçambique, de Portugal e da África do Sul, com ênfase nos movimentos, travessias e contatos de populações africanas, especialmente dos atuais territórios de Moçambique, África do Sul, Suazilândia e Zimbábue no século XIX.

Referências

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

BROWNE, Janet. A origem das espécies de Darwin: uma biografia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.

BRYANT, Alfred Thomas. A Zulu-English dictionary with notes on pronunciation, a revised orthography and derivations and cognate words from many languages; including also a vocabulary of Hlonipa words, tribal-names etc., a synopsis of Zulu grammar and a concise history of the Zulu people from the most ancient times. Natal: The Mariannhill Mission Press, 1905.

BUTSELAAR, Jan van. Africains, missionnaires et colonialistes: les origines de l’Église Presbytérienne du Mozambique (Mission Suisse), 1880-1896. Leiden: E. J. Brill, 1984.

CAETANO, Marcelo. Campanhas de Moçambique em 1895: segundo os contemporâneos(as). Lisboa: Agência Geral das Colônias, 1947.

CRUZ E SILVA, Teresa. Igrejas protestantes e consciência política no sul de Moçambique: o caso da Missão Suíça (1930-1974). Maputo: Promédia, 2001.

DARWIN, Charles Robert. On the origin of species by means of natural selection, or the preservation of favoured races in the struggle for life. Londres: John Murray, 1859.

ENNES, António. A guerra d’África em 1895: memórias. Lisboa: Typographia do “Dia”, 1898.

FOUCAULT, Michel. A casa dos loucos. In: Idem. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, p. 113-128.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da medicina social. In: Idem. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979, p. 79-98.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.

FOUCAULT, Michel. O poder psiquiátrico: curso dado no Collège de France (1973-1974). São Paulo: Martins Fontes, 2006.

GOBINEAU, Joseph Arthur de. Essai sur l’inégalité des races humaines. Paris: Librairie de Firmin-Didot et Cie., [1854] 1884.

GREEN, Edward C.; JURG, Annemarie; DJEDJE, Armando. The snake in the stomach: child diarrhea in Central Mozambique. Medical Anthropology Quarterly, vol. 8, n. 1, Nova Jersey: Wiley, Arlington: American Anthropological Association, mar. de 1994, p. 4-24.

HARRIES, Patrick. Butterflies & barbarians: Swiss missionaries & systems of knowledge in South-East Africa. Ohio: Ohio University Press, 2007.

HARRIES, Patrick. Christianity in black and white: the establishment of protestant churches in Southern Mozambique. Lusotopie, Paris: Karthala, 1998, p. 317-333.

HOBSBAWM, Eric. Ciência, religião, ideologia. In: Idem. A era do capital, 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p. 349-382.

HOBSBAWM, Eric. O mundo burguês. In: Idem. A era do capital, 1848-1875. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p. 321-347.

HONWANA, Alcinda Manuel. Espíritos vivos, tradições modernas: possessão de espíritos e reintegração pós-guerra no sul de Moçambique. Lisboa: Ela por Ela, 2003.

JANSEN, Paulos Cornelis Maria & MENDES, Orlando. Plantas medicinais: seu uso tradicional em Moçambique. Maputo: Minerva Central, 1984.

JORGE, Marco Antônio Coutinho. Fundamentos da psicanálise, de Freud a Lacan, vol. 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

LIENGME, Georges-Louis. Contribution à l’étude de l’hypnotisme et de la suggestion thérapeutique. Tese de doutorado, Faculté de Médecine de Genève, Neuchâtel: Imprimerie Attinger Frères, 1890.

LIENGME, Georges-Louis. Notice de géographie médicale: quelques observations sur les maladies des indigènes des provinces de Lourenço Marques et de Gaza. Bulletin de la Société Neuchateloise de Géographie, tomo VIII, Neuchâtel: Imprimerie Attinger Frères, 1895, p. 180-191.

LIENGME, Georges-Louis. Un potentat africain: Goungounyane et son règne. Bulletin de la Société Neuchateloise de Géographie, tomo XIII, Neuchâtel: Imprimerie Attinger Frères, 1901, p. 99-135.

LIENGME, Georges-Louis. The last South African potentate: Gungunhana, his court and national rites. South African Journal of Science, vol. III, Academy of Science of South Africa: Pretoria, 1905, p. 300-307.

MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção de África: gnose, filosofia e a ordem do conhecimento. Mangualde: Edições Pedago / Luanda: Edições Mulemba, Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto, 2013.

MONTERO, Paula (org.). Deus na aldeia: missionários, índios e mediação cultural. São Paulo: Globo, 2006.

NGUBANE, Harriet. Body and mind in Zulu medicine: an ethnography of health and disease in Nyuswa-Zulu thought and practice. Londres: Academic Press, 1977.

NORONHA, Eduardo de. A rebelião dos indígenas em Lourenço Marques. Lisboa: M. Gomes, 1894.

PRATT, Mary Louise. Do Vitória Nyanza ao Sheraton San Salvador. In: Idem. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1999, p. 339-377.

ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

MENESES, Maria Paula. Maciane F. Zimba e Carolina J. Tamele. Médicos tradicionais, dirigentes da Associação de Médicos Tradicionais. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (org.). As vozes do mundo: reinventar a emancipação social – para novos manifestos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 405-462.

SANTOS, Gabriela Aparecida dos. Reino de Gaza: o desafio português na ocupação do sul de Moçambique (1821-1897). Dissertação, Universidade de São Paulo (USP). [Reino de Gaza: o desafio português na ocupação do sul de Moçambique (1821-1897). São Paulo: Alameda Editorial, 2010].

SANTOS, Gabriela Aparecida dos. “Lança presa ao chão”: guerreiros, redes de poder e a construção de Gaza (travessias entre a África do Sul, Moçambique, Suazilândia e Zimbábue, século XIX). Tese, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 2017.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil (1870-1930). São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

SITOE, Bento. Dicionário changana-português. Maputo: Texto Editores, 2011.

SOUZA, Ricardo Abussafy de. O lixo e a conduta humana: gestão dos insuportáveis na vida urbana. Tese, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), Assis, 2013.

SPENCER, Herbert. The principles of biology, vol. 1. Edimburgo: Williams and

Norgate, 1864.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2010.

Publicado
2019-10-21
Seção
Dossiê: Moçambique em perspectiva: histórias conectadas, interdisciplinaridade..