Governar a miséria

escravidão, pobreza e caridade na América portuguesa no início do século XVIII

Palavras-chave: escravidão, pobreza, sacramentos, caridade, miserabilis persona

Resumo

Em 1693, uma memória enviada ao rei de Portugal continha denúncias sobre a completa indiferença dos senhores em relação à doutrina, à vida sacramental e às exéquias dos escravos no Rio de Janeiro e em Salvador. Naquele mesmo ano, debates envolveram instâncias civis e religiosas no intuito de colocar noutros termos a desconsideração ritual em relação aos escravos. Nesse processo de reordenamento das atribuições que cabiam às esferas civis e eclesiásticas em relação ao governo doméstico dos escravos, foram particularmente importantes as obras de dois jesuítas – Jorge Benci e André João Antonil – e a normativa estabelecida pelas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, em 1707. Neste artigo, pretende-se analisar como as controvérsias estabelecidas em fins do século XVII abriram uma nova perspectiva para a defesa ética do tratamento cristão dos cativos, tendo por base o princípio de autoridade, reivindicado pela Igreja, de governar espiritualmente os miseráveis.

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Biografia do Autor

Renato Franco, Universidade Federal Fluminense

Doutor em História pela Universidade de São Paulo. Professor de História do Brasil Colonial do Instituto de História e pesquisador do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense – Niterói – Rio de Janeiro – Brasil.

Silva Patuzzi, Universidade Federal Fluminense

Doutora em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora de História Moderna do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense – Niterói – Rio de Janeiro – Brasil.

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Publicado
2019-11-01
Seção
escravos, escravização