O barbeiro de Sevilha

análise de alguns aspectos da intertextualidade entre a comédia de Beaumarchais e o libreto da ópera de Rossini

  • Regina Rocha Universidade de São Paulo
Palavras-chave: música, libreto, Cesare Sterbini, ópera, Rossini, análise intertextual

Resumo

Compreender o contexto histórico e a elaboração do enredo de uma ópera são elementos fundamentais para uma visão crítica da obra de arte e, para isso, faz-se necessário investigar dados primários e fontes bibliográficas. No caso de O barbeiro de Sevilha de Rossini, o libretista Cesare Sterbini se baseou na comédia O barbeiro de Sevilha de Beaumarchais, escrita na França no final do século XVIII, numa sociedade que passava por grandes transformações sócio-políticas, rumo à Revolução Francesa. Após a leitura dos dois textos, propôs-se a identificação dos trechos da comédia de Beaumarchais mantidos e eliminados no libreto. A partir das informações obtidas, foi realizada discussão e análise das possíveis mudanças genéricas do libreto de Sterbini, tendo em vista o conteúdo de sua fonte. Da comparação do hipertexto de Sterbini com o hipotexto de Beaumarchais, pode-se depreender que o sentido político presente na comédia, derivado do seu caráter satírico (crítica dos vícios morais) é amenizado na ópera. A mudança de gênero produz um deslocamento de tom, tornando o texto de Sterbini mais leve e carregado de comicidade, sem esbarrar nas questões políticas. A caracterização de Rosina e seu destino amoroso fazem com que o texto de Sterbini se aproxime do Romantismo, em desenvolvimento na Europa da época. Assim, os procedimentos de apropriação do hipertexto também servem para adequar o enredo aos preceitos da nova estética em formação. Talvez por isso a ópera tenha se tornado tão popular para o público da época: discutia temas nascentes, como uma nova sociedade e a sua subjetividade.

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Biografia do Autor

Regina Rocha, Universidade de São Paulo

Regina Rocha é doutoranda em Música pela Universidade de São Paulo (ECA/USP), na área de Teoria e Análise Musical, sob orientação do Prof. Dr. Paulo de Tarso Salles. Mestra em Musicologia e bacharela em Regência pelo Instituto de Artes da Unesp. Concluiu o curso técnico em Música (piano) pela Escola Municipal de Música Maestro Fêgo Camargo (Taubaté/SP) e possui formação pedagógica em música pela Faculdade Mozarteum de São Paulo.

Foi integrante do Coral do Estado de São Paulo (1998-2000). Como corista, atuou na apresentação das óperas: Pedro Malazarte, de Camargo Guarnieri, Cosi fan Tutti, de Mozart, e Les contes d’Hoffmann, de Offenbach, todas encenadas no Teatro São Pedro, em São Paulo. Atuou como regente assistente da Orquestra Filarmônica Jovem de Caieiras e regente convidada Orquestra e Coral da Sociedade Pró Musica Sacra de São Paulo. Atualmente integra o Grupo de Pesquisa PAMVILLA (Perspectivas Analíticas para a Música de Villa-Lobos).

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Publicado
2018-08-29
Como Citar
Rocha, R. (2018). O barbeiro de Sevilha. Revista Da Tulha, 4(1), 108-137. https://doi.org/10.11606/issn.2447-7117.rt.2018.148722
Seção
Artigo