A percepção do suicídio como inseparável das outras formas de violência segundo os/as jovens indígenas

um estudo de caso da Reserva Indígena de Dourados*

Palavras-chave: Criança, Adolescente, Jovens indígenas Guarani, Povos indígenas/psicologia, Constrangimento, Violência étnica/etnologia, Violência étnica/psicologia, Suicídio/etnologia, Saúde mental em grupos étnicos, Saúde de populações indígenas, Suicídio indígena

Resumo

Esse trabalho foca estudar e analisar as consequências da tentativa de implementar, via Sistema Único de Saúde - SUS, o protocolo de saúde mental DC-10 na população indígena. Nesse caso, esse estudo, baseado numa pesquisa qualitativa com metodologia de pesquisa ação/participação/intercultural, foi e está sendo realizado na Reserva Indígena de Dourados - RID, e conta com a participação dos jovens e das lideranças jovens da Ação dos Jovens Indígenas – AJI, a qual atua como uma escola não formal dentro da RID. A necessidade de apresentar a percepção dos/as jovens indígenas sobre o sofrimento que carregam não se resume numa interpretação biomédica, mas sim, efeito dos traumas que sofreram e sofrem que se pode nomear de colonial, post traumatic cultural illness. Seja qual for o nome, são jovens que carregam um sofrimento silenciado e que não pode ser reduzido à visão hegemônica biomédica, o que leva à necessidade de avaliar em que medida essa visão lhes acrescenta experiências traumáticas. Essa discussão se pauta numa visão interdisciplinar e polifônica baseada na fenomenologia e, por isso, constitui-se num pensar/fazer.

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Biografia do Autor

Maria de Lourdes Beldi de Alcantara, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo

* Esse estudo não trará por ética os nomes dos participantes desse estudo. Foi resultado da consulta livre, prévia e informada.

Professora de Antropologia Médica, FMUSP. Coordenadora do Grupo de Apoio aos Jovens Indígenas Guarani (GAPK). Consultora da IWGIA. 

Walter Moure, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo

Psicólogo Clínico, Instituto de Psicologia da USP. Coordenador da Ação dos Jovens Indígenas (AJI). 

Zelik Trajber, SESAI

Médico Pediatra. Trabalha desde 1999 no Mato Grosso do Sul com a população indígena, prestando serviço à SESAI. 

Indiana Ramires Machado, SESAI

Enfermeira indígena kaiowá atua na SESAI e pós-graduanda da FMUSP.

Equipe de Jovens da Ação dos Jovens Indígenas de Dourados-MS

Ação dos Jovens Indígenas da Reserva Indígena de Dourados (RID). Atua como uma escola não formal na aldeia do Bororó. www.jovensindigenas.org.br.

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Publicado
2020-06-16
Como Citar
Alcantara, M. de L., Moure, W., Trajber, Z., Machado, I., & Ação dos Jovens Indígenas de Dourados-MS, E. de J. (2020). A percepção do suicídio como inseparável das outras formas de violência segundo os/as jovens indígenas. Revista De Medicina, 99(3), 305-318. https://doi.org/10.11606/issn.1679-9836.v99i3p305-318
Seção
Relato de Caso/Case Report