Editorial

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Resumo

Este primeiro número da Revista de Estudos Culturais do Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo aparece no momento em que a chamada opinião pública assiste perplexa à entrada de outros atores, vindos das classes populares, nos universos do consumo de marcas, da produção cultural de massa e da arena política.

Para saber o que isso significa, de fato, talvez seja preciso de um pouco de distância histórica. Mas, o que vale ressaltar é a novidade dos fenômenos. Na produção e circulação do funk carioca e de ostentação, na literatura periférica e nos chamados rolezinhos – passeios combinados de jovens da periferia aos shopping centers, templos do consumo no solo brasileiro, mas praticamente restritos aos endinheirados – vemos o protagonismo de indivíduos que não mais esperam nem dos conglomerados produtores da cultura, nem da escola e dos governos, definidores de parâmetros mais tradicionais de estética e política, um menu de opções para a fruição e ação culturais. Se, para ficarmos no campo da cultura, em outros momentos da nossa história recente, o jovem pobre, habitante das periferias urbanas, já havia contribuído para a música consumida e produzida pelas classes altas e propagada pelo Estado (vide a história do samba), o que parece inédito, hoje, é o volume e o sentido contra-hegemônico dessa produção, além do fato de ela ter como leitor implícito os mesmos grupos sociais dos produtores.

Com o pressuposto de buscar compreender a produção cultural, bem como a ação política dos de baixo, dos periféricos, dos marginalizados e de todos aqueles que lutam contra alguma assimetria, cabe aos estudos culturais, seguindo a tradição inaugurada por E. P. Thompson, Raymond Williams, Richard Hoggart, e expandida por Stuart Hall, de descrevê-las a partir de suas próprias searas originadoras, ao invés de julgá-las por meio de critérios que não lhes pertencem.

Trata-se de uma postura política interessante, em tempos de segregação social como este em que vivemos, em que mesmo intelectuais progressistas acreditam que só uma cultura erudita pode nos salvar da barbárie contemporânea e que o periférico é uma mera reprodução da lógica capitalista; o que é o mesmo que dizer que, do ponto de vista das suas lutas políticas, a população pobre precisa de um intelectual legitimado para filtrar e direcionar a sua insatisfação. Esse argumento é antigo, e nega a agência a quem não detém as marcas da distinção. Nesse sentido, embora não nos caiba negar a cultura erudita, já que, segundo R. Williams, ela precisaria ser entendida como uma “cultura comum”, portanto impura, em constante enlace com a cultura popular, é função de um programa de pós-graduação em estudos culturais e de um revista digna deste nome escutar e deixar falar as vozes dissonantes, que, a despeito das opiniões de intelectuais “iluminados”, enformam a cultura contemporânea.

O presente número é composto de textos apresentados em um seminário promovido em 2012 pelo nosso Programa de Pós-Graduação. Eles formam, junto com outros de mesma temática, o dossiê intitulado “Cultura Popular Urbana”. Nos textos de Aristóteles Berino, “Valesca Popozuda: ministra da Educação”, sobre o funk carioca; de Alexandre Barbosa, “Funk ostentação em São Paulo: imaginação, consumo e novas tecnologias da informação e da comunicação”, sobre o funk ostentação paulista; de Antonio Eleilson Leite, “Marcos fundamentais da literatura periférica em São Paulo”, sobre a literatura produzida na periferia paulista; de Eduardo Restrepo, que abre a seção, intitulado “Estudios culturales en América Latina”, sobre o aspecto político dos estudos culturais latino-americanos; e no de Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco, “Rolezinhos: Marcas, consumo e segregação no Brasil”, sobre o fenômeno dos rolezinhos; inscreve-se a nossa urgência em ler esses novos textos e agentes da produção simbólica contemporânea.

Na seção varia, a revista conta com um conjunto de textos a maioria de docentes do nosso Programa e que dialogam com as linhas de pesquisa do mesmo. No texto de Luiz Gonzaga Godoi Trigo e Alexandre Panosso Netto, “Ethnical Afro-Tourism in Brazil”, dentro da linha “Cultura, Política e Identidade”, os autores desenvolvem uma discussão teórica sobre o turismo étnico no Brasil; já no artigo de Maria-Elena Malachias, “Matriz biológico cultural da existência humana”, pesquisadora que trabalha na linha “Cultura, saúde e educação”, elabora-se uma rica reflexão sobre a matriz biológico-cultural da existência humana a partir da epistemologia da Biologia do Conhecer”; já Fernanda Oliveira Filgueiras Santos, aluna do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Integração da América Latina da USP (PROLAM), e Mauro Leonel, docente do Mestrado em Estudos Culturais e do PROLAM, em seu texto “A fome antropofágica”, retomam os achados críticos e teóricos do modernismo, na fronteira das linhas de pesquisa “Crítica da cultura” e “Cultura, política e identidade”; por sua vez, Veronica Guridi e Valéria Cazzetta, também dentro da linha “Cultura, saúde e educação”, elaboram uma análise crítica sobre o conceito de “alfabetização científica”, em diálogo com a área da Educação em Ciências e em Geografia.

Este número publica também uma resenha de Mauro Leonel e Maira Mesquita, respectivamente docente e aluna do nosso programa, sobre o livro de Perry Anderson “As origens da pós-modernidade”, constituindo nossa primeira contribuição para uma seção Memória, dedicada a reavaliar marcos dos estudos culturais.

Com este primeiro número, a Revista do Programa de Estudos Culturais espera dar subsídios em direção à construção de uma cultura comum, a uma sociedade em que a existência de diferenças não signifique a existência de exceções, de privilégios nem, enfim, do domínio de alguns poucos sobre os valores e discursos relativos àquilo que ficou conhecido como “todo um modo de vida”.

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Publicado
2014-06-25
Como Citar
Editor, O. (2014). Editorial. Revista Estudos Culturais, 1(1). Recuperado de http://www.revistas.usp.br/revistaec/article/view/98379
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