Tratadas e vacinadas, aguadas e cancerígenas

a colonização das dietas indígenas por sistemas de produção de carne

Autores

  • Felipe F. Vander Velden Universidade Federal de São Carlos. Departamento de Ciências Sociais. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social

DOI:

https://doi.org/10.11606/issn.2596-3147.v1i1p82-100

Palavras-chave:

Carne, Ovos, Indígenas, Karitiana, Animais domésticos

Resumo

Neste artigo analiso um fenômeno particular ainda pouco estudado no tocante às alterações das dietas indígenas: o consumo de produtos oriundos de espécies animais exóticas, introduzidas após o encontro com os brancos. Sabemos que a carne de vários desses seres (principalmente galinhas, bois e porcos), assim como outros produtos extraídos de alguns desses animais, frequentam os cardápios de diversos grupos indígenas há tempos, mas pouco se tem refletido sobre as formas locais de incorporação dessas novidades, talvez porque tenha se considerado todos os produtos de origem animal como uma só e mesma coisa: carne, leite, ovos. Aqui, partindo do meu próprio material de pesquisa entre os Karitiana e apoiado em outras referências históricas e etnográficas, argumento que esses novos alimentos são, amiúde, claramente distinguidos dos alimentos de origem animal nativos. Esta distinção sustenta, inclusive, formas de reflexão sobre esses processos de colonização das dietas indígenas, funcionando como uma forma de crítica não apenas a essas mudanças pós-contato, mas também aos processos contemporâneos de produção de comida entre os não indígenas.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Felipe F. Vander Velden, Universidade Federal de São Carlos. Departamento de Ciências Sociais. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social

Mestre e doutor em Antropologia Social pela Unicamp. É professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSCar. Publicou "Inquietas companhias: sobre os animais de criação entre os Karitiana" (2012) e "Joias da floresta: antropologia do tráfico de animais" (2018), além de artigos e capítulos que abordam principalmente as relações entre povos indígenas e animais.

Referências

ADAMS, Carol. A política sexual da carne: a relação entre o carnivorismo e a dominância masculina. São Paulo: Alaúde, 2012.
ALBERT, Bruce; RAMOS, Alcida Rita. Pacificando o branco: cosmologias do contato no norte-amazônico. São Paulo: IRD/Editora da Unesp/Imprensa Oficial, 2002.
AMOROSO, Marta. A conquista do paladar: os Kaingang e Guarani para além das cidadelas cristãs. Anuário Antropológico, Universidade de Brasília, n. 2000-2001, pp. 35-72, 2003.
ANDERSON, Virginia DeJohn. Creatures of empire: how domestic animals transformed early America. Oxford: Oxford University Press, 2004.
BARROS, Edir Pina de. Os filhos do sol: história e cosmologia na organização social de um povo Karib – os Kura-Bakairi. São Paulo: Edusp, 2003.
BELLINGER, Carolina; ANDRADE, Lúcia. Alimentação nas escolas indígenas: desafios para incorporar práticas e saberes. São Paulo: Comissão Pró-Índio de São Paulo, 2016.
BOSI, Antônio (Org.). Trabalho e trabalhadores no processo de industrialização recente no oeste do Paraná (1970-2010). Curitiba: Paco Editorial, 2014.
CAMINHA, Pero Vaz de. A carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil. In: SIMÕES, Henrique Campos (Org.). Anais do Seminário Leituras da Carta de Pero Vaz de Caminha – Revista FESPI, Edição especial. Ilhéus: UESC, 1997 [1500].
CARNEIRO, Diogo. Como eu vivo, me sustento: formas indígenas de usos de recursos naturais. Dissertação (Mestrado em Ciências Ambientais) – Universidade Federal do Oeste do Pará. Santarém, 2015.
CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Os mortos e os outros. São Paulo: Hucitec, 1978.
CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. São Paulo: Global, 2004.
CAVALCANTE, Messias. Comidas dos nativos do Novo Mundo. Barueri: Sá Editora, 2014.
CORMIER, Loretta. Kinship with monkeys: the Guajá foragers of eastern Amazonia. Nova York:
Columbia University Press, 2003.
COSTA, Flávio Simões. Caminha: o primeiro etnógrafo do Brasil. In: SIMÕES, Henrique Campos
(org.). Anais do Seminário Leituras da Carta de Pero Vaz de Caminha – Revista FESPI, Edição especial.
Ilhéus: UESC, 1997.
DÓRIA, Carlos Alberto. Formação da culinária brasileira: escritos sobre a cozinha inzoneira. São Paulo:
Três Estrelas, 2014.
FAUSTO, Carlos. Banquete de gente: comensalidade e canibalismo na Amazônia. Mana, Museu
Nacional/UFRJ, v. 8, n. 2, pp. 7-44, 2002.
FIDDES, Nick. Meat: a natural symbol. Londres: Routledge, 1992.
GIBRAM, Paola. Penhkár: política, parentesco e outras histórias Kaingang. Curitiba: Appris Editora/
Instituto Nacional de Pesquisas Brasil Plural, 2016.
KATZ, Esther. Alimentação indígena na América Latina: comida invisível, comida de pobre ou
patrimônio culinário? Espaço Ameríndio, UFRGS, v. 3, n. 1, pp. 25-41, 2009.
KOHN, Eduardo. How dogs dream: Amazonian natures and the politics of transspecies engagement.
American Ethnologist, American Anthropological Association, v. 34, n. 1, pp. 3-24, 2007. LEITE, Maurício. Transformação e persistência: antropologia da alimentação e nutrição em uma
sociedade indígena amazônica. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2007.
MARTINI, André Luiz. Filhos do homem: a introdução da piscicultura entre populações indígenas no
povoado de Iauaretê, rio Uaupés. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) –
Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2008.
MAUÉS, Raymundo; MAUÉS, Maria Angélica. O modelo da “reima”: representações alimentares em uma
comunidade amazônica. Anuário Antropológico, Brasília, v. 2, n. 1, pp. 120-147, 1978. MAYBURY-LEWIS, David. A sociedade Xavante. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984.
MELATTI, Júlio César. Índios e criadores: a situação dos Krahó na área pastoril do Tocantins. Rio de
Janeiro: I.C.S/UFRJ (Monografia do I.C.S., vol. 3), 1967.
MINDLIN, Betty. Nós Paiter. Os Suruí de Rondônia. Petrópolis: Vozes, 1985.
MONTOYA, Antonio Ruiz de. Tesoro de la lengua guarani. Madri: Iuan Sanchez/Martin de Segura, 1639.
MONTOYA, Antonio Ruiz de. Bocabulario de la lengua guarani. Leipzig: B. G. Teubner, 1876 [1640].
MYERS, Iris. The Makushi of the Guyana-Brazilian frontier in 1944: a study of culture contact. Antropologica, n. 80, pp. 3-98, 1993.
NORDENSKIÖLD, Erland. Deductions suggested by the geographical distribution of some post-Columbian words used by the Indians of South America. Göteburg: Elanders Boktryckeri Aktiebolag, 1922.
POLLAN, Michael. O dilema do onívoro: uma história natural de quatro refeições. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
RONDON, Cândido Marianno da Silva. Índios do Brasil das cabeceiras do Rio Xingú, Rio Araguaia e Oiapóque – volume II. Rio de Janeiro: Conselho Nacional de Proteção aos Índios/Ministério da Agricultura, 1953.
SAHLINS, Marshall. Cultura e razão prática. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
SANCHEZ, Gabriel. Conhecendo aves entre os Kujubim: uma etnografia multiespecífica sobre as relações entre um povo indígena em Rondônia e as suas aves. Relatório de pesquisa –
Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, 2018.
SANTOS, Fabiane Vinente dos. “Comida de branco, comida de índio”: consumo alimentar, agency e
identidade entre mulheres indígenas urbanizadas no Alto Rio Negro. Temáticas, Unicamp, n.
31/32, pp. 91-117, 2008.
SILVA, Larissa Mandarano da. O aleitamento materno e a alimentação infantil entre os indígenas da região
oeste do estado de São Paulo: um movimento entre tradição e interculturalidade. Tese
(Doutorado em Enfermagem) – Universidade de São Paulo. São Paulo, 2013.
SIMOONS, Frederick. Eat not this flesh: food avoidance in the Old World. Madison: University of
Wisconsin Press, 1966.
SIQUEIRA, Débora Vallilo. “A gente sabe o sistema como é criado”: a carne de porco entre a casa e
a agroindústria na região de Chapecó-SC. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) –
Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, 2016.
SORDI, Caetano. De carcaças e máquinas de quatro estômagos: controvérsias sobre o consumo e a
produção de carne no Brasil. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2016.
SOUZA, Maximiliano Ponte de (Org.). Processos de alcoolização indígena no Brasil: perspectivas plurais.
Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2013.
STEFANUTO, Míriam. Trabalho calado: os Kaingang do Toldo Chimbangue e as indústrias de carne.
Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade Federal de São Carlos. São
Carlos, 2017.
TEMPASS, Mártin. A doce cosmologia Mbyá-Guarani: uma etnografia de saberes e sabores. Curitiba:
Appris, 2012.
TURBAY, Sandra. Aproximaciones a los estudios antropológicos sobre la relación entre el ser
humano y los animales. In: ULLOA, Astrid (Ed.). Rostros culturales de la fauna: las relaciones entre los humanos y los animales en el contexto colombiano. Bogotá: INAH/Fundación Natura, 2002.
TURNER, Terence. Social structure and political organization among the Northern Kayapó. Tese (PhD em Antropologia) – Harvard University. Cambridge, 1966.
VANDER VELDEN, Felipe. O gosto dos outros: o sal e a transformação dos corpos entre os Karitiana no sudoeste da Amazônia. Temáticas, Unicamp, n. 31/32, pp. 13-49, 2008.
VANDER VELDEN, Felipe. As galinhas incontáveis: Tupis, europeus e aves domésticas na conquista do Brasil. Journal de la Société des Américanistes, Société des Américanistes, v. 98, n. 2, pp. 97-140, 2012a.
VANDER VELDEN, Felipe. Inquietas companhias: sobre os animais de criação entre os Karitiana. São Paulo: Alameda, 2012.
VANDER VELDEN, Felipe. Dessas galinhas brancas, de granja – ciência, técnica e conhecimento local nos equívocos da criação de animais entre os Karitiana (RO). CADECS – Caderno Eletrônico de Ciências Sociais, Ufes, v. 3, n. 1, pp. 11-34, 2015.
VILAÇA, Aparecida. Comendo como gente: formas do canibalismo Wari’. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1989.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Araweté: os deuses canibais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor/ Anpocs, 1986.
WEISS, Brad. Configuring the authentic value of real food: farm-to-fork, snout-to-tail, and local food movements. American Ethnologist, American Anthropological Association, v. 39, n. 3, pp. 614- 626, 2012.

Downloads

Publicado

2019-03-28

Como Citar

Velden, F. F. V. (2019). Tratadas e vacinadas, aguadas e cancerígenas: a colonização das dietas indígenas por sistemas de produção de carne. Revista Ingesta, 1(1), 82-100. https://doi.org/10.11606/issn.2596-3147.v1i1p82-100

Edição

Seção

Artigos