Teoria e prática de um cinema junto ao povo de Jorge Sanjinés e Grupo Ukamau

Palavras-chave: cinema boliviano, cinema latino-americano, Nuevo Cine Latinoamericano, cinema político, teoria do cinema

Resumo

O livro Teoria e prática de um cinema junto ao povo de Jorge Sanjinés e Grupo Ukamau é publicado no Brasil, quase quarenta anos depois de sua edição original no México. Trata-se de uma coletânea de textos que visa apresentar o desenvolvimento teórico e estético da produção cinematográfica dos bolivianos Grupo Ukamau e do diretor Jorge Sanjinés. Portanto, é um livro considerado fundamental na formulação do pensamento do Nuevo Cine Latinoamericano.

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Biografia do Autor

Fabián Núñez, Universidade Federal Fluminense

É professor associado do Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense (UFF). Também leciona no Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual (PPGCine), na mesma universidade. Sua formação acadêmica foi inteiramente realizada na Universidade Federal Fluminense: Bacharel em Comunicação Social (Habilitação em Cinema), em 2000; Mestre em Comunicação, Imagem e Informação, em 2003, e Doutor em Comunicação, em 2009. Trabalhou como voluntário (1996 a 1999) e estagiário (de abril de 2001 a junho de 2002) na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Foi credenciado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da UFF, de 2010 a 2015. Foi professor substituto (Assistente nível 1) da Universidade Federal Fluminense, no Departamento de Cinema e Vídeo, de 2005 a 2007. É membro da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), fazendo parte de sua direção durante a gestão 2012-2014. Atua na organização do Cineclube Sala Escura, projeto de extensão vinculado ao LIA (Laboratório de Investigação Audiovisual), desde 2010. É pesquisador da Plataforma de Reflexão sobre o Audiovisual Latino-Americano (PRALA) e do Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual (LUPA). Seus temas de interesse são: cinema latino-americano, cinema brasileiro, história do cinema, crítica cinematográfica e preservação audiovisual.

Referências

AVELLAR, J. C. A ponte clandestina: Birri, Glauber, Solanas, Getino, García Espinosa, Sanjinés, Alea – teorias de cinema na América Latina. São Paulo: Editora 34: Edusp, 1995.

SANJINÉS, J.; GRUPO UKAMAU. Teoria e prática de um cinema junto ao povo. Tradução Sávio Leite, Lourenço Veloso. Goiânia: Mmarte, 2018.

Publicado
2020-05-04
Como Citar
Núñez, F. (2020). Teoria e prática de um cinema junto ao povo de Jorge Sanjinés e Grupo Ukamau. Significação: Revista De Cultura Audiovisual, 47(53), 323-329. https://doi.org/10.11606/issn.2316-7114.sig.2020.157678

Lançado em 2018, 39 anos depois de sua edição original publicada no México, Teoria e prática de um cinema junto ao povo de Jorge Sanjinés e Grupo Ukamau ganha uma versão brasileira. Publicada pela editora goiana Mmarte, é o resultado dos esforços dos realizadores e pesquisadores mineiros Sávio Leite e Lourenço Veloso, e fruto de um financiamento coletivo realizado entre novembro de 2017 a maio de 2018. Graças a esse empenho, podemos agora ter em mãos no Brasil um livro considerado incontornável para os estudos sobre o cinema latino-americano e, em especial, sobre o Nuevo Cine Latinoamericano (NCL). Aliás, salvo engano, um livro esgotado há muito tempo em sua versão original em língua castelhana e, portanto, acessível aos estudiosos apenas em bibliotecas ou em versões digitalizadas na internet. O livro é uma compilação de vários textos de autoria do Grupo Ukamau, um dos mais importantes coletivos de cinema da América Latina, criado no começo dos anos 1960 e constituído por Jorge Sanjinés, Oscar Soria, Ricardo Rada e Antonio Eguino. Após a queda do governo progressista do general Juan José Torres por um golpe de Estado, ocorrido em 21 de agosto de 1971, que implantou a ditadura do então coronel Hugo Banzer, o grupo se divide com a partida de Sanjinés para o exílio, onde continuou a realizar um cinema político e militante, enquanto os que permaneceram na Bolívia se voltaram para um cinema “de esquerda” para o grande público. Assim, a obra reúne textos, comunicações em seminários, depoimentos, entrevistas, trechos de roteiros, depoimentos de camponeses, fichas técnicas e resumos dos filmes do Grupo Ukamau e de Sanjinés no exílio. Na versão brasileira, a filmografia foi atualizada, acrescentando a obra de Jorge Sanjinés realizada a partir de seu retorno à Bolívia, ou seja, do começo da década de 1980 até os anos 2010. Sem dúvida, já na concepção de sua edição original, a figura-chave do livro é o diretor Jorge Sanjinés, o que é expresso pela forma como é dada a autoria ao livro (uma publicação de Jorge Sanjinés e do Grupo Ukamau). Logo, é concebível que a filmografia atualizada seja apenas a de Sanjinés e não a dos demais integrantes do Grupo Ukamau. Cabe aos interessados buscar que tipo de cinema, em termos estéticos e teóricos, foi realizado pelos demais membros do grupo após a sua cisão no começo da década de 1970. Desse modo, trata-se de um importante contraponto para entendermos os rumos que o cinema boliviano tomou após a derrubada de um governo militar progressista e o subsequente alinhamento político-ideológico da Bolívia às outras ditaduras do Cone Sul. Não podemos deixar de mencionar a escassíssima circulação dos filmes do Grupo Ukamau, o que é citado pelos próprios editores brasileiros do livro, que afirmam conhecer tais filmes somente graças a viagens à Bolívia, conseguindo o seu acesso na sede do Grupo Ukamau em La Paz. Os pesquisadores brasileiros de cinema latino-americano conhecem muito bem esse périplo e não faltam relatos inusitados de atitudes quase paranoicas que explicam a restrição da circulação dessas “obras subversivas”, além do constante e infeliz desconhecimento mútuo da produção audiovisual e teórica entre os vizinhos latino-americanos.

Podemos afirmar que o livro é a voz do Grupo Ukamau e, em especial, de Jorge Sanjinés, não no sentido de tecer uma “memória oficial” - embora seja significativo o ano de sua primeira edição, 1979, mesmo ano do 1º Festival de Havana, ponto de clivagem de uma sistematização discursiva do NCL -, mas de buscar sistematizar as concepções teóricas que explicam as mudanças estéticas ocorridas nos filmes. Ou seja, o grande mérito do livro é tentar sistematizar as ideias do grupo e de Sanjinés surgidas a partir dos desafios estético-ideológicos postos pela realização de cada filme. Nesse sentido, Sanjinés se alinha ao rol de cineastas-teóricos, que buscam refletir sobre a própria produção fílmica. Em seu caso, em prol de um aperfeiçoamento estético provocado pelas conjunturas políticas e movido por uma clara e coerente linha ideológica, muito bem resumida do seguinte modo:

Afastar-se das formas conservadoras de cinema, buscar um outro caminho, inspirado no modo de pensar del pueblo indio de Bolívia - esta a preocupação que impulsiona Sanjinés desde seus primeiros trabalhos. (AVELLAR, 1995, p. 220)

Sem sombra de dúvida, uma das características mais impressionantes da obra de Jorge Sanjinés é a sua capacidade de se reinventar. Fortemente marcado em sua origem pelo cinema construtivista soviético dos anos 1920, o Grupo Ukamau precisou recriar os seus procedimentos estéticos para se aproximar de uma concepção coletiva da criação do quadro fílmico, ao formular planos longos e abertos aptos para a atuação improvisada dos não atores do filme. Assim, foram sendo formulados procedimentos estéticos que buscaram se vincular tanto à mentalidade de caráter comunitário, inerente aos povos andinos, quanto à abertura para a expressão espontânea da memória popular dos próprios sobreviventes dos casos de repressão retratados nos filmes. É seguindo esse caminho que Sanjinés formula a sua concepção do “plano-sequência integral”, posto em prática no longa La nación clandestina (A nação clandestina, 1989), uma obra no meio do caminho de sua volta ao público tradicional das salas de cinema e não mais voltado às comunidades rurais indígenas. Como o próprio título do filme frisa, a história da Bolívia é marcada pela brutal repressão a uma nação clandestina, formada pela secular cultura indígena, que, enquanto for sufocada, fará a Bolívia continuar sendo um país dividido e condenado à violência. Continua nesse caminho ao rodar Para recebir el canto de los pájaros (Para receber o canto dos pássaros, 1995), filme que aborda as gravações de um filme histórico sobre a conquista espanhola, ocasião para ficcionalizar algumas experiências ocorridas pelo próprio Grupo Ukamau nos anos 1960 e refletir sobre a atualidade do colonialismo e do racismo em nossas práticas diárias. Em seguida, Sanjinés roda o seu primeiro longa-metragem digital, Los hijos del último jardín (Os filhos do último jardim, 1999), no qual busca dialogar com o público urbano jovem, convidando essa juventude pós-Guerra Fria, incrédula com a atividade política e os movimentos sociais, a se voltar ao universo indígena, no qual se encontra o esteio do povo boliviano e um contraponto ao individualismo exacerbado do neoliberalismo. Por último, alinhado com o governo de Evo Morales, Sanjinés se converte em um “poeta épico” da resistência do povo boliviano, ao louvar a história da luta popular, seja de modo amplo, como em Insurgentes (Insurgentes, 2012), que traça um panorama da Bolívia, da Guerra do Chaco à eleição do primeiro presidente indígena do país, seja pelo intuito de fazer uma revisão histórica das guerras de independência da América Latina sob a perspectiva do popular, em Juana Azurduy, guerrillera de la Patria Grande (Juana Azurduy, guerrilheira da Pátria Grande, 2016). Em suma, é impressionante constatar uma obra que possui admirável coerência ideológica e que se manifesta sob os mais variados procedimentos estético-narrativos. Tais mudanças não se devem apenas a fatores conjunturais, mas também pela busca de diálogo com um determinado público. Característica, aliás, de todo e qualquer “cinema político”. Grosso modo, Sanjinés busca romper com uma concepção ocidental de cinema ao se pôr o desafio de expressar em termos audiovisuais a mentalidade dos povos indígenas do altiplano andino. No entanto, Sanjinés, em sua maturidade, realiza um caminho de volta ao público urbano das salas de cinema, com o objetivo de introduzi-lo ao universo indígena, no qual ele crê estar a força das classes populares dos países andinos. Nesse meio tempo, não podemos deixar de citar o trabalho capitaneado por seu filho, Iván Sanjinés, responsável pela produção e formação de cineastas de um importantíssimo cinema realizado por comunidades indígenas na Bolívia, que inclusive é referência para outros países. Talvez essa seja a principal herança do Grupo Ukamau.

Obviamente, por razões cronológicas, o livro Teoria e prática de um cinema junto ao povo se refere ao período de formação e consolidação do Grupo Ukamau. Por ser uma coletânea de textos dos mais variados tipos, o livro não possui um caráter acadêmico. Por isso, para quem desconhece a filmografia abordada, pode tornar a leitura, às vezes, um pouco confusa, mas desse modo podemos captar que se trata de uma reflexão teórica que está sendo articulada durante o processo de realização e, fundamentalmente, de recepção dos filmes pelo público desejado, formado por camponeses, operários e indígenas. Ou seja, o livro não é um rígido ensaio estético, formulado a priori ou a posteriori do processo da criação artística do Grupo Ukamau e de Jorge Sanjinés. O seu próprio formato de collage de vários tipos de textos (artigos, entrevistas, comunicações, trechos de roteiros, fichas técnicas e depoimentos de espectadores dos filmes) manifesta um pensamento dinâmico, de caráter dialético e movido pela inter-relação entre os processos de criação, circulação e recepção dos filmes. Não podemos deixar de citar que a edição brasileira respeita o formato de bolso das duas edições originais, o que vai ao encontro do objetivo de ser um livro que visa ser facilmente manipulável, de ampla difusão e adequado para estudos e debates em qualquer ambiente. Além disso, a versão brasileira possui um cuidadoso acabamento com fotos de toda a filmografia de Sanjinés, ou seja, para além dos filmes compreendidos pelo período cronológico tratado no livro. Há alguns raros deslizes na tradução e alguns espanholismos, mas nada que comprometa a leitura da obra em português. Somam-se dois curtos prefácios, escritos pelos dois editores da versão brasileira, nos quais relatam a origem da ideia e o objetivo de traduzir um livro fundamental para o pensamento do cinema latino-americano. Não há nenhum texto mais amplo de apresentação sobre o Grupo Ukamau, de todos os seus integrantes e os rumos tomados por cada um deles ou sobre a relevância do grupo na cinematografia boliviana, em particular, e na latino-americana, em geral. A exceção é a atualização da filmografia de Sanjinés. Optou-se, portanto, por preservar o formato original do livro, sem pretender, em textos anexos, explicar ao leitor brasileiro sobre o cinema na Bolívia e/ou formular uma reflexão de caráter histórico e crítico da produção abordada na obra.

Assim, a edição brasileira de Teoria e prática de um cinema junto ao povo busca respeitar ao máximo o espírito original do livro, em seu objetivo de coligir as ideias formuladas por Jorge Sanjinés e pelo Grupo Ukamau no objetivo de criar “um cinema junto ao povo” e, por conseguinte, de oferecer ferramentas para pensar o que é um cinema político na América Latina - mais especificamente, nos países do altiplano andino. Desse modo, o livro se torna uma referência obrigatória para os estudos de cinema latino-americano, pois verte para o nosso idioma uma obra considerada clássica do pensamento estético e ideológico do Nuevo Cine Latinoamericano (NCL). Por isso, as atuais pesquisas de caráter historiográfico acerca do NCL têm tudo a ganhar com a presença de um texto-chave para a formulação desse movimento. Mais do que isso, o livro também visa despertar o interesse do leitor brasileiro para uma cinematografia ainda desconhecida por nós. E, por último, não podemos deixar de considerar algo de caráter fundamental: a atualidade do livro e, em especial, da versão brasileira, o que pode soar estranho para leitores contemporâneos desacostumados com um certo teor marxista presente na obra e démodé para sensíveis ouvidos pós-modernos. Primeiramente, a sua publicação ser oriunda de um financiamento coletivo. Nada tão contemporâneo e, ao mesmo tempo, tão afinado ao espírito dos grupos coletivos de cinema político, que fremiram a produção audiovisual em vários países - não apenas na América Latina - nos anos 1960 e 1970. Aliás, engana-se quem crê que esse tipo de produção fílmica se restringe a esse período. Com o advento da tecnologia digital e com os movimentos antiglobalização e de resistência à onda neoliberal, podemos testemunhar a criação de vários coletivos de cinema a partir dos anos 1990. Com o novo século, vemos despontar uma ampla produção audiovisual realizada nas periferias urbanas e rurais, que em geral circula pela internet. Por fim, mas não menos importante, é a contribuição da obra fílmica e teórica do Grupo Ukamau para o Brasil dos dias de hoje. Diante da desastrosa implantação de um governo ultraconservador em sua sanha de destruição da área cultural e de políticas sociais, calcada na cínica e tosca combinação de um discurso demagogo fascista com práticas neoliberais, a contribuição teórica do Grupo Ukamau é mais atual do que nunca. Irônica e tragicamente, as quase quatro décadas que separam a edição original da versão brasileira do livro expressam o quanto a roda da História é imponderável e como, lamentavelmente, pode girar de modo colossal para trás. Leitura obrigatória para refletir sobre o papel do cinema em tempos difíceis.

Referências

  1. (). . . São Paulo: Editora 34: Edusp. .
  2. , , (Translator), (Translator) (). . . Goiânia: Mmarte. .