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Via Atlântica

A Revista Via Atlântica, publicação semestral do Programa de Pós-Graduação de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo, tem por objetivo levar aos estudiosos, do Brasil e do Exterior, resultados de investigações desenvolvidas por especialistas nas áreas de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, Literatura Comparada, Literatura Infantil e Juvenil, Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa e de outras literaturas e culturas  que se expressam em português. Faz parte ainda do escopo da Via Atlântica a publicação de artigos que tratem das relações interdisciplinares da Literatura com outras Linguagens e com outras Formas do Saber. A publicação abrange, além de um Dossiê temático, outros trabalhos inéditos sob a forma de Ensaios, Artigos, Entrevistas e Resenhas de livros de interesse para os Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa e áreas correlatas. A revista Via Atlântica está inserida na área temática de Outras Literaturas Vernáculas, conforme tabela de áreas do conhecimento do CNPq (8.02.07.00-6).


Revista do Programa de Pós-graduação de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa

Notícias

 

CHAMADA DE ARTIGOS / CALL FOR PAPERS: Dossiê 29: Literatura e Medicina

 

Título: “Tecidos do humano: literatura e medicina”

Desde as origens do que costumamos chamar “literatura”, as formas verbais de arte, como modos subjetivos de conhecimento, ao expressarem o humano, referem-se também aos males do corpo como maneiras de estar-no-mundo. Do mito grego de Esculápio ressuscitando mortos às descrições corpóreas de Rabelais, passando pela tísica de Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu, pelo sofrimento do narrador de Graciliano Ramos em “Paulo”, pela textualização da morte em Cecília Meirelles, do câncer, na Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, do acidente vascular cerebral, em José Cardoso Pires, até a loucura de Policarpo Quaresma, a miopia do Miguilim de Rosa, a cegueira branca de José Saramago, a corporalidade e suas dores sempre estiveram presentes na literatura, bem como aqueles a quem coube a tarefa de tratá-las e, talvez, curá-las. As doenças, por sua vez, como bem demonstrou Susan Sontag, podem também metaforizar(-se), instituindo processos em que a vida imita a arte e seus modos de ser e fazer – e não o contrário.  

Ao mesmo tempo, a par de um crescente predomínio dos modelos tecnocientíficos nos cuidados de saúde, vem aumentando, mesmo nos meios biomédicos, a consciência de que toda prática de saúde é permeada de linguagem, e de que apenas um maior conhecimento dos modelos textuais, muitos deles provenientes da própria literatura, pode possibilitar ao profissional da saúde não apenas uma maior compreensão dos pacientes e seus males, mas também oferecer alternativas especificamente linguísticas de ação concreta sobre as doenças, os doentes e os processos de cuidado e cura. Nesse sentido é que se desenvolveu, nos últimos quinze anos, o campo da chamada Medicina Narrativa, que vem buscando na literatura e nos estudos da linguagem outras abordagens para o aprimoramento da Medicina e áreas afins. Segundo Paul Ricoeur, “[o] problema epistemológico levantado, quer pela metáfora, quer pela narrativa, consiste em grande medida em ligar a explicação empregada pelas ciências [...] à compreensão prévia que decorre de uma familiaridade adquirida com a prática linguageira” (em Tempo e narrativa).

No meio acadêmico brasileiro, o estudo da relação interdisciplinar entre literatura e medicina encontra-se em franca expansão, estabelecendo, em conjunto com outras aproximações teóricas, uma compreensão mais ampla e renovada do comparatismo em vários campos do saber. Trata-se, assim, não somente da comparação inter-textos, ou mesmo inter-artes, mas, de modo ainda mais profundo, de assumir o comparatismo como modelo privilegiado de conhecimento. Se, como afirmou Antonio Candido, toda literatura é uma forma de humanização, trata-se, aqui, de afirmar o caráter singular da arte como forma de acesso ao humano em sua corporalidade e sua incontornável finitude.

Desse modo, este número da revista Via Atlântica, reafirmando o compromisso deste periódico com o comparatismo e com a interdisciplinaridade, abre espaço para a discussão e compartilhamento de pesquisas e trabalhos nesse novo campo do saber.

 
Publicado: 2015-07-24 Mais...
 
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n. 25 (2014)


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