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CHAMADA DE ARTIGOS / CALL FOR PAPERS: Dossiê 33: Queerizar o cânone luso-afro-brasileiro

Segundo a etimologia, a palavra «cânone» deriva da palavra grega kanôn, que significa «caniço» ou «bengala», e por extensão, «norma» ou «regra». Na sua origem, o «cânone» tinha uma conotação religiosa, dado que delimitava a «lista oficial» das Escrituras dignas de serem incorporadas numa coletânea de escritos inspirados por Deus: a Bíblia. Assim, o termo canónico «tanto faz referência à qualidade presumida de um texto incluído quanto ao status que o texto adquire por pertencer a uma coletânea considerada com autoridade. As religiões conferem um caráter sagrado aos seus textos canónicos, dando muitas vezes a entender que, se não foram escritos por um autor divino, foram-no pelo menos por uma autoridade divina.» (POLLOCK, 2006, p. 3). As universidades e o mundo académico secularizaram o termo «cânone» incorporando ao mesmo tempo a dimensão “sagrada” das obras-primas e dos seus criadores, cuja aura perdura. Sendo assim, determinam e consagram o que, numa dada cultura, merece ser lido, visto, ouvido ou, pelo contrário, esquecido ou apagado.

O termo «queer», como se sabe, oriundo da Língua Inglesa, foi incorporado ao vocabulário acadêmico das diversas línguas ocidentais na medida em que a queer theory se disseminou pela Europa e pela América Latina. Com efeito, contrariamente à identidade gay, «a identidade queer não precisa de se basear numa verdade, qualquer que seja, ou numa realidade estável. Como o indica a própria palavra, queer não designa nenhuma espécie natural, nem remete para nenhum objeto determinado; adquire o seu sentido na sua relação com a norma. Queer designa assim tudo o que não condiz com o normal, o dominante, o legítimo. […] Portanto, o queer não delimita uma positividade mas uma posição em relação ao normativo – posição que não é unicamente reservada aos gays e às lésbicas, mas acessível a qualquer pessoa que é ou se sente marginalizado por causa das suas práticas sexuais» (HALPERIN, 2000, p. 75-76). «Queerizar» é verbo, ação, portanto, de relativizar olhares pré-estabelecidos sobre objetos culturais por coloca-los em deriva, desestabilizando-os dos lugares que confortavelmente ocupam na cultura.

As práticas queer são o reflexo de uma resistência à homogeneização cultural, uma «resistência mais firme perante os regimes da normalidade» (WARNER, 2013 p. 16), nomeadamente a heteronormatividade, já que «considerar ainda hoje a heterossexualidade como uma evidência comprova a força do pensamento straight» (KATZ, 2001, p. 152.)

O senso comum admite que só existem dois sexos opostos, uma delimitação que surgiu, segundo Eve Sedgwick, nos finais do século XIX e iinício do século XX, momento a partir do qual «foi atribuído a cada pessoa um género (masculino ou feminino) mas também uma sexualidade (homo ou hetero), uma identidade binária com consequências graves, por vezes confusas, inclusive nos níveis aparentemente menos sexuais da vida pessoal» (SEDGWICK, 2008. p. 2.) O dossiê propõe observar como autoras/es, realizadoras/es ou artistas conseguiram, em Língua Portuguesa, abalar as noções de identidade sexual, o binómio homem/mulher, assim como as oposições entre natureza/cultura, sexo/género, hetero/homo.

Ora, segundo a teoria queer, convém instaurar o gender trouble (BUTLER, 2005.) já que o género se constrói «através de diversas tecnologias [...] (o cinema por exemplo) e os discursos institucionais (a teoria por exemplo) que têm o poder de controlar o campo das significações sociais, e logo de produzir, promover e “implementar” representações do género.» (LAURETIS, 2007. p. 75) Por conseguinte, convém separar «a sexualidade do género» que não «é redutível à heterossexualidade hierárquica», mas também descortinar essas “tecnologias do género”, uma construção da qual se poderia dizer «que toda a arte e cultura da elite ocidental são o reflexo» (LAURETIS, 2007, p. 41).

Esse “gender trouble” poderá até ser ultrapassado para ver como as subculturas queer apontam no sentido de uma «desorientação sexual» (BOURCIER, 2011, p. 331), uma «contra sexualidade» (PRECIADO, 2000), que, além de desconstruir o sistema sexo/género, «faz explodir o pensamento binário genital (pénis/vagina)» (SAEZ, 2005, p. 101.).

ORGANIZAÇÃO: Alda Lentina (Dalarna University, Suécia), Fernando Curopos (Université de Paris IV, França), Mário Lugarinho (Universidade de São Paulo, Brasil), Paulo Pepe (University of Birmingham, Reino Unido).

PRAZO PARA ENVIO DE ORIGINAIS: 31 de outubro de 2017.

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