Dossiê 36: A Literatura-Mundial e o Sistema-Mundial Moderno

2018-10-10

Atribui-se a Goethe tradicionalmente a cunhagem do termo Weltliteratur, conceito que tem vindo a ser desenvolvido e aplicado de maneiras múltiplas desde então e que representa hoje em dia – principalmente na sua versão inglesa, World Literature – um dos campos mais férteis e mais contestados dos estudos literários.  Aliás, o próprio termo resiste a uma tradução simples, pois o seu significado é sutilmente alterado em várias línguas. Se inicialmente o termo já designava um desejo cosmopolita, ainda padecia naturalmente de uma visão tradicional e diretamente associada a noções românticas de gênio e do que deveria ser o cânone de grandes autores.  Depois de ser usado principalmente para referir um grupo de grandes expoentes da literatura ocidental, com raras inclusões de outras culturas, o conceito de World Literature começou a ser explorado e debatido em vários contextos académicos e teóricos. Sarah Lawall, Cristopher Prendergast, Pascale Casanova, Franco Moretti, David Damrosch, Emily Apter, entre outros, contribuíram vigorosamente para trazer à luz algumas das questões fundamentais sobre os estudos literários no presente.

Franco Moretti, em dois ensaios fundamentais, “Conjectures on World Literature” (2000) e “More Conjectures” (2003), publicados na New Left Review, assumiu uma posição distinta e com ramificações heurísticas para uma reconceituação, além do cânone tradicional, e com base no fundamento proporcionado pela teorização do Sistema-Mundial Moderno de Immanuel Wallerstein. Em 2015, com a publicação de Combined and Uneven Development: Towards a New Theory of World-Literature, a Warwick Research Collective (WReC) lançou as bases para se poder aplicar as sugestões de Moretti e a teoria de Wallerstein de modo sistemático e metódico numa perspectiva materialista. A definição de World-Literature sugerida pela WReC é simples: a literatura-mundial é a literatura do sistema capitalista moderno.  Uma das preocupações subjacentes à proposta da WReC centra-se nas relações entre centro e periferia e na necessidade de as pensar de modo diferente: não só recusando a primazia assumida pelo centro, como reconhecendo que a modernidade, tal como Fredric Jameson propõe, é singular. Esta teorização da Literatura-Mundial – refletindo a designação de Wallerstein – entende-se como uma forma de teoria crítica oposta à hegemonia cultural, política, e económica do presente que se apropria de tudo e todos ao mesmo tempo que alastra e expande o manto da desigualdade.

O debate sobre o conceito de Literatura-Mundial necessita levar em conta realidades múltiplas. As várias literaturas de língua portuguesa, no seu tênue equilíbrio entre centro e periferia, constituem um campo privilegiado para se pensar a Literatura-Mundial. Não se trata de ver a literatura brasileira ou portuguesa ou angolana e todas as escritas em Língua Portuguesa, ou, tampouco, algumas obras mais reconhecidas, tal como O Manifesto Antropofágico, Os Lusíadas, ou Luuanda como figurando nas constantes antologias da Literatura Universal, Global ou Planetária, mas, sim, trata-se de pensar em como essas literaturas, ou “obras primas” contribuem para uma reconfiguração da Literatura-Mundial.

Deste modo numa tentativa de alargar este trabalho urgente de pensar a Literatura-Mundial, de modo teórico e sistemático, não só na sua viabilidade no contexto das literaturas de língua portuguesa, como em relação com, e a partir de, um contexto tido como periférico em geral, o número 36 da revista Via Atlântica convida para a publicação de artigos e ensaios sobre A Literatura-Mundial e o Sistema-Mundial.

ORGANIZAÇÃO: Emmanuelle Santos (Universidade de Birmingham), Mário César Lugarinho (Universidade de São Paulo) e Paulo de Medeiros (Universidade de Warwick).

PRAZO PARA ENVIO DE ORIGINAIS: 10 de outubro a 30 de abril de 2019.

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