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Andar por São Paulo – A mobilidade como expressão dos anseios, ideais e hábitos da população

Por Margareth Artur, Sistema Integrado de Bibliotecas da USP, São Paulo, Brasil

Como acontece o deslocamento das pessoas na cidade de São Paulo? Como ocorre esse caminhar para o trabalho, para o banco, para o cinema, caminhar como forma de exercício, ou caminhar à toa, para espairecer, para relaxar, enfim? Quando se fala em deslocamento urbano, mobilidade urbana, fala-se também sobre “a construção da cidade que essa viagem produz, intermediada por aqueles que o fazem e como fazem”, e como isso vem ocorrendo ao longo do tempo.

Marcia Sandoval Gregori,  em seu artigo recém-publicado na Revista Ara, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, apresenta-nos, nesse estudo, a mobilidade  urbana  analisada a partir de sua “imaterialidade”, ou seja, seus aspectos socioculturais e subjetivos, para investigar “como essa imaterialidade adquire diferentes  faces  concretas, advindas do papel social que o mover‐se pela cidade ocupa e que expressam desde as disputas locais até as diretrizes político‐econômicas nacionais  e  internacionais”, buscando  propor uma reflexão sobre a adequação dos meios de deslocamento pela cidade, suas contradições e implicações.

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Nesse contexto, a autora nos conta que, com o surgimento do capitalismo e dos decorrentes fatores econômicos, culturais e ideológicos, desde os anos 1950 o automóvel se tornou um exemplo de deslocamento ou da mobilidade mais popular e valorizada da época, “uma das imagens síntese do século XX“. Na cultura do automóvel, observa-se “a questão da velocidade, da virilidade, do sucesso, do descompasso entre o velho e o novo, o trem e o carro“, refletida tão bem na música Trem das onze, de 1964, em que Adoniran Barbosa informa que, se ele perder o trem da noite, “só amanhã de manhã“; em 1969, na contrapartida, Roberto Carlos  estoura nas paradas com a música As curvas da estrada de Santos, na apologia do automóvel e da velocidade.

Em São Paulo, movimentar-se ou deslocar-se é tarefa difícil, e a solução para o problema esbarra nos interesses econômicos, subjetivos, padrões apregoados pelas mídias a incentivar o individualismo e o conforto, exclusivo do automóvel, por exemplo. Com a Lei da Mobilidade Urbana, em 2012, houve a tentativa de priorizar-se as políticas públicas, em que se vê o ônibus como solução barata de deslocamento, mas esse transporte coletivo é o “’patinho feio’na construção da representação da cidade, visto que o metrô evita os congestionamentos, garante a rapidez e bom serviço“, explica a autora. A bicicleta, por sua vez, surge como opção de um novo modo de locomoção e de vida.

O que é melhor? O transporte público, a bicicleta, o carro elétrico sem motorista? Mas, afinal, a “grande massa” precisa ser “mantida em seu devido lugar”, aturando transporte público precário? Em 2013, o Movimento Passe Livre contra o aumento das tarifas gerou a discussão sobre a importância do transporte coletivo para a vida da cidade. Mas as mudanças são lentas no nível das propostas e políticas públicas, e, de acordo com Gregori, é preciso “encarar  as faces ‘ocultas’ da mobilidade, negativas ou positivas: segregação; discriminação de gênero, raça e cultura; possibilidade de diversidade, acesso à cidade e cidadania; ecologia, entre outras“.

Para que o caráter coletivo da mobilidade predomine sobre o individual é fundamental lidar-se com essa outra dimensão: levar em conta os anseios, os ideais, as “práticas e dinâmicas da população que usa e depende do transporte coletivo quando se movimenta  pela  cidade e até  quando  é  impedida  de  fazê‐lo“. É urgente transformar as dinâmicas das relações socioeconômicas e de poder, acender as memórias esquecidas, “humanizar a massa”  e “amplificar a voz silenciada de muitos dos personagens que fazem a cidade“.

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Artigo

GREGORI, Marcia Sandoval. Mobilidade em São Paulo: Faces Concretas de um Objeto Imaterial. Revista ARA, São Paulo, n. 1, p. 43-73, oct. 2016. ISSN 2525-8354. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/revistaara/article/view/121779>. Acesso em: 02 dec. 2016.

Contato

Marcia Sandoval Gregori – Arquiteta e urbanista, doutoranda na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, Brasil. E-mail:  E-mail: marciagregori@hotmail.com





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