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A proposta de telejornalismo em libras deve respeitar a cultura surda

Hoje, um dos meios mais eficientes de estar-se informado sobre o que se passa do outro lado do planeta são as mídias eletrônicas, a comunicação direta entre o sujeito e o mundo. Em relação ao atual jornalismo televisivo, como transmitir as informações de maneira a mais fiel possível para o telespectador que não ouve? Alguns canais possuem programas que apresentam um(a) intérprete que traduz as reportagens faladas a quem não escuta por meio de gestos dirigidos, como se fosse um código o qual, na verdade, é a língua de sinais, as Libras.

Com a criação da Lei n. 10.098, conhecida como Lei da Acessibilidade, não deveria haver limites para as pessoas que não ouvem estarem tão bem informadas quanto as que ouvem, pelo menos em um universo de pessoas ouvintes. “Apesar de hoje não ser adequado conceituar surdez como deficiência, a lei foi um importante marco para que os veículos de informação voltassem seus esforços para serem compreendidos por pessoas historicamente impedidas de acessá-los formalmente porque os veículos não eram pensados para pessoas não ouvintes“, esclarece o artigo da revista Anagrama. Os autores analisam o que tem sido feito, no jornalismo da TV e do Rádio, na busca de “uma comunicação efetiva entre a cultura ouvinte e a surda“, quais as melhores formas de abordagem sobre a questão, na tentativa de propor um exemplo de telejornalismo em Libras.

De acordo com os autores, o foco no jornalismo se deve ao motivo de este atuar como grande intermediário entre governo e cidadãos, como um “ramo da comunicação social que adapta linguagens e discursos devido ao fato de intercalar o caminho entre a informação e a sociedade“. As Libras se tornaram a segunda língua oficial do Brasil somente em 2002. Hoje, grande parte dos sujeitos que não escutam e dependem da comunicação visual para se comunicar são surdos que formam a comunidade surda e estão “em contato direto com os artefatos culturais surdos, incluindo os intérpretes e familiares de sujeitos surdos”. Está-se falando sobre a cultura surda, que  é “o jeito surdo de entender o mundo e de modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável, ajustando-o com as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas”.

Muitas pessoas ouvintes se admiram diante das descobertas da cultura e da comunidade surdas. Os autores enfatizam que “A cultura/política ouvintista” se refere “à prática colonizadora do sujeito ouvinte que caracteriza o sujeito surdo como não pertencente à sua cultura“, e o surdo, na citação de  Carlos Skliar, é “obrigado a olhar-se e narrar-se como se fosse ouvinte”. A pesquisa mostra que os pais de filhos surdos são, em 95% dos casos, ouvintes, e ignoram a existência de uma cultura surda que conta com uma língua própria, a Língua de Sinais, a língua materna dos sujeitos surdos, e que a surdez não é uma perda, não é uma doença que precisa ser curada, mas um outro modo de estar no mundo, de observar, de expressar-se, de ser – existe vida além da fala.

Sobre as experiências de narrativas de Rádio para surdos, essas vão além do som, entrando em cena a multiplataforma (webrádios e podcasts) que conta com recursos gráficos e visuais como “infográficos, transcrições e vídeos“. Finalizando, os autores explicam que os resultados da pesquisa mostram que Língua de Sinais é, de fato, a primeira língua dos surdos, e não o português, no caso brasileiro. Em vista disso,  ressalta-se a urgente necessidade de adaptação das narrativas gráficas em produções visuais jornalísticas, sem esquecer o respeito à cultura surda. 

Artigo

MEDEIROS,  D. de Souza; FALAVINA, I. de Oliveira; BALDESSAR, M. Narrativas jornalísticas para o povo surdo. Anagrama, São Paulo, v. 12, n. 2, 2018. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/anagrama/article/view/150689. Acesso em: 25 abr. 2019. 

Contatos

Diogo de Souza Medeiros – Acadêmico do curso de Jornalismo da UFSC e bolsista CAPES/PIBIC. e-mail: diogome_deiros@hotmail.com 

Iraci Helena de Oliveira Falavina – Acadêmica do curso de Jornalismo da UFSC e bolsista CAPES/PIBIC. e-mail: iracifalavina2@gmail.com 

Maria José Baldessar – Doutora em Ciências da Comunicação e professora do curso de Graduação em Jornalismo/UFSC e dos programas de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento e Estudos da Tradução.

Margareth Artur – Portal de Revistas USP

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