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Lima Barreto e a “escrita de si” – a literatura que se confunde com a vida pessoal

Foto: Acervo Biblioteca Nacional

Lima Barreto, autor de O triste fim de Policarpo Quaresma, hoje um clássico da literatura brasileira, nasceu no dia 13 de maio de 1881, e tomou a data como “predestinação” em sua vida, visto toda sua obra representar “uma forma de revisão crítica do período em que existiam escravizados no Brasil e do contexto do pós-emancipação“. O artigo da revista Estudos Avançados aborda como boa parte da criação literária de Lima Barreto remete sempre à sua pessoa. Vida e obra se confundem, o escritor “ficcionaliza sua própria vida”, gerando a “escrita de si”. Prova disso é que três de seus personagens prediletos, Gonzaga de Sá, Isaías Caminhas e Vicente Mascarenhas são funcionários, como o escritor, sofrendo com o racismo, o preconceito e a discriminação social que os negros e negras vivenciaram nesse período da pós-emancipação.

Os personagens presentes na obra do escritor contam com características semelhantes, seja na maneira de viver e onde – nos subúrbios cariocas -, seja na atuação como funcionários públicos: “Sua literatura, ao mesmo tempo que espelha, também cria o contexto que o viu nascer“, afirma a autora. Arrimo de família, Lima se deparou com diversas perseguições devido à cor de sua pele e aos seus posicionamentos que “denunciavam uma sociedade predominantemente racista“. Além de romancista, Lima Barreto escreveu cartas, peças de teatro, romances, contos, crônicas, atuando também como jornalista em um momento crucial da história do Brasil, “o período após a libertação dos escravos“. Com a República e a “pós-emancipação“, nunca se acreditou tanto na utopia pela inclusão social. Como ela não veio, o escritor denunciou a exclusão, a discriminação e lutou pela efetiva igualdade e legítima liberdade.

Para a autora, Lima Barreto foi “uma voz aguda, e muitas vezes solitária“, no Brasil da Primeira República, “que o distinguia dos demais literatos de época“, contra o racismo vigente no Brasil, os estrangeirismos e a realidade da pobreza que migrava da capital para as periferias do Rio de Janeiro. O escritor também jamais negou que fazia “literatura de si”, chegando mesmo a confundir-se com sua história pessoal, “com uma certa história do Brasil que prometeu inclusão, mas entregou muita exclusão social“. Na verdade, seus fantasmas são seus próprios personagens, e “sua obra de ficção acabava ganhando realidade nele mesmo“. O diário do hospício, o livro escrito quando internado no Manicômio Nacional, “é tanto relato de sua realidade quanto peça de ficção“. Loucura e racismo dialogam nessa e em outras obras.

Em Triste fim de Policarpo Quaresma, uma espécie de “D. Quixote Nacional”, Policarpo se parece com seu criador: repleto de ideias que nunca se realizam. Lima Barreto, ao mesmo tempo em que desejava estar próximo do ambiente literário, desprezava-o, assim como em relação a alguns costumes dos subúrbios e de seus vizinhos. Lima bem representou uma voz dissoante na literatura ao denunciar o constrangimento, ou mesmo a humilhação que a população negra enfrentava. O artigo ressalta que, se a fotografia naquele momento era instrumento “das elites e das populações brancas“, com relação aos negros havia um constrangedor silêncio, com as imagens não captando  personalidades negras ou afrodescentes, que acabavam “branqueadas” pela tecnologia, certamente “não pelo tempo, mas por efeito do racismo estrutural e institucional vigente no Brasil“. 

Artigo

SCHWARCZ, L. Lima Barreto e a escrita de si. Estudos Avançados, São Paulo, v. 33, n. 96, p. 137-153, 2019. ISSN: 10. 1590. DOI: https://doi.org/10.1590/s0103-4014.2019.3396.0009. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/eav/article/view/161285. Acesso em: 30 out. 2019.

Contato

Lilia Moritz Schwarcz – Professora titular no Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, atuou como visiting professor em Oxford e Princeton, onde é professora visitante desde 2010, entre outras instituições. e-mail:  lili.schwarcz@gmail.com

 

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