Composição Florística e Estrutura das Florestas Estacionais Decíduas Sobre Calcário a Oeste da Cadeia do Espinhaço, Minas Gerais, Brasil

Autores

  • M. Meguro Departamento de Botânica USP
  • J.R. Pirani Departamento de Botânica USP
  • R. Mello-Silva Departamento de Botânica USP
  • I. Cordeiro Departamento de Botânica USP

DOI:

https://doi.org/10.11606/issn.2316-9052.v25i2p147-171

Palavras-chave:

deciduous forest, dry forest, seasonal tropical forest, calcareous rock, phytossociological structure, floristic composition, Minas Gerais

Resumo

Visando contribuir para o conhecimento dos fragmentos de florestas estacionais decíduas ainda existentes em diferentes áreas do país e de suas relações entre si e com a vegetação dos entornos, este trabalho traz a caracterização fisiográfica e as relações estruturais e florísticas de seis manchas desse tipo de floresta sobre afloramentos de calcário (Formação Bambuí) existentes no flanco oeste da Cadeia do Espinhaço em Minas Gerais. A característica fundamental dessas matas e o padrão decíduo, que resulta numa fisionomia marcante e detectável a longa distância na época seca. Por isso, o trabalho buscou também verificar o grau de similaridade da flora das malas estudadas com outras florestas decíduasdo Brasil. 296 espéciesde plantas vasculares foram amostradas nas matas sobre calcário adjacentes ao Espinhaço, sendo as famílias de maior riqueza especifica as Leguminosae (33 spp.), Euphorbiaceae sensu stricto (18 spp.), Bignoniaceae (13 spp.), Malvaceae sensu lato (13 spp.), Apocynaceae sensu lato (11 spp.) e Sapindaceae (11 spp.). Todas as outras famílias são representadas por menos de dez espécies. As comparações florísticas entre os componentes arbóreo-arbustivos efetuadas entre duas das matas estudadas junto ao Espinhaço (Santo Hipólito e Serra do Cipó) revelaram baixa similaridade (índices de Jaccard 17,85% e de Sörensen 30,30%), com apenas 25 espécies comuns do total de 165. Da mesma forma, as comparações dessas duas matas com outras florestas decíduasdo país (Bacia do Rio Paranã em Goiás, floresta Atlântica sobre calcário do Alto Ribeira, São Paulo) mos­traram dissimilaridade ainda mais marcante (ISj inferiores a 5,5 % e ISso inferiores a 10%). O trabalho explora alguns aspec­tos fisiográficos e estruturais mais detalhados sobre a mata da região de Santo Hipólito, que apresenta estrutura de pequena complexidade, com densidade dos componentes lenhosos com diâmetro superior a 2,5 cm de 3300 por hectare, distribuídos entre 28 espécies. Lenhosas com diâmetro igual ou superior a 5 cm contabilizaram 1790 indivíduos por ha. O estudo fitos­- sociológico traz também os dados de frequência e dominância relativas e o valor de importância (VI) das espécies arbóreas e arbustivas com diâmetro (DAP) igual ou superior a 2,5 cm. As espécies com maiores valores de importância nessa floresta são Myracrodruon urundeuva e Anadenathera colubrina, muito bem distribuídas e abundantes, mas com área basal mediana; Ficus calyptroceras, com alta dominância relativa, apresenta, como Ceiba pubiflora e Sterculia striata, indivíduos de porte avantajado, mas de frequência e densidade baixas. Entre as árvores de porte menor, Dilodendron bipinnatum,Dalbergia folio­losa, Acacia piauhiensis. Tabebuia alba, Aralia warmingiana, Sapium glandulosum e Erythroxylum subrotundum apresentam frequência e densidade altas, e a distribuição das classes de altura, nas populações de cada espécie, mostrou-se bastante regular e contínua. As análises revelaram, na mata de Santo Hipólito, um solo eutrófico com características químicas bem diversas dos solos litólicos ocorrentes no Planalto do Espinhaço adjacente, e com déficit hídrico sazonal. Algumas dessas espécies são de ocorrência característica no semi-árido nordestino sobre calcário (Formação Bambuí) ou solos férteis originários de rochas cristalinas. A principal conclusão do trabalho é que, embora a presença de um conjunto de espécies vegetais sobre substratos carbonáticos possa ser primariamente relacionada com suas características topográficas e físico-químicas particulares, a com­posição florística pode ser muito diferente em cada local estudado, estando a flora de cada comunidade localmente influenciada por características topoclimáticas e pela vegetação do entorno. A análise da distribuição geográfica das espécies arbóreas mais proeminentes das matas estudadas revela diversos padrões biogeográficos, com poucas espécies claramente restritas a matas deciduais sobre substratos carbonáticos. Isso, associado à conclusão anterior, implica que os fragmentos de matas deciduais hoje fortemente disjuntos na América do Sul podem efetivamente ser remanescentes de uma formação estacional pretérita de ampla distribuição geográfica, como já proposto na literatura recente. No entanto, eles devem ter alcançado seu atual aspecto "insular numa matriz vegetacional distinta" há muito tempo, muitos milhares ou alguns milhões de anos: tempo suficiente para que a dinâmica espaço-temporal lenha transformado profundamente a flora de cada fragmento, onde coexistem hoje espéciestípicas do substrato carbonático junto a espécies dos domínios vegetacionais adjacentes que, pela proximidade geográfica e condições ecotonais, conseguem estabelecer populações ali. 

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Publicado

2007-12-01

Como Citar

Meguro, M., Pirani, J., Mello-Silva, R., & Cordeiro, I. (2007). Composição Florística e Estrutura das Florestas Estacionais Decíduas Sobre Calcário a Oeste da Cadeia do Espinhaço, Minas Gerais, Brasil. Boletim De Botânica, 25(2), 147-171. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9052.v25i2p147-171

Edição

Seção

Artigos