Chamada para artigos: Vol. 14, n. 27 (primeiro semestre de 2022): JOSÉ SARAMAGO: AQUI, ALÉM, AGORA

2021-08-07

Dossiê comemorativo ao Centenário de nascimento de José Saramago

Organizadores: Horácio Costa (USP); Gabriela Silva (UFLA); Saulo Gomes Thimóteo (UFFS); Ilse M. R. Vivian (UFSM)

JOSÉ SARAMAGO: AQUI, ALÉM, AGORA

 

Vivo desassossegado, escrevo para desassossegar.

José Saramago

 

A obra de José Saramago (1922-2010) constrói-se sobre uma dupla via: por um lado, com temas e imagens múltiplas, o autor busca uma unidade, uma vez que parte dele a voz que aquilo narra; por outro, cada livro, personagem ou fala traz o gérmen de um universo que se expande e um abismo que se aprofunda. Para além da inovação narrativa, que resulta em uma escrita fluida e projetada no ouvir, Saramago pauta-se, também, por uma re-visão do passado e seus discursos cristalizados – História, Igreja, Estado – e também deste presente, com seus conflitos humanos, sociais, políticos e culturais próprios.

No entrelaçamento dos tempos, a construção literária de José Saramago se mostra em constante transladar, revelando uma forma ambígua de um pessimismo com esperança, ou um otimismo sem ilusões. Seja pelos jogos de alegorias, seja pelo compromisso e consciência de ser cidadão, sua escrita se constrói “em redor de problemas concretos do homem e do mundo, insere-os na comunidade humana respectiva e dá-lhes o seguimento ficcional que o processo de uma dinâmica existencial e histórica pode fundamentar” (SEIXO, 1999, p. 127).

Dessa forma, as conexões com a tradição – evocadas e/ou provocadas – são elementos que se entrelaçam como o fil rouge de sua obra, feita como uma contínua busca que jamais se encerra. Essas deambulações estendem a mão ao seu leitor e subjazem ao fazer literário de Saramago, no qual se tem "a visão da escrita como viagem, do escrever como sua metáfora, do escritor como viajante, da palavra literária como uma viagem – ou uma ‘bagagem’ – do homo viator" (COSTA, 1997, p. 111). Tais explorações digressivas, no jogo de palavras e ideias, reverberam Garrett, Vieira, Pessoa, entre outros, e se apresentam como instrumento possível do despertar da consciência – de si, dos demais, do trânsito e da permanência.

O que se vê, portanto, nos muitos trajetos saramaguianos, é essa voz que se levanta para, através da literatura, revelar mundos que são espelho e transcendência do nosso próprio. De modo que todas as leituras de Saramago permitem ao leitor a intersecção entre percepções diversas, axiomas e questões ontológicas que perpassam os tempos. Como aponta Teresa Cristina Cerdeira, em Saramago se depreende "a necessidade imperiosa de guardar os documentos e as fontes, de não negligenciar o passado, mas também de repensar a tradição e de desconfiar da verdade absoluta completando a frieza dos dados com os elementos que podem enriquecer o sentido da História." (CERDEIRA, 2000, p. 288). É no desfiar de personagens emblemáticos e nas imagens tecidas em crônicas, poemas, diários, cartas e peças teatrais que se constrói uma leitura ativa, reflexo de Saramago como um escritor em que confluem o encantamento por desvendar e descobrir e a reivindicação de pensar e agir.

Diante do legado saramaguiano em seus matizes – e em comemoração ao centenário de seu nascimento – a Revista Desassossego convida professores e pesquisadores a contribuírem para a ampliação e o aprofundamento do campo crítico sobre tão importante figura do cenário das literaturas que se expressam em português. Da mesma maneira que Saramago aponta: "vivo desassossegado, escrevo para desassossegar" (SARAMAGO In: AGUILERA, 2010, p. 204), e na esteira de seus primeiros exegetas, como Maria Alzira Seixo, Teresa Cerdeira, Carlos Reis, Eduardo Lourenço, Beatriz Berrini e Horácio Costa, as propostas de artigos à nossa Desassossego devem pautar-se por esse caminho saramaguiano de imaginação, ironia e indagações em torno das tentativas de compreensão de quem somos, enquanto sujeitos feitos de histórias e palavras. Aqui, além, agora.

 

Além do dossiê, contamos com a seção VÁRIA, para a qual recebemos artigos científicos relacionados à literatura e cultura portuguesas; e a seção OUTROS DESASSOSSEGOS, na qual publicamos textos poéticos e autorais inéditos enviados por nossos leitores. Ainda podem ser publicadas RESENHAS de livros editados nos últimos cinco anos ou ENTREVISTAS com nomes relevantes para a temática da revista.

 

PRAZO PARA ENTREGA: Os artigos, resenhas, entrevistas, textos ficcionais e poéticos para este número serão recebidos impreterivelmente até 28 de fevereiro de 2022. A publicação está prevista para julho de 2022.

 

Referências

AGUILERA, Fernando Gómez. As palavras de Saramago. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

CERDEIRA, Teresa Cristina. "Das gavetas da memória". In: O avesso do bordado. Lisboa: Caminho, 2000.

COSTA, Horácio. José Saramago - o período formativo. Lisboa: Caminho, 1997, e Belo Horizonte, Moinhos, 2020.

SEIXO, Maria Alzira. Lugares da ficção em José Saramago. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1999.