Circuitos da economia urbana: ensaios sobre Buenos Aires e São Paulo, teoria revisitada por Maria Laura Silveira

Palavras-chave: Circuitos da economia urbana, São Paulo, Buenos Aires

Resumo

Esta resenha da obra “Circuitos de la economia urbana: ensayos sobre Buneos Aires e São Paulo” tem como objetivo apresentar as principais contribuições da cooperação entre pesquisadores argentinos e brasileiros unidos por um sentido comum: a produção de análises renovadas sobre as dinâmicas metropolitanas atuais à luz da teoria dos dois circuitos da economia urbana. Os onze textos que compõem o livro perpassam as novas relações entre os circuitos superior e inferior, assim como a expansão de sua porção marginal, explicitando as complexidades de um mercado metropolitano ao mesmo tempo unificado e segmentado, composto por relações de complementaridade e subordinação. O grande êxito da abordagem proposta por Silveira na organização desta obra reside na compreensão de que o valor dos circuitos da economia urbana e os limites entre eles são relacionais, ou seja, se redefinem continuamente em razão das modernizações que fazem elevar os graus de tecnologia, organização e capital, alterando a dialética dos circuitos e produzindo novos arranjos produtivos na metrópole.

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Biografia do Autor

Juliana Santos de Oliveira, Universidade de São Paulo

Doutoranda pela Universidade de São Paulo

Referências

SANTOS, Milton. L’espace partagé. Les deux circuits de l’économie urbaine des pays sous-développés. Paris: M.-Th. Génin, Librairies Techniques, 1975.
SILVEIRA, María Laura (coord.). Circuitos de la economía urbana: ensayos sobre Buenos Aires e São Paulo. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Café de las Ciudades, 2016.
Publicado
2020-01-23
Como Citar
Oliveira, J. (2020). Circuitos da economia urbana: ensaios sobre Buenos Aires e São Paulo, teoria revisitada por Maria Laura Silveira. GEOUSP Espaço E Tempo (Online), 24(1), 172-174. https://doi.org/10.11606/issn.2179-0892.geousp.2020.160464
Seção
Resenha

Organizada por María Laura Silveira e publicado em espanhol pela editora Café de las Ciudades, a obra Circuitos de la economía urbana: ensayos sobre Buenos Aires e São Paulo é resultado de uma cooperação entre pesquisadores argentinos e brasileiros unidos num propósito comum: a produção de análises renovadas sobre as dinâmicas metropolitanas atuais à luz da teoria dos dois circuitos da economia urbana, proposta pelo professor Milton Santos ainda na década de 1970.

O livro tem duas partes: na primeira, seis textos analisam as dinâmicas urbanas na Argentina, com ênfase na metrópole de Buenos Aires; na segunda, cinco textos se debruçam sobre as complexidades da urbanização brasileira atual, com destaque para a metrópole de São Paulo. O elo que articula as diferentes abordagens é a teoria dos dois circuitos da economia urbana que, como mostra o conjunto dos textos, se renova em consonância com a modernização contemporânea que faz expandirem novas variáveis, entre elas, as finanças e as técnicas informacionais, redefinindo as divisões territoriais do trabalho e os usos do território.

Na introdução, Silveira revisita a teoria dos dois circuitos destacando sua relevância para a compreensão das dinâmicas da economia urbana latino-americana, em particular, a existência unitária e a oposição dialética entre circuito superior e inferior, cuja origem são as sucessivas modernizações capitalistas associadas às profundas desigualdades socioespaciais nas cidades dos países periféricos. Segundo a autora, essas relações se explicitam nas metrópoles por abrigarem uma divisão social e territorial do trabalho mais complexa, combinando continuamente os espaços da acumulação com os da sobrevivência cotidiana.

O grande êxito da abordagem proposta por Silveira na organização dessa obra se deve à compreensão de que o valor dos circuitos da economia urbana e os limites entre eles são relacionais, ou seja, se redefinem continuamente em razão das modernizações que fazem elevar os graus de tecnologia, organização e capital, sobretudo no circuito superior e em sua porção marginal, mas também penetram e transformam as dinâmicas do circuito inferior, ampliando sua subordinação e dependência e criando novas combinações produtivas.

Os textos que compõem o livro, portanto, operacionalizam as categorias que integram a teoria dos dois circuitos de modo particular, exprimindo os novos usos do território e as novas relações entre circuito inferior e superior, assim como sua porção marginal, tratadas como manifestações do fenômeno urbano atual. A diversidade das abordagens apresentadas não permite uma análise detida de cada texto, mas cabem apontamentos sobre as contribuições centrais das autoras e dos autores com o objetivo de apresentar uma leitura integrada dos fundamentos que orientam as intenções do livro ao explorar as questões que presidem seu eixo estruturante: a atualidade da teoria dos dois circuitos para uma leitura renovada das dinâmicas urbanas metropolitanas na Argentina e no Brasil.

Os eixos analíticos preponderantes nas investigações apresentadas se orientam pela discussão das variáveis técnicas do período, as localizações e o uso do meio construído, os mercados e os novos sistemas normativos, as ações e a diversidade de agentes, os processos de dispersão da produção e centralização dos comandos na metrópole, as simbioses entre os setores público e privado, os novos instrumentos financeiros e a disseminação do consumo moderno e a coexistência entre pobreza e riqueza, entre outras dimensões que elucidam as condições de existência e indissociabilidade entre os circuitos da economia na metrópole.

A primeira parte conta com o texto “Buenos Aires en clave de modernidad y pobreza”, onde Silveira analisa o avanço e o fortalecimento de um circuito superior renovado, composto por empresas comerciais e financeiras de capital nacional e estrangeiro, assim como sua porção marginal, que restrutura a divisão territorial do trabalho e induz novas formas de consumo, amparadas em modernos instrumentos financeiros em Buenos Aires, destacando também a existência de um circuito inferior que resiste nos interstícios da cidade. Os outros textos perpassam temas como as interpenetrações entre urbano e rural diante da produção agropecuária moderna (Gabriela Inés Maldonado), a estruturação e restruturação do sistema financeiro argentino na emergência de novos sistemas técnicos e normativos (Derlis Daniela Parserisas), a evolução da indústria automotiva e as transformações em sua divisão territorial do trabalho (Matías Donato Laborde), a organização e a segmentação do ramo de bebidas e as lógicas de localização das empresas na metrópole (Josefina Inés Di Nucci) o um estudo sobre os processos de modernização da alimentação articulados à internacionalização de empresas do ramo na Argentina (Silvia Inês Busch).

A segunda parte também se abre com um texto da organizadora (“São Paulo: entre la regencia del territorio y los mercados metropolitanos”), que explora as relações entre impulsos da modernização atual e as novas dinâmicas dos dois circuitos da economia urbana, ressaltando a tendência à separação entre os centros de produção e gestão, reforçando a centralidade de São Paulo no comando das dinâmicas do território brasileiro. Também discute a coexistência entre os circuitos inferior e superior nos espaços da cidade, evidenciando a complexidade da divisão territorial do trabalho na metrópole. Os textos dessa segunda parte abordam a divisão territorial da produção de farmoquímicos em São Paulo (Edison Bicudo), as dinâmicas da indústria de produção de equipamentos médicos e a centralidade da metrópole (Virna Carvalho David), a produção e o consumo de música em São Paulo (Villy Creuz) e a coexistência entre riqueza e pobreza metropolitana frente às novas variáveis do período (Marina Regitz Montenegro).

Assim, os artigos atravessam as novas relações entre os circuitos inferior e superior, assim como a expansão de sua porção marginal, explicitando as complexidades de um mercado metropolitano ao mesmo tempo unificado e segmentado, composto por relações de complementaridade e subordinação. E as diferentes formas de produção e consumo na metrópole relevam a articulação dos circuitos com a produção do espaço, cujo resultado tem sido o agravamento das desigualdades sociais.

Em suma, o livro não é apenas uma leitura apurada da teoria proposta por Milton Santos (1975), mas a eleva e renova na medida em que explora a atualidade das categorias e a nova dialética entre os circuitos para compreender o fenômeno urbano metropolitano em países periféricos. Nesse sentido, a obra apresenta um conjunto de trabalhos de excelência, expressando o potencial extraordinário da cooperação entre pesquisadores argentinos e brasileiros na construção de conhecimento sobre nossa realidade urbana periférica.

Referência

  1. (). . . Paris: M.-Th. Génin, Librairies Techniques. .