Arte e ciência no século XVII: Charles Le Brun e o temperamento melancólico.

Autores

DOI:

https://doi.org/10.11606/issn.2447-2158.i10p28-46

Palavras-chave:

Charles Le Brun, Estética, Teoria humoral, Melancolia, Anatomia, Fisiognomonia, Medicina hipocrático-galênica

Resumo

Na tradição hipocrático-galênica, a condição de saúde estava relacionada  ao equilíbrio de humores corpóreos que, em diferentes combinações, resultavam em temperamentos. Esses temperamentos determinavam o caráter do homem, seus aspectos psicológicos, aparência física e afetos. Dos principais temperamentos (sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático), o melancólico foi considerado o mais nocivo e de alterações psíquicas mais diversificadas, sendo objeto de estudo de tratados médicos, anatômicos e representações artísticas, literárias e filosóficas em diferentes períodos históricos, desde a Antiguidade Clássica. No âmbito artístico, inspirou uma iconografia exclusiva das emoções e da constituição física e fisiognomônica dos indivíduos, fortalecendo a relação intrínseca entre a alma e o corpo, principalmente na expressão do rosto. O objetivo deste artigo é estudar como o temperamento melancólico se relacionava com a produção iconográfica do artista Charles Le Brun (1619-1690). Este estudo levou à conclusão de que Le Brun transpôs para o campo da iconografia os conhecimentos da medicina hipocrático-galênica, da fisiognomonia e anatomia relacionando os traços faciais e personalidade. Separando corpo e alma relacionou os humores ao estudo das paixões em substituição ao estudo do caráter. Além disso, ele se preocupou com aspectos teóricos da pintura.  

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Flávia Crivellari Fassis, Universidade de São Paulo.Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto

Engenheira Agrônoma formada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar - Campus Araras) (2014) e bióloga pela Universidade de São Paulo (USP - Campus Ribeirão Preto) (2019). Aluna bolsista selecionada para Programa de Intercâmbio Estudantil da Asociacíon de Universidades Grupo Montevideo (AUGM) na Argentina da Universidad Nacional del Nordeste (UNNE) no ano de 2012. Integrante do Grupo de Pesquisa em Fitopatologia e Genética Molecular no Laboratório de Genética Molecular (LAGEM) da UFSCar estudando Brusone na cultura do trigo e de Lolium multiflorum. Também foi integrante da Cátedra de Microbiologia da Universidad Nacional del Nordeste (UNNE) - Argentina em 2012, onde estudou diferentes técnicas relacionadas à atividade biológica do solo e experimentos de biofertilização (2012). Componente do Grupo de Estudos e Pesquisas do HLB e Leprose dos citros no Laboratório de Biotecnologia do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e bolsista FAPESP no projeto de estudo com HLB (Greening dos citros) de 2012 a 2014. Atualmente, é integrante do Grupo de História e Teoria da Biologia nos campos de estudos da História da Biologia e Filosofia, Epistemiologia e Ética da Ciência na Universidade de São Paulo (USP- Campus Ribeirão Preto). Dedica-se ao projeto (FAPESP) das relações entre arte e ciência, particularmente a iconografia, fisiognomonia e anatomia. 

Lilian Al-Chueyr Pereira Martins, Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto.

É graduada em História Natural pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná; especialista em História da Ciência pela Universidade Estadual de Campinas; Mestre e Doutora em Ciências Biológicas na área de Genética, pela Universidade Estadual de Campinas, com Doutorado Sandwich no Department of History and Philosophy of Science na Universidade de Cambridge (Inglaterra) e Pós-Doutorado no Grupo de História e Teoria da Ciência (UNICAMP). Foi professora do Programa de História da Ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo de março de 1999 à janeiro de 2011. Atualmente é professora associada do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP); editora do periódico Filosofia e História da Biologia; líder do grupo de História e Teoria da Biologia (USP); pesquisadora colaboradora do Grupo de História, Teoria e Ensino de Ciência (USP). Dedica-se principalmente à História das Ciências da Vida em geral, principalmente à História da Genética e Evolução. Dedica-se também à Filosofia da Biologia e às aplicações da História e Filosofia da Biologia ao Ensino de Ciências.

Referências

AIKEN, Lewis R. Psychological testing and assessment. 9 ed. Massachusetts: Allyn and Bacon, 1997.

ALBUQUERQUE, Carlos Eduardo M. A fisiognomonia de Charles Le Brun – A educação da face e a educação do olhar. Pró-Posições, v. 16, n. 2, p. 15-35, 2005.

ATALAIA, Nuno. The portrait of the sovereign: painting as hegemonic practice in the work and discourse of Charles Le Brun and the Royal Academy of Painting. Dissertation (MD). Faculty of Humanities, University of Leiden, 2017.

BALTRUŠAITIS, Jurgis. Aberrações: ensaio sobre a lenda das formas. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1999.

BRADY, Emily. HAPPALA, Arto; Melancholy as an Aesthetic Emotion. Contemporary Aesthetics, v. 1, p. 1-16, 2003.

BARBILLON, Claire. Les canons du corps humain au XIXème siècle: l'art et la règle. Paris: Odile Jacob, 2004.

BRUNSCHWIG, Jacques & LLOYD, Geoffrey. E. R. A guide to Greek thought: major figures and trends. Catherine Porter (Trad.). Cambridge/MA: Belknap Press, 2003.

CARVALHO da SILVA, Paulo José. O impossível regime das paixões da alma. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 11, p. 119-133, 2008a.

CARVALHO da SILVA, Paulo José. Um sonho frio e seco: considerações sobre a melancolia. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 11, p. 286-297, 2008b.

COTTEGNIES, Line. Codifying the passions in the Classical Age. Études Episteme, 2009.

COTTINGHAM, John. Dicionário Descartes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

COULTER, Harris L. Divided legacy: a history of schism in medical thought. Vol. 1. Washington, D.C.: Wehawken Book Company, 1975.

COURTINE, Jean-Claude; HAROCHE, Claudine. História do rosto: exprimir e calar as suas emoções (do século XVI ao início do século XIX). Lisboa: Editora Teorema, 2016.

CUREAU DE LA CHAMBRE, Les charactères des passions.[1640] Paris: D’Allin, 1662.

CRIVELLARI-FASSIS, Flávia. A iconografia da melancolia no século XVII: relações entre arte e ciência em Charles Le Brun. (Trabalho de Conclusão do Curso de Ciências Biológicas). Departamento de Biologia. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão, Preto, Universidade de São Paulo), 2019.

DAMISCH, Hubert. La passion: L’alphabet des masques. Nouvelle Révue de Psychanalyse, n. 21, pp. 123-131, 1980.

DESCARTES, René. As paixões da alma. Trad. J. Guinsburg & B. Prado Jr., 2 Ed. São Paulo: Editora Abril, 1979. [Coleção Os pensadores].

DOLAN, John P; ADAMS-SMITH, Willam N. Health and society: A documentary history of medicine. New York: Seabury Press, 1978.

DINI, Allessandro. Il medico e la follia. Cinquanta casi di malattia mentale nella letteratura medica italiana del Seicento. Firenze: Le Lettere, 1997.

DUMORA, Florence. Topologie des émotions. Les caractères des passions de Marin Cureau de La Chambre, Littératures Classiques, v. 68, n. 1, p. 161-175, 2009.

EVANS, Elizabeth C. Galen the physician as phisiognomist. Transactionsa and Proceedings of the American Philosophical Association,, v. 76: 287-298, 1945.

GIACOMONI, Paola. Ardore. Quattro prospettive sull’ira da Achille agli indignados. Roma: Carocci, 2014.

HERRMANN, Wolfgang. La théorie de Claude Perrault. Bruxelas: Pierre Mardaga, 1980.

HERSANT, Yves. Mélancolies de l'Antiquité au XXe siècle. Paris: Robert Laffont, 2005.

HIPPOCRATE, La nature de l’homme. Trad. Jacques Jouanna. 2 ed. Berlin: Akademie Verlag, 2002.

HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

KLIBANSKY, Raymond; PANOFSKY, Erwin; SAXL, Fritz. Saturno y la melancolía. Madrid: Alianza Forma, 2012.

LE BRETON, David. Des visages. Essai d’anthropologie. [1992]. Paris: Métailié Sciences humaines, 2003.

LE BRUN, Charles. Le figure delle passioni: conferenze sull'espressione e la fisionomia Maurizio Giuffredi (Ed.). Milão: R. Cortina [1668], 1992.

LE BRUN, Charles. L’expression des passions. Autres conférences, correspondance. Paris: Dédale Maisonneuve et Larose, [1668] 1994.

LEVY, Evonne. Bernini and the practice of physiognomic, 2003. Disponível em: http://www.walgate.com/pdf/WendyWalgate_BerniniEssay.pdf. Acesso em: 01 nov 2017.

LICHTENSTEIN, Jacqueline. The eloquence of color: rhetoric and painting in the French Classical Age. Berkeley: University of California Press, 1993.

MAJ, Mario & SANTORIUS, Norman, Transtornos depressivos. 2 ed. Porto: Artmed, 2005.

MALUF-SOUZA, Olimpia. Fealdade e Anatomia: Sentidos instalados a partir de uma história do rosto. In: História, Subjetividade e Estética III ENALIHC - Encontro Nacional Linguagem, História e Cultura - CEPEL - Centro de Estudo e Pesquisa em Linguagem - da UNEMAT, 3 ed. do evento no Campus Universitário de Pontes e Lacerda- MT, 2009.

MARGANNE, Marie-Hèlène. La chirurgie dans l’Égypte gréco-romaine d’après les papyrus littéraires grecs. Leyde: Brill, 1998.

MARTINS, Roberto de Andrade, MARTINS, Lilian Al-Chueyr Pereira; TOLEDO, Maria Cristina Ferraz de; RIVERA, Renata Ferreira. Contágio. História da prevenção das doenças transmissíveis. 3 ed. São Paulo: Editora Moderna, 2001.

MARTINS, Lilian Al-Chueyr Pereira; SILVA, Paulo Carvalho da; MUTARELLI, Sandra Kuka. A teoria dos temperamentos: do Corpus Hippocraticum ao século XIX. Memorandum, v. 14, p. 9-24. Disponível em: WorldWide Web http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a14/martisilmuta01pdf. Acesso em: 02 nov. 2016.

MASSIMI, Marina. A teoria dos temperamentos e sua aplicação nos trópicos. Ribeirão Preto: Editora Holos, 2010.

MATOS, Maria Izilda Santos. Espelhos da alma: fisiognomonia, emoções e sensibilidade. Revista Brasileira de História das Religiões, n. 14, p. 15-34, 2012, p. 19. Disponível em: http://www.dhi.uem.br/gtreligiao /index.html. Acesso em 15 nov 2016.

MONTAGU, Jennifer. The Expression of the Passions: The Origin and Influence of Charles Le Brun's Conférence sur L'expression Générale et Particulière. New Haven and London: Yale University Press, 1994.

PARRACHO, Mariana L. F. A melancolia na arquitetura a partir do cinema português. 397 f. Dissertação (Mestrado Integrado em Arquitetura) - Departamento de Arquitetura. Universidade de Coimbra, Coimbra, 2016.

PECHMAN, Robert Moses. Cidades estreitamente vigiadas: o detetive e o urbanista. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.

PERRAULT, Claude. Mémoires pour servir a l’histoire naturelle des animaux Paris: l´Imprimerie Royale, 1671-1676.

POYATOS, Fernando. Advances in nonverbal communication. John Benjamins Publishing Company. Amsterdam: Philadelphia, 1992.

PRODGER, Phillip. Illustratrion as strategy in Charles Darwin's The expression of the emotions in man and animals. In: LENOIR, Timothy (Ed.). Inscribing Science: scientific texts and the materiality of communication. Stanford: Stanford University Press, 1998.

ROSS, Stephanie. Painting the passions: Charles Le Brun's Conférence sur L'expression. Journal of the History of Ideas, v. 45, n. 1, pp. 25-47, 1984, p. 26; DONATELLI, Marisa Carneiro de Oliveira Franco. Descartes e os médicos. Scientia Studia, v. 1, n. 3: pp. 323-336, 2003.

SERRA, Duff. The representation of the passions and affections in English theater of the seventeenth and eighteenth centuries. Doutorado. Universidade Tecnológica do Texas, Texas, 1991.

SINGER, Peter N. Levels of explanation in Galen. The Classical Quarterly, v. 47, n. 2, p. 252-542, 1997.

SOARES, Sônia. Medicina filosófica: as relações entre medicina e filosofia na Grécia Antiga e em Kant. Dissertação (Mestrado) Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2008.

STAROBINSKI, Jean. Histoire du traitement de la mélancolie des origines à 1900. Basel: Documenta Geigy, 1960.

TALON-HUGON, Carole. Les Passions rêvées par la raison: Essai sur la theórie des passions de Descartes et de quelques-uns de ses contemporains. Paris: Vrin, 2002.

TEMKIN, Owsei. Galenism: rise and decline of a medical philosophy. Cornell: Cornell University, 1974.

THUILLIER, Jacques. Les dernières années de François Perrier (1646-1649). Revue de l'Art, v. 99, p. 9-28, 1993.

TREVOR, Douglas; SCHMIDT, Jeremy. Renaissance Quarterly, v. 61, n. 2, 2008, p. 664-666, 2008. VIEGAS, Rafael Marcelo. Do humor excepcional: uma melancolia para o herói ou os limites da proporção. Anamorfose: Revista de Estudos Modernos, v. 2, n. 2: 89-104, 2014, p. 90. Disponível em: http://www.anamorfose.ridem.net/index.php/anamorfose/issue/view/3. Acesso em: 20 out 2016.

WILDE, Carolyn. Introduction. In: SMITH, Paul e WILDE, Carolyn (Org.). Alberti and The Formation of Modern Art Theory. Oxford: Wiley-Blackwell, 2008.

Downloads

Publicado

2020-12-30

Como Citar

Fassis, F. C. ., & Martins, L. A.-C. P. . (2020). Arte e ciência no século XVII: Charles Le Brun e o temperamento melancólico. Khronos, (10), 28-46. https://doi.org/10.11606/issn.2447-2158.i10p28-46

Edição

Seção

Dossiê “Artes, História das ciências e técnicas: interações”