Chamada aberta - dossiê 46: O instante e o processo - Semana de Arte Moderna pelo olhar da crítica genética

2021-09-08

A Semana de Arte Moderna, que aconteceu entre 13 e 18 de fevereiro de 1922 no Theatro Municipal de São Paulo, é considerada a primeira manifestação artístico-cultural no Brasil com a proposta estética de renovação nas artes e na literatura. Realizada de maneira pública e coletiva, a Semana de 22 expôs o que vinha sendo gestado por um grupo de artistas e intelectuais que espraiaram suas ideias, para além do eixo Rio-São Paulo, em projetos, obras e periódicos ousados.

Esses modernistas, conscientes da dificuldade em torno dessa nova sensibilidade que se impunha, utilizaram estrategicamente a imprensa como veículo de divulgação do espírito moderno. Com as perspectivas ideológicas e políticas daquele início de século, a tentativa de revitalização estética possibilitou outras formas de se relacionar com a literatura e a arte, fomentando também mudanças e diferentes paradigmas no campo linguístico, social e psicológico.

Embora a Semana seja um instante performático na história das letras nacionais, é preciso pensar nos rastros desse evento e na continuidade de uma produção artística e crítica que o recupera constantemente. Nesse sentido, vale evocar o título do livro do jornalista Marcos Augusto Gonçalves, A semana que não terminou, para compreender que os ecos dessa manifestação ainda estão vivos e se reinventam na contemporaneidade.

Em relação às marcas processuais que documentam, mas também ampliam o sentido de 1922, conhecer a arqueologia das redes de sociabilidade que artistas e intelectuais organizaram, sobretudo nas trocas epistolares, revela testemunhos dos bastidores da criação, diálogos fecundos entre pares e aproximações de esferas artísticas e geográficas distintas enquanto divulgam, ou mesmo partilham, projetos. Igualmente, o acesso aos arquivos da criação e à biblioteca de intelectuais permite redescobrir as camadas de uma obra em seu movimento ou mesmo as hesitações e os conflitos de um pensar em curso, seja do indivíduo ou de uma coletividade.

A pesquisa em acervos e coleções pode colaborar com a construção de novas edições que intentam trazer para os leitores não apenas a reapresentação de um texto conhecido ou raro, mas desencadear profícuos debates sobre a recepção das obras diante das restaurações que os documentos de processo viabilizam. Nascem, portanto, variadas formas de interpretar o objeto artístico a partir de uma materialidade por vezes relegada ao domínio do fetiche ou às instituições de salvaguarda documental do país, visivelmente abandonadas ou mal administradas.

Diante da celebração desse centenário da Semana de Arte Moderna, revisitar instâncias dessa produção em todas as artes por meio dos processos de criação, especificamente pelo viés da Crítica Genética, abre espaço para uma discussão sob um outro ângulo. Pensando nisso, o dossiê temático da Manuscrítica. Revista de Crítica Genética, nº 46, a ser publicado no primeiro semestre de 2022, ano das comemorações do centenário da Semana de Arte Moderna, sugere como eixos temáticos para a recepção de contribuições inéditas:

  • arquivos e bibliotecas de artistas ligados ao modernismo (escritores, músicos, artistas plásticos, fotógrafos, cineastas);
  • estudos genéticos ou propostas de edição de manuscritos e obras (do modernismo brasileiro ou de autores/artistas que mobilizem em suas produções a agenda do movimento modernista brasileiro);
  • correspondência entre modernistas ou que versem sobre a Semana de 22, seus antecedentes e prolongamentos;
  • a circulação das ideias modernistas em periódicos e o ensaísmo modernista;
  • os precedentes, as vanguardas e os desdobramentos da estética moderna no Brasil a partir de documentação e outros materiais inéditos ou éditos;
  • releituras de obras contemporâneas, à luz da crítica genética, que dialoguem com a produção estabelecida pelo marco do modernismo.

 

A revista Manuscrítica aceita igualmente textos de temática livre, resenhas, traduções e comentários de manuscritos. As contribuições podem ser escritas em português, francês, espanhol e inglês, e devem ser enviadas por meio do site, de acordo com as normas da revista: https://www.revistas.usp.br/manuscritica

 

Data limite para submissões: 30 de janeiro de 2022

 

Editoras responsáveis pelo número:

Aline Novais de Almeida

Lígia Rivello Baranda Kimori

Mônica Gama