Em busca do limiar sonoro: gestos, sons e riscos na afinação das folias

Autores

DOI:

https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2021.186654

Palavras-chave:

Folia, afinação, enquadramentos, limiar

Resumo

O artigo aborda a afinação dos instrumentos musicais no contexto religioso e festivo das folias na Taboquinha, localidade rural pertencente ao município de São Francisco, norte de Minas Gerais. O texto chama a atenção para a dinâmica envolvida no processo de afinação, entendendo o fenômeno como uma prática coletiva realizada na interação entre pessoas por meio de uma economia expressiva e comunicativa, envolvendo gestos, objetos, movimentos corporais, olhares, palavras e sonoridades. Nessa direção, a pergunta que anima este exercício não é tanto qual é a afinação ou o que é afinação, mas:  como se afinam os instrumentos? O que acontece quando a prática é realizada? Quais os efeitos produzidos pela afinação? Como a afinação se relaciona com outras situações e momentos do ciclo ritual das folias? O artigo sugere ainda que a afinação, se por um lado cria um enquadramento, um sentido de coletividade e integração; por outro, é permeada de perigos, riscos e incertezas, fazendo dela uma busca constante, um movimento contínuo, um limiar entre tensões, alturas e frequências.   

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Biografia do Autor

Wagner Diniz Chaves, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Wagner Diniz Chaves é antropólogo, professor do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (DAC/IFCS/UFRJ) e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da mesma universidade.

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Publicado

2021-06-30

Como Citar

Chaves, W. D. (2021). Em busca do limiar sonoro: gestos, sons e riscos na afinação das folias. Revista De Antropologia, 64(2), e186654. https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2021.186654

Edição

Seção

Artigos