Editorial

  • André Carlos Busanelli de Aquino Universidade de São Paulo. Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto

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Publicado
2017-09-29
Como Citar
Aquino, A. (2017). Editorial. Revista De Contabilidade E Organizações, 11(30), 1-3. https://doi.org/10.11606/rco.v11i30.138612
Seção
Editorial

Prezados leitores da Revista de Contabilidade e Organizações,

Esta edição da Revista de Contabilidade e Organizações (RCO) marca o início de uma nova Equipe Editorial, formada por mim, André Aquino como Editor-Chefe, e pela Profa. Flávia Zóboli Dalmácio como Editora-Adjunta.

Os editores que nos precederam levaram a RCO à um padrão de alto nível. Na última gestão comandada pelo Prof. Marcelo Pagliarussi, a RCO alcançou a classificado Qualis A2, conferida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Além disto, a equipe liderada pelo Prof. Pagliarussi deu grandes e firmes passos na ampliação da pluralidade de perspectivas teóricas e metodológicas da RCO.

A linha editorial plural da RCO será mantida. Nosso objetivo é contribuir para a mais ampla disseminação possível dos resultados de pesquisas envolvendo contabilidade e organizações. Levamos Ciência para Firmas, Mercados e Governos” como informamos em nossas mídias. Esse lema nos lembra de nosso compromisso em reduzir a distância entre a produção científica de alto rigor e a demanda por relevância feita por todos aqueles que poderiam se beneficiar das análises e novas perspectivas apontadas pelos autores. Poderíamos ter usado “Ciência para Sociedade”, mas achamos que devemos ser mais específicos. Naturalmente essa taxonomia é curta para representar aqueles que poderiam se beneficiar do que os autores da área têm para oferecer. Por ‘Firmas’ queremos indicar organizações das mais diversas naturezas (com fins lucrativos, de capital aberto ou fechado, cooperativas, associações de diversos fins), interagindo em ‘Mercados’, que não deveria ser lido como sinônimo de mercado financeiro, mas como todo tipo de mercado organizado. Por fim, por ‘Governo’ queremos sinalizar claramente que os assuntos relacionados à nossa área interferem e são de interesse de organizações que estruturam o estado democrático, indo além dos órgãos do poder executivo, como os órgãos do Judiciário, Ministério Público e Legislativo, para citar alguns.

No ano em que Comemora seus 10 anos, a RCO como uma revista ‘Jovem e Dinâmica’ trabalhará junto com os autores e avaliadores para dar esse passo, aproximar o rigor científico da relevância desejada por ‘Firmas, Mercados e Governos’. No evento comemorativo, nos dias 26 e 27/10/17, daremos uma atenção específica à temática de “Corrupção e Fraudes”, entendemos que a sociedade precisa de canais que congreguem a discussão de soluções associadas à esta séria questão nacional.

Outro ponto a ser destacado, ‘Contabilidade e Organizações’ também implica que contabilidade pode ser vista como algo além de informação, uma função organizacional, que é executada por indivíduos ou equipes. E que é usada por outras organizações, em que indivíduos ou equipes auditam, investem, regulam mercados. Sempre nesta visão a contabilidade tem um aspecto organizacional subjacente. Para publicação em 2018, além de nossas edições regulares, já temos a chamada temática em: “Contabilidade organizacional e a organização da contabilidade no Setor Público”. A chamada está aberta para submissões.

Nosso limite editorial para artigos regulares foi alterado recentemente para 6000 palavras. Sabemos que este limite é um desafio para certos tipos de estudo. Como mencionamos nas instruções aos autores, nossa equipe editorial está atenta a eventuais concessões que sejam justificadas. Entendemos que o artigo é a comunicação do resultado de uma pesquisa, e pode ser elaborada com uma síntese inteligente dos resultados, teoria de sustentação e descrição do método. A RCO incentiva a síntese da comunicação dos resultados, sendo preservada a profundidade da análise, também apoio e sugere o uso de materiais suplementares, como anexos, bases de dados e vídeo-abstracts para expor a ideia central e o esclarecimento do método usado.

Nesta edição - volume 11, número 30 de 2017 - oferecemos 6 artigos que representam bem nossa linha editoral, ou seja, o que desejamos ofertar a cada número. Deixo aqui nossos agradecimentos ao editor associado que atuou neste número, o Prof. Ricardo Luiz Menezes, aos avaliadores que de forma intensa e célere, apoiaram os autores a melhorarem cada vez mais a qualidade da análise nos artigos para ofertar à comunidade acadêmica este conjunto de reflexões e evidências sobre Contabilidade & Organizações.

A ponte entre a Prática e a Academia. Um dos assuntos recorrentes na área é o gap entre academia e prática, as razões para o distanciamento entre acadêmicos e profissionais em empresas e mercados, e de quem seria a responsabilidade (Bartunek & Rynes, 2014). Entre as razões apontadas, além da diferença de estilos de comunicação, está o fato de acadêmicos focarem no rigor, em geral com horizonte de longo prazo, enquanto profissionais focam na relevância do conhecimento para solução de problemas materiais de curto prazo. Se esta questão tem solução ou não, em si é um grande debate (Kieser & Leiner, 2009).

Enrico Bracci, da University of Ferrara, propõe em The practical relevance of public sector research: the potential contributions of the interventionist approach que a abordagem intervencionista seria uma solução para aumentar a relevância da pesquisa em contabilidade. Nesta abordagem o problema de pesquisa seria observado ‘ao vivo’ na organização, e contaria com a intervenção do pesquisador na realidade, em contato com diversos atores organizacionais. Nesta interação, ocorreria um processo de aprendizado, o que aumentaria as chances de uma maior compreensão de fenômenos complexos. Ao mesmo tempo, o resultado da pesquisa intervencionista levaria ao entendimento da relevância da questão para a própria organização que recebe o pesquisador.

Visão multiparadgimática. Em 2017, a área de estudos críticos em contabilidade perdeu um de seus principais expoentes, Prof. Michael Gaffikin (Kaidonis, 2017). Os estudos em Accounting History tiveram significativa contribuição do Prof. Gaffikin, que ajudou o entendimento do potencial dessa abordagem na área de contabilidade (ex. Gaffikin, 2011). Neste número apresentamos uma parte dessa discussão. O artigo de Carneiro e Barros Uso de documentos para narrar a história de organizações: reflexões e experiências apresenta como o uso de documentos históricos deveria considerar o contexto histórico em que foram gerados. Segundo essa perspectiva, documentos traduziriam as prováveis relações sociais e interesses existentes à época em que foram gerados. A contabilidade como uma prática social, pode ser observada em diversos contextos e diversas épocas (Lai, 2017), expressos, inscritos em tais documentos, prontos para serem narrados por quem se debruçar sobre eles tendo em mente que estes não são apenas fontes de informação factual. Assim, o método historiográfico pode ser utilizado para captar e compreender os contextos organizacionais nos documentos gerados pela contabilidade, elucidando o próprio contexto em que a contabilidade operava, portanto entendendo com mais profundidade a própria contabilidade como prática social.

Evidências relevantes para academia ou para sociedade. Esta edição traz dois estudos que contribuem com evidências para literaturas específicas. Os autores Matos e Colauto, em Justificativas do turnover de CEOs: estudo em companhias brasileiras investidas por fundos de pensão analisaram para 2010 a 2012 a divulgação de eventuais trocas de CEOs em empresas de capital aberto que possuem fundos de pensão como acionistas. Ao buscarem a intensidade com que a troca do CEO foi divulgada, observaram que em parte dos casos sequer foram divulgados ao mercado, contrariando a regulação. Interessante é o baixo turnover voluntário entre as empresas analisadas, e o eventual gerenciamento de impressões que pode existir na divulgação feita pelas empresas. Já em Tomada de decisão financeira sob condições de incerteza: estudo com alunos de graduação de contabilidade e administração de empresas, Medeiros, Barbosa, Silva e Costa observaram o comportamento de alunos de contabilidade e de administração na tomada de decisão em 3 situações diferentes sob incerteza.

Os autores comparam com estudos anteriores, incluindo o de Melo e Silva (2010) publicado na RCO, não encontrando efeito de gênero na propensão de aceitar ou não risco. Destaque para a diferença encontrada entre estudantes de contabilidade e administração, que pode abrir interessante discussão sobre o background dessas formações.

Relevância social. A interação do campo de Contabilidade e Organizações com questões de grande relevância social é de especial atenção da RCO. Nesta edição dois artigos especialmente lidam com esta questão. Primeiro, Silva e Sousa em “A influência do canal de denúncia anônima na detecção de fraudes contábeis em organizações” apresentam o resultado de um experimento feito com amostra de indivíduos que atuam na função de contabilidade, vendo se eles estariam mais propensos a denunciar práticas fraudulentas de contabilidade se tivessem um canal de denúncias interno à organização. Os resultados são peculiares. Os autores comparam indivíduos com vinculo estável (profissionais) com vínculo precário (estudantes, como estagiários), e o canal de denúncia interno aumenta a propensão de denúncia no caso dos profissionais, mas não para estagiários. Por fim, em Corrupção e ineficiência em licitações de governos locais e desenvolvimento humano: novas reflexões”, Laurinho, Dias e Mattos apresentam uma reflexão sobre novas possibilidades de explorar a associação de corrupção e ineficiência em licitações com o IDH do município. Usualmente a relação explorada na literatura propõe certa causalidade entre corrupção levando a redução de IDH. Porém os autores introduzem a possibilidade de ser justamente o baixo IDH que constitui um ambiente favorável às práticas clientelistas locais, que poderiam estar de alguma forma associadas à propensão de agentes públicos e privados aceitarem práticas ilegais.

Todos os artigos publicados nesta edição estão disponíveis com livre acesso aos leitores.

Desejamos a todos excelente leitura!

André Carlos Busanelli de Aquino
Editor-Chefe da Revista de Contabilidade e Organizações

Referências

  1. , (). Academics and Practitioners Are Alike and Unlike: The Paradoxes of Academic - Practitioner Relationships. Journal of Management 40(5), 1181-1201.
  2. (). What is (accounting) history ?. Accounting History 16(3), 235-251.
  3. , (). Why the Rigour - Relevance Gap in Management Alfred Kieser and Lars Leiner. Journal of Management Studies 46(3), 516-533.
  4. (). Accounting history in diverse settings - an introduction. Accounting History 22(3), 265-273.
  5. , (). Finanças comportamentais: Um estudo da influência da faixa etária, gênero e ocupação na aversão à perda. Revista de Contabilidade e Organizações 4(8), 3-23.