Tragédia, destino dos ossos

políticas da cinza e da exumação

  • Luiz Paulo Pimentel de Souza Universidade de São Paulo
Palavras-chave: Teatro e história, Patrimônio cultural, Arqueologia, Processo de redemocratização brasileiro, Vala clandestina de Perus

Resumo

Dialogando com a perspectiva histórica adotada por Raymond Williams em sua análise sobre a experiência trágica, este artigo perspectiva investigar conexões entre o tempo presente e a tragédia. Com base em disputas políticas operadas a partir do par memória-esquecimento, focalizamos a prática da exumação como plataforma para pensarmos a possibilidade de tragédia no contemporâneo. Tal prática é aqui entendida como um procedimento que, ao instaurar ruptura e violência em relação à memória e aos vestígios dos mortos, permite a abertura de um espaço agonístico de tensão política. Dessa maneira, trazemos à tona episódios do período da abertura democrática brasileira (1975-1985) que sublinham o diálogo entre o Estado, a cultura e a produção de narrativas sobre o país. Por fim, aproximando este período do projeto governamental respaldado pela eleição de 2018, avizinhamos os sentidos da experiência trágica contemporânea à estruturação de uma arquitetura política que desprezaria o gesto da exumação em prol da defesa do esquecimento histórico e da irreversibilidade das cinzas.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Luiz Paulo Pimentel de Souza, Universidade de São Paulo

Doutorando pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Dramaturgo.

Referências

ARIÈS, P. O homem diante da morte. São Paulo: Unesp, 2014.

BÁEZ, F. História universal da destruição dos livros. São Paulo: Ediouro, 2006.

BRASIL. Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979. Concede anistia e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1979. Disponível em: https://bit.ly/2WjHIh1. Acesso em: 7 maio 2020.

BRASIL. Política Nacional de Cultura. Brasília, DF: Ministério da Educação e Cultura, 1975.

CHAGAS, M. Memória e poder: dois movimentos. Cadernos de Sociomuseologia, Lisboa, v. 19, n. 19, p. 43-81, 2002.

FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.

GRÉGOIRE, H. Rapport sur les destructions opérées par le vandalisme et sur les moyens de le réprimer. Paris: Institution Publique, 1794. Disponível em: https://bit.ly/38YUhn5. Acesso em: 7 maio 2020.

HINO da Proclamação da República. In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. [San Frascisco: Wikimedia Foundation], 2020. Disponível em: https://bit.ly/2ZuZOi6. Acesso em: 15 jul. 2020.

PINHEIRO, M. (org.). Ditadura: o que resta da transição. São Paulo: Boitempo, 2014.

ROBERT, H. La violation des caveaux des rois dans la basilique de Saint-Denis en octobre 1793. 1793. 1 original de arte, óleo sobre tela, 54 × 64 cm.

RODEGHERO, C. S. A anistia de 1979 e as heranças da ditadura. In: FERREIRA, J.; DELGADO, L. A. N. O tempo do regime autoritário: ditadura militar e redemocratização: Quarta República (1964-1985). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019. p. 338-389.

SÃO PAULO. Decreto nº 59.196, de 29 de janeiro de 2020. Regulamenta os serviços funerários, cemiteriais e de cremação no Município de São Paulo. São Paulo: Prefeitura de São Paulo, 2020. Disponível em: https://bit.ly/32kGdTL. Acesso em: 7 maio 2020.

SHAKESPEARE, W. Hamlet. São Paulo: L&PM, 2012.

SÓFOCLES. Antígona. São Paulo: L&PM, 1999.

TELES, E.; CALAZANS, M. 29 anos da abertura da Vala clandestina de Perus. Unifesp, São Paulo, 2019. Disponível em: https://bit.ly/2ZxllH7. Acesso em: 9 maio 2020.

TELES, E.; SAFATLE, V. (org.). O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010.

WILLIAMS, R. Tragédia Moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

Publicado
2020-08-13
Como Citar
Souza, L. (2020). Tragédia, destino dos ossos. Sala Preta, 20(1), 101-122. https://doi.org/10.11606/issn.2238-3867.v20i1p101-122
Seção
TRAGÉDIA E MODERNIDADE