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As vozes femininas no radiojornalismo rompendo monopólio das vozes masculinas

Release de Margareth Artur para o Portal de Revistas da USP, São Paulo, Brasil

Escutar sem ver… notícias, músicas, comentários sobre o tempo, análises políticas, apresentados ora por especialistas, ora por apresentadores bem- humorados que você ouve no rádio, por exemplo. Na rua, com os fones de ouvido; no carro, enquanto trabalha online ou em empresas e instituições físicas – estamos diante do radiojornalismo. Boa opção para se estar informado e relaxar, em qualquer lugar. Estamos acostumados com vozes masculinas no radiojornalismo. Mas, e as vozes femininas, aonde se escondem? Começando a serem ouvidas, as mulheres estão aumentando o som, soltando a voz, abandonando a mudez imposta por critérios estereotipados da veiculação de confiança e credibilidade que a voz masculina, ou seja, o homem, pode transmitir para os ouvintes de rádio.

Ora, por quê? Essa discussão sobre a questão é o tema do artigo recém-publicado na revista Altejor. Morales e Ferreira põem em pauta a  valorização das vozes masculinas, normalmente graves, no radiojornalismo, traçando uma pesquisa histórica da presença tímida da mulher no rádio, até a crescente e determinada postura feminina em derrubar os preconceitos, com o intuito de enfrentamento à restrição de gênero nessa profissão. Nesse contexto, o artigo cita a frase da autora francesa Ruth Amossy que “destaca algumas características estereotipadas sobre as mulheres, mencionando adjetivos como submissas, passivas, dependentes e emotivas“.

A pesquisa das autoras baseou-se na busca de informações “nas únicas emissoras de radiojornalismo com transmissão de alcance nacional, a saber: Bandeirantes, BandNews, CBN e Jovem Pan“. A respeito, o artigo mostra um gráfico que registra a quantidade de mulheres atuantes nas citadas emissoras de rádio, no horário nobre, e a crescente participação das mesmas iniciada em 2000. Os anos 2000 se consolidaram como um divisor de águas com a ruptura da “histórica hegemonia de vozes masculinas“, abrindo espaço para a participação feminina nos noticiários, em debates de diferentes assuntos e apresentação de programas. As mulheres aceitaram o desafio de reindivicar e firmar novas propostas vocais e, consequentemente, superar a esperada e estereotipada vocalização masculina.

Aponta-se que a voz feminina carrega, há tempos, uma pesada bagagem: as mulheres sempre são vistas como “passivas, dependentes e emotivas“. As autoras se valem de estudos de fonética com o intuito de pesquisar a “origem biológica de alguns estereótipos de gênero associados à voz“, já que as características anatômicas determinam a construção da fala – a voz masculina é mais grave que a feminina, que é uma característica essencialmente anatômica –  mas esse fato foi erroneamente tomado como argumento para sugerir a superioridade dos homens, remetendo ao sentido de força e confiabilidade, originado, atavicamente, em comparação aos animais: os mais fortes emitem rugidos imponentes que os destacam e coloca-os em vantagem sobre os animais menores e mais frágeis, que  emitem sons mais agudos e inofensivos.

Mas, segundo as autoras, “essas variações de natureza meramente anatômica, no  entanto, geram sentidos que reforçam os estereótipos de gênero“. Mesmo as vozes femininas graves ainda não são tão valorizadas quanto às masculinas na “credibilidade à informação” no radiojornalismo. Ressalta-se a questão da igualdade de oportunidades nas apresentações radiojornalísticas conjuntas entre homens e mulheres, já que, segundo as autoras, observa-se “o predomínio do comando masculino, uma vez que o conteúdo da  fala dos homens parece ter maior peso editorial“. Se, por um lado, é patente a ascensão feminina no radiojornalismo, por outro lado, ainda prevalece “o comando masculino no horário nobre“.   

Artigo

MORALES, T.; FERREIRA, L. Mulheres no Radiojornalismo: Mapeamento da presença de vozes femininas em programas jornalísticos de rádio. Alterjor, São Paulo, v. 26, n. 2, p. 111-122, 2022. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/alterjor/article/view/196887. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2176-1507.v26i2p111-122 Acesso em: 10 ago. 2022.

Contatos

Tania Morales – Jornalista, apresentadora da rádio CBN e mestranda do curso de Comunicação Humana e Saúde na PUC-SP. tania.morales5@gmail.com

Léslie Ferreira – Fonoaudióloga, doutora em Distúrbios da Comunicação Humana (UNIFESP-EPM), professora titular do Departamento de Teorias e Métodos em Fonoaudiologia e Fisioterapia do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Humana e Saúde e coordenadora do Laboratório de Voz (LaborVox) (PUC-SP). lesliepferreira@gmail.com

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