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Calamidades mundiais como a de Chernobyl e o Onze de Setembro se transformam em espetáculos nas mídias

Release de Margareth Artur para o Portal de Revistas da USP, São Paulo, Brasil

Por que as calamidades, as tragédias, os desastres, acidentes e catástrofes são alvos frequentemente preferidos pelas mídias, que transformam os mesmos em  verdadeiros acontecimentos, em show, e em entretenimento? Calamidades públicas mundiais como a explosão do reator de uma usina nuclear em Chernobyl, no ano de 1986, considerado o pior acidente nuclear da história, inspirou uma série televisiva de sucesso, assim como também tragédias roteirizadas para o cinema – o Onze de Setembro e, anteriormente, as explosões das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Em relação ao assunto, o artigo da revista Significação: Revista de Cultura Audiovisual tem como objetivo “investigar o que a ficção acrescenta de apelo ao público que a consome como uma forma de divertimento“.

A cidade de Chernobyl fica no norte da Ucrânia, região na antiga União Soviética, local que, segundo especialistas, não poderá ser habitada por séculos. A catástrofe gigantesca ainda hoje é explorada pelas mídias, tornando-se personagem principal de séries de TV. A autora do artigo da revista propôs-se a estudar o papel desse tipo cinematográfico “no despertar do senso crítico e na percepção de situações reais de perigo da população“. A proposta desse estudo é perquisar o porquê da dimensão e das vantagens da indústria do entretenimento na sondagem de possíveis proveitos financeiros em relação às tragédias de grande porte do planeta, sendo Chernobyl “a série que melhor traduziu um fenômeno de audiência desse tipo  de representação“.

A análise também busca o conhecimento de como a série, uma versão ficcional do acontecimento real, contribui para encarar a tragédia como um divertimento. O público consegue separar ficção de realidade? Em que medida a emoção provocada pela série é explorada e manipulada, visando aos interesses econômicos, apropriando-se do real como divertimento e lazer? Chernobyl e o Onze de Setembro são tragédias históricas emblemáticas que motivaram questionamentos de valores psicossociais predeterminados e marcas profundas nos corpos e mentes das pessoas que vivenciaram a situação, estiveram presentes nos momentos trágicos. Segundo a autora, as séries fixam na tela “os dramas e os acontecimentos, as emoções e sobretudo o entretenimento, o cinema  pode ser sintetizado em uma espécie de espelho do mundo“.

A minissérie Chernobyl, “versão  americana e bastante mitologizada do desastre da usina nuclear de Chernobyl“, é tomada como enfoque do artigo para se discutir e analisar a motivação da indústria do entretenimento na exploração das catástrofes de âmbito planetário, concomitantemente com o estudo do sucesso de público das séries referidas, provocando uma catarse geral em que o medo, a indignação, a emoção e a revolta com as tragédias reais são abrandadas pela “eventual superação dos sobreviventes“. Fica patente a conveniência que esses desastres mundiais, causados por falhas humanas, com consequências ainda presentes, geram, para as mídias cinematográficas, sobretudo, lucros e retorno financeiro quando estimula e desperta o “retorno imediato do público, sempre ávido por um bom  enredo carregado de emoção“.

O artigo conta que  tanto a transmissão quanto a série baseada no acontecimento do Onze de Setembro geraram sentimentos e emoções nas pessoas as quais consideraram as imagens “irreais”, um filme visto como pura ficção, e não como registro de acontecimentos reais. Essas percepções nas pessoas e no público confirmam as conexões entre a realidade e a representação da mesma e, consequentemente, os bloqueios emocionais e psíquicos em separar “a tragédia real de sua  imagem ficcional“. E, assim, a autora conclui que, “apesar disso, este talvez não seja o gênero ideal para a educação científica da população e o despertar de seu senso crítico“.

Artigo

FERREIRA, M. da C. da R. A representação da catástrofe pelo entretenimento. Significação: Revista de Cultura Audiovisual, São Paulo. v. 49, n. 58, 187284, 2022. ISSN: 2316-7114. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-7114.sig.2022.187284. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/significacao/article/view/187284. Acesso em: 19 set. 2022.

Contato

Conceição da Rocha Ferreira – Doutora em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do  Rio de Janeiro (UNIRIO), pós-doutora em Comunicação e Cultura  na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Sistemas de Gestão pela Universidade Federal Fluminense (UFF). mferreira@cnen.gov.br

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