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Possibilidades de intercâmbio de conhecimento entre Ciência e Religião

Release de Margareth Artur para o Portal de Revistas da USP, São Paulo, Brasil

Ver para crer ou crer para ver? Ciência e religião são áreas do conhecimento humano que sempre abrigam, em si, questões explícitas ou implícitas sobre a razão e a emoção e/ou intuição. Ciência e fé são excludentes ou pode haver, entre elas, uma relação pacífica? Afinal, ciência e religião são alicerces relevantes da sociedade humana, bastante responsáveis pela constituição, pelos conceitos e pelos princípios ocidentais. Porém, normalmente razão e fé são vistas como conflituantes e adversárias lutando em um campo de guerra sem fim. “Compreender a possibilidade de haver intercâmbio de conhecimento entre ambas e quais modelos têm sido propostos” é a proposta de Bertolin, no artigo da revista Khronos, analisando o tema sob uma interpretação histórica.

O estudo se propõe averiguar o quanto de verdade existe na ideia de duelo entre razão e fé, pois a questão, segundo Bertolin, é complexa, muitas vezes a disputa é “audiência para veículos de comunicação” que acaba por estimular “o imaginário popular”.  A proposta do artigo não é a “integração das áreas,” mas a convivência serena, pois ambas diferem quanto à estrutura, procedimentos e práticas, visto que “historicamente há evidências de uma se beneficiar e contribuir com a outra, progredindo a partir da possibilidade de compartilhar conhecimentos”. Se a ciência pode oferecer, para a religião, entendimento no sentido de colaborar, facilitar a compreensão de alguns pontos e referências sobre a realidade, por sua vez, a religião, seja qual for, pode propiciar, à ciência, “uma visão de mundo que possibilite progresso no modo de investigação da realidade”.

Bertolin cita o escritor e pesquisador norte-americano Robert John Russell que defende as ideias de, entre outras, as teorias físicas poderem atuar como dados a serem incorporados às religiões, as quais proporcionaram hipóteses históricas fundamentais para fortalecer “o desenvolvimento da ciência, como a contingência e a racionalidade da natureza”.  Nesse contexto, relata-se o exemplo do geneticista norte-americano Francis Collins, ex-diretor do Projeto Genoma Humano, responsável, em 2001, pelo mapeamento do DNA humano que, embora “homem da ciência” passou por por experiências que harmonizaram “seu ofício de cientista com suas crenças religiosas”.

Algumas contribuições brasileiras almejando a potencial convivência proveitosa entre razão e fé são encontradas em pesquisas realizadas por autores e pesquisadores sob a ótica da “construção da identidade nacional, a formação histórico-cultural do Brasil, o desenvolvimento da ciência e as religiosidades e/ou espiritualidades que aqui criaram raízes”.  Bertoli explica que o campo de investigação do tema, além de ser amplo, é produtivo para a expansão do saber, do conhecimento com relação às expectativas e possibilidades históricas do diálogo pacífico entre razão e fé. Muitos estudos merecem ainda a atenção de pesquisadores interessados, e cada pesquisa realizada oferece maior domínio da complexidade que envolve o intercâmbio entre ciência e religião.

Bertolin finaliza seu artigo clamando “por sabedoria para atravessar não só a pandemia do novo coronavírus” e atitudes que possam auxiliar e colaborar com o entendimento entre não só os saberes, mas entre uma sociedade que priorize “o semelhante” e um futuro promissor para o planeta. Espera-se, com a realização de debates e a divulgação de pesquisas sobre ciência e fé, a desmistificação do tema, “evitando perpetuar um imaginário de guerra entre os campos — o que não tem encontrado respaldo histórico”. Visto a quantidade absurda de fake news infectando as mídias sociais, com notícias e matérias que reiteram “questionamentos da validade da ciência e do papel da religião”, fica patente a involução e a regressão da conversa salutar entre os saberes que nutrem as sociedades há tempos, o que pode nos tornar incapazes de enfrentar as graves crises mundiais de hoje.

Artigo

BERTOLIN, J. Ciência e fé em debate: Diálogo possível? Khronos, São Paulo, n. 11, p. 1-19, 2021. ISSN: 2447-2158. DOI:  https://doi.org/10.11606/issn.2447-2158.i11p1-19. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/khronos/article/view/186629. Acesso em: 18 ago. 2021.

Contato

Josué Bertolin – Mestre em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. e-mail josuebertolin@gmail.com 

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