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Estratégias ancestrais dos Yanomamis contra a COVID-19

Release de Margareth Artur para o Portal de Revistas da USP, São Paulo, Brasil

Para quem nasceu e vive nas grandes metrópoles, aceitar e cumprir o isolamento social para evitar contrair o vírus responsável pela pandemia atual não é uma situação muito confortável. Quem vive nos grandes centros urbanos precisa, se quiser se proteger da contaminação viral, segundo as determinações médicas, ficar em casa, mas quando isso é quase uma obrigação, gera, em muitos, ansiedade, depressão, impaciência e sentimento de prisão, privação. O mesmo não acontece com os Yanomamis do rio Marauiá no Amazonas. Esse povo está acostumado com mudança, com deslocamento, pois contam com a capacidade de adaptação e enfrentamento corajoso, que é parte do cotidiano dessa população amazonense.

O locomover-se, o “nadar conforme as ondas”, é prática e costume inerentes aos Yanomamis, que contam com estratégias tradicionais de resistência e de sobrevivência diante de grandes crises. Assim, nesta pandemia provocada pelo Covid-19, a ordem é: “sair para o mato”, deixar as aldeias rumo à floresta, refúgio e proteção, como a casa para as populações urbanas. Esse é o tema do artigo da revista Cadernos de Campo, concedendo ao leitor um depoimento baseado na experiência dos autores com os próprios membros do ou ligados ao povo Yanomami: “Até saírem de suas aldeias, um interlocutor compartilhava conosco notícias e reflexões sobre o momento em que vivemos e é a partir destas conversas que trazemos algumas reflexões sobre esta prática e a possibilidade de pensarmos e aprendermos com as estratégias yanomami de enfrentamento de epidemias (xawara)”.

Já faz 19 anos que os Yanomamis Pukimapɨwëteri saíram pela última vez para o mato quando “pegou fogo na roça” e a comida acabou, e, só agora essa prática ressurgiu “como estratégia de resistência frente ao novo vírus”. Se o mundo globalizado ainda não pode controlar o vírus, para os indígenas o problema cresce, visto a impotência dessa população diante das outras várias doenças que os “brancos” sempre transmitiram a eles. Nas epidemias de sarampo, coqueluche e tuberculose, por exemplo, a vacina, o remédio, o antídoto era “sair para o mato”, isolando-se na floresta, estratégia ancestral. Os autores relatam lembranças da estadia entre os Pukimapɨwëteri no alto rio Marauiá e citam uma informação de Sérgio Pukimapɨwëteri, agente indígena de saúde, de as comunidades estarem “reabrindo caminhos antigos no mato: estavam se preparando para sair da aldeia […] e e ir viver no interior da floresta, em acampamentos” onde um grupo familiar e eventualmente todo o grupo local passa a habitar temporariamente”.

Essas conversas com o povo indígena trazem discussões e põem em pauta o aprendizado de todos nós, moradores das grandes cidades, recebidos pelos Yanomamis: as estratégias e o enfrentamento das epidemias pelas quais muitos viveram e vivem hoje. Quando o momento é de paz, grupos saem das aldeias e de suas comunidades apenas para colheita de alimentos nas matas. Quando o momento é de conflitos, sair para o mato é estratégia de defesa e meio de evitar-se brigas entre grupos familiares. Sair para o mato é praticar a wayumɨ, que “segue viva e, junto com ela, a memória das epidemias que assolaram a região décadas atrás em momentos ímpares de instabilidade”. A paz e a estabilidade social yanomami efetiva-se entre grupos próximos, e, se grupos mais distantes muitas vezes geram conflitos e desentendimentos, o maior inimigo mesmo são “as distâncias espaciais e políticas que foram violentamente suprimidas pelos ‘brancos’, quando estes se fizeram definitivamente presentes na terra-floresta yanomami (urihi)”.

A imagem dos espíritos das epidemias é denominada de xawarari. Esses seres aparecem vestidos e parecidos com os homens brancos para os xamãs ou “os médicos da floresta” que hoje estão estudando a melhor maneira de eliminar o vírus que vêm contaminando os povos indígenas muito gravemente desde abril deste ano. As populações indígenas, na pandemia, também não contam com o respeito do Estado e das autoridades quanto ao sepultamento ofensivo às tradições dos ritos funerais. A Associação Yanomami Kurikama, “que representa os grupos do rio Marauiá e rio Preto”, solicitou a saída de todos os profissionais da área de saúde dessas áreas, porém outras doenças ameaçam esses povos e, para lidar com a situação, criaram uma estratégia:  grupos levaram para os acampamentos, além de medicamentos, também o microscópio (operado pelos microscopistas yanomamis) e o sistema de rádio.

Com os riscos de contágio por profissionais de saúde e outros não-indígenas “transitando pelo rio, os Yanomami pedem para se retirem da região do rio Marauiá”, evitando-se, assim, a interferência negativa do Estado, especificamente no caso da pandemia. Em tempos de emergência, quando o risco é iminente e impetuoso, os Yanomamis são claros no que diz respeito à estratégia política de manutenção da saúde: a recusa de ajuda direta e o isolamento. Voltar a habitar essas regiões, para os Yanomamis, estar o mais longe possível do contato com os não indígenas, estar em movimento e abandonar as comunidades na beira dos rios é um “procedimento de inversão da política de atração e sedentarização, promovida direta ou indiretamente pelo Estado e seus agentes”, é dizer não ao que não traz segurança. Sair de wayumɨ, das aldeias, e sair rumo ao mato, “nesse contexto, mais do que uma inversão histórica, mostra-se uma técnica política de resistência”.

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Artigo

BENUCCI, T.; JABRA, D. Sair para o mato. Cadernos de Campo, São Paulo, v. 29 (supl), p. 26-33, 2020. ISSN: 2316-9133. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v29isuplp26-33. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/169771. Acesso em: 05 ago. 2020.

 Contatos

Thiago Magri Benucci – Professor na Escola da Cidade, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo (PPGAS-USP). e-mail: thiagobenucci@gmail.com

Daniel Stiphan Jabra – Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos (PPGAS-UFSCar). e-mail: danieljabra@gmail.com

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