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Quem tem medo de dentista?

O que interfere nessa sensação e o que é o verdadeiro cuidado em saúde bucal?

Release de Margareth Artur para o Portal de Revistas da USP, São Paulo, Brasil

Por que grande parte das pessoas tem medo de ir ao dentista? Algumas pessoas se apavoram só de pensar em sentar na cadeira de um consultório, alguns simplesmente fogem na hora que o doutor chama para atender, ou só procuram um especialista em odontologia se um abcesso, por exemplo, já tiver tomado conta do dente, o rosto inchar e a dor estiver quase insuportável. Por essa constatação entre os profissionais, na prática diária com os pacientes, Couto e Botazzo, autores do artigo da revista Saúde e Sociedade lançam a pergunta: “como produzir cuidado em saúde bucal quando a atuação nesse campo está intimamente vinculada a situações desagradáveis?“. O texto se propõe a desmistificar o cuidado com os dentes restrito à parte médica, à finalidade da cura apenas pelas práticas técnicas. A ênfase é para o cuidado que vai além do campo biológico e que se estende aos campos social, emocional e cultural.

A partir da fala de uma paciente no consultório dentário: “meu filho, vou logo avisando que  morro de medo de dentista. Prefiro mexer no coração  a mexer na boca”,os autores desenvolveram o tema do cuidado com a saúde bucal e suas implicações e discussões sobre a relação às vezes contraposta entre ocuidar  biomédico“, relacionado comumente ao procedimento técnico de controle e intervenção imediatista, e o cuidado a partir da “escuta do outro”, levando-se em conta a difrença, a diversidade em um encontro “atravessado por afetos“, em uma relação médico-paciente baseada no respeito às vivências, histórias, personalidades e condições sociais, físicas e culturais do indivíduo que procura tratamento para melhorar sua qualidade de vida.

Chama-se a atenção para a importância de debater-se a boca “para além do campo biológico, compreendendo-a enquanto território social inserido nos processos de produção e reprodução social“. Os autores argumentam que a boca não representa apenas um órgão ou um tecido homogêneo e afirmam que a odontologia, na década de 2020, considerava a boca “um objeto desvinculado do próprio sujeito“, mas hoje ela adquire outros significados, proporcionados pela consciência da ligação entre a boca e as ’’experiências do corpo na sociedade“, tanto no sentido puramente técnico odontológico como no sentido psicanalítico.

A boca passa a ser analisada como parte da produção social humana, na medida em que realiza funções não apenas fisiológicas, como comer, mas é  meio de comunicação com o mundo por meio da fala e expressa afetividade e sexualidade pelo beijo, por exemplo. A boca mostra, por meio do discurso, sotaques, experiências de vida revelando o ser que a possui. A boca é o meio pelo qual nos alimentamos, pelo qual “adquirimos o líquido necessário para nossa sobrevivência, além de ser nosso primeiro vínculo afetivo com o outro, e é também por meio dela que sinalizamos nossas necessidades“. Quando se atribui à boca um produto social, é porque se constata que ela “está inserida nos processos de produção de conexões e experiências ao longo da vida, em um movimento penetrado pela cultura“.

O corpo lido como história  e memória esclarece que o medo às vezes é produto de experiências traumáticas passadas. Segundo os autores, o dentista precisa estabelecer uma relação de confiança com o paciente, particularizando o atendimento que leve em conta o ser único que foi ao consultório para ser cuidado. O profissional, diante de um tramento a ser realizado, deve procurar desvendar qual a origem do medo da(o) paciente, qual é o impedimento para se concretizar o tratamento e como proporcionar uma situação em que o paciente se sinta confiante e respeitado em seus temores e dúvidas e amparado. Concluindo, os autores afirmam que “o cuidado, enquanto produtor e transformador, exige uma escuta aberta e qualificada, o que contribui para a  sua singularização“.

Artigo

COUTO, J. G de A.; BOTAZZO, C. “Prefiro operar o coração do que a boca”: reflexões sobre a saúde bucal. Saúde e Sociedade , São Paulo, v. 31, n. 2, e210709pt. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-12902022210709pt. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/sausoc/article/view/197991. Acesso em: 14 jun. 2022.

Contatos

Joaquim Gabriel de Andrade Couto – Departamento de Política, Gestão e Saúde, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. e-mail: joaquimgcouto@gmail.com

Carlos Botazzo – Departamento de Política, Gestão e Saúde, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. e-mail: botazzo@usp.br

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