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Refugiados: A arte de ensinar como meio de sustento e integração

Release de Margareth Artur para o Portal de Revistas da USP, São Paulo, Brasil

Quando alguém sai de seu país para viver em outro lugar, o Brasil, por exemplo, migrando por necessidade, vai estar amparado legalmente, de acordo com a Lei 9474/1997, no Estatuto Nacional do Refugiado, que, em resumo, reconhece como refugiado todo aquele que sofre perseguição, “devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social” ou não possa ou não queira voltar a seu país, ou “devido à grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país”. Como se adaptam, os refugiados, como conseguem superar a separação de si e suas origens? Essas são questões abordadas no artigo da revista Cadernos CERU. 

Celia Lucena apresenta um estudo sobre como o refugiado consegue superar as dificuldades de estar em um mundo completamente diferente do seu, lançando mão de uma estratégia que, além de garantir sua subexistência, garante sua satisfação de poder trabalhar com meios que o confortam e remetem-no às suas raízes:  “usando a arte de ensinar como oportunidade de ganhar sustento e de se integrar”. Esse ensino pode estar relacionado com aulas de dança, de idioma e de culinária, entre outras. Ao transmitir sua cultura, os migrantes, na convivência com outras culturas, reportam-se além de seus limites tradicionais, na evidência de, por meio dos processos de aprendizagem e ensino, provar o quanto as diferenças culturais se tornam fontes de ampliação da identidade.

A proposta da autora é revelar algumas observações sobre sua pesquisa com organizações de migrantes na cidade de São Paulo, que originou um subprojeto, junto do projeto temático “Migrações e Identidade”, “um grupo de estudos vinculado ao CERU-USP, que, desde 2015, reúne-se mensalmente para discutir e estudar questões migratórias contemporâneas”. Nesse contexto, vale citar a referência ao “Programa Raízes da Cidade”, que proporciona, aos refugiados, exercerem atividades que “possam transformar seus talentos, habilidades e saberes em emersão cultural e educativa no país de destino”. O estudo evidencia a importância de associações como ONGs que proporcionam programas que visam integrar os migrantes em grupos e eles, unidos, empenham-se para serem aceitos como “membros de pleno direito e de obter reconhecimento de sua identidade étnica”.

É preciso também pôr em pauta o como se dá o processo de “replantar” a cultura do refugiado em um outro país, já que “as identidades contemporâneas são instáveis, multiculturais e “além fronteiras”. A autora conta algumas histórias da comunidade síria em sua adaptação para moradia no Brasil, sem esquecer que a principal nacionalidade dos refugiados no país é a síria, “com aproximadamente 5,5 milhões de refugiados no mundo”. As práticas e atividades escolhidas, pelos migrantes, para serem desenvolvidas no país de destino  “definem o habitus incorporado na primeira infância e são maneiras de fazer transferidas em malas de migrantes”, tendo como exemplo a atividade “Aprenda a fazer o pão caseiro da Síria”, típica tarefa integradora e de reconhecimento cultural e étnica nas comunidades ou grupos de refugiados.

Lucena cita diferentes aulas ministradas por refugiados de vários países, além da ênfase do depoimento a respeito dos cursos de cultura árabe ministrados por Yaman, uma mulher síria. É possível conhecer um pouco da cultura de mexicanos, africanos, venezuelanos e muitos mais em aulas sobre inúmeros assuntos veiculados por sites das ONGs citadas no artigo – os refugiados ensinam “para aprender a viver em um mundo novo”. Finalizando, ressalta-se que “as práticas culturais vivenciadas em outro contexto estimulam a imaginação, a inventividade, a criatividade, a troca de informações e saberes”, rumo a uma sociedade civil multicultural, em que é indispensável a valorização e o respeito às diferenças culturais.

Artigo

LUCENA, C. Ensinar para aprender a viver em um novo mundo. Cadernos CERU, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 268-280, 2020. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ceru/article/view/174499. Acesso em: 09 set. 2020.

Contato 

Célia Lucena – Pesquisadora do NAP/CERU (Centro de Estudos Rurais e Urbanos da USP) e mediadora do Grupo Migrações e Identidades (CERU-USP).

 

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