Claude Lefort e a herança merleau-pontiana

Autores

  • Silvana de Souza Ramos Universidade de São Paulo - USP

DOI:

https://doi.org/10.11606/issn.2318-8863.discurso.2021.188276

Palavras-chave:

Merleau-Ponty, Claude Lefort, Corpo próprio, Carne, Indeterminação, Democracia

Resumo

Claude Lefort é sem dúvida um herdeiro da filosofia de Merleau-Ponty. Porém, longe de assumir o primado do corpo para explicar tanto a cidadania quanto a democracia, o filósofo defende a necessária desincorporação do cidadão e da sociedade no contexto desse regime. Trata-se de investigar a mutação simbólica que abriu o horizonte moderno para a experiência democrática de indeterminação, quando o sujeito não consegue encontrar para si uma imagem definitiva, apta a lhe dar um lugar no campo social, e em que a sociedade trabalha constantemente seus conflitos internos, de modo que ela tampouco consegue dar-se a si mesma uma identidade. O objetivo do presente artigo é investigar essa estranha filiação, em que o herdeiro de certo modo desconstrói o espólio, pois, ao contrário de Merleau-Ponty, Lefort parece recusar a pertinência moderna da noção de corpo. Para elucidar essa estranheza, levanto a hipótese de que Lefort privilegia a noção de carne, central na ontologia tardia de Merleau-Ponty, em detrimento das formulações iniciais relativas ao corpo próprio, pois a primeira abre campo à indeterminação enquanto elemento necessário para que a democracia possa vicejar, livre dos entraves pré-modernos ligados à imagem da identidade.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

Barbaras, R. (2008). Introduction à une phénoménologie de la vie. Paris: Vrin.

Chaui, M. (2018). “Lefort: o trabalho da obra de pensamento”, Revista Discurso, v. 48, n. 1, p. 727. Acessível em: http://www.revistas.usp.br/discurso/article/view/147359/141429. Acessado em 26/06/2018.

Flynn, B. (2005). The philosophy of Claude Lefort: interpreting the Political. Illinois: Northwestern University Press.

Freud, S. (1997). Fragmento da Análise de um Caso de Histeria (O Caso Dora). Trad. de P. D. Corrêa. Rio de Janeiro: Imago.

Lefort, C. (1972). Le travail de l’œuvre Machiavel. Paris: Gallimard.

Lefort, C. (1978). Les formes de l’histoire: essais d’anthropologie politique. Paris: Gallimard.

Lefort, C. (1981). L’invention démocratique. Les limites de la domination totalitaire. Paris: Fayard.

Lefort, C. (1986). Essais sur le politique. XIXe. – XXe. siècles. Paris: Seuil.

Merleau-Ponty, M. (2003a). L’institution la passivité. Notes de cours au Collège de France – 1954-1955. Paris: Belin.

Lefort, C. (1994). La Nature. Cours du Collège de France. Paris: Seuil.

Lefort, C. (1945). Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard.

Lefort, C. (2003b). Signes. Paris: Gallimard. [Signos. Trad. de M. Pereira. São Paulo : Marins Fontes, 1991.]

Lefort, C. (2001). Le structure du comportement. Paris: PUF/Quadrige.

Lefort, C. (2004). Le visible et l’invisible. Paris: Gallimard.

Moutinho, L. D. S. (2018). “Lefort para além de Merleau-Ponty”, Revista Discur-so, v. 48, n. 1, p. 47-52.

Poltier, H. (1998). Passion du politique. La pensée de Claude Lefort. Genève: Labor et Fides.

Ramos, S. S. (2014). “Maquiavel e a política do desejo”, Cadernos de Ética e Filoso-fia Política. São Paulo, n. 24, p. 40-61.

Ramos, S. S. (2016). “Claude Lefort: democracia e luta por direitos”, Trans/form/ação. Marília, v. 39, n. 2, p. 217-234.

Ramos, S. S. (2018a). “Imaginaire, vie et hysterie chez Merleau-Ponty”, Kriterion, vol. 59, n. 141, p. 905-920.

Ramos, S. S. (2018b). “Bernard Flynn, leitor de Claude Lefort”, Cadernos de Ética e Filosofia Política, v. 1, n. 32, p. 15-27.

Saint-Aubert, E. (2006). “La ‘promiscuité’. Merleau-Ponty à la recherche d’une psychanalyse ontologique”, Archives de Philosophie, Printemps.

Soria, A. C. (2008). “O ‘Caso Dora’: Algumas considerações acerca de sua reda-ção”, Cadernos de Filosofia Alemã, n. 11, p. 83-89.

Downloads

Publicado

2021-06-30

Como Citar

Ramos, S. de S. (2021). Claude Lefort e a herança merleau-pontiana. Discurso, 51(1), 71-82. https://doi.org/10.11606/issn.2318-8863.discurso.2021.188276

Edição

Seção

Artigos