Viver sem guerra? Poderes locais e relações de gênero no cotidiano popular

Autores

DOI:

https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2021.186647

Palavras-chave:

Estado, tráfico de drogas, família, relações de gênero, maus-tratos, mortes, guerra às drogas

Resumo

Neste texto, analisamos os efeitos de gênero que a guerra movida pelo Estado contra o Tráfico de Drogas produz na vida cotidiana das famílias que habitam as periferias do Rio de Janeiro. Ao privilegiar narrativas de mulheres, consideramos que as relações de gênero são “feitas” ao mesmo tempo em que fazem o fazer da guerra. Ao acompanhar situações que envolveram maus-tratos físicos e morais, ameaças e assassinatos enfrentados por mulheres, discutimos como crime, território e violência se embebem nas relações de família e de vizinhança. A temporalidade da guerra que já dura quase quarenta anos é lida como um passado tecido na intimidade das relações e como um presente sempre atualizado na experiência das relações de gênero posicionadas pela guerra contínua.

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Biografia do Autor

Patrícia Birman, Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Patrícia Birman é antropóloga, professora no departamento de Antropologia da UERJ e pesquisadora do CNPq.

Camila Pierobon, Centro Brasileiro de Análise e Planejamento

Camila Pierobon é antropóloga, pós-doutoranda no IPP/CEBRAP, bolsista FAPESP.

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Publicado

2021-06-30

Como Citar

Birman, P., & Pierobon, C. (2021). Viver sem guerra? Poderes locais e relações de gênero no cotidiano popular. Revista De Antropologia, 64(2), e186647. https://doi.org/10.11606/1678-9857.ra.2021.186647

Edição

Seção

Artigos